segunda-feira, 29 de junho de 2026

 Do Outras Palavras

EUA x Brasil: a intervenção subterrânea

Reportagem sobre um cerco. Enquanto finge afagar Lula, Trump conspira com Milei e Bukele, contra Brasil e México. Argentina e Paraguai abrem Cone Sul ao exército dos EUA. Highset, chefe do Pentágono, anuncia “caçada”. O que virá, até as eleições?

Foto: Joe Raedle/Getty Images

Por Sara Vivacqua, no Monthly Review Online | Tradução: Antonio Martins

Pete Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA, anunciou em 10 de junho, na base naval da Baía de Guantánamo, que Washington está “retomando o controle do nosso hemisfério” e que, para isso, já está implantando na América Latina a mesma inteligência, as mesmas redes e a mesma força militar usadas contra a Al-Qaeda e o Estado Islâmico no Oriente Médio, em coordenação com os países aliados do Escudo das Américas.

“Estamos caçando vocês como caçamos a Al-Qaeda e o Estado Islâmico no Oriente Médio – com as mesmas redes e a mesma inteligência”, disse Hegseth às tropas, em uniforme de treinamento. Invocou a Doutrina Monroe do século XIX e o que ele chamou de novo “Corolário Trump” – uma atualização do Corolário Roosevelt que trata o hemisfério ocidental como “território chave” para a segurança nacional dos EUA.

No Brasil, maior país e economia da América Latina, essa nova arquitetura deixou de ser uma abstração em 5 de junho. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram designados pelos Estados Unidos como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTO, na sigla em inglês) e “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGT, na sigla em inglês) – as mesmas categorias legais aplicadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico. Mas o Brasil não foi o primeiro. A campanha de designação já durava mais de um ano. Em 20 de fevereiro de 2025, oito cartéis latino-americanos foram designados como FTOs e SDGTs de uma só vez: Tren de Aragua, MS-13, Cartel de Sinaloa, CJNG, Cartel del Noreste, La Nueva Familia Michoacana, Cartel del Golfo e Carteles Unidos. Em outubro de 2025, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA (OFAC) foi ainda mais longe. Incluiu o presidente colombiano Gustavo Petro – um chefe de Estado eleito e em exercício – diretamente à Lista SDN.

Agora, o OFAC, órgão responsável pela aplicação de sanções econômicas e pelo congelamento de ativos de pessoas e entidades sancionadas – atualizou sua lista de sanções (a Lista de Nacionais Especialmente Designados e Pessoas Bloqueadas, ou Lista SDN) para classificar o PCC e o Comando Vermelho como um “Grupo Terrorista Transnacional” e uma “Organização Criminosa”. Embora a designação criminalize a própria entidade como terrorista, a inclusão significa que qualquer indivíduo, banco, empresa ou instituição – dentro ou fora dos Estados Unidos – com qualquer exposição às organizações designadas fica sujeito a sanções secundárias e processo criminal. Este instrumento garante o isolamento financeiro global de qualquer entidade classificada, estendendo o alcance da doutrina muito além das fronteiras norte-americanas.

Como resultado, o Brasil está sendo inserido na mesma estrutura legal antiterrorista aplicada a esses grupos no Oriente Médio, em um contexto de crescente presença militar dos EUA na região, incluindo Paraguai e Argentina. Empresas, instituições e indivíduos brasileiros estão agora potencialmente sujeitos a sanções do OFAC mesmo fora dos Estados Unidos, e passíveis de sanções sob leis arbitrárias de imigração e segurança nacional dentro do país.

Lula, o presidente brasileiro, é alvo do governo Trump.

Não é mera improvisação retórica que a família Bolsonaro tente vincular Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) ao PCC desde 2022 – uma alegação falsa que levou o TSE a ordenar a remoção das publicações relevantes e a multar Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro agora reativa a mesma estratégia em escala internacional, buscando transformar a oposição ideológica em suspeita criminal e pavimentar o caminho para a criminalização internacional de seus adversários – incluindo Lula pessoalmente, em ano eleitoral.

A esquerda associada pelos EUA aos grupos terroristas

Hegseth não fez sua declaração em Guantánamo como ex-apresentador do programa Fox & Friends Weekend, posto que um dia ocupou, mas como chefe civil do Pentágono — a maior máquina de guerra do mundo — e o oficial responsável por todo o aparato militar dos EUA. Seu cargo é o segundo mais alto na cadeia de comando militar, abaixo apenas do presidente.

O que Hegseth descreve não é uma metáfora. Trata-se da transferência literal da doutrina, dos métodos e da infraestrutura da Guerra ao Terror pós-11 de Setembro para a nova guerra ao terror de Trump contra o “extremismo violento de esquerda” transnacional. A nova arquitetura foi inaugurada pela Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2026 , assinada por Trump em 6 de maio.

Esse documento fundiu, pela primeira vez na história dos EUA, três categorias oficiais de ameaça terrorista em uma só: “narcoterroristas e gangues transnacionais”, “terroristas islâmicos tradicionais” e – algo sem precedentes – “extremistas violentos de esquerda, incluindo anarquistas e antifascistas”.

Hegseth citou a Estratégia como a Carta Magna da ofensiva para “retomar nosso hemisfério”, alegando que os presidentes anteriores “ignoraram a Doutrina Monroe por tempo demais” e “fingiram que nosso próprio quintal não importava”.

Não é coincidência que Hegseth tenha passado 45 minutos na Baía de Guantánamo — um local de tortura e de ocupação ilegal do território cubano pelos EUA — elogiando a operação militar que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro em minutos. Ele saudou essa operação contra a Venezuela como o grande ensaio geral para colocar a doutrina em prática.

A nova guerra de Trump contra o terror afasta-se da doutrina do terrorismo “árabe-religioso”, deslocando a guerra contra o jihadismo para o cerne da luta ideológica contemporânea da era pós-7 de outubro dentro da própria sociedade civil – incluindo o combate ao “extremismo de esquerda”.

Diversos documentos e atos oficiais do governo Trump estabelecem uma doutrina clara, bem documentada e oportunista contra uma nova forma de suposto terrorismo ideológico: o “extremismo violento de esquerda”. A estratégia é global. Nos Estados Unidos e na Europa, essa doutrina se traduz em campanhas de securitização e criminalização da sociedade civil – sobretudo dos movimentos de solidariedade à Palestina e de imigração –, enquanto na América Latina assume a forma de uma ruptura muito mais radical.

A arquitetura legal e militar para intervir na América Latina

Legalmente, a estratégia para a América Latina consiste em fundir “narcoterrorismo” e “extremismo de esquerda” em uma única categoria e atribuí-la a governos eleitos e líderes considerados hostis a Washington – abrindo, assim, as portas até mesmo para a intervenção militar.

1. Designações de Terrorismo

Classificar as organizações criminosas na mesma categoria jurídica da Al-Qaeda libera os poderes de ação militar extraterritorial usados no período pós-11 de setembro. A América Latina emergiu como uma prioridade política para o governo Trump desde o primeiro dia de seu mandato. Em 20 de janeiro de 2025, dia de sua posse, Trump designou Cuba como um Estado Patrocinador do Terrorismo (SST), enquanto a Venezuela foi deliberadamente excluída dessa lista.

Deliberadamente, pois naquele mesmo dia Trump assinou uma ordem executiva inaugurando uma estratégia diferente, a ser testada na Venezuela: um processo formal para designar, em linguagem ampla e abrangente, “certos cartéis” e “outras organizações” como Organizações Terroristas Estrangeiras ou Terroristas Globais Especialmente Designadas. Mais importante ainda, o documento alterou a própria definição de cartel, estabelecendo que tais grupos vão além do crime organizado tradicional, em virtude de sua alegada convergência com atores extra-hemisféricos, incluindo governos hostis.

Em novembro de 2025, Hegseth designou o Cartel de los Soles como uma Organização Terrorista Estrangeira e insistiu publicamente que Nicolas Maduro era “o líder desse cartel” – precisamente nos termos da nova definição da ordem executiva.

O Cartel de los Soles nunca existiu. O termo é uma gíria venezuelana da década de 1990, usada genericamente para se referir a líderes corrompidos pelo narcotráfico. O próprio Departamento de Justiça (DOJ) admitiria posteriormente, em juízo, que a organização não existe, e órgãos técnicos do governo norte-americano – a DEA, o Departamento de Estado, o Serviço de Pesquisa do Congresso e o Relatório Mundial sobre Drogas do UNODC – contradizem a mentira que justificou a invasão, não identificando redes de produção ou distribuição de fentanil na Venezuela.

Tampouco eram necessárias armas de destruição em massa — a mentira contada por Bush e Tony Blair a seus respectivos legislativos para justificar a invasão e destruição do Iraque. A mera designação foi suficiente para abrir o caminho legal para a invasão de um Estado soberano. Como o próprio Hegseth reconheceu em entrevista à One America News Network, declarar o Cartel de los Soles uma organização terrorista infiltrada no Estado venezuelano traria “uma série de novas opções” sobre como os Estados Unidos lidam com quem acusam de narcoterroristas na região.

2. Coalizões de países aliados e tentativa de isolar a China

Em seu discurso, Hegseth também anunciou a expansão do Escudo das Américas – a coalizão anti-narcoterrorismo – como um mecanismo para operar dentro de países aliados, “descobrindo onde esses terroristas designados operam, onde produzem suas drogas”, replicando o modelo de operações especiais usado no Afeganistão e no Iraque.

Em seu discurso, Hegseth também anunciou a expansão do Escudo das Américas — a coalizão anti-narcoterrorismo — como um mecanismo para operar dentro dos países aliados.

As mesmas estruturas de vigilância, capacidades de fusão de dados e operações especiais construídas no Oriente Médio estão sendo replicadas no Caribe, na Amazônia e no Pacífico Sul. O Escudo das Américas é o equivalente à coalizão da “guerra ao terror” pós-2001. Bukele e Milei desempenham os papéis que o presidente paquistanês Parvez Musharraf e o Rei Abdullah, da Jordânia desempenharam no Oriente Médio.

Dois meses após a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, em 7 de março, Trump reuniu chefes de Estado de doze nações latino-americanas em seu resort de golfe em Doral, Flórida, para a cúpula inaugural do Escudo das Américas (oficialmente Coalizão das Américas Contra os Cartéis – ACCC). Os líderes das maiores economias da região – Brasil, México e Colômbia – não foram convidados, enquanto o autocrata Nayib Bukele, de El Salvador, e Javier Milei, da Argentina, estavam na lista de convidados. A narrativa oficial era a luta contra os cartéis, mas a proclamação do Escudo falava em repelir “influências estrangeiras” e “interferências no hemisfério”. A linguagem é direcionada à China, cujo comércio com a região aumentou de US$ 12 bilhões em 2000 para US$ 515 bilhões em 2024. A coalizão reúne 18 países com o objetivo de expandir o compartilhamento de informações e a interdição marítima no Caribe e no Pacífico.

3. Bases Militares

Guantánamo, as bases argentinas sob o Decreto 264/2026, o escritório do FBI no Equador e o SOFA no Paraguai tornam-se os equivalentes funcionais das bases americanas no Kuwait, Catar e Bahrein. Cuba ainda resiste.

Nos dias que se seguiram à cúpula, a arquitetura regional do Escudo das Américas começou a tomar forma. Em 10 de março, sob um acordo negociado entre Marco Rubio e o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou um Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA) que permite a presença de militares e civis dos EUA no país, com imunidade penal equivalente à do corpo diplomático. O presidente Lula expressou preocupação com a possibilidade de tropas americanas serem destacadas ao longo da fronteira entre o Paraguai e o Brasil.

Um dia depois, em 11 de março, os Estados Unidos inauguraram o primeiro escritório permanente do FBI no Equador, coroando uma série de acordos de segurança assinados em apenas duas semanas entre Washington e Quito – incluindo, em 3 de março, a primeira operação militar conjunta “antidrogas” em solo latino-americano, liderada pelo Comando Sul. Analistas observam que a posição estratégica do Equador – com acesso direto ao Pacífico e às Ilhas Galápagos – o torna um centro privilegiado para a projeção de inteligência dos EUA na região.

No processo de substituição do que resta da diplomacia pela militarização, Milei forneceu um aliado obediente e estruturalmente indispensável ao Escudo das Américas. O Decreto de Necessidade e Urgência 264/2026, assinado por ele em 17 de abril, autorizou a entrada de pessoal e equipamento das Forças Armadas dos Estados Unidos para o exercício “Daga Atlântica”, entre 21 de abril e 12 de junho de 2026, na Base Naval de Puerto Belgrano, na Guarnição Militar de Córdoba e na VII Brigada Aérea em Moreno, Buenos Aires – em paralelo com o destacamento do porta-aviões nuclear USS Nimitz nas águas do Atlântico Sul.

Mesmo enquanto a estrutura legal estava sendo formalizada, Washington já havia mobilizado navios de guerra, posicionado caças F-35 em Porto Rico e enviado o porta-aviões USS Gerald R. Ford para o Caribe — um poder de fogo claramente desproporcional para combater cartéis, que não possuem força aérea. Desde 2 de setembro de 2025, os Estados Unidos realizaram pelo menos 44 ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental, em ações que a ONU classificou como execuções extrajudiciais. Em março de 2026, um oficial da defesa confirmou ao Congresso que 47 embarcações haviam sido atacadas e pelo menos 157 pessoas mortas, incluindo pescadores de Trinidad e Tobago e da Colômbia. A ONU determinou que ações militares, diretas ou secretas, contra outro Estado soberano constituiriam “uma violação ainda mais grave da Carta da ONU”.

O próprio comandante do Comando Sul (Southcom) – a estrutura militar responsável pelas operações dos EUA na América Latina e no Caribe – o almirante Alvin Holsey expressou preocupações internas sobre a legalidade das operações e apresentou sua renúncia em uma tensa reunião com Hegseth em 6 de outubro.

4. A Palantir e a vigilância em massa em território estrangeiro

A dimensão tecnológica dessa arquitetura, contudo, chegou com outra figura do mundo corporativo – que tem profundas raízes nos serviços de inteligência dos Estados Unidos e de Israel. Em 12 de abril de 2026 – precisamente quando as tropas americanas começavam a ocupar posições em bases argentinas – Peter Thiel desembarcou em Buenos Aires acompanhado por familiares, assessores e segurança pessoal. Em 23 de abril, foi recebido na Casa Rosada por Milei e pelo Ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno. Milei descreveu o encontro como uma conversa “maravilhosa” entre “anarcocapitalistas”.

Thiel, ex – sócio de Jeffrey Epstein , é cofundador e presidente da Palantir Technologies, uma empresa focada em integração de dados, análise de inteligência e contratos governamentais.

Desde 2014, a Palantir fornece tecnologia para agências de segurança israelenses e firmou uma “parceria estratégica” com o Ministério da Defesa de Israel para apoiar o “esforço de guerra”, realizando uma reunião do conselho em Tel Aviv “em solidariedade” a Israel. Um relatório da relatora especial da ONU, Francesca Albanese, concluiu que havia “motivos razoáveis” para acreditar que a Palantir forneceu tecnologia de policiamento preditivo e a plataforma de inteligência artificial que alimenta os sistemas “Lavender”, “Gospel” e “Where’s Daddy?” – sistemas que geram automaticamente listas com dezenas de milhares de alvos em Gaza. A Palantir também fornece tecnologia para o Centro de Coordenação Civil-Militar de Gaza, o complexo militar americano em Kiryat Gat, criado em outubro de 2025 para implementar o plano de Trump para Gaza.

Trata-se da mesma empresa que, nos Estados Unidos, acumulou contratos com o ICE no valor de US$ 287 milhões entre 2011 e 2025, fornecendo o sistema que dá a cada agente de imigração acesso a uma rede de bancos de dados públicos e privados sobre qualquer indivíduo. A Palantir está se infiltrando no Brasil por meio do apresentador de TV Luciano Huck e do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Luis Roberto Barroso.

A natureza sem precedentes da nova guerra de Trump contra o terror.

Os Estados Unidos estão inaugurando, diante de nossos olhos, uma doutrina de segurança hemisférica e global que é perigosamente confundida como mera continuação – mais explícita e agressiva – do expansionismo tradicional americano. Uma vasta arquitetura jurídica, política e militar está sendo elaborada pelo governo Trump e seus parceiros internacionais, incluindo Israel e o lobby israelense, para a chamada Nova Guerra ao Terror contra um “extremismo de esquerda transnacional” global da era pós-7 de outubro.

Esse nível de agressão vai muito além de tudo o que os EUA tenham feito na região nas últimas quatro décadas, desde a Operação Condor, a Guerra Contra e os golpes de Estado no Chile, Argentina, Brasil, Guatemala e outros países.

Documentos e atos oficiais do governo Trump estabelecem uma doutrina clara, coerente, oportunista e bem documentada contra uma nova forma de terrorismo. Há uma mudança paradigmática na era pós-7 de outubro, expressa como política de Estado pelo próprio governo Trump, que equipara sistematicamente os protestos pró-Palestina ao terrorismo e ao antissemitismo. Um exemplo revelador é o Projeto Esther, concebido pela Heritage Foundation – o mesmo grupo por trás do Projeto 2025 – que consolidou essa retórica em políticas institucionais explícitas em campi universitários. Atos como participar de protestos pró-Palestina foram enquadrados como antissemitismo e como fornecimento de apoio material ao terrorismo, de modo que os manifestantes poderiam ser deportados ou enfrentar prisão, sanções civis ou outras consequências graves.

Trata-se de uma tentativa de reorganizar a hegemonia dos EUA e do Norte global, expandindo o vocabulário do antiterrorismo para abranger o “extremismo de esquerda” e a dissidência na sociedade civil – abrindo o que a lei chama de “estados de exceção” transnacionais, desacreditando as garantias democráticas e pavimentando o caminho para a ascensão da extrema-direita e sua interseção com o libertarianismo americano: uma corrente que prega a dissolução do Estado e a soberania absoluta do indivíduo como princípio político.

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.

Animais no Universo

 


Imagem de Arnaud Mariat.

Física fatal

Astrofísicos analisaram a luz e a energia em seus componentes e descobriram como elas interagem para formar estrelas, buracos negros e supernovas. A observação do desvio para o vermelho mostrou que as galáxias estão se afastando de nós mais rapidamente do que se pensava. Se todos os objetos começaram do mesmo ponto, o universo tem 13,58 bilhões de anos e provavelmente existirá por mais 19 ou 20 bilhões de anos, quando a formação de estrelas cessará e as galáxias se extinguirão. Ele continuará se expandindo indefinidamente, entrará em colapso em um estado nuclear quente como o que precedeu o Big Bang, ou será despedaçado pela misteriosa força gravitacional da energia escura. A Terra existe há 4,5 bilhões de anos, portanto, surgiu relativamente cedo na vida do universo e agora está na metade de sua existência esperada. Animais multicelulares surgiram há 600 milhões de anos, durante a explosão cambriana. O Homo sapiens surgiu há aproximadamente 800.000 anos. Independentemente do aquecimento global, o Sol ficará mais quente e brilhante à medida que envelhece. Isso evaporará os oceanos, degradará a atmosfera e, eventualmente, engolirá a Terra. Os últimos animais desaparecerão já daqui a 500 milhões de anos.

abundância fatal

A menos que haja uma emergência como um terremoto ou uma inundação, é o mundo das imagens e das palavras que domina a atenção das pessoas em uma potência de ritmo acelerado como a economia norte-americana. Uma realidade secundária interessante e absorvente substitui aquela que nos cerca, que vemos, tocamos e da qual dependemos para sobreviver. Essa realidade secundária é feita de linguagem e construída sobre modelos controlados por pessoas que possuem propriedades. Ela retrata o governo como o parceiro obediente dos investidores, que devem ser mantidos satisfeitos para que não deixem o país, e os trabalhadores podem continuar a ter empregos para que ganhem o suficiente para comprar mais coisas. Oradores persuasivos monitoram a abundância de objetos produzidos pelo homem que transbordam das lojas e preenchem a visão das pessoas até onde a vista alcança. Eles contam histórias que anunciam o uso de produtos e aperfeiçoam as caixas que recebem nossos olhos quando abrimos o Google. Após a Guerra Civil, os abolicionistas estavam indefesos contra os proprietários de terras brancos ressentidos que persuadiram Andrew Johnson a mudar o resultado da batalha pela qual tanto lutaram para vencer. Os donos de plantações reafirmaram seu direito de determinar o destino dos ex-escravos. Eles tinham a atenção do presidente e, como não foram implementados programas suficientes para ajudar os libertos a se reerguerem e começarem uma nova vida, a retórica enganosa dos brancos fez com que as pessoas se esquecessem da realidade dos chicotes e correntes até a década de 1970.

Poderíamos argumentar que as pessoas podem sentir e falar ao mesmo tempo, mas a fala utiliza representações linguísticas, que pertencem a uma forma de conhecimento diferente da percepção sensorial. As representações pertencem à linguagem, e a linguagem é uma ferramenta para promover o eu e obter controle sobre o mundo. A percepção, por outro lado, não se trata de controle. Ela simplesmente recebe o que existe. Escuta. Saboreia. A percepção é sentir o que está presente. Ela registra a realidade do que existe e capta padrões nela. O que existe é o universo.

Os dois comportamentos são muito diferentes: representar e receber. No entanto, as representações tendem a ter prioridade quando se está rodeado de pessoas falantes e se vive num lugar onde a produção e a venda de objetos são essenciais para a sobrevivência. Todo o projeto da América do Norte é uma corrida para fabricar coisas que possam ser vendidas no mercado, para que se ganhe dinheiro suficiente para ter um teto sobre a cabeça. Com exceção dos menonitas e dos doukabors, não há outra visão senão a de ganhar dinheiro.

E os objetos manufaturados são armadilhas de atenção. São interessantes de se observar. Precisam de atenção para funcionar. Precisam de atenção se não funcionarem. Precisam de energia para continuar funcionando. Aquecem a atmosfera. Suas demandas roubam o tempo que você poderia dedicar a perceber onde está. O enorme congelador do outro lado do horizonte e os intermináveis ​​quilômetros que você precisa percorrer antes de encontrar uma partícula de poeira ou um pedaço de rocha? Tudo isso escondido pela abundância de coisas flutuando em seu campo de visão, ou esperando para ser guardado na sala de estar. Os norte-americanos têm tanta coisa que não precisam mais da realidade.

Pensamento fatalista

A formação do capitalismo ocorreu no início da história da Europa porque o hábito da extração e da exploração criou um forte impulso em direção à redistribuição da riqueza para as camadas mais altas da sociedade. Persuadidos por punições como a tortura na roda e pela voz dos proprietários de terras, os camponeses tiveram dificuldade em resistir à cooptação por um sistema de controle hierárquico. A industrialização simplesmente reforçou relações estruturais e históricas profundas. Colonizada pelos britânicos e normandos durante o século XII, a Irlanda estava sob domínio católico quando Oliver Cromwell decapitou Carlos I e usou seu Novo Exército Modelo para confiscar grandes extensões de terras dos monarquistas, muitas das quais foram entregues a colonos protestantes na forma de plantações. Milhares de camponeses católicos foram enviados para o Caribe e a América do Norte como servos contratados.

Karl Marx leu Colonização e Cristianismo (1838 ), de William Howitt, no Museu Britânico, e, mais tarde, Sociedade Antiga (1877), de Henry Morgan, que lhe proporcionou um relato vívido da cultura iroquesa na América do Norte. Talvez as nações não precisassem primeiro passar pela fase de formação de capital se conseguissem encontrar uma maneira de ressuscitar o comunalismo indígena? Por volta de 1880, diversas revoltas coloniais, como as do Haiti, Argélia, Taiping, Sepu, Irlanda e África, mostraram-lhe que as populações camponesas eram capazes de resolver as coisas por conta própria. No mir russo, ele encontrou uma forma de comunalismo que ainda era viável.

Marx e Engels analisaram a Guerra Civil Americana para o New York Tribune , mas nunca chegaram a visitar os Estados Unidos. Apesar de não possuir um passado feudal que pavimentasse o caminho para o desenvolvimento capitalista como a Europa, a América do Norte não seria, de qualquer forma, o palco da primeira revolução socialista. Terras baratas ofereciam aos trabalhadores uma válvula de escape para suas frustrações. A escravidão minava a solidariedade entre as raças. A supremacia branca emergiu vitoriosa após a Guerra Civil. A acumulação de capital estava em ritmo acelerado, onde o trabalho era a chave para a riqueza, e a riqueza era o único objetivo do trabalho. A população indígena havia sido drasticamente reduzida. Dada a rápida rotatividade de produtos, os inventores podiam alcançar um alto padrão de vida simplesmente economizando centavos e trabalhando duro. Após 1776, os capitalistas americanos entrariam em guerra pelo menos 400 vezes em busca de novos mercados, como na Guerra Mexicano-Americana.

O socialismo não tinha a menor chance. Diamantes falsos. Croissants falsos. Penicilina falsa. Tudo para ganhar dinheiro. A isenção de imposto sobre vendas em bolsas de ativos financeiros significa que as ações podem ser vendidas facilmente, sem custo algum. Quando empresas de private equity compram empresas falidas, não há exigência de que assumam a responsabilidade pelos passivos da empresa adquirida. Monopólios de patentes protegem invenções contra cópias por concorrentes. Leis frouxas entregam riquezas enormes a um pequeno grupo de europeus, em sua maioria brancos.

Uma pergunta legítima

Então, por que o universo incentivou a evolução de peixes, elefantes e baleias na Terra se os colonizadores americanos iriam replicar o sistema de classes da Europa, roubar recursos do Sul Global e alterar o clima com seus produtos manufaturados? Por que se deu ao trabalho de inventar cavalos e girafas se eles iriam sufocar em meio bilhão de anos, quando a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera se tornasse tão baixa que a fotossíntese não fosse mais necessária, levando à morte de todas as plantas? Será que o universo é algum tipo de vilão?

Essa questão torna-se pertinente à medida que as nações europeias se convencem de que um estado étnico doente merece ser protegido do direito internacional e que o rearmamento é necessário para frustrar um ataque de Putin, que tem a audácia de se incomodar ao ver escolas russas alvejadas por drones ucranianos. Que vírus infecta o cérebro de Merz para torná-lo tão paranoico a ponto de querer iniciar uma guerra com o país mais armado nuclearmente do planeta, que perdeu 27 milhões de pessoas lutando contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e para quem qualquer ataque em seu território representa uma questão de existência? Ele quer matar todos os animais prematuramente?

Física fatal, abundância fatal e pensamento fatalista levaram os europeus do norte a um lugar sem saída. Muito antes que sapos e coelhos tivessem a chance de coaxar pela última vez e dar seu último pulo, eles se submeteram a uma visão de superioridade racial e intelectual que reduziu o universo a uma máquina, destruiu o clima e tornou os cidadãos subservientes a fascistas, sionistas e gurus da tecnologia. Enquanto isso, o universo apenas observa. Ele busca evidências de consciência de sua presença sinistra, mas tudo o que ouve são mais discursos e mais bombas. 500 milhões de anos é muito tempo, tempo suficiente para despertar e assumir o controle da ideologia insidiosa que fez os brancos pensarem que são os mais inteligentes do mundo. Será que o universo teria gostado mais deles se, em vez de palavras e imagens, eles tivessem seguido a Lua como fazem os povos indígenas? O universo não tem "gostos". Você precisa gostar dele.

Esta é a primeira parte de duas.