terça-feira, 28 de abril de 2026

O manifesto da Palantir Technologies

 

O manifesto explícito do fascismo digital:
A Palantir e a aliança do capital monopolista com a extrema-direita

Rezgar Akrawi [*]

A generalização da vigilância.

O manifesto publicado pela Palantir Technologies não é um documento técnico nem uma visão económica. É um documento político explícito que anuncia uma nova fase na trajetória do capitalismo digital, uma fase em que este abandonou a sua pretensa neutralidade e decidiu desmascarar-se, revelando toda a sua face ideológica. A Palantir não é um caso isolado no panorama tecnológico global. É uma das várias grandes empresas tecnológicas que vendem as suas tecnologias a sistemas de repressão e violação dos direitos humanos, e tem sido condenada por organizações internacionais de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch, pelo seu papel na facilitação de deportações forçadas, vigilância em massa e perseguição de dissidentes.

O mais condenável de tudo é que relatórios documentados revelaram uma parceria direta entre esta empresa, juntamente com outras empresas tecnológicas ocidentais como a Google, a Amazon e a Microsoft, e as forças armadas israelenses, fornecendo dados e sistemas de localização que foram utilizados em operações militares em Gaza, tornando-a uma verdadeira parceira em crimes de guerra documentados contra civis palestinianos. A este respeito, não difere em substância de outras grandes empresas capitalistas digitais que praticam o mesmo em diferentes formas e graus variáveis de abertura.

Trata-se de uma declaração de classe de um projeto para uma aliança fascista digital que não se baseia apenas na violência tradicional, mas na vigilância e repressão digitais, na análise de dados, na inteligência artificial, na manipulação da opinião pública e na supressão da dissidência através de métodos impercetíveis, mas profundamente impactantes. Uma aliança cujos crimes não se limitam aos círculos da elite e aos escritórios corporativos, mas se estendem aos campos de batalha e aos corpos de civis, concretizada hoje na sua forma mais clara no trumpismo, nas suas alianças, nos seus crimes e nas suas guerras agressivas.

Do Vale do Silício à Casa Branca: A aliança orgânica

Para compreender o manifesto da Palantir fora do seu contexto isolado, temos de evocar a imagem da aliança que se formou nos últimos anos entre um segmento da elite tecnológica e o projeto da extrema-direita nacionalista. Peter Thiel, cofundador da Palantir e o mais importante financiador da carreira política de Trump, não é meramente um empresário que apoia um candidato político.

Ele é a mente ideológica que fornece a este projeto a sua lógica política, alguém que vê a democracia liberal representativa existente como um obstáculo ao projeto da elite tecnocrática e que declarou abertamente que o capitalismo e a democracia liberal tradicional são incompatíveis. Esta aliança não é um acidente, nem um cruzamento passageiro. É uma convergência objetiva entre dois projetos que partilham um único objetivo: concentrar o poder nas mãos de uma oligarquia financeira e política que acredita possuir um "direito natural" de governar as suas próprias sociedades e outras.

Esta aliança encontra hoje a sua expressão institucional no que é conhecido como o movimento de aceleração tecnológica, que inclui Elon Musk, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e outros, que começaram a agir de forma coordenada com a segunda administração Trump. O que os une não é um alinhamento ideológico completo. O que os une é a posição de classe e o interesse comum: a eliminação de qualquer restrição regulatória ou democrática que limite a sua capacidade de acumulação, dominação e expansão do controlo.

O Manifesto de 22 Pontos: Uma leitura do seu conteúdo de classe

A Palantir publicou o que descreveu como um resumo do livro do seu CEO, Alexander Karp, “The Technological Republic”, no meio de um amplo envolvimento global e de uma indignação política crescente que ultrapassou milhões de visualizações em poucos dias. Mas a indignação não deve limitar-se apenas a uma reação emocional, porque o manifesto é, na sua essência, um roteiro de classe que merece uma leitura de esquerda precisa, que vá mais além da indignação.

O manifesto contém 22 pontos, construídos com precisão arquitetónica deliberada, não aleatoriamente. Alguns pontos parecem moderados ou humanos à superfície, tais como apelos à tolerância para com os políticos nas suas vidas pessoais, ou contra regozijar-se com a derrota de um adversário.

Estes pontos não são inocentes nem incidentais. São a fachada calculada usada para conquistar o leitor hesitante e conferir ao manifesto uma imagem "equilibrada" antes de revelar a sua verdadeira face. É isto que os estudos ideológicos chamam de estrutura do consentimento fabricado:   é-lhe dada uma dose de linguagem que soa razoável para o ajudar a engolir a dose tóxica que a acompanha. O que parece lógico no manifesto não é, portanto, prova do seu equilíbrio, mas prova adicional da sua astúcia.

Todos estes pontos são utilizados como cobertura para promover uma agenda ideológica abrangente que liga todas estas preocupações a um projeto de militarização, dominação e hierarquia civilizacional. Vou, portanto, concentrar-me nos pontos mais reveladores da verdadeira classe e do conteúdo ideológico deste projeto, ao mesmo tempo que abordo os outros conceitos no corpo do texto.

O Ponto Um afirma que "a elite de engenharia do Vale do Silício tem a obrigação moral de participar na defesa da nação". Este enquadramento moral não é inocente. Quando os contratos militares e de segurança são apresentados como um "dever moral", a pressão social torna-se um mecanismo para obrigar engenheiros e programadores a servir a maquinaria da guerra e da repressão, e todas as vozes dissidentes dentro das empresas tecnológicas são silenciadas em nome do "patriotismo". Trata-se da conversão da consciência individual numa mercadoria ao serviço do Estado militar e de segurança e das suas instituições repressivas e de vigilância.

O Ponto Dois apela à “rebelião contra a tirania das aplicações”, o que significa a rejeição da tecnologia de consumo em favor de sistemas de segurança e militares mais profundos. Isto não é uma crítica ao capitalismo de consumo, como pode parecer. É um apelo para redirecionar a capacidade tecnológica para a máquina de guerra e vigilância, em vez de para o mercado do entretenimento.

O Ponto Cinco declara que “a questão não é se armas de IA serão construídas; a questão é quem as construirá”. Esta lógica determinista e fechada visa eliminar qualquer debate sobre a rejeição da militarização tecnológica pela raiz. Quando a escolha é enquadrada como "nós ou o inimigo", a possibilidade de dizer "não às armas por completo" é eliminada. É a mesma lógica utilizada pelos governos da Guerra Fria para silenciar os movimentos pacifistas e restringir as organizações de esquerda, e aqui regressa sob uma forma digital.

O Ponto Seis exige que "o serviço nacional seja um dever universal", apelando à reconsideração das forças armadas inteiramente voluntárias em favor do alistamento obrigatório. Esta exigência revela a face classicamente fascista do manifesto: quando o Estado não consegue gerar uma vontade voluntária de participar nas suas guerras, recorre à coação institucional e chama-lhe "responsabilidade partilhada". O mais revelador é que a empresa que exige que os jovens ofereçam as suas vidas em defesa do "Ocidente" tem ganhos simultâneos de mil milhões de dólares com os contratos de guerra nos quais esses jovens morrem. Dever para todos, lucros para poucos.

O Ponto Dezassete afirma que "o Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate ao crime violento". Esta proposta parece pragmática à superfície, mas, na sua essência, é uma expansão dos poderes das empresas de segurança privada para contornar o papel do Estado e transformar-se numa força independente de controlo social, operando segundo a lógica do lucro em vez da lógica da lei, do poder judicial independente e da responsabilização democrática.

O Ponto Vinte exige "resistência à intolerância generalizada em relação às crenças religiosas". Este ponto não decorre de uma defesa genuína da liberdade de crença. Trata-se de uma utilização oportunista do discurso religioso para construir uma aliança ideológica com correntes conservadoras e religiosas que são mais suscetíveis de mobilização em torno de projetos de guerra. A história ensina-nos que todos os projetos fascistas precisaram de uma aliança com instituições religiosas para conferir à violência um caráter sagrado, e é isso que este ponto procura sob o pretexto da "liberdade de fé".

O Ponto Vinte e Um é o mais revelador da profunda dimensão ideológica, ao declarar que "algumas culturas produziram avanços vitais, enquanto outras permanecem disfuncionais e regressivas". Esta frase não é uma opinião cultural passageira. É o fundamento teórico do racismo colonial civilizacional que justifica a dominação, a ocupação e o extermínio de povos sob o pretexto da "gestão racional da civilização".

Esta lógica não difere fundamentalmente do "fardo do homem branco" que justificou o colonialismo nos séculos anteriores, e está a ser reproduzida hoje na linguagem dos algoritmos e do big data. O que a torna mais perigosa do que a sua antecessora é que não requer forças coloniais visíveis. Basta uma base de dados e um algoritmo de segmentação.

O trumpismo como sistema, não como pessoa

O erro comum é reduzir o trumpismo à pessoa de Donald Trump. O trumpismo é um projeto de classe abrangente que combina o capital financeiro nacional com o nacionalismo chauvinista e a hostilidade para com os imigrantes e as minorias. Na sua essência, é uma expressão da crise do capitalismo quando este já não consegue reproduzir a ilusão liberal para o seu público, pelo que recorre a um discurso nacionalista agressivo para desviar a atenção das verdadeiras contradições de classe. O que o manifesto da Palantir faz é ligar o capital monopolista digital a este projeto e fornecer-lhe as ferramentas tecnológicas necessárias para o transformar de um discurso político eleitoral num verdadeiro sistema de controlo.

A cooperação documentada entre a Palantir e as autoridades de imigração e agências de segurança no rastreio e deportação de migrantes é um modelo prático desta aliança. A tecnologia aqui não é utilizada para servir a "segurança" em qualquer sentido neutro. É utilizada para implementar políticas repressivas e racistas com elevada eficiência operacional. A ferramenta digital torna a repressão mais rápida, mais precisa e menos dependente de justificação pública.

O feudalismo digital e a sua fase fascista

Como já argumentei anteriormente nas minhas análises do capitalismo digital, estamos a viver a fase avançada do feudalismo digital, na qual grandes corporações monopolizam a infraestrutura digital e impõem as suas condições aos utilizadores, tal como os senhores feudais outrora monopolizavam a terra e controlavam os camponeses. O que o manifesto da Palantir revela é que este feudalismo digital está agora a entrar na sua fase fascista, a fase em que o capital já não se contenta com a exploração económica silenciosa, mas avança para a mobilização e o controlo político e ideológico explícitos, a fim de proteger o seu sistema de qualquer ameaça.

No capitalismo digital, já não são apenas os trabalhadores manuais e intelectuais tradicionais as vítimas da exploração. Cada utilizador produz diariamente dados que são convertidos em matéria-prima para a produção de mais-valia sem compensação.

Os servos digitais trabalham dentro de sistemas que não lhes pertencem e estão sujeitos a regras sobre as quais não têm influência real. O que o manifesto acrescenta a este quadro é a militarização: estes mesmos sistemas exploradores estão agora direcionados para moldar a mente humana, travar guerras, suprimir a dissidência, forçar deportações e gerir sistemas de controlo de segurança.

Algoritmos da morte

O manifesto não pode ser lido isoladamente do que está a acontecer nas guerras contemporâneas. Relatórios documentados revelaram que a Palantir estabeleceu parcerias estratégicas com exércitos e instituições de segurança para construir bases de dados de alvos que são efetivamente utilizadas em operações militares. Esta não é uma possibilidade teórica. É uma prática diária documentada: algoritmos que convertem vidas humanas em pontos de dados e pontos de dados em alvos militares.

Na Palestina, reportagens jornalísticas e investigativas documentaram o uso de sistemas de inteligência artificial para criar listas de alvos que resultaram em massacres contra civis em Gaza. Na Venezuela, no Irão e noutros países que Washington classifica como "ameaças", sistemas de vigilância e de dados são usados para apoiar o militarismo, a agressão e guerras que violam o direito internacional.

O que a empresa chama de "sistema de alvos inteligente" é, na prática, uma máquina para gerir a morte com eficiência industrial. Matar já não requer uma decisão humana responsável. Requer um algoritmo, dados suficientes e luz verde de um aparelho que não está sujeito a qualquer responsabilização democrática. Esta é a aplicação no terreno do que o manifesto chama de "capacidade de tomada de decisão em tempo real", onde as decisões de matar são tomadas instantaneamente dentro de sistemas técnicos fechados.

Mais importante ainda neste contexto, a utilização destes sistemas não pode ser separada do discurso que justifica classificar comunidades inteiras como atrasadas ou ameaçadoras. O crime não começa com a bomba. Começa com a classificação. Quando comunidades inteiras são definidas como uma ameaça, o assassinato e a seleção de alvos civis tornam-se "gestão de segurança" em vez de um crime cujos perpetradores devem ser responsabilizados.

A ilusão da neutralidade tecnológica, a autovigilância e a repressão digital como ferramentas de controlo

O perigo do modelo que a Palantir está a construir não reside apenas nas suas aplicações militares diretas. Mais perigoso ainda é o que pode ser descrito como a "sociedade de vigilância", quando o controlo se torna interno em vez de externo. Quando um indivíduo sabe que está a ser vigiado a cada momento e sente que todas as interações digitais estão a ser registadas e analisadas, começa a impor vigilância a si próprio.

Modifica a sua forma de falar, evita assuntos sensíveis, distancia-se de ideias dissidentes radicais. Esta autovigilância voluntária restringe e enfraquece os movimentos de esquerda e progressistas e as organizações sindicais a partir de dentro, sem necessidade de detenções ou restrições diretas.

O apelo do manifesto a uma "compreensão profunda do comportamento humano" como condição para a segurança é, na realidade, um apelo à construção de um sistema abrangente para desarticular a ação política coletiva antes que esta surja. Prever o comportamento de protesto e desmantelá-lo antes que se torne um movimento organizado é o sonho que os serviços de segurança há muito perseguem, e a tecnologia da Palantir está a aproximar-se de concretizá-lo.

Entre os mecanismos ideológicos mais proeminentes do manifesto está a sua dependência de uma lógica determinística fechada. "Não haverá neutralidade tecnológica", "a questão não é se armas de IA serão construídas", "as democracias não podem confiar apenas no discurso moral". Esta abordagem visa converter escolhas políticas em factos naturais inescapáveis e eliminar qualquer questionamento sobre a natureza do sistema existente da esfera do debate legítimo. É a mesma abordagem utilizada pelos neoliberais quando declararam, na década de 1990, que "o capitalismo é o fim da história". Agora, a mesma lógica regressa numa formulação de segurança: não há outra escolha senão a militarização digital.

Este determinismo não é uma descrição neutra da realidade. É uma tática para esvaziar a política do seu conteúdo. Quando se está convencido de que não há alternativa, deixa-se de procurar por uma. E esse é o objetivo principal por trás desta linguagem.

A alternativa de esquerda: A questão da propriedade e do controlo coletivo

O manifesto da Palantir não é meramente um documento de uma empresa tecnológica a anunciar as suas posições. É um alarme sonoro que as forças progressistas devem ouvir claramente: a batalha pelo futuro da tecnologia já não se esconde nos bastidores. Ela saiu à luz, anunciando-se sem vergonha. Aqueles que demoram a compreender esta mudança atrasam a sua entrada na arena de luta mais decisiva deste século.

A questão fundamental não é como a tecnologia é utilizada. É quem a detém e quem determina os seus objetivos. A tecnologia não se tornará uma ferramenta de libertação enquanto permanecer nas mãos de monopólios digitais aliados a projetos da direita, da guerra e da repressão. Qualquer discussão séria deve partir da necessidade de uma propriedade social coletiva da infraestrutura digital e de submeter os algoritmos e a inteligência artificial a uma supervisão democrática genuína que represente os interesses das massas trabalhadoras, em vez das elites monopolistas.

Isto exige que as forças de esquerda, progressistas e de direitos humanos se envolvam com a arena da tecnologia com toda a seriedade, como um importante campo de luta de classes. Produzir crítica intelectual, por mais importante que seja, não é suficiente sem a construção de alternativas tecnológicas concretas através da coordenação e do trabalho conjunto por meio de internacionais digitais: plataformas sociais livres de monopólio, restrição e repressão; ferramentas de pesquisa que respeitem a privacidade de todos os utilizadores; sistemas de inteligência artificial geridos de forma democrática e transparente; e outras aplicações digitais. Estes não são projetos recreativos para o futuro. São uma necessidade estratégica urgente para qualquer projeto libertador sério.

Aditamento necessário: o desarmamento tecnológico como pré-requisito

A construção de alternativas por si só não é suficiente, a menos que seja acompanhada por uma campanha organizada para despojar esses monopólios de suas armas tecnológicas. Deve-se notar aqui que a Palantir não é um caso excepcional ou uma anomalia no panorama tecnológico. É a expressão mais explícita e ousada do que muitas outras empresas praticam com maior silêncio e um discurso mais suave. O que a torna um ponto de foco nesta análise é que ela revelou o que outras estão habituadas a ocultar, não que difira delas em substância. O sistema é um só; a única exceção é o grau de franqueza.

Tal como os movimentos históricos dos trabalhadores lutaram para desarmar o capital nas fábricas e nas quintas, hoje é necessária uma luta equivalente para arrancar coletivamente algoritmos letais, sistemas de alvos e vigilância em massa das garras destas empresas.

Esta luta assume múltiplas formas: boicotar os seus serviços, expor os seus contratos secretos com governos, processar os seus executivos perante tribunais internacionais sob a acusação de cumplicidade em crimes de guerra e pressionar as instituições públicas a romper as suas relações com estas empresas. Cada contrato governamental com este sistema constitui um financiamento direto da máquina de morte e deportação. Interromper este fluxo financeiro é a primeira linha de confronto.

Este caminho não pode ser completado sem se trabalhar simultaneamente tanto a nível legislativo nacional como internacional. A nível nacional, deve ser exercida pressão para promulgar leis rigorosas que exijam que as empresas de tecnologia de segurança mantenham total transparência nos seus contratos com os governos, criminalizando a utilização de sistemas de inteligência artificial na seleção de alvos militares fora de qualquer supervisão judicial independente e obrigando estas empresas a submeter-se aos mesmos padrões de responsabilização a que as instituições públicas estão sujeitas.

A nível internacional, é necessário trabalhar para sujeitar estas empresas às convenções internacionais de direitos humanos, em particular as Convenções de Genebra que proíbem o alvejamento indiscriminado de civis, a Carta das Nações Unidas sobre a proteção de dados pessoais e os Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos. Uma empresa que constrói bases de dados de alvos em zonas de guerra não pode ser autorizada a operar fora deste quadro jurídico e, se o fizer, os governos que a contratam assumem responsabilidade criminal partilhada. Esta não é uma exigência reformista de luxo. É o mínimo exigido pela humanidade da lei face à desumanidade do algoritmo.

Segundo aditamento: Expor o silêncio laboral no coração do manifesto

O que é impressionante no manifesto da Palantir, na verdade o que é profundamente suspeito, é que não menciona uma única palavra sobre os trabalhadores, sobre os sindicatos, sobre o direito de organização, sobre a greve. Num documento que fala da "elite da engenharia", do "dever moral" e das "culturas atrasadas", não há lugar para os trabalhadores manuais e intelectuais que constroem estes algoritmos, os operam e vivem sob o peso da mesma vigilância.

Este silêncio não é acidental. É uma admissão implícita de que o projeto tecnológico fascista não consegue enfrentar a questão dos trabalhadores, porque só os trabalhadores, se se organizarem, são capazes de parar completamente as linhas de produção da morte. Uma greve geral no Vale do Silício, ou mesmo nos próprios escritórios da Palantir, é o pesadelo deste projeto. Apoiar os sindicatos dos trabalhadores da tecnologia e ligar a sua luta a uma luta global é, portanto, um ato de resistência da primeira ordem. Esta luta tecnológica não pode ser separada da luta popular no terreno. A tecnologia é uma ferramenta de apoio à luta, não um substituto dela. O poder real permanece na organização política, trabalhista e popular, nos movimentos sociais, na solidariedade internacional entre as massas trabalhadoras deste sistema, seja em guerras, nas fronteiras ou nos bairros dos trabalhadores vigiados por algoritmos que não requerem a permissão de ninguém.

Conclusão: O fascismo digital pelo seu verdadeiro nome

O manifesto da Palantir revela claramente que enfrentamos uma nova forma de fascismo, não apenas no sentido histórico restrito, mas no seu significado essencial:   a aliança do capital monopolista com o poder político nacional agressivo e o recurso à violência, à repressão e à hierarquia civilizacional para proteger esta aliança de qualquer ameaça popular. A única diferença é que as ferramentas deste fascismo são hoje algoritmos, big data e inteligência artificial, e é isso que o torna mais hermético e mais difícil de resistir do que o que o precedeu.

Quando Alexander Karp termina de escrever o seu manifesto filosófico no seu elegante escritório, os algoritmos que a sua empresa criou continuam o seu trabalho de identificar alvos, rastrear migrantes nas fronteiras, construir bases de dados de dissidentes em todo o mundo e apoiar a maquinaria do militarismo e da repressão a nível global. Filosofia e crime são duas faces da mesma moeda.

A luta pela justiça social e pela libertação passa hoje, inevitável e substancialmente, pela luta para libertar a tecnologia desta aliança de classes agressiva. Esta não é uma questão técnica ou uma questão ética abstrata. É uma questão política em todos os sentidos, e parte de uma luta histórica sobre quem detém o controlo sobre o futuro e a consciência humana: a minoria monopolista aliada a projetos de morte e repressão, ou as massas trabalhadoras que devem impor a sua autoridade sobre as ferramentas que moldam as suas vidas e o seu destino.

Fontes e Referências

Primeira: Fonte Primária — O Manifesto da Palantir
1. Palantir Technologies — A República Tecnológica, em resumo (Publicação oficial no X, abril de 2026) https://x.com/PalantirTech/status/2045574398573453312
2. Karp, Alexander C. e Zamiska, Nicholas W. — A República Tecnológica: Poder Duro, Crença Suave e o Futuro do Ocidente. Crown Currency, Nova Iorque, 2025. https://techrepublicbook.com/

Segunda: Reportagens e análises jornalísticas sobre o Manifesto
3. Al Jazeera English — “Tecnofascismo? Por que o ‘manifesto’ pró-Ocidente da Palantir deixou os críticos alarmados”, 21 de abril de 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/4/21/technofacism-why-palantirs-pro-west-manifesto-has-critics-alarmed
4. TechCrunch — “Palantir publica mini-manifesto denunciando a inclusão e as culturas ‘regressivas’”, 19 de abril de 2026.
https://techcrunch.com/2026/04/19/palantir-posts-mini-manifesto-denouncing-regressive-and-harmful-cultures
5. Engadget — “A Palantir publicou um manifesto que parece o delírio de um vilão de banda desenhada”, abril de 2026.
https://www.engadget.com/big-tech/palantir-posted-a-manifesto-that-reads-like-the-ramblings-of-a-comic-book-villain-181947361.html
6. TRT World — “A Internet explode em indignação com o manifesto tecnológico distópico da Palantir”, abril de 2026.
https://www.trtworld.com/article/e3c96555543c
7. Reason — “O novo manifesto da Palantir quer que o serviço militar obrigatório seja reinstaurado”, 20 de abril de 2026.
https://reason.com/2026/04/20/this-big-tech-firm-wants-to-reinstate-the-draft

Terceira: Relatórios de direitos humanos sobre a Palantir e a cumplicidade das grandes empresas tecnológicas em Gaza
8. Amnistia Internacional — Relatório sobre a economia política global que permite o genocídio de Israel, apontando a Palantir como um dos principais contribuintes, setembro de 2025. https://www.democracynow.org/2025/9/18/amnesty_international
9. Truthout — “Amnistia apela aos Estados para que cortem o apoio económico ao genocídio de Israel”, setembro de 2025.
https://truthout.org/articles/amnesty-calls-for-states-to-pull-the-plug-on-economy-backing-israels-genocide
10. Business and Human Rights Resource Centre — “A Palantir alegadamente permite que Israel utilize IA para ataques seletivos em Gaza, suscitando preocupações quanto a crimes de guerra.”
https://www.business-humanrights.org/en/latest-news/palantir-allegedly-enables-israels-ai-targeting-amid-israels-war-in-gaza-raising-concerns-over-war-crimes/
11. Business and Human Rights Resource Centre — "Amazon, Google e Microsoft alimentam a agressão militar israelense em Gaza, revela investigação", fevereiro de 2025.
https://www.business-humanrights.org/en/latest-news/amazon-google-microsoft-fuel-israeli-military-aggression-in-israels-war-on-gaza-investigation-reveals/
12. Business and Human Rights Resource Centre — "Google, Amazon e Microsoft alegadamente cúmplices em crimes de guerra no contexto da guerra de Israel em Gaza."
https://www.business-humanrights.org/en/latest-news/google-amazon-microsoft-allegedly-complicit-in-war-crimes-amid-israels-war-in-gaza/
13. Business and Human Rights Resource Centre — "A Google não respondeu às alegações sobre a sua cumplicidade em crimes de guerra no contexto da guerra de Israel em Gaza", abril de 2025.
https://www.business-humanrights.org/en/latest-news/google-did-not-respond-to-the-allegations-over-its-complicity-in-war-crimes-amid-israels-war-in-gaza/
14. Business and Human Rights Resource Centre — "A Amazon não respondeu às alegações sobre a sua cumplicidade em crimes de guerra durante a guerra de Israel em Gaza", abril de 2025.
https://www.business-humanrights.org/en/latest-news/amazon-did-not-respond-to-the-allegations-over-its-complicity-in-war-crimes-amid-israels-war-in-gaza/
15. Business and Human Rights Resource Centre — "A Microsoft não respondeu às alegações sobre a sua cumplicidade em crimes de guerra no contexto da guerra de Israel em Gaza", abril de 2025.
https://www.business-humanrights.org/en/latest-news/microsoft-did-not-respond-to-the-allegations-over-its-complicity-in-war-crimes-amid-israels-war-in-gaza/

22/Abril/2026

Ver também:
  • O CEO da Palantir apela à conscrição obrigatória para travar as guerras do Império
  • [*] Investigador especializado em questões de tecnolgia, trabalha no campos do desenvolvimento de sistemas e governação electrónica, estado-unidense.

    O original encontra-se em znetwork.org/znetarticle/the-explicit-manifesto-of-digital-fascism-palantir-and-the-alliance-of-monopoly-capital-with-the-far-right/

    Este artigo encontra-se em resistir.info
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    28/Abr/26


    Estratégia da China para o Oriente Médio: Paciência calculada

     


    Ali Khamenei se reuniu com Xi Jinping em Teerã 2016. Fotografia Fonte: Khamenei.ir – CC BY 4.0

    A atual volatilidade no Oriente Médio colocou mais uma vez a arquitetura de segurança global sob imensa tensão. Apesar de um frágil cessar-fogo, as rotas marítimas do Estreito de Ormuz continuam a ser um cemitério de atividade comercial. No final de abril de 2026, os dados de rastreamento de embarcações mostram uma quase paralisação, com menos de cinco navios transitando diariamente pela hidrovia. Com a confiança diplomática entre as principais potências em uma baixa histórica, a comunidade internacional está testemunhando um período de profunda imprevisibilidade geopolítica.

    Tradicionalmente, tais momentos de entrelaçamento americano foram recebidos com uma retórica afiada de Pequim. No entanto, à medida que a crise de 2026 atinge uma conjuntura crítica, a China vem demonstrando uma postura de paciência estratégica que sinaliza uma evolução significativa em suas ambições globais de longo prazo.

    Enquanto o governo Trump está envolvido em uma blitz diplomática de alto risco para uma segunda rodada de negociações para salvar algum tipo de acordo de paz, a resposta de Pequim foi notavelmente medida. Há uma falta das denúncias estrondosas habituais que caracterizaram as reações chinesas durante as intervenções anteriores do Oriente Médio. Em vez disso, o sentimento predominante entre autoridades chinesas e estudiosos do think-tank é de ansiedade estratégica. Essa mudança da schadenfreude histórica para a perplexidade atual reflete uma China que agora está muito profundamente integrada à ordem global para encontrar conforto no caos.

    O principal motor dessa contenção é um reconhecimento claro da interdependência econômica. A China continua a ser o maior importador mundial de petróleo bruto, e o bloqueio contínuo do Estreito de Ormuz ameaça diretamente seus batimentos cardíacos industriais. Ao contrário da Rússia, que muitas vezes busca lucrar com a disrupção geopolítica, a China opera como um poder de status quo que requer mercados funcionais e regras estáveis de engajamento para sustentar seu crescimento.

    A narrativa atual de Pequim sugere que os Estados Unidos estão levando o mundo de volta à “lei da selva”. Esta não é meramente uma crítica moral; é uma preocupação pragmática que uma hegemonia imprevisível é ruim para os negócios. Quando a política americana flutua entre bloqueios navais e acordos de paz repentinos de “estilo de entrega”, isso mina o mundo globalizado que a China navegou com sucesso para construir sua força atual. Consequentemente, Pequim não está correndo para preencher o vácuo militar com suas próprias flotilhas navais. Em vez disso, posiciona-se como a alternativa confiável e contínua para uma Washington volátil.

    Esta continuidade está sendo construída sobre a base de tecnologias de fronteira. Enquanto o mundo está distraído com as realidades cinéticas do conflito com o Irã, a China está dobrando os setores que acredita que definirão o próximo século. Seu domínio na energia verde não é mais apenas uma tendência, é um monopólio estratégico. No primeiro trimestre de 2026, as exportações chinesas dos Novos Três – veículos elétricos, baterias de íons de lítio e painéis solares – subiram para níveis recordes. A China agora controla mais de 80% da cadeia de fornecimento solar global e mais de 60% do mercado global de baterias de veículos elétricos, com gigantes como a CATL e a BYD ampliando sua liderança.

    À medida que a crise energética desencadeia uma disputa global por alternativas, a China tornou-se o poder indispensável. Ao dominar as cadeias de suprimentos para armazenamento eólico, solar e de baterias, Pequim está oferecendo a outras nações um caminho para a independência energética que depende de equipamentos e crédito chineses, em vez de proteção militar americana. Essa estratégia de bloquear países em sistemas fabricados na China é uma forma sofisticada de soft power que cria dependência de longo prazo sem o atrito de alianças de estilo colonial.

    Essa influência está sendo cada vez mais sentida no setor financeiro. Por décadas, os Estados Unidos têm desfrutado do privilégio exorbitante da moeda de reserva mundial. No entanto, no início de 2026, instituições como o Banco Mundial e o Banco Europeu de Investimento estão encontrando uma demanda robusta por dívidas não-dólares. Pequim tem a ambição explícita de transformar o renminbi em uma moeda de reserva global. Ao expandir seu mercado de títulos, a China está criando uma rede de segurança para investidores globais que veem os ativos americanos como cada vez mais arriscados devido à volatilidade política doméstica.

    Além disso, a abordagem da China para disputas regionais, como a situação em Taiwan, está sendo filtrada através dessa lente de segurança energética. Em março de 2026, Pequim fez uma oferta pontual para garantir a segurança elétrica e energética de Taiwan em troca de “reunificação pacífica”, uma tentativa de capitalizar a vulnerabilidade da ilha, à medida que seus suprimentos de GNL são sufocados pelo bloqueio de Ormuz. Embora Taipei tenha descartado a oferta como “guerra cognitiva”, a medida destacou a estratégia de Pequim: fornecer infraestrutura para a sobrevivência, enquanto os Estados Unidos fornecem a volatilidade do conflito. O Processo de Islamabad destaca outra camada dessa dinâmica. Enquanto a delegação dos EUA enfrenta profunda desconfiança histórica, a China continua sendo um fator silencioso, mas presente. O investimento de Pequim na Rota da Seda Digital garante que a arquitetura econômica subjacente da região permanecerá fortemente inclinada para a China.

    Pequim está usando esse momento específico da história para polir sua reputação como um ator global responsável, enquanto silenciosamente constrói seu poder duro. A paciência estratégica exibida hoje é o silêncio calculado de um poder que acredita que o tempo está do seu lado. Xi Jinping está apostando que, em um mundo cansado de caos, o poder que traz equipamentos, crédito e continuidade prevalecerá.

    Este apareceu pela primeira vez na FPIF.

    Imran Khalid é analista geoestratégico e colunista de assuntos internacionais. Seu trabalho foi amplamente publicado por prestigiosas organizações e publicações internacionais de notícias.

     

    sexta-feira, 17 de abril de 2026

    O sorriso do colono: como uma capa de revista italiana expôs a monstrosidade da Grande Israel

     


    Fotografia de Michael Leonardi

    Em 10 de abril de 2026, o semanário italiano L’Espresso chegou às bancas com uma capa que colocou o aparelho sionista em pleno colapso. Intitulada “L’Abuso” (“O Abuso”), a imagem mostra um colono israelense armado – vestido com fadigas militares, kippah em sua cabeça, peyot curls balançando – zoando com prazer sádico enquanto ele filma uma mulher palestina visivelmente angustiada com seu telefone. Ela está entre as oliveiras no que resta de sua terra ancestral, seu rosto uma máscara de dor e exaustão durante a colheita anual de azeitonas.

    A fotografia, tirada pelo fotojornalista italiano Pietro Masturzo, perto da aldeia de Idhna, a oeste de Hebron, em outubro de 2025, não é encenada, não manipulada e certamente não gerada por IA. Quando relatos pró-Israel inundaram a mídia social alegando que era falso, Masturzo e L’Espresso divulgaram as imagens de vídeo completas. Isso mostra exatamente o que a imagem estática captura: um grupo de colonos armados, alguns em uniformes do exército, descendo sobre as famílias palestinas tentando colher suas azeitonas. O colono na foto zomba da mulher imitando o som que um pastor faz para pastorear animais – tratando os palestinos como gado em terra que a ideologia sionista reivindica como divinamente ordenada apenas para os judeus.

    O embaixador de Israel na Itália, Jonathan Peled, imediatamente denunciou a capa como “manipuladora” e distorcendo a realidade. Redes sionistas em todas as mídias sociais lançaram uma campanha coordenada de assédio, negação e difamações. No entanto, quanto mais eles se espalhavam, mais a imagem se espalhava – porque faz o que as imagens poderosas às vezes fazem: corta a propaganda e mostra o rosto cru e cotidiano da violência colonial.

    Esta única fotografia tornou-se um símbolo do projeto sionista do Grande Israel em sua forma mais não filtrada. Não é uma aberração. É a lógica da expansão tornada visível: civis armados, apoiados pelo Estado e seus militares, aterrorizando sistematicamente os palestinos indígenas para roubar suas terras, destruir seus meios de subsistência e expulsá-los. Oliveiras – símbolos antigos de enraizamento e resiliência palestinas – são regularmente arrancadas, queimadas ou bloqueadas por colonos. A colheita, que já foi uma época de comunidade e sustento, tornou-se uma temporada de medo, confronto e limpeza étnica em câmera lenta, especialmente em áreas como Masafer Yatta e South Hebron Hills.

    O frenesi que a capa provocou revela algo mais profundo do que mero controle de danos de relações públicas. expõe a fragilidade da narrativa sionista. Quando confrontado com a realidade não envernizada – o sorriso do ocupante, o sofrimento silencioso dos ocupados – a resposta padrão é a negação, a deflexão e os gritos de “antissemitismo”. O embaixador e seus aliados prefeririam os italianos e o mundo nunca veria esse rosto da ocupação. Querem imagens higienizadas de “autodefesa” e “segurança”, não a humilhação e desapropriação diária que sustentam o sonho de um Israel Maior que se estende do rio ao mar, esvaziado de seus habitantes palestinos.

    O relatório do L’Espresso que acompanha a capa vai além, documentando como os elementos mais extremos da direita sionista estão moldando ativamente a política israelense: expandir assentamentos ilegais, acelerar a apropriação de terras na Cisjordânia e normalizar o que equivale a uma operação de limpeza étnica em câmera lenta. O colono na foto não é um fanático solitário. Ele é o soldado de um projeto apoiado pelo Estado que goza de plena impunidade – protegido pela lei israelense, financiado por contribuintes americanos, e blindado diplomaticamente por governos na Europa e nos Estados Unidos, incluindo a própria administração Meloni da Itália.

    No entanto, mesmo na Itália de Meloni, as marés estão começando a mudar. Esta semana, sob crescente pressão das ruas e da chamada “Geração Gaza” – os jovens italianos radicalizados pelos horrores transmitidos ao vivo em Gaza e pelo crescente movimento de base que exige o fim da cumplicidade – o governo Meloni anunciou a suspensão de seu memorando de cooperação com Israel. É um primeiro passo limitado, mas significativo: uma rachadura no muro de alinhamento incondicional que há muito tempo define a política italiana em relação ao regime sionista. Pela primeira vez em anos, os laços econômicos e militares estão sendo questionados de dentro dos corredores do poder, não apenas das praças. O “movimento de baixo” – protestos sustentados, bloqueios portuários, greves contra fabricantes de armas como Leonardo e mobilização pública implacável – forçou até mesmo esse governo de extrema-direita a piscar.

    Este desenvolvimento não é um presente de cima. É o resultado direto da pressão organizada e implacável da sociedade civil italiana, particularmente de sua juventude, que se recusa a deixar seu país permanecer um cúmplice voluntário em genocídio e roubo de terras. Embora a suspensão seja parcial e reversível, ela sinaliza que o monopólio da influência sionista na política italiana não é mais absoluto. O sorriso do colono na capa do L’Espresso tornou-se um espelho que nem mesmo Roma pode mais ignorar completamente.

    Em uma era em que os governos ocidentais continuam a armar Israel, vetar chamadas de cessar-fogo e criminalizar a solidariedade com a Palestina, a coragem de L’Espresso em publicar esta capa importa. O verdadeiro escândalo não é a fotografia. O verdadeiro escândalo é o projeto de décadas que ele tão poderosamente ilustra: a desapropriação metódica de um povo inteiro, realizado com rifles, câmeras e a certeza presunçosa do colonizador.

    A imagem acabará desaparecendo das manchetes, mas as oliveiras permanecem – testemunhas teimosas de um crime que se recusa a ficar escondidas. Enquanto os palestinos continuarem a colher o que é deles, apesar dos colonizadores e dos soldados, a verdade continuará forçando seu caminho para a primeira página.

    O abuso continua. Assim como a exposição.

    Michael Leonardi lives in Italy and can be reached at michaeleleonardi@gmail.com

     

    quinta-feira, 2 de abril de 2026

    O choque petrolífero pode romper o sistema financeiro global

     


    – O desafio iraniano à dominação dos EUA

    Michael Hudson [*]
    entrevistado por Ben Norton

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    A guerra dos EUA e dos israelenses contra o Irão está a transformar a ordem geopolítica e pode até desencadear uma crise económica global. O conflito causou o maior choque petrolífero da história, perturbando os mercados globais e fazendo subir os preços dos combustíveis e dos alimentos.

    Para compreender melhor as implicações para o mundo, o editor do Geopolitical Economy Report, Ben Norton, entrevistou o economista Michael Hudson, que discutiu como o Irão está a desafiar o domínio do dólar americano e a minar o controlo de Washington sobre o mercado global de petróleo, que tem sido um pilar fundamental da política externa dos EUA.

    BEN NORTON: A guerra que os Estados Unidos e Israel lançaram contra o Irão está a ter um impacto enorme na economia global.

    Todos os países do mundo estão a ser afetados, porque esta guerra estado-unidense-israelense provocou o maior choque petrolífero da história — maior do que os choques petrolíferos de 1973 e 1979.

    Os efeitos são especialmente pronunciados na Ásia, que obtém a maior parte das suas importações de petróleo do Golfo Pérsico.

    As Filipinas declararam uma emergência nacional e estão agora a racionar a energia, por não terem petróleo suficiente devido a esta guerra.

    O Japão também importa grande parte do seu petróleo do Médio Oriente, ou Ásia Ocidental. E é por isso que Tóquio efetuou a maior libertação de petróleo de sempre das suas reservas.

    Além disso, os 32 países membros da Agência Internacional de Energia, a AIE, concordaram unanimemente em libertar 400 milhões de barris de petróleo das suas reservas de emergência.

    No entanto, esta é apenas uma medida paliativa de curto prazo. Não é uma solução a longo prazo.

    É por isso que o preço global do petróleo baixou apenas um pouco em resposta à notícia de que os países estavam a libertar petróleo das suas reservas. E, desde então, o preço do petróleo continuou a subir, porque enquanto esta guerra dos EUA e dos países israelenses contra o Irão continuar, haverá perturbações massivas no mercado energético.

    Uma vez que o petróleo é a mercadoria mais importante do planeta — e é utilizado em muitos outros produtos, bem como em todos os aspetos da sociedade para o transporte de alimentos e outros bens — os líderes mundiais estão agora a advertir que isto pode causar uma recessão global.

    O diretor da Agência Internacional de Energia foi muito claro. Ele alertou que a guerra dos EUA e dos israelenses contra o Irão é uma "grande, grande ameaça" para a economia global.

    Esta guerra está a fazer subir não só os preços da gasolina, mas também os preços dos alimentos, porque muitos fertilizantes e produtos químicos utilizados nos fertilizantes provêm da região do Golfo Pérsico.

    É também provável que conduza a taxas de juro mais elevadas, o que levará a aumentos nas taxas hipotecárias e noutras taxas aplicadas aos empréstimos contraídos pelas pessoas comuns. Por isso, isto vai afetar mais as pessoas mais pobres.

    Assim, para compreender como esta guerra vai impactar a economia global, hoje vamos falar com o renomado economista Michael Hudson, autor de muitos livros, incluindo Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire.

    Michael Hudson tem escrito artigos e dado entrevistas explicando como esta guerra vai remodelar o mundo economicamente e geopoliticamente.

    Em particular, Michael argumentou que esta guerra significa que “os mercados petrolíferos multipolares são agora uma realidade”.

    Isto porque o Irão está a desafiar diretamente o domínio global do dólar americano e, em particular, o sistema do petrodólar — o facto de, durante décadas, a grande maioria do petróleo no mercado global ter sido cotada e vendida em dólares. O Irão está agora a desafiar isso.

    Em resposta a esta guerra de agressão dos EUA e dos israelenses, Teerão fechou o Estreito de Ormuz, que é o ponto de estrangulamento mais importante para o trânsito de petróleo na Terra.

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    Todos os dias, cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente passa por este estreito — ou, pelo menos, 20% do petróleo global passava por ele, antes de os EUA e Israel terem iniciado esta guerra.

    Agora, o Irão está a dizer aos países que, se quiserem passar pelo Estreito de Ormuz, têm de concordar em vender petróleo não em dólares americanos, mas sim na moeda da China, o yuan.

    É por isso que alguns meios de comunicação, como o South China Morning Post, estão agora a dizer que esta “guerra do Irão poderá impulsionar o ‘petroyuan’ da China e enfraquecer o domínio do dólar americano”.

    Dadas as enormes consequências geopolíticas e económicas desta guerra, considerei que Michael Hudson seria o convidado perfeito.

    Assim, sem mais delongas, vamos reproduzir alguns destaques do que Michael disse e, em seguida, passaremos diretamente à entrevista.

    (Destaques)

    MICHAEL HUDSON: O Irão afirmou que se trata de uma mudança de fase: agora vamos controlar para sempre o Estreito de Ormuz no Golfo Pérsico e vamos controlar o comércio de petróleo.

    Isso significa que, em vez dos planos dos Estados Unidos de usar o petróleo como um ponto de estrangulamento sobre outros países para forçar a sua conformidade com a política externa americana, é agora o Irão que controla este ponto de estrangulamento, e pode impor sanções aos EUA e aos seus aliados, sanções a Israel, sanções aos europeus ou a quaisquer outros aliados dos Estados Unidos.

    Assim, a situação inverteu-se em relação a toda a tentativa dos EUA de usar o petróleo como meio de controlo. Agora, o que está em causa é o Irão conseguir alcançar aquilo em que os Estados Unidos basearam toda a sua política externa: o controlo das receitas internacionais provenientes das exportações de petróleo.

    A filosofia americana é, em primeiro lugar, bombardear civis, violar todas as regras do direito internacional que se opõem a isso. Bombardeia-se civis para os desmoralizar. E se se concentrar, como Trump fez, juntamente com Israel, há algumas semanas, bombardeia escolas, bombardeia hospitais. É a política americana em países estrangeiros.

    Ela é mais visível no caso da política israelense, em Gaza, e agora também na Cisjordânia. E é a mesma política que os Estados Unidos têm seguido no Irão.

    Bem, a ideia era que isto desmoralizasse a população, e que a população iraniana quisesse livrar-se dos aiatolás e dissesse: "Não queremos ser bombardeados mais; queremos salvar as crianças; vamos fazer um acordo e nomear um líder favorável aos Estados Unidos para que parem de nos bombardear".

    Bem, isto era um disparate desde o início, mas era o espírito orientador da política externa americana:   bombardear um país para levar a uma mudança de regime e a um colapso.

    Este é um conflito, no Irão, para determinar qual será a forma da economia internacional? Irá restaurar o controlo americano do comércio de petróleo e dar-lhe o ponto de estrangulamento sobre a economia internacional que procura? Ou vamos ser independentes dos Estados Unidos?

    É disso que se trata nesta guerra.

    (Entrevista)

    BEN NORTON: Michael, é sempre um verdadeiro prazer; obrigado por se juntar a nós hoje.

    Agora, tem falado sobre algumas destas questões que o mundo está a debater devido à guerra no Irão — especialmente o domínio do dólar e o sistema do petrodólar — tem escrito sobre isto há décadas, desde os anos 70.

    E, na verdade, o governo dos EUA também vem a planear uma potencial guerra contra o Irão há décadas. Isto não é nada de novo.

    Agora, Donald Trump é o primeiro presidente que foi realmente louco o suficiente para tentar isso. Mas lembro-me de, na administração de George W. Bush, depois de os EUA terem invadido o Iraque, ter havido muita discussão sobre uma potencial invasão do Irão.

    Então, Michael, explique-nos como vê esta guerra. Qual é o panorama geral aqui, e como é que isto irá afetar o mundo?

    MICHAEL HUDSON: Bem, mencionou que isto vem dos últimos anos ou décadas; na verdade, remonta a meio século.

    Já em meados da década de 1970, quando eu trabalhava para o Instituto Hudson, em contratos com o Tesouro, a Casa Branca e o Departamento de Defesa, participava em reuniões, e discutiam constantemente como, em última análise, os Estados Unidos teriam de assumir o controlo de todo o petróleo do Médio Oriente, o que implicava conquistar o Irão.

    Em meados da década de 1970, numa reunião militar, por exemplo, Herman Kahn explicava como provavelmente o Baluchistão era a principal oportunidade para começar a dividir o Irão em grupos étnicos subordinados. E o Baluchistão, situado entre o Paquistão e o Irão, seria provavelmente o melhor lugar para iniciar um movimento separatista. Havia planos militares.

    A minha área de atuação em meados da década de 1970 era o petróleo e a balança de pagamentos. Ocupei esse cargo no Chase Manhattan Bank durante muitos anos. Na verdade, eu era o único — estava tão baixo na hierarquia, sendo um técnico e com cerca de 25 anos, que era a única pessoa a quem era permitido ver todos os detalhes operacionais e estatísticas das companhias petrolíferas dos EUA, as grandes empresas, para que pudesse fazer um cálculo sobre o papel que o petróleo desempenhava na balança de pagamentos, apoiando o dólar.

    Isto aconteceu logo após os Estados Unidos terem sido forçados a abandonar o padrão-ouro, em 1971, devido à Guerra do Vietname.

    Assim, os Estados Unidos sempre perceberam que o que hoje se vê seria o desfecho final da consolidação — esperavam eles — do controlo americano sobre o petróleo do Médio Oriente; e queriam isso porque o ponto central, a alavanca mais forte que a política externa americana teve ao longo do último século, é o controlo do comércio mundial de petróleo.

    Porque é imensamente lucrativo para as próprias empresas petrolíferas americanas — deu às empresas petrolíferas um controlo significativo sobre a política dos EUA — e também o potencial controlo da economia dos EUA sobre outros países, através da capacidade de cortar-lhes o fornecimento de petróleo, interrompendo assim a sua produção de eletricidade, a sua produção química e a sua produção de fertilizantes com base no gás natural.

    A indústria petrolífera inclui a indústria do gás, porque estão intimamente interligadas. Tudo isto foi pensado. E todos os anos, as forças armadas têm atualizado os planos a longo prazo para — bem, se tivermos realmente de usar a força para garantir o nosso controlo sobre o Próximo Oriente, o Médio Oriente; se, por qualquer motivo, os países petrolíferos da OPEP quiserem tornar-se independentes dos Estados Unidos e começarem a investir os seus ganhos do petróleo fora dos EUA, em vez de enviarem todos os seus ganhos do petróleo para cá, a fim de investir em obrigações do Tesouro, obrigações corporativas, depósitos bancários nos EUA e participações acionárias; bem, se algum deles quiser exercer a sua própria soberania e seguir o seu próprio caminho, vamos ter de assumir o controlo; e, aconteça o que acontecer, vamos ter de assumir o controlo do Irão, porque esse é o ponto de bloqueio final e mais poderoso do controlo dos EUA.

    E, como já discutimos anteriormente, em 2003 o General Wesley Clark afirmou abertamente que iríamos conquistar sete países em cinco anos, culminando com o Irão. Portanto, tudo isto tem sido completamente aberto. Esta não é simplesmente a guerra de Donald Trump. É uma guerra que ele decidiu travar neste momento, porque os Estados Unidos têm perdido progressivamente a sua posição de força económica, força militar e fornecimento de armas, mísseis, aeronaves e bombas, em resultado da guerra, primeiro na Ucrânia e, depois, do fornecimento a Israel.

    Portanto, nunca haverá um momento menos mau para entrar em guerra do que o presente. E, claro, é um mau momento, mas não é tão mau quanto vai ser. E os militares, os neoconservadores por trás dos militares e por trás da Agência Central de Inteligência, não vão desistir.

    Eles dizem: "Bem, o que temos a perder? Se não conquistarmos o petróleo do Médio Oriente agora, vamos perder aquilo que se tornou a principal alavanca da política externa americana".

    Donald Trump acreditava que poderia conquistar o Irão em duas a quatro semanas. Ele acreditava mesmo nisso.

    A sua esperança era que, quando fizesse a sua viagem programada à China, pudesse confrontar a China, dizendo:   "Bem, acabámos de provocar uma mudança de regime no Irão. Nomeámos um oligarca iraniano a nosso serviço, um ditador a nosso serviço, para assumir o poder e tornar-se uma espécie de versão iraniana de Boris Yeltsin, administrando o petróleo iraniano no interesse dos Estados Unidos".

    “Portanto, agora temos o poder de impor sanções a vocês, China. Podemos cortar o vosso petróleo. Mas, sabem, não queremos fazer isso. Se começarem a exportar as matérias-primas, o gálio, o tungsténio e todas as outras coisas de que precisamos para as nossas forças armadas e às quais impuseram um controlo de exportação, então dar-vos-emos o petróleo”.

    Trump esperava poder apresentar essa vitória à China. Bem, obviamente isso já se foi. Os militares calcularam mal, porque não conseguiram pensar numa alternativa que ameaçasse este grande plano.

    Lembrem-se de todos os ataques militares americanos, nos últimos 50 anos, desde o Vietname — todas as guerras que os EUA travaram, do Vietname ao Iraque, Afeganistão, Síria, Venezuela.

    Tem sido sempre os Estados Unidos e os seus aliados, a coligação dos dispostos, contra países isolados. Esta é a primeira guerra que a América travou desde a Segunda Guerra Mundial em que os outros países contra os quais luta são aliados entre si.

    Não está apenas a lutar contra o Irão agora. Está a lutar contra o Irão, apoiado pela Rússia e pela China, porque todos percebem que esta é uma luta até ao fim, para decidir: será que os Estados Unidos vão conseguir reafirmar o seu controlo sobre a economia mundial usando monopólios? O monopólio do petróleo, o monopólio da tecnologia da informação que está a tentar estabelecer, o monopólio dos chips de computador, o monopólio da tecnologia, bem como a sua capacidade de fornecer alimentos a outros países, as suas exportações e o controlo dos cereais.

    Esta é a última oportunidade que tem. E há um sentimento de desespero que levou os estrategas dos EUA a apostar tudo.

    E acho que isso não vai funcionar. Todos os generais lhes disseram que não vai funcionar. Os generais que se mostraram pessimistas foram praticamente forçados a sair das forças armadas e do Departamento de Estado, porque: "Se és pessimista, bem, porque não estás a bordo? Sabes, porque não fazes parte da equipa? Ou és um fantoche de Putin? Sabes, tens de ter fé".

    Os Estados Unidos acreditavam que não podiam perder nenhuma guerra porque a sua política de bombardear outros países iria sempre funcionar.

    A filosofia americana é, em primeiro lugar, bombardear civis; quebrar todas as regras do direito internacional que se opõem a isso. Bombardeia-se civis para os desmoralizar. E se nos concentrarmos, como Trump fez juntamente com Israel há algumas semanas, bombardeamos as escolas; bombardeamos os hospitais. Esta é a política americana em países estrangeiros.

    É mais visível no caso da política israelense, em Gaza, e agora também na Cisjordânia. E é a mesma política que os Estados Unidos têm seguido no Irão.

    Bem, a ideia era que isto desmoralizasse a população, e que a população iraniana quisesse livrar-se dos aiatolás e dissesse: "Não queremos ser bombardeados mais; queremos salvar as crianças; vamos fazer um acordo e nomear um líder favorável aos Estados Unidos a fim de que eles parem de nos bombardear".

    Bem, isto era um disparate desde o início, mas era o espírito orientador da política externa americana: bombardear um país, e isso levará a uma mudança de regime e a um colapso.

    Era isso que a América esperava na Rússia.

    Mas o Irão tem essencialmente o mesmo espírito que Patrick Henry tinha na revolução americana contra a Grã-Bretanha em 1776. Ele disse: "Dai-me liberdade ou dai-me a morte!". E é exatamente isso que o Irão está a dizer.

    Para eles, isto é uma questão existencial, porque sabem quais são os planos dos EUA, uma vez que os Estados Unidos têm sido bastante abertos quanto aos seus planos. Sim, eles querem uma mudança de regime; querem dividir o Irão em partes; querem assumir o controlo do petróleo iraniano e usar as receitas da exportação de petróleo para apoiar o dólar americano e, basicamente, a economia dos EUA, e dar à política externa americana a opção de cortar o fornecimento de petróleo a outros países, para dizer:  “Podemos paralisar a vossa indústria, a vossa indústria química, todas as vossas indústrias que precisam de energia elétrica, petróleo, gás; podemos fazer tudo isso, se adotarem uma política independente, seguindo a vossa própria soberania. Nós, nos Estados Unidos, rejeitamos o princípio das Nações Unidas de que cada nação tem a sua própria soberania".

    Este é o princípio básico da civilização ocidental na última metade do século, o princípio básico da Carta das Nações Unidas. Tudo isso está a ser rejeitado pelos Estados Unidos.

    E o que isso fez foi galvanizar outros países a reconhecer que, bem, sim, este é realmente o conflito final.

    Estará este conflito no Irão destinado a determinar qual virá a ser a forma da economia internacional? Irá restaurar o controlo americano do comércio de petróleo e dar-lhe o ponto de estrangulamento sobre a economia internacional que procura? Ou vamos ser independentes dos Estados Unidos?

    É disso que se trata nesta guerra.

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    BEN NORTON: Bem dito, Michael. Levantaste tantos pontos importantes. É difícil saber por onde começar.

    Queria apenas fazer um breve comentário sobre esta ideia de que os EUA se têm preparado para a guerra no Irão desde há décadas e, como disseste, estavam à espera do momento menos mau.

    Acho que isto está absolutamente certo, porque também houve dois desenvolvimentos importantes nos últimos dois anos que conduziram a esta guerra no Irão.

    Um deles foi a derrubada do governo sírio — que remonta a 2011, o início da guerra de mudança de regime que acabou por ser bem-sucedida no final de 2024, o que constituiu um passo importante rumo à guerra no Irão.

    E depois também Israel eliminou a liderança da resistência libanesa, o que, basicamente, pelo menos na sua opinião, iria retirar o Líbano da equação.

    Assim, ao remover o Líbano e a Síria — pelo menos pensavam que tinham removido o Líbano —, os EUA e Israel poderiam atacar o Irão, isolando Teerão dos seus aliados.

    Agora vimos que ainda tem havido alguma resistência no Líbano. Embora Israel tenha invadido o Líbano e esteja a tentar colonizar o sul do país.

    De qualquer forma, quero falar mais sobre esta questão do sistema do dólar. Acho que isto é fundamental para compreender esta guerra.

    Falou sobre como os EUA querem usar o controlo do mercado global de petróleo para sustentar o dólar.

    Sabe, o sistema do petrodólar remonta realmente a 1974, quando a administração de Richard Nixon, após desvincular o dólar do ouro, fez um acordo com a Arábia Saudita, que na altura era o principal produtor de petróleo do mundo, para garantir que o petróleo fosse negociado exclusivamente em dólares, o que assegura a procura global pelo dólar. Parece que o Irão compreende claramente a importância disto para a hegemonia dos EUA, a importância do sistema do dólar e do petrodólar, porque o Irão o tem visado diretamente.

    O Irão fechou o Estreito de Ormuz e está a exigir que os países que por lá passam negociem o petróleo em yuan chinês.

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    Além disso, tem havido relatos de que as forças armadas iranianas estão a visar não só as bases militares dos EUA na região, mas também os escritórios de grandes corporações americanas, incluindo instituições financeiras dos EUA e empresas de tecnologia de ponta, que têm vindo a construir grandes centros de dados de IA em locais como os Emirados Árabes Unidos.

    Por isso, penso que o Irão compreende o quão crítico é o elemento económico nesta guerra. Quer falar mais sobre isso?

    MICHAEL HUDSON: Sim, os planos dos Estados Unidos para controlar militarmente o Médio Oriente não se baseavam na sua própria ação bélica, porque os Estados Unidos estavam exaustos pela Guerra do Vietname — lembre-se, em meados da década de 1970.

    Os EUA têm tido dois exércitos aliados a combater no Médio Oriente.

    Em primeiro lugar, Israel é um exército aliado. Já no início da década de 1970, foi feito um acordo — e Herman Kahn, do Instituto Hudson, desempenhou um papel importante nisso. Foi feito um acordo com o senador Henry "Scoop" Jackson, um dos principais senadores pró-militares da América, para que ele concordasse em usar Israel como exército proxy dos Estados Unidos.

    BEN NORTON: Isto foi explicitado de forma célebre por Joe Biden, quando era senador. Biden proferiu um discurso no qual afirmou: "Israel é o melhor investimento que fazemos".

    JOE BIDEN: (Em 1986) Se não existisse um Israel, os Estados Unidos da América teriam de inventar um Israel para proteger os seus interesses na região. Os Estados Unidos teriam de sair e inventar um Israel.

    (Em 2022) Tenho dito frequentemente, Sr. Presidente, que se não existisse um Israel, teríamos de inventar um.

    (Em 2023) Há muito que digo que, se Israel não existisse, teríamos de o inventar.

    MICHAEL HUDSON: Sim, isto era muito evidente naquela altura.

    Bem, mais tarde, após o 11 de setembro, e depois de o Presidente Carter ter apoiado os [Mujahideen] no Afeganistão, como alternativa ao regime laico que ali existia, surgiu a Al-Qaeda como um exército terrorista wahhabi.

    E os wahhabis são a segunda força que a América utilizou.

    Mencionou a Síria. Claro, a Síria tem lá a liderança do ISIS, os terroristas. E eles estão ocupados a assassinar todos os que não são sunitas. Estão a matar os alauítas; estão a matar os cristãos. São basicamente os decapitadores.

    Portanto, estes são os dois exércitos proxy dos Estados Unidos [Israel e os wahhabitas].

    Bem, o que tornou tudo isto urgente neste momento? Em primeiro lugar, tivemos os wahhabitas a trabalhar, nos últimos 10 anos, de mãos dadas com Israel. O único grupo não sunita que eles não atacaram foi Israel. Têm trabalhado de mãos dadas, em conjunto.

    Bem, o que forçou a mão dos militares em Israel foi o ataque de Israel a Gaza, e a resposta do Líbano, a guerra civil de resistência que se espalhou por todo o Médio Oriente; e a crítica mundial ao genocídio [de Gaza] que se viu por parte das Nações Unidas e do Tribunal Penal Internacional.

    Portanto, tudo isto forçou a mão [dos EUA e de Israel], levando-os a perguntar:   "Bem, vamos ter uma tomada de poder?"

    Israel está agora a tentar tomar o controlo do Líbano. Suponho que os israelenses vão precisar de um lugar para onde se deslocarem, se o Irão for bem-sucedido em, de certa forma, destruir as bases económicas do Estado israelense.

    Este é o contexto militar de tudo isto, e é o contexto financeiro.

    Quero mencionar novamente o controlo dos petrodólares a que se referiu.

    Não se tratava apenas de fixar o preço do petróleo em dólares. Todos, todos os países, fixavam o preço das exportações de cobre, de tudo, em dólares, porque essa ainda era a moeda principal.

    Quase sem perceberem, em vez de os países manterem as suas reservas internacionais na forma de ouro e de dólares americanos que valiam tanto quanto o ouro, mesmo quando o dólar já não valia tanto quanto o ouro, continuaram a negociar em dólares americanos.

    Bem, a questão era: onde é que esses dólares iam ser investidos?

    De acordo com as regras de Kissinger — e tudo isto me foi explicado pelo Tesouro e pelo Departamento de Estado, em 1974 e 1975 — as forças armadas dos EUA disseram à Arábia Saudita e a outros países da OPEP:   "Podem cobrar o que quiserem pelo petróleo, mas têm de usar o excedente para investir nos Estados Unidos. Não vamos deixar que comprem o controlo de nenhuma grande empresa americana. Não podem comprar empresas americanas; só nós podemos comprar o controlo de economias estrangeiras. Vão comprar obrigações. Podem financiar a indústria americana e as empresas americanas. Podem comprar ações nessas empresas. Podem ganhar dinheiro simplesmente depositando o vosso dinheiro nos bancos".

    Estes eram os petrodólares. Os petrodólares eram as poupanças dos países da OPEP investidas nos bancos.

    Bem, esta reciclagem dos excedentes da OPEP já não é tão importante como era na década de 1970. Na década de 1970, estes petrodólares entraram nos bancos dos EUA. E o que é que eles iam fazer com eles? Emprestaram-nos aos países do Sul Global, para financiar os seus défices comerciais, os seus défices da balança de pagamentos. E isto acabou por provocar um colapso das dívidas externas em dólares da América Latina, e de outras dívidas. E mais tarde conduziu à crise asiática de 1998, a qual penso que vai ser um modelo paradigmático para o que vai acontecer no resto deste ano.

    Mas agora a Arábia Saudita e os outros países têm, nos últimos 10 ou 20 anos, usado os seus ganhos de exportação para construir as suas próprias economias de formas um tanto loucas, construindo enormes empreendimentos imobiliários de luxo no deserto, com enormes instalações de dessalinização para fornecer água para tudo isso internamente. Mas eles ainda têm enormes poupanças em títulos, ações e poupanças financeiras nos Estados Unidos.

    Agora que os países da OPEP estão impedidos de obter ganhos de exportação, anunciaram:   "Bem, na verdade, alavancámos a nossa própria economia com dívida. Por mais ricos que sejamos, os nossos projetos imobiliários e os nossos investimentos são financiados por dívida, e temos de começar a vender as nossas participações em títulos dos EUA e ouro, a fim de manter os nossos orçamentos internos e a balança de pagamentos em equilíbrio".

    Assim, tudo isto está agora a conduzir a uma venda massiva de dólares. E isto inverteu o que era todo o petrodólar, todo o afluxo de dinheiro da OPEP para a moeda, do petróleo para os dólares. Agora, isto está a tornar-se uma drenagem de dólares.

    Portanto, essa é outra ameaça.

    O Irão afirmou: "Esta é uma mudança de fase. Vamos agora controlar para sempre o Estreito de Ormuz no Golfo Pérsico [NR]. É por isso que se chama Golfo Pérsico, porque é nosso. E vamos controlar o comércio de petróleo".

    E isso significa que, em vez dos planos dos Estados Unidos de usar o petróleo como um ponto de estrangulamento sobre outros países para forçar o seu cumprimento da política externa americana, é agora o Irão que controla este ponto de estrangulamento, e pode impor sanções aos EUA e aos seus aliados, sanções a Israel, sanções aos europeus ou a quaisquer outros aliados dos Estados Unidos.

    Assim, virou o jogo em relação a toda a tentativa dos EUA de usar o petróleo como meio de controlo.

    Agora, o que está em causa é o Irão ser capaz de alcançar aquilo em que os Estados Unidos basearam toda a sua política externa:   o controlo das receitas internacionais provenientes das exportações de petróleo.

    E a determinação de quem poderá comprar este petróleo, gás natural e hélio — estas três coisas — e também, ao controlar o Estreito de Ormuz, controla o transporte marítimo de alimentos e outros materiais para os países da OPEP, assim, tem um ponto de estrangulamento sobre os países da OPEP, bem como sobre os utilizadores estrangeiros de petróleo.

    BEN NORTON: Sim, Michael, quero falar mais sobre o elemento energético aqui.

    A Agência Internacional de Energia referiu-se à crise energética que estamos a assistir agora como o maior choque de abastecimento de petróleo da história mundial.

    É maior do que a crise do petróleo causada pelo embargo da OPEP de 1973, que também esteve relacionada com uma guerra de agressão israelense.

    E depois, em 1979, com a revolução iraniana, houve outra crise do petróleo.

    Mas hoje estamos a assistir à maior crise do petróleo da história.

    O preço do crude disparou, e isto vai alimentar a inflação em todo o mundo, porque, claro, o petróleo é um insumo crucial em muitos outros produtos, e o petróleo é necessário para transportar a maioria das mercadorias, especialmente alimentos.

    Além disso, muitos fertilizantes e produtos químicos utilizados nos fertilizantes vêm do Golfo Pérsico. Portanto, isto poderá provavelmente criar uma crise alimentar, que irá afetar especialmente o Sul Global.

    É claro que os países exportadores de petróleo poderiam potencialmente beneficiar de receitas mais elevadas — embora no Golfo grande parte da infraestrutura de petróleo e gás tenha sido danificada por esta guerra. Assim, alguns destes regimes do Golfo poderão não vir a usufruir de alguns dos benefícios do aumento das receitas de exportação.

    Mas a maioria dos países do Sul Global importa petróleo, energia e outras matérias-primas. E à medida que o preço dessas matérias-primas aumenta, isso irá também constituir um entrave significativo para as suas economias.

    É provável que isso conduza a défices da balança corrente. E isso significa que, no Sul Global, muitas das suas moedas vão começar a desvalorizar-se face ao dólar, o que provavelmente levará a saídas de capital — sabe, o chamado "dinheiro quente", à medida que os investidores estrangeiros vendem todas as suas participações nos mercados emergentes.

    Assim, poderemos assistir a crises monetárias, crises económicas, crises energéticas e crises alimentares.

    Esta guerra por opção, esta guerra de agressão, que Trump e Netanyahu iniciaram, poderá causar uma enorme crise económica que afetará especialmente o Sul Global. Vê as coisas da mesma forma?

    MICHAEL HUDSON: Sim, e tudo isto estava previsto.

    Em primeiro lugar, se quiser ver um paradigma, um modelo do que vai acontecer, veja o que aconteceu à indústria alemã depois de os Estados Unidos e a Europa terem imposto sanções à compra de gás e petróleo russos.

    A indústria alemã entrou em colapso, e a Europa e a Alemanha estão agora a sofrer uma depressão. Estão a caminho de uma grande depressão.

    O que aconteceu na Alemanha destruiu a sua economia e levou ao encerramento da sua indústria química.

    O petróleo não serve apenas para energia. O petróleo também é para a química, como você apontou. E para a indústria do vidro e dos fertilizantes.

    Bem, os fertilizantes são especialmente importantes neste momento, porque [os nitrogenados] são feitos de gás natural. E quando o Irão bombardeou o Catar, o Catar era o principal exportador de gás natural liquefeito.

    Este gás natural era o que fornecia fertilizantes a outros países, especialmente aos aliados dos Estados Unidos: Japão, Coreia, Filipinas. Todos eles estão em crise.

    E o hélio, juntamente com o gás natural — o facto de o hélio agora não estar disponível para, digamos, Taiwan, e a sua indústria de semicondutores, e a eletricidade. O petróleo não está disponível para Taiwan.

    Como é que Taiwan vai fabricar os semicondutores que supostamente são a chave para o controlo da tecnologia da informação dos Estados Unidos, para todos os chips de computador e monopólios que esperava ter? Portanto, tudo isto tem um alcance muito vasto.

    Além disso, no hemisfério norte, estamos prestes a entrar, na época do plantio. E a época do plantio requer fertilizantes.

    Bem, o preço dos fertilizantes, produzidos em grande parte a partir de gás, já está a subir nos Estados Unidos. Isso está a pressionar as explorações agrícolas. E os agricultores na América afirmam, o que tenho a certeza de que os agricultores em toda a Europa e nos países do Sul Global também estão a passar:   “Não conseguimos ter lucro vendendo as nossas colheitas aos preços atuais, se tivermos de pagar tanto pelos fertilizantes e pelos equipamentos agrícolas aos quais o Trump impôs tarifas acabaremos por perder dinheiro ao produzir colheitas”.

    Então, o que irão eles fazer?

    Isto está a provocar uma crise agrícola. Obviamente, os países que ficarão mais prejudicados são aqueles que menos podem arcar com os preços mais altos dos fertilizantes, do gás e do petróleo. Estes são os países do Sul Global.

    Porque, além de terem de pagar pelo petróleo e gás, e seus derivados, têm de pagar as suas dívidas externas em dólares, que estão a vencer. Algo tem de ceder.

    Haverá incumprimentos financeiros. Outros países vão dizer:   "O que vamos fazer? Vamos fazer o que a Europa fez, dizendo:   bem, há uma crise orçamental, os nossos preços do petróleo estão a subir. Temos de subsidiar os proprietários, para que possam aquecer os seus apartamentos com gás ou com petróleo. A nossa classe trabalhadora já vive no limite, a endividar-se cada vez mais. Perderemos as eleições na Europa, tal como na América, se os consumidores tiverem de gastar muito mais dinheiro em petróleo, gás, aquecimento dos seus apartamentos e nas suas contas de eletricidade, caso entrem em incumprimento. Por isso, vamos ter de cortar todas as outras despesas sociais, enquanto aumentamos as nossas despesas militares".

    Isto vai conduzir a uma crise política, entre sentimentos pró-guerra e anti-guerra, pró-EUA e anti-EUA, desde a Europa até aos países do Sul Global e aos países asiáticos que são aliados dos Estados Unidos.

    Como é que a Coreia e o Japão vão pagar os 350 mil milhões de dólares que o parlamento coreano afirmou ter acabado de aprovar, dizendo:   “Vamos pagar 350 mil milhões de dólares a Donald Trump para que ele os utilize, a seu critério, para que não percamos o mercado de exportação dos EUA para os nossos produtos”.

    E o Japão prometeu 650 mil milhões de dólares. Como é que eles poderão fazer isto se não têm o gás e o petróleo de que precisam para fazer as exportações para os Estados Unidos?

    Alguém por lá deve estar a pensar: "Bem, se não temos petróleo e gás, não vamos ter exportações para os Estados Unidos. Portanto, não temos de dar aos Estados Unidos os 350 mil milhões de dólares da Coreia e os 650 mil milhões de dólares do Japão".

    Todos os acordos feitos por Trump serão desfeitos.

    BEN NORTON: Bem, Michael, acho que essa é uma nota perfeita para encerrar. Obrigado por se juntar a mim. Infelizmente, parece que esta guerra vai continuar, mas tenho a certeza de que o convidarei novamente em breve para falar mais sobre as implicações globais deste conflito. Muito obrigado.

    MICHAEL HUDSON: Estou ansioso por isso. Obrigado pelo convite.

    [NR] A proposta iraniana é que o controle seja feito em conjunto com o Oman.

    31/Março/2026

    Vídeo desta entrevista:
  • www.youtube.com/watch?v=kocFwbTbs1Q
  • Ver também:
  • Strait of Hormuz disruptions: Growth and financial implications, Documento da UNCTAD, 01/Abr/26
  • [*] Economista.

    O original encontra-se em michael-hudson.com/2026/03/the-oil-shock-that-could-break-the-global-financial-system/

    Esta entrevista encontra-se em resistir.info
    Comentários em https://t.me/resistir_info