Não pode ser de simples restauração para o que existiu antes do golpe de
2016, nem antes de 2013. Tem que rever todos os caminhos tomados a partir da
queda, de podre, da ditadura civil-militar que havia sido instalada em 1964.
Esses caminhos não foram corretamente escolhidos, nem foram
completados. No processo muito do que
nós da esquerda queríamos foi sendo posto de lado, de maneira mais ou menos
consentida, mais ou menos consciente.
Nós queríamos democracia. No início do processo, queríamos
assegurar que existissem mecanismos suficientes para que os interesses e as
vozes de todos fossem integrados ao jogo político– o que implicava na introdução de práticas que não tinham nenhuma
tradição. Esses mecanismos não foram destaque na discussão ou na redação da
Constituição de 1988. Alguns deles apareceram mais tarde, levados por movimentos
sociais, sindicatos e partidos de esquerda. Parte deles chegou a ser adotado
por governos de esquerda (principalmente o PT), como o orçamento participativo.
Não tiveram continuidade.
Enquanto isso, os que fizeram o golpe de 1964 não perderam
nenhum naco dos instrumentos que tinham para melar o jogo. Políticos conservadores, a mídia,
os comandos militares, as polícias, principalmente militar, continuaram com
suas balas nas respectivas agulhas. Enquanto isso, os agrupamentos da esquerda
deixavam de lado o combate, acreditando no desarmamento democrático.
Em 1985 os militares deixaram o controle direto do
executivo, mas consolidaram posições no aparato repressivo. As forças armadas
continuaram a comemorar o golpe de 1964 e a defender a repressão, inclusive as
torturas e assassinatos do regime. As polícias militares permaneceram
doutrinando seus quadros contra as organizações dos trabalhadores, como
sindicatos, e movimentos sociais, como MST, MTST, organizações de defesa de
índios, quilombolas. Nada foi feito seja na mídia, no judiciário, nos
executivos, inclusive os de esquerda ou de centro esquerda, para tentar mudar essa
doutrina das polícias e suas práticas violentas e frequentemente criminosas.
Assim, as forças da ditadura do capital no Brasil partem de
uma situação em que vários dos instrumentos de repressão já estavam em
latência para serem aplicados, ou funcionando em câmara um tanto mais lenta, como na atuação das
polícias contra pobres em geral, e contra organizações de trabalhadores e
movimentos sociais, sempre apoiados pela atuação de maiorias no ministério
público e na magistratura.
Nesta fase de reinstalação da ditadura do capital, o mais importante
para a esquerda resistir. Mas resistir é pouco, é triste. Rogério Correia, do PT-MG,
proclamou a necessidade de estatizar a Vale. Acredito que é um bom passo que
aliás reflete propostas de agrupamentos e partidos anticapitalistas em todo o mundo, de
passar ao controle estatal – evidentemente sujeito ao controle social, todos os
empreendimentos que, por força do poder de monopólio ou oligopólio, produzem
desastres ambientais e aumentam de maneira explosiva a desigualdade. Claro que uma atenção especial teria que ser dada para tornar o Banco Central realmente independente, ou seja independente da banca privada, ou estatizar o sistema bancário.
Um próximo post deste blog traz a visão de um jornalista estadunidense publicada
no Counterpunch, sobre temas similares. Muito bem escrita, vale a pena ler.
Para a luta pela democracia, é preciso lutar pela ciência e por seu método, ou seja a exigência de que afirmações possam ser comprovadas. Artigo editorial da revista Science. Tradução minha, um tanto livre.
A
DEMOCRACIA EM CRISE
Rush Holt
Rush Holt é
o Diretor Geral da AAAS e Editor da família de periódicos Science
Cientistas
trabalham com um profundo senso de que sua busca por conhecimento confiável
leva a algum lugar – de que seguir as evidências e excluir um viés prévio ajuda
a conferir sentido ao mundo. Pode ser um processo lento, e interações na
comunidade científica não são isentas de atrito e de etapas falsas, mas mesmo
assim os cientistas se dedicam à busca porque eles observam que isso funciona.
Pode-se fazer sentido do mundo. Einstein disse em uma famosa frase: "o
eterno mistério do mundo é a sua compreensibilidade”, e os cientistas entendem
que o pensamento científico baseado em evidências leva a essa compreensão. Os
cientistas poderiam fazer um melhor trabalho ao partilhar essa poderosa visão.
À medida que
me preocupo com os recentes desafios à democracia, parece que uma cura para o
que aflige a democracia pode vir, em parte, em ciência. Cidadãos vêm cada vez
mais afirmando valores, esperanças e opiniões, aparentemente sem interesse em
encontrar uma compreensão compartilhada do estado real das coisas. Sem tal
compreensão compartilhada, aqueles valores e esperanças não podem racionalmente
ser expressos e percebidos. Observadores falam de "decadência da
verdade", desprezo pelo trabalho dos especialistas e menosprezo pelas
evidências. No conjunto, estes são problemas de enorme importância porque eles
ameaçam a própria democracia.
A
democracia passa a estar em risco quando ela se torna simplesmente um concurso
de opiniões fervorosas ou valores não baseados em evidências. Quando uma
opinião é tão boa quanto qualquer outra – e cada uma é defendida com tanta força
e até com tanta trapaça quanto possível, a democracia não pode sobreviver. A sociedade
vai-se afogando em um mar de opiniões e valores sem bases.
Democracia
exige uma cidadania que seja informada, bem como engajada. Temos que encontrar
uma abertura para reforçar entre os cidadãos uma apreciação renovada pelas
evidências. Aproximar-se do entendimento
do estado real de as coisas é o que a ciência faz bem.
Nos Estados
Unidos, a aprovação e confiança do público na ciência são relativamente fortes
em comparação com outras instituições, uma condição que tem sido observada em
pesquisas há décadas. Aqui, então, pode haver uma abertura.
Os
cientistas podem compartilhar os admirados sucessos da ciência de uma maneira
que leve os cidadãos a abraçar por si mesmos a essência da ciência? Esta
essência da ciência consiste em exigir provas em cada turno e descartar ideias
quando se mostra que não se encaixam com as evidências.
Esse
pensamento não é reservado apenas para os cientistas, e ninguém precisa ser
especialista para exigir provas. Dado o respeito do público pela ciência e a
reverência científica pelas evidências, o público pode ser levado a exigir e adotar
as evidências por si mesmo? Essa conexão parece lógica – precisamos torná-la
viável. Os cientistas podem alcançar o que a educação cívica normal não conseguiu?
Não há tempo a perder em verificar isso.
Muito se
sabe a partir das ciências sociais, estudos de comunicação e marketing sobre
como as pessoas vêm a entender e aceitar conceitos científicos. A importância
da comunicação efetiva atualmente também é incorporada à formação de muitos
cientistas. A comunidade científica precisa empreender uma iniciativa
importante - engajar negócios, indústria e líderes culturais e políticos - para
comunicar que o pensamento baseado em evidências está disponível, não apenas
para os cientistas.
Como o
público considera a ciência como bem sucedida e benéfica, eles podem estar
interessados em por que e como ela funciona. Eles
podem ver que essa maneira extremamente poderosa de pensar está disponível para
todos em suas vidas diárias e seus papéis cívicos.
Uma visão
muito avançada? Possivelmente. Mas é a única abertura que vejo para lidar com as
dificuldades da democracia.
Antes dos próximos lances desta história infame da agressão dos EUA, agora com o apoio de seus cachorrinhos de estimação da União Europeia (incluindo o "socialista" Pedro Sanches da Espanha), ver comentário sobre isso aqui. Abaixo, de uma matéria divulgada no Counterpunch:
Operação de mudança do regime ilegal de Trump matará mais venezuelanos
por MARK
WEISBROT
Se a Rússia,
a China e a Coréia do Norte decidissem reconhecer Nancy Pelosi como presidente
dos Estados Unidos, os americanos concordariam com isso? Quero dizer, aqueles
que não gostam de Trump, acham que ele é uma ameaça real ao país, ou até mesmo
não é um presidente legitimamente eleito?
Não creio.
Mas Trump, seu secretário de Estado, Mike Pompeo, e o Conselheiro de Segurança
Nacional, John Bolton, acham que os Estados Unidos devem poder escolher um novo
presidente para a Venezuela. Assim como o "derrubador em chefe" -
como o New York Times odescreveu recentemente - o senador Marco Rubio. E esse
grupo sórdido acaba de recrutar um criminoso de guerra experiente da década de
1980, Elliott Abrams, para ajudar a transformar seu sonho em realidade.
Como isso
poderia dar errado? Bem, nós temos já alguma experiência do século XXI com a
“mudança de regime” patrocinada pelos EUA, e isso varia de homicida a horrível.
Iraque, Síria, Líbia, Honduras - todos levaram a muitos assassinatos e
sofrimentos, principalmente de civis, incluindo crianças. Muitos dos migrantes
que fugiram de Honduras nas caravanas que Trump recentemente demonizou e
manipulou politicamente estavam fugindo da miséria causada pelo golpe militar
de 2009 apoiado pelos EUA naquele país. Sem mencionar a onda muito maior de
migrantes que estão derrubando a política europeia, a maioria deles escapando dos
desastres que o governo dos EUA criou com as guerras para mudança de regime no Oriente Médio.
Podemos
deixar de lado a noção fantasiosa de que a operação de mudança do regime de
Trump na Venezuela tem algo a ver com a promoção da democracia. Trump ainda é
um bom amigo do MBS na Arábia Saudita - o príncipe herdeiro Mohammed bin
Salman, ou “Senhor Serra de Ossos”, como ele foi chamado depois que seus
subordinados mataram e cortaram um jornalista do Washington Post e residente
dos EUA. E o assassino Rodrigo Duterte, nas Filipinas, que matou milhares em
seu próprio país; ou Juan Orlando Hernández, de Honduras, que roubou sua
reeleição no ano passado em plena luz do dia. E assim por diante.
Mas o
presidente Nicolás Maduro tem que ir, dizem eles. Então Juan Guaidó, um
congressista venezuelano pouco conhecido, se ungiu depois de um telefonema de
Mike Pence na noite anterior.
O que a
administração Trump e seus aliados querem na Venezuela, além das maiores
reservas de petróleo do mundo para companhias petrolíferas americanas? A
maioria deles quer poder na região, onde há poucos anos os governos que eram
bastante amigáveis com a Venezuela presidiam a maioria da
região. O “estado de segurança nacional” dos EUA
perdeu muita influência na América Latina durante a primeira década do século
XXI, e agora eles estão tomando essa influência de volta.
Com certeza,
a grande maioria dos venezuelanos quer um novo governo, e há boas razões para
isso. A economia encolheu um recorde de 50% nos últimos cinco anos, e a
inflação está acima de um milhão por cento ao ano. É uma depressão recorde,
combinada com hiperinflação, e é principalmente culpa do atual governo.
Mas os EUA
impuseram duras sanções para piorar a depressão e tornar quase impossível
consertar a hiperinflação. Essas sanções, que são ilegais sob a lei
internacional e, provavelmente, norte-americana, mataram muitos venezuelanos,
agravando a escassez de medicamentos que salvam vidas.
Novas sanções
anunciadas nesta semana tomarão bilhões de dólares a mais em receitas e ativos
do governo, aprofundando severamente a depressão. Mais venezuelanos morrerão e
outros fugirão do país, exacerbando a crise dos refugiados venezuelanos.
Um cenário
pior pode se desdobrar se a operação de mudança de regime forçar a Venezuela,
que ainda é um país politicamente polarizado, a entrar em guerra civil.
Não é hora de
pararmos de tentar escolher os governos de outras pessoas e nos concentrarmos
em tentar limpar nossa própria bagunça em casa?
Esta coluna apareceu originalmente no Sacramento Bee.
Mark Weisbrot é co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e
Política, em Washington, D.C. e presidente da Just Foreign Policy. Ele também é
o autor do fracasso: o que os "especialistas" erraram sobre a
economia global (Oxford University Press, 2015).
Seria bom nossa diplomacia lembrar que o trumpismo que vale hoje para a Venezuela, amanhã valerá para nós
Eis o principal legado do quase primeiro mês de bolsonarismo: abandonamos o posto e a responsabilidade de liderança regional para cumprir o papel de coadjuvantes da política ditada pelos interesses e conveniências da estratégia de guerra dos EUA de Donald Trump, voltados, agora mais consistentemente, para o Atlântico Sul e a América do Sul, aproveitando, até, o vácuo deixado pelo Brasil.
Por força de sua história e de sua liderança, o Brasil se havia destacado por alimentar o espírito integracionista e esta foi a maior proeza, e também a atitude mais arriscada de nossa política externa, desdenhada nos breves dias do novo governo.
Na contramão de nossa história, o Brasil oficial, mesquinho, renuncia a esse papel para assumir o de reles capitão-do-mato do pior da pior política estadunidense, servindo-lhe de instrumento para a agressão à Venezuela, o alvo da vez.
Na garupa do trumpismo – que retoma grotescamente a doutrina Monroe e a política do big stick – abandonamos, contra nossos interesses, o compromisso com a solidariedade continental, insensatamente esquecidos de que o que vale, hoje, para a Venezuela, seus recursos e seu processo político, valerá também para nós, hoje e amanhã.
O preço maior dessa violência, poderá ser a guerra civil em sub-região estratégica para a segurança coletiva e para nossa própria segurança. Fala-se mesmo em balcanização e em guerra interestatal!
A expectativa de caos é o outro lado da até aqui bem sucedida desestabilização dos regimes progressistas da região (já se foram Brasil, Argentina e Equador), objetivo do Departamento de Estado dos EUA, revivendo os tempos da Guerra Fria, desta feita sem a alegada ameaça da URSS. Mas, quando não se tem inimigos de fato, cria-se.
Se o intervencionismo dos EUA antes contou com nossa resistência, hoje dispõe de nossa diplomacia e de nossas tropas, como delas já dispuseram em 1965 para consolidar a invasão da pobre e pequena e sofredora República Dominicana, que ousara eleger um presidente (Juan Bosch), acusado de nacionalista, isto é, comprometido com os interesses de seu país e de seu povo…
Assim, mas não de forma surpreendente, pois o capitão já disse a que veio, em pouco menos de um mês toda a história da diplomacia brasileira, de Rio Branco a Celso Amorim-Samuel Pinheiro Guimarães, foi jogada na lata do lixo, e a política ativa e altiva do ministro de Lula é substituída pelo acocoramento ideológico, uma subalternidade sabuja, que chega às raias da dependência psicológica, aquele sentimento de inferioridade introjetado pelo colonizado eternizando o domínio do senhor, a cujos interesses e valores mais se submete quanto mais apanha, pois a humilhação transforma-se numa necessidade de sua índole deformada.
Brevemente nosso chanceler (seja o Policarpo Quaresma de hoje, seja seu eventual substituto) voltará a tirar os sapatos para passar pela alfândega dos EUA. Hoje sabemos que o lamentável gesto de Celso Lafer, carregado de simbologia, antecipava, por décadas, a que ponto de alienação pode chegar um governo de arrivistas cuja política externa abandonou a ‘ideologia’ da independência em busca de soberania, pela ‘desideologia’ da renúncia ao interesse nacional.
As ameaças que pesam sobre a Venezuela (de que é mesmo de que ela é acusada, para justificar tanto ódio?) não têm amparo no Direito Internacional, na Carta da ONU, nem na Carta da OEA, cujo artigo 15 nos diz: “Nenhum Estado ou grupo de Estados tem o direito de intervir, direta ou indiretamente, seja qual for o motivo, nos assuntos internos ou externos de qualquer outro”.
Na mesma linha vem o comando da Constituição brasileira (art.4º): “A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: I – independência nacional; II – prevalência dos direitos humanos; III – autodeterminação dos povos; IV – não-intervenção; V – igualdade entre os Estados; VI – defesa da paz; VII – solução pacífica dos conflitos; VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo; IX – cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; X – concessão de asilo político.”
E no entanto nosso país, pelas mãos do bolsonarismo, essa doença tacanha que nos aflige, rasga a Constituição e apoia a política intervencionista de Donald Trump!
Qual o pretexto (pois razão não há) para o garrote vil que é o cerco imposto, há décadas, pelos EUA e seus aliados ao país vizinho? O pretexto é a suposta “ilegitimidade” do governo Maduro, um falso problema que não leva os EUA a intervir em países onde não têm interesses, ou onde seus interesses estão devidamente atendidos.
Qual a base política ou jurídica para decretar essa ilegitimidade?
Maduro foi eleito em 2018 em pleito acompanhado por jornalistas e observadores e organismos internacionais, do qual participaram 16 partidos políticos. Concorreu com cinco adversários, e obteve 67,85% dos votos. A oposição, que negociara a antecipação das eleições de dezembro para maio, dividiu-se na disputa eleitoral e perdeu, mais uma vez.
A propósito, Maduro, ao contrário de Trump, teve mais votos do que seu concorrente.
Qual o malabarismo jurídico para a decisão de Trump, seguido pelo Brasil e outros satélites de sua política externa, de exigir a renúncia de um presidente de um país independente? A questão democrática? Ora, nessa hipótese ninguém pode apostar, afora os néscios e os muito sabidos.
Qual a autoridade moral de que podem se revestir neste tocante os EUA, histórico sustentáculo de todas as ditaduras modernas, seja na África, seja na Europa, seja na Ásia (uma só menção, o Vietnã do Norte), no Oriente Médio (exemplo, a Arábia Saudita)? Que autoridade tem esse país para falar em democracia entre nós, se aqui amparou (e delas muito usufruiu) as ditaduras de Batista (Cuba), Somoza (Nicarágua), Trujillo (República Dominicana), Stroessner (Paraguai) e todos os sátrapas venezuelanos até a ascensão de Chávez que tentou depor na tentativa, frustrada, de golpe que patrocinou em 2002? EUA que apoiaram a implantação das luciferinas ditaduras militares do Brasil, da Argentina, do Chile e do Uruguai, e o regime tão perverso quanto corrupto de Fujimori, no Peru? Invadiu Granada e com as tropas brasileiras (Castello Branco) destroçou a democracia dominicana?
Em socorro dessa política intervencionista corre a União Europeia, mãe de Salazar, Franco, Mussolini e Hitler, cúmplice do stalinismo e sócia dos coronéis que sufocaram a Grécia nos anos 1967-1974.
O que essa UE nos tem a dizer dos regimes protofascistas na Polônia e na Hungria? Nada? Não lhes vai dar prazo de oito dias para se converterem à democracia? Mas caberia questionar: o ultimato prepotente seria um modo adequado, aceitável, de encaminhar solução para o Brexit, para a autonomia da Catalunha, para a crise dos “coletes-amarelos”, ou ainda para o impasse entre democratas e republicanos que paralisou o governo dos EUA por vários dias, causando sofrimento e prejuízos de monta?
Por que a União Europeia não deu prazo a Putin para devolver a Crimeia? Ou à China para entregar o Tibete ao Dalai-Lama? Por que não dedicar um pouco desse furor democrático para encerrar os dias do regime de Rodrigo Duterte nas Filipinas?
O governo Maduro é passível de críticas e os caminhos da revolução bolivariana podem e devem ser discutidos.
Mas, quando se fala em sua crise a grande imprensa omite as tentativas de inviabilização econômica da Venezuela, vítima de perversa “guerra econômica”. A hiperinflação venezuelana é induzida e sua capacidade de importação é inviabilizada pelo sufoco cambial. Seus ativos estão sendo sequestrados por europeus e pelos EUA que acabam de bloquear recursos da PDVSA, devidos pelo fornecimento de petróleo ao império, que também bloqueou seus bens. Qual é o nome disso? Pirataria? A proeza de Maduro é mesmo a de sobreviver, em que pese esse terrível boicote, que, atingindo o governo, mais penaliza os venezuelanos pobres.
Ao lado de muitos acertos – e como esquecer os esforços do chavismo visando a atender às gritantes demandas sociais !– muitos erros, sem dúvida, podem ser apontados. Mas não é nada disso o que está em jogo, bem longe passam as convicções democráticas e as preocupações com o povo venezuelano. Todo o mundo sabe disso, desde aquela senhora que viu Cristo dependurado em um galho de goiabeira até o irrequieto general Mourão, para quem o único erro dos golpistas de 2002 foi não haverem assassinado Chávez, quando o prenderam.
O que está na ordem do dia é a falsa disputa Ocidente versus Oriente inventada pelo Pentágono, que, na verdade, é a explicitação da disputa (real) entre o cansaço econômico dos EUA e a emergência da China como potência que lhe pode fazer face e que precisa ser afastada antes de se tornar uma ameaça militar, com a aliança nuclear oferecida pela Rússia.
O que está em jogo é o papel do Atlântico Sul no conflito programado, e, nele, o da América do Sul e nela, por sua vez, o destino da maior reserva de petróleo do mundo, que, para azar seu, está nos campos da Venezuela.
Não pensem os democratas brasileiros sinceros que terão vida fácil se o golpe contra Maduro for bem-sucedido.
Roberto Amaral
Duplo retrato – A tragédia de Brumadinho ilustra, como resultado exemplar, a conjunção siamesa do privatismo depravado com a perversidade do capitalismo.
Do Russia Today. No fim, uma tradução rápida da parte de texto do Neil Clark. Se se interessar e ler em inglês, você pode dar uma olhada nas chamadas e links do texto original. Particularmente interessante a parte em que Clark menciona que a possível "ideologia" que a Rússia estaria exportando seria a do respeito pela soberania nacional e pelo direito internacional.
1919-2019: UK still involved in anti-Russian campaign after 100 years
Neil Clark is a journalist, writer, broadcaster and blogger. He has written for many newspapers and magazines in the UK and other countries including The Guardian, Morning Star, Daily and Sunday Express, Mail on Sunday, Daily Mail, Daily Telegraph, New Statesman, The Spectator, The Week, and The American Conservative. He is a regular pundit on RT and has also appeared on BBC TV and radio, Sky News, Press TV and the Voice of Russia. He is the co-founder of the Campaign For Public Ownership @PublicOwnership. His award winning blog can be found at www.neilclark66.blogspot.com. He tweets on politics and world affairs @NeilClark66
The Western powers have Russia in their sights. Propaganda is at fever pitch. Sounds familiar? No, I’m not talking about 2019, but 1919, when Churchill was supporting military intervention against the Russian government.
One hundred years ago, World War I may have ended but the world was hardly at peace.
Then, as now, Russia was a target. Bolshevik rule, only established in late 1917, was threatened by a Western-backed foreign intervention to help the anti-Bolshevik White Army regain power.
Today, the biggest hawk on the scene in Britain is Gavin Williamson, the defense secretary. In 1919, it was one Winston Churchill, secretary of state for war. At least the titles they gave government ministers were more honest in those days.
In March 1919, Churchill went over to Paris, where the Versailles Peace Conference was taking place, to push for more war.
The great cigar-smoker denounced "the baboonery of Bolshevism" and, as historian AJP Taylor records, persuaded the Supreme Council to "try intervention on a large scale."
Taylor details what the British brought to the anti-Bolshevik crusade. "Surplus British tanks and other munitions of war, to the tune of £100m, were provided for the 'Whites.' British volunteers fought with Kolchak, self-styled supreme ruler of all the Russians, in Siberia. A few served with Denikin in southern Russia. There were substantial British forces at Archangel and Murmansk… A British force occupied Baku, and another ranged along the frontier which divided Russia from Afghanistan."
There was even, believe it or not, a battalion under the command of Colonel John Ward, a former trade union leader and the Liberal-Labour MP for Stoke-on-Trent. Say what you like about Ward, but at least he led from the front, unlike the pro-war politicians and chick-hawk pundits of today who would emulate Usain Bolt if put anywhere near a war zone.
Overall, Churchill's policy cost Britain around £73 million, according to one estimate. As his biographer Roy Jenkins points out, Churchill, "showed no comprehension of the war-weariness of Britain… His pulsating energy made him rarely weary, and almost never of war."
The secretary of state for war was not alone in trying to topple the Russian government. The same aspiration informed the official positions of the US, France, and Japan. It was about destroying Bolshevism.
You could argue, in defense of Churchill and the interventionists, that the Bolsheviks themselves, and in particular Leon Trotsky, had been calling for a worldwide revolution. Communist ideals were spreading, and in 1919 as strikes and mutinies spread across the nation, many thought Britain itself was on the brink of revolution.
Even if one were to accept that as a valid reason for intervening, however, there can be no such excuse today for Britain's hostile actions towards Russia.
There is no ideology now that the Kremlin is keen to export, unless we call respect for national sovereignty and international law an ideology. Yet Russia is still in the firing line, even though the Red Flag no longer flies in Moscow.
This tells us that the old Cold War was basically a sham. Russia's great 'crime' is that it exists. In the last hundred years, the only time the Western elites weren't regarding Russia as an adversary, or potential adversary, was in the period when the neo-liberal drunkard Boris Yeltsin was in the Kremlin, handing out state assets like confetti to Western-sponsored oligarchs, and acquiesced while NATO destroyed Yugoslavia.
However, whenever Russia stands up for itself, as it's done of late, Russophobia is reheated by the elites.
Reflect on this: In 1919, the big 'baddie' who 'threatened' the 'free world' was Vladimir Lenin. In 2019, it's Vladimir Putin. There's only three letters difference, in a hundred years.
You could argue that the situation today is even more dangerous than a century ago. Back then, the left, and many left-liberals (Colonel John Ward excepted), broadly opposed intervention. In fact, Churchill's policy, motivated by a desire to strangle Bolshevism, only succeeded in stirring up revolutionary sentiment at home. The Communist Party of Great Britain was formed in July 1920. By that time, the intervention against the Bolsheviks had taken a different turn: support for Poland and its campaign to conquer Ukraine. What happened next shows what workers can achieve if they stick together and refuse to support the elite's foreign policy.
In May 1920, London dockers refused to load munitions destined for Poland onto the ship, the 'Jolly George.' As Taylor notes, the British government acquiesced, because Poland was winning. But by July, the Polish forces were in retreat and it was the Red Army on the advance. "The French were eager to intervene on the Polish side; Lloyd George (the British prime minister), pushed on by Churchill and others, seemed ready to go along with them," Taylor records.
However, organized labor said 'No.' Councils of Action were set up and a general strike was threatened. The government did a U-turn. It was, as Taylor states, "a glorious victory." There are lessons which can be learnt from it today.
Russia, it must be acknowledged, does not have the sympathy among broad ranks of the left that it did have in 1919.
Rabidly Russophobic hawks have successfully managed to coax support for their obsessive crusade from 'politically correct' left-liberals, who quite wrongly blame 'Russian interference' for Brexit. It's revealing that the 'Russia fixed Brexit' fake news trope emanates from the neocons.
Nevertheless, what can be called the socialist left, and indeed the paleo-conservative 'non-interventionist' right, know exactly what the score is. Even though it no longer has a communist government, Russia is in the crosshairs of the imperialist powers. Russia thwarted neocon plans for regime change in Syria. Russia is an ally of the Bolivarian Republic of Venezuela. Russia is targeted because it hasn't accepted the right of certain Western powers and their allies to act as if the whole world belongs to them.
The propaganda campaign against Russia, which also involves trying to get Russian media outlets such as RT and Sputnik taken off air in the UK, has consequently been unrelenting.
And, as in 1919, there are those willing to take big risks in pursuance of their geopolitical agenda.
In leaked documents from the shadowy Integrity Initiative (which has now 'temporarily removed' all material from its website), one of its head honchos recommended mining Sevastopol Bay.
Meanwhile, UK Defense Secretary Gavin Williamson, who last March told Russia to 'go away' and 'shut up.' Pledged that further Royal Navy ships would be sent to the Black Sea, a direct provocation to Moscow.
Britain sending warships to the Black Sea to 'send message to Russia'. It’s the 1850s all over again. Will we have another Charge of the Light Brigade too? https://www.bbc.co.uk/news/uk-46657470 …
It looks like the UK is backing the USA to ramp up the next Nuclear War with Russia I wonder if any of the war mongers are willing to be on the front line Neil quick answer NO
Tensions are rising all the time but we can take inspiration from history.
In 1919/20, the British public said 'Hands off Russia!' and 'No to war!' and scuppered Churchill's plans. In 1922, the electors of Dundee showed what they thought of his policy by voting him out.
That's something Gavin Williamson and indeed all the other hawks in parliament should reflect upon.
1919-2019: Reino Unido ainda
envolvido em campanha anti-russa depois de 100 anos
Neil Clark.
Neil Clark é jornalista, escritor, radialista e blogueiro.
Escreveu para muitos jornais e revistas no Reino Unido e em outros países,
incluindo The Guardian, Morning Star, Daily e Sunday Express, Mail on Sunday,
Daily Mail, Daily Telegraph, New Statesman, The Spectator, The Week e The
American Conservative. Ele é um especialista regular em RT e também apareceu na
TV e rádio da BBC, Sky News, Press TV e Voz da Rússia. Ele é o co-fundador da
Campanha de Propriedade Pública @PublicOwnership. Seu premiado blog pode ser
encontrado em www.neilclark66.blogspot.com. Ele twita sobre política e assuntos
mundiais @ NeilClark66
As
potências ocidentais têm a Rússia na sua mira. A propaganda está febril. Soa
familiar? Não, eu não estou falando de 2019, mas 1919, quando Churchill estava
apoiando a intervenção militar contra o governo russo.
Cem anos
atrás, a Primeira Guerra Mundial podia ter terminado, mas o mundo não estava em
paz.
Então, como
agora, a Rússia era um alvo. O governo bolchevique, estabelecido apenas no
final de 1917, foi ameaçado por uma intervenção estrangeira apoiada pelo
Ocidente para ajudar o exército branco antibolchevique a recuperar o poder.
Atualmente,
o maior falcão em cena na Grã-Bretanha é Gavin Williamson, o secretário de
Defesa. Em 1919, foi um Winston Churchill, secretário de Estado para a guerra.
Pelo menos os títulos que eles davam aos ministros do governo eram mais
honestos naqueles dias.
Em março de
1919, Churchill foi a Paris, onde a Conferência de Paz de Versalhes estava
acontecendo, para pressionar por mais guerras.
O grande
fumante de charutos denunciou "os babuínos do bolchevismo" e, como
registra o historiador AJP Taylor, persuadiu o Conselho Supremo a "tentar
a intervenção em larga escala".
Taylor
detalha o que os britânicos trouxeram para a cruzada anti-bolchevique.
"Tanques britânicos excedentes e outras munições de guerra, na ordem de
100 milhões de libras, foram fornecidos para os 'Brancos'. Voluntários
britânicos lutaram com Kolchak, governante supremo de todos os russos, na
Sibéria Alguns serviram com Denikin no sul da Rússia Havia forças britânicas
substanciais em Arcan jo e Murmansk ... Uma força britânica ocupou Baku, e
outra variou ao longo da fronteira que dividiu a Rússia do Afeganistão ".
Houve até,
acredite ou não, um batalhão sob o comando do coronel John Ward, um ex-líder
sindical e do parlamentar liberal-trabalhista de Stoke-on-Trent. Diga o que
quiser sobre Ward, mas pelo menos ele liderou de frente, ao contrário dos
políticos pró-guerra e especialistas em falcões de hoje que imitariam Usain
Bolt se fossem colocados perto de uma zona de guerra.
No geral, a
política de Churchill custou à Grã-Bretanha cerca de 73 milhões de libras,
segundo uma estimativa. Como aponta seu biógrafo Roy Jenkins, Churchill, "não demonstrou compreensão do cansaço da
guerra na Grã-Bretanha ... Sua energia pulsante o fez raramente cansado e quase
nunca de guerra".
O
secretário de Estado para a guerra não estava sozinho na tentativa de derrubar
o governo russo. A mesma aspiração informava as posições oficiais dos EUA,
França e Japão. Tratava-se de destruir o bolchevismo.
Você
poderia argumentar, em defesa de Churchill e dos intervencionistas, que os
próprios bolcheviques, e em particular Leon Trotsky, estavam clamando por uma
revolução mundial. Os ideais comunistas estavam se espalhando e, em 1919, como
greves e motins espalhados por todo o país, muitos pensavam que a própria
Grã-Bretanha estava à beira da revolução.
Mesmo se
alguém aceitasse isso como uma razão válida para intervir, no entanto, não pode
haver tal desculpa hoje para as ações hostis da Grã-Bretanha em relação à
Rússia.
Não há
ideologia agora que o Kremlin esteja interessado em exportar, a menos que
chamemos o respeito pela soberania nacional e pelo direito internacional uma
ideologia. No entanto, a Rússia ainda está na linha de fogo, embora a Bandeira
Vermelha não voe mais em Moscou.
Isso nos
diz que a velha Guerra Fria era basicamente uma farsa. O grande
"crime" da Rússia é que ela existe. Nos últimos cem anos, a única vez
que as elites ocidentais não estavam considerando a Rússia como um adversário,
ou adversário em potencial, foi no período em que o bêbado neoliberal Boris
Yeltsin estava no Kremlin, distribuindo ativos estatais como confetes para oligarcas
patrocinados pelo Ocidente, e aquiesceu enquanto a OTAN destruía a Iugoslávia.
No entanto,
sempre que a Rússia se defende, como é feito ultimamente, a Russofobia é
reaquecida pelas elites.
Reflita
sobre isso: em 1919, o grande "vilão" que "ameaçou" o
"mundo livre" era Vladimir Lenin. Em 2019, é Vladimir Putin. Há
apenas três letras diferentes, em cem anos.
Você
poderia argumentar que a situação hoje é ainda mais perigosa do que há um
século. Naquela época, a esquerda e muitos liberais de esquerda (exceto o
coronel John Ward) se opunham amplamente à intervenção. De fato, a política de
Churchill, motivada pelo desejo de estrangular o bolchevismo, só conseguiu foi incitar
o sentimento revolucionário em casa. O Partido Comunista da Grã-Bretanha foi
formado em julho de 1920. Naquela época, a intervenção contra os bolcheviques
tinha tomado um rumo diferente: o apoio à Polônia e sua campanha para
conquistar a Ucrânia. O que aconteceu a seguir mostra o que os trabalhadores
podem alcançar se se unirem e se recusarem a apoiar a política externa da
elite.
Em maio de
1920, os estivadores de Londres se recusaram a carregar munições destinadas à
Polônia para o navio, o "Jolly George". Como Taylor observa, o
governo britânico aquiesceu porque a Polônia estava ganhando. Mas, em julho, as
forças polonesas estavam em retirada e foi o Exército Vermelho que avançou.
"Os franceses estavam ansiosos para intervir no lado polonês; Lloyd George
(o primeiro-ministro britânico), pressionado por Churchill e outros, parecia
pronto para acompanhá-los", recorda Taylor.
No entanto,
o trabalho organizado disse 'não'. Conselhos de Ação foram criados e foi
ameaçada uma greve geral. O governo fez uma inversão de marcha. Foi, como
afirma Taylor, "uma vitória gloriosa". Há lições que podem ser
aprendidas hoje.
A Rússia
deve-se reconhecer, não tem a simpatia entre as amplas fileiras da esquerda que
tinha em 1919.
Os falcões
raivosamente russófobos conseguiram obter apoio para sua cruzada obsessiva dos
esquerdistas "politicamente corretos", que erroneamente culpam a
"interferência russa" pelo Brexit. É revelador que a categoria de
notícias falsas 'Rússia armou o Brexit' emana dos neocons.
No entanto,
o que pode ser chamado de esquerda socialista e, de fato, a direita
"não-intervencionista" paleoconservadora, sabem exatamente onde estão
os pontos. Mesmo que não tenha mais um governo comunista, a Rússia está na mira
das potências imperialistas. A Rússia frustrou os planos neocon para a mudança
de regime na Síria. A Rússia é um aliado da República Bolivariana da Venezuela.
A Rússia é alvo porque não aceitou o direito de certas potências ocidentais e
seus aliados agirem como se o mundo inteiro lhes pertencesse.
A campanha
de propaganda contra a Rússia, que também envolve a tentativa de tirar meios de
comunicação russos como RT e Sputnik no Reino Unido, do ar, tem sido
consequentemente implacável.
E, como em
1919, há pessoas dispostas a assumir grandes riscos em busca de sua agenda
geopolítica.
Em
documentos vazados da sombria Integrity
Initiative (que no momento "removeu temporariamente" todo o
material de seu site), um de seus chefes recomendou a minar a Baia de Sebastopol.
Enquanto
isso, o secretário de Defesa do Reino Unido, Gavin Williamson, disse em março
passado à Rússia que "vá embora" e "cale a boca". Prometeu
que mais navios da Marinha Real seriam enviados ao Mar Negro, uma provocação
direta a Moscou.
As tensões
estão aumentando o tempo todo, mas podemos nos inspirar na história.
Em 1919/20,
o público britânico disse: "Tire as mãos da Rússia!" e 'não à
guerra!' e destruiu os planos de Churchill. Em 1922, os eleitores de Dundee
mostraram o que pensavam de sua política ao destituírem-no pelo voto.
Isso é algo
sobre o que Gavin Williamson e de fato todos os outros falcões do parlamento
devem refletir.