terça-feira, 16 de março de 2021

Yanis Varoufakis, sobre a destruição da democracia, na Europa e no resto do mundo

Do El País.


O ex-ministro das Finanças grego acredita que não estamos mais no capitalismo, mas em um tecnofeudalismo mais próprio de uma distopia

Yanis Varoufakis fotografado em sua casa, em Atenas, no dia 8 de março de 2021.
Yanis Varoufakis fotografado em sua casa, em Atenas, no dia 8 de março de 2021.Georgios Makkas / EL PAÍS
 
Berna González Harbour

Ministro, ativista, político, economista, professor, ensaísta de sucesso e hoje, em uma nova reviravolta que adiciona uma nova camada à sua figura carismática e contestatária, Yanis Varoufakis se tornou romancista. Provavelmente nunca um ministro das finanças tão breve ―ocupou o cargo entre janeiro e julho de 2015, na fase mais dramática da Grécia contemporânea― durou tanto tempo no imaginário da opinião pública, mas aí está de novo, com sua estética de camiseta, jovialidade e muito humor, tentando cavalgar um movimento internacional de esquerda e com seu romance, Otra Realidad (ainda sem edição no Brasil), prestes a ser publicado na Espanha. Conversou com o EL PAÍS por videoconferência de Atenas, onde é um dos nove deputados de seu pequeno partido, MeRA25.

 

Pergunta. Seu livro cria uma realidade alternativa que nasce para ser escrava do mundo e não o contrário. Somos escravos?

Resposta. Sim e não. A essência humana é que sempre temos a capacidade de nos libertar, mesmo que estejamos no meio da pior escravidão, e isso não pode ser destruído por nenhum tipo de autoritarismo. Se agora que completo 60 anos continuo sendo marxista e Marx segue me importando, é por causa de sua descrição do capitalismo. Ao contrário dos comunistas que o seguiram, ele era um verdadeiro liberal e o que lhe interessava é que o capitalismo simultaneamente nos libertava e nos escravizava. Nos liberta porque cria uma maquinaria que trabalha para nós, mas que acabamos alimentando e nos escraviza. Por exemplo, o Google hoje nos liberta da estupidez porque temos acesso a todas as informações do mundo, mas ao mesmo tempo nos escraviza porque alimentamos sua maquinaria publicitária sem perceber.

P. Então continua a se definir como um marxista. A palavra ainda serve?

R. Sempre me defini como marxista libertário, estranho, inconsistente, no sentido de que discordo de mim mesmo, como Marx. Sem ele, eu não entenderia o capitalismo nem os mercados.


P. Como interpreta a crise provocada pela pandemia?

R. Não é uma nova crise. O verdadeiro começo foi a crise financeira de 2008, que foi o 1929 da nossa geração. Sabemos o que 1929 provocou em todo o mundo até desembocar na Segunda Guerra Mundial e ambos são muito semelhantes. A única diferença é que em 2008 os bancos centrais injetaram uma grande quantidade de dinheiro para salvar os bancos privados e esse dinheiro criou uma espécie de capitalismo de Estado, um feudalismo de Estado que chamo de tecnofeudalismo e que consiste em aplicar austeridade para as massas e ao mesmo tempo muito dinheiro do Estado, ou seja, socialismo, para os banqueiros e as corporações. E nisso veio o covid-19. E o que os Governos fizeram? Mais do mesmo: mais dinheiro do Banco Central para o setor financeiro e um pouco de ajuda à população para se manter, não para empoderar os que não têm poder. Portanto, a pandemia vai ser uma extensão e um aprofundamento do que aconteceu nos últimos 12 anos.

P. Não acredita que a reação da UE hoje foi mais rápida e proativa do que em 2008?

R. Melhoraram na propaganda em comparação com aqueles dias malucos de 2010. Mas quando você vai para a realidade, encontra fumaça, miragens, ar. Em março, Sánchez, Mitsotakis e Macron pediram o eurobond, a união fiscal efetiva e uma dívida europeia. Mas Merkel disse nein, como em 2010 e o resultado são fundos de recuperação, que são como fundos estruturais reforçados, e já sabemos para onde estão indo, para as grandes empresas, grandes corporações, enquanto as pequenas empresas, as médias empresas, os jovens e os desempregados não conseguirão nada.

P. Talvez trabalho?

R. Alguns sim, mas macroeconomicamente é insignificante. Por não termos união fiscal, deixamos a distribuição desse dinheiro aos Governos e isso gera corrupção, mais toxicidade entre holandeses, alemães, gregos, espanhóis... Fomos apontados com o dedo: olhem o que fizeram com o dinheiro que demos a vocês. Não é uma boa receita para unir os europeus.

P. Qual é a sua solução para a Europa?

R. Para criar uma união, você precisa de um Tesouro comum, uma dívida comum, um parlamento real e um verdadeiro Governo federal que você possa destituir, não uma Ursula von der Leyen que ninguém pode destituir e que ninguém nomeou, exceto Merkel e Macron. As pessoas dizem que a UE tem um déficit democrático, mas não é esse o caso, o que ela tem exatamente é zero democracia. É uma zona sem democracia. Se digo que há déficit de oxigênio na Lua, não é verdade, não há déficit de oxigênio na Lua, simplesmente não há oxigênio. E digo isso como europeísta, quero democratizar a UE.

P. Acredita que o euro ainda está em risco?

R. Absolutamente. Não é sustentável. A Europa é rica, mas temos um sistema insustentável que é mantido porque existe uma vontade política muito forte para isso. A cada dia que passa a riqueza europeia diminui, estamos desperdiçando-a e criando mais tensões. Depois da pandemia teremos mais diferenças: auge do Vox na Espanha; os holandeses olhando para os espanhóis ou gregos com maior receio; Hungria, Polônia e República Tcheca cada vez mais direitistas, racistas e antieuropeias, mais abertas a Putin e à democracia iliberal. As forças centrífugas ficam mais fortes. Vamos sair desta pandemia mais desiguais ainda do que entramos.

P. Quem está se saindo melhor no mundo?

R. A China, claramente. Sou democrata e liberal, sou marxista libertário e se estivesse na China estaria preso, sejamos claros, é um regime muito autoritário e cada vez mais. Mas eles são muito bons em administrar seus assuntos. O segredismo e a opacidade do regime fizeram a princípio com que a pandemia se alastrasse, mas uma vez que reagiram fecharam tudo e erradicaram, criaram seus hospitais, sua vacina, enquanto a Sanofi na França ou o Instituto Pasteur, que têm séculos de experiência, não tiveram sucesso. Conseguiram direcionar o investimento. A educação na China é próspera, produzem engenheiros, especialistas em línguas, inteligência artificial, fazem pesquisas que nós não fazemos na Europa, tecnologia de baterias... Estão a anos-luz de distância da Europa porque estão investindo. E também estamos atrás dos Estados Unidos, que é um país de grande desigualdade, mas com espaços em Seattle, Texas ou em Silicon Valley, onde muito dinheiro é investido no futuro.

P. As grandes empresas de tecnologia nos proletarizam, diz em seu livro.

R. Os gigantes da tecnologia conseguiram expandir a força de trabalho, transformando cada usuário em um trabalhador grátis. Diante de uma montadora, por exemplo, no Google, Facebook, Apple e Amazon, a maior parte da produção de capital é realizada pelos consumidores. Cada vez que saímos com o telefone, o Google atualiza seus mapas e os torna mais úteis. Você ganha um produto grátis, é claro, mapas ou o que for, mas eles captam sua atenção e vendem seus dados para os anunciantes, então nos transformaram em proletários sem sequer pagar. É uma grande mudança na divisão do trabalho. Somos todos produtores de capital e apenas uma pequena parte recebe um salário. Quando você entra no Facebook ou na Amazon, você sai do capitalismo. Senti isso fisicamente quando visitei o Google. Você entra em uma empresa mais próxima da União Soviética: há uma estética, um politburo, uma ideologia. Há uma KGB no Google ―muito amável, muito agradável, mas existe uma política sobre o que você pode dizer e o que não pode. É como uma ficção científica, como se você estivesse andando na rua e tudo fosse propriedade de só uma pessoa. Se ela não quiser que você veja algo, você não verá. E se a empresa quiser que você veja, você verá. Essa é a vida no Facebook, na Amazon, no Google. Isso não é competição, isso não é capitalismo, isso é feudalismo, uma forma distópica de ficção científica de feudalismo de alta tecnologia. Não estamos mais no capitalismo, temos que encontrar outra palavra e eu chamo de tecnofeudalismo.

P. Os setores de tecnologia e saúde se beneficiaram com a pandemia. Quais são os riscos?

R. Existe uma grande concentração de poder. As três empresas que estão produzindo as vacinas têm capacidade para extrair enormes somas de dinheiro da humanidade. Foram capazes de produzir as vacinas tão rapidamente porque Trump deu a elas 10 bilhões de dólares (cerca de 55,5 bilhões de reais) e, no entanto, não devolverão nada. Estão usando dinheiro do Estado para criar uma imensa capacidade para extrair dinheiro do resto do mundo. Quando a vacina contra a poliomielite foi inventada, na década de cinquenta, a patente foi dada ao mundo porque crianças estavam morrendo. Hoje isso não está acontecendo. Portanto, as grandes empresas de tecnologia, saúde e a indústria de defesa estão ganhando mais poder sobre o resto da população do que ninguém teve na história da humanidade. E seus interesses não são os mesmos do resto da humanidade. Há uma guerra entre os interesses dos mais fortes e os da maioria.

P. Tem alguma relação com Tsipras [primeiro-ministro da Grécia com o Syriza, a coalizão de esquerda radical]?

R. Zero. O povo grego nos deu um mandato para dizer não à troika e ele se rendeu na noite do referendo. Foi por isso que pedi demissão, ele se rendeu e o resultado foi a perda total da dignidade e da credibilidade da esquerda, não só na Grécia, mas em toda a Europa. O Podemos também acabou naquela noite. Rajoy [ex-presidente da Espanha] saiu com o papel que Tsipras assinou e disse: isso é o que vocês conseguirão se votarem no Syriza espanhol e foi o fim do Podemos. Naquela noite aconteceu um fracasso da democracia. Então, minha relação é zero.

P. E com o Podemos?

R. Acredito que a participação do Podemos no Governo de Sánchez é um erro. E antes disso foi um erro não ter um programa europeu. Tentei convencê-los antes das eleições para o Parlamento Europeu de 2019 de que a direita tem um programa para a Europa, os fascistas têm um programa para a Europa. Mas o Podemos nunca se interessou.

P. O ex-banqueiro central que a Grécia enfrentou, Draghi, está hoje no comando da Itália. É uma solução?

R. É uma solução para o setor bancário, para a troika, para garantir que a democracia está formalmente acabada na Itália. Quando o processo político não pode produzir um primeiro-ministro e você precisa de um ex-tecnocrata do Goldman Sachs, do Banco Central Europeu, para resolver os problemas que os políticos não podem resolver, você está declarando que a democracia fracassou, é a melhor notícia para o Partido Comunista Chinês, porque também não acreditam na democracia, mas sim nos tecnocratas a serviço do povo, mas sem as preocupações do povo. Draghi contratou a consultoria McKinsey para distribuir os fundos de recuperação na Itália, então você já tem o Tesouro nas mãos do Goldman Sachs, os fundos de recuperação nas mãos da McKinsey e o próximo passo pode ser dar à máfia o Ministério da Justiça porque entendem de lei muito mais do que eu. É um fracasso total da democracia na Itália.

 

quarta-feira, 10 de março de 2021

ARGENTINA HOJE, BRASIL AMANHÃ?

Do Brasil 247 de dias atrás. Mas é bem oportuno ver este artigo hoje, quando tiram restrições do direito de Lula de fazer o que sabe. Quem sabe mais adiante será possível fazer os corruptos do judiciário de alguma forma pagarem por seus crimes.

(Foto: Reuters UK)
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A notícia do depoimento público da vice-presidenta, via zoom, no Tribunal Federal de Cassação Penal, na chamada “Causa do dólar futuro” criou um terremoto no Poder Judicial na Argentina e merece um destaque pela sua importância política para o país, para a região e para o mundo. Conheça na íntegra sua intervenção completa; além de ser uma aula magistral de formação sobre os mecanismos nefastos do conluio entre Justiça e Meios de comunicação no chamado lawfare, sua declaração judicial é um fato político de relevância histórica.


Cristina Kirchner pediu para fazer sua declaração presencial, oral e pública,  nesta causa no Tribunal de Cassação Penal. Dado que foi renegado o pedido e decidido realizar-se virtualmente por zoom, insistiu e conseguiu que a audiência fosse pública e televisionada. A transmissão em direto, por vários canais de TV, em plena semana, na manhã de 5a. feira, teve uma repercussão bombástica, considerando o horário: uma audiência de mais de 1 milhão de pessoas. Grande entusiasmo, particularmente nos círculos progressistas, militantes, redes e meios independentes. Como dito pelo sociólogo Emir Sader no seu artigo no Brasil247, “a declaração da vice-presidenta, Cristina Kirchner, destroça o lawfare e o judiciário argentino”.

Trata-se da audiência pública de uma das maiores líderes de massas na Argentina, à altura de Eva Peron; ex-presidenta por duas gestões seguidas, agora vice-presidenta junto a Alberto Fernandez na Frente de Todos, e presidenta do Senado da República, perseguida por mais de 10 causas sem provas, incluindo esta em questão, a “Causa do dólar futuro”, arrastada sem provas de delito por 5 anos desde 2015, promovida por juízes e procuradores corruptos, cúmplices da casta econômica de Macri e dos poderes midiáticos (Clarin/La Nación), para manter vivo o esquema político denigratório do “lawfare” contra ela, contra lideranças políticas do kirchnerismo, e da esquerda e governos progressistas da década passada na América Latina. Nada alheio ao que vivemos no Brasil na perseguição judicial-midiática contra Lula e Dilma, com consequências políticas nefastas ao povo brasileiro conduzido à trágica ascensão do bolsonarismo no Brasil.

A coragem militante e inteligência política de Cristina Kirchner, somaram-se à sua experiência de estadista e advogada de formação. Numa brilhante declaração em audiência pública, tida como uma aula magistral de direito e política, não poupou palavras; fez o feitiço voltar-se contra o feiticeiro. De acusada passou a ser acusadora. Os juízes foram colocados, com nome e sobrenome, no banco dos réus. Cristina provou que quem se beneficiou com o dólar futuro, foram Macri, seus funcionários de governo e os seus nomeados diretores do Banco Central, que desvalorizaram bruscamente a moeda nacional, e usufruíram desta ação. Inflados pelo show midiático mentiroso do Clarin/La Nación, acusaram de administração fraudulenta à ex-presidenta Cristina Kirchner, seu ex-ministro da Economia Axel Kicilloff (que enfrentou os Fundos Abutres de Nova Iorque), e seus ex-diretores do Banco Central, dias antes do 2o. turno das eleições de 2015; desta forma, com o fraude político, Macri venceu ao candidato da Frente para a Vitória, Daniel Scioli, e ao assumir o governo, possibilitou a subida brusca do dólar (a taxa de cambio era controlada no governo kirchnerista), favorecendo o enriquecimento ilícito próprio, de compradores amigos e altos financistas do governo macrista, com a cumplicidade de juízes e donos dos grandes meios de comunicação. Como explica Cristina Kirchner, as decisões dos juízes, com a participação ativa do famoso juiz Bonadio, o Moro argentino, terminaram dando vitória eleitoral a Macri, afetando, consequentemente,  o bem estar, o patrimônio e a vida das pessoas; a cumplicidade do Poder Judicial levou ao empobrecimento e o retorno ao endividamento impagável com o FMI (2016/2019), que já havia sido superado pelos governos kirchneristas. Isso é lawfare.


A manobra destes agentes do lawfare na Argentina, consiste em arrastar esta causa (como as outras) por muito tempo para desengavetá-la à medida da necessidade política do poder financeiro concentrado, acionando o show midiático; antes, serviu para por o Macri no poder; agora, para desacreditar o governo da Frente de Todos de Alberto/Cristina. A primeira audiência para o depoimento de Cristina no passado coincidiu, propositalmente, com um dia pessoalmente emotivo para a ex-presidenta, e histórico de mobilizações para o povo pelo aniversário da morte de Néstor Kirchner. Recentemente, esta última audiência foi convocada pelo Tribunal para o dia 1 de março, dia do discurso de abertura do presidente Alberto no Congresso da Nação; data em que, institucionalmente, toca à vice-presidenta abrir a sessão. O Tribunal de Cassação Penal teve que corrigir a manobra e realizá-la 3 dias depois.


Mas, Cristina Kirchner, deu um xeque-mate, ou a primeira rodada da Reforma e da luta Judicial anunciada por Alberto Fernandez na abertura do Congresso; um verdadeiro nocaute ao poder Judicial, desnudando-o como corrupto e cúmplice da entrega da soberania de uma nação. Não fez uma defesa de si mesma, mas do sistema democrático de justiça, da República, e dos interesses do povo argentino, a verdadeira vítima deste saqueio imoral dos fundos públicos produto do lawfare. O lawfare visa essencialmente um golpe econômico-finaceiro internacional. A força da convicção de Cristina estava nas suas palavras e no seu dedo apontado, via zoom, diretamente aos juízes, aos promotores e aos meios hegemônicos de comunicação. 

Responsabilizou-os, emocionada ao borde das lágrimas, pelo estado de pobreza e endividamente a que o país foi reduzido, a ponto de não se poder dar uma aposentadoria digna aos idosos, hoje vítima fatal da pandemia. Apontou a situação antidemocrática de impunidade dos juízes, livres do controle popular a que são submetidos os membros dos poderes Executivo e Legislativo. Nos últimos anos do seu governo, Cristina Kirchner defendeu um projeto de democratização da Justiça onde o Conselho eleitor dos juízes fosse baseado no voto popular. E continua batalhando, porque existe uma Milagro Salas, ainda presa (há mais de 5 anos), e inclusive, tantas vítimas de femicídios diante de uma “Justiça” parcial, incompetente ou morosa. As mulheres as estarão recordando neste 8 de março.
A declaração pública ao vivo, de Cristina Kirchner, foi um ato político histórico. Muitos argentinos dizem, cheios de esperança que, com isto, ela “marcou um antes e um depois”. É o início do fim político do lawfare, que poderá estimular a derrubada do dominó que se estende ao Brasil, onde a Lava Jato resiste a despencar-se definitivamente e restabelecer a liberdade e os direitos políticos do ex-presidente Lula. O fato é que, como no Brasil, muitos autores ou defensores da Lava Jato já pensam em pular fora do barco. Na Argentina, com o nocaute que deu Cristina nesta causa de lawfare, os seus promotores já estão no banco dos réus. Fala-se na hipótese de que a causa de dólar futuro seja arquivada ou anulada. Mas, Cristina Kirchner pretende ir a fundo; não aceita a anulação e faz questão de provar a sua inocência e do seu governo num Tribunal Oral e público. Desta forma, os acusadores, transformados em acusados, poderão ser condenados.

Outra importância deste ato de Cristina Kirchner é que num golpe só, de 48 minutos ao vivo, evidenciou vários problemas. O judicial, o político, mas também o midiático. Ao mesmo tempo que criticou, deu um exemplo de como há que fazer. Foi uma flor de lição comunicacional. Algo que sempre fez durante o seu governo, nos balcões internos da Casa Rosada, na TV Pública e nas cadeias nacionais de TV-Rádio: comunicar diretamente aos cidadãos seus atos e medidas de governo. Nesta 5a. feira, desde o Tribunal de Cassação virtual, a vice-presidenta de Alberto Fernandez, renasceu como aquela estadista dos balcões da Casa Rosada que construiu consciência, sobretudo da juventude; deu uma aula magistral de política e voltou a falar com o povo inclusive dando uma força necessária em tempos duros de Pandemia. Isso, sem fazer perder o brilho do presidente, ao contrário, reforçando a confiança de que o povo argentino conta com dois brilhantes mandatários, um homem e uma mulher, unidos e sintonizados na direção do país.

Axel Kicillof, ex-ministro da economia e atual governador da Provincia de Buenos Aires (FdT) também fez sua declaração por zoom, numa precisa defesa técnica, provando que não cometeram nenhum delito. Acusaram que no seu governo o  Estado perdeu 55 bilhões de pesos; mas ficou evidente que Macri, sim, fez manobras para receber 44 bilhões de pesos para sua campanha eleitoral, eleger-se, e voltar a deixar uma estrondosa dívida com o FMI de 44 bilhões de dólares ao atual governo de Frente de Todos.  Cristina chama a limpar já este sistema de Justiça corrupto para romper definitivamente este ciclo, onde a cada 20 anos, se cai no default, se desendivida o país (como fizeram Néstor/Cristina Kirchner, e lutam  por fazer agora Alberto/Guzmán), e em seguida retornam novamente outros abutres com o lawfare, para voltar a arrasar o país. Nunca mais!

As forças populares de apoio a Lula, Dilma, Rafael Correa, Evo Morales e Lopez Obrador acabam de receber com esta declaração fulminante de Cristina Kirchner um grande estímulo para derrotar unidos o lawfare no continente. O partido judicial-midiático na Argentina reagirá, sem dúvidas, frente a esta enorme derrota política, com mais violência midiática e provocações . O presidente Alberto Fernandez, na abertura anual do Congresso,  acabou de acionar o controle cruzado de poderes entre Parlamento e Justiça para investigar o crime de endividamente do país por parte do ex-presidente Macri.

“Podem me chamar a depor 20 vezes mais. Podem me prender, mas não vou calar. Vou estar sempre com vocês. Não vejam este fato como um ataque a uma pessoa”. São palavras de Cristina Kirchner, dirigida ao povo na saída de uma das suas tantas audiência. Recordando hoje, 8 de março, que Cristina é mulher e grande líder; teve a força como sempre, para enfrentar o poder central, protagonizar este empurrão histórico, decidida a não permitir mais semelhantes atrocidades do lawfare, com a certeza de que o povo peronista a acompanhará e seguirá bradando: “Se tocarem na Cristina, vai se armar um grande tumulto!!”.

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segunda-feira, 8 de março de 2021

A Rússia rejeitará o neoliberalismo?

 A pergunta do título, feita em agosto de 2016, no ano em que Trump seria eleito presidente nos isteites, parece que tem sido respondida de modo positivo pelo governo russo de Putin. Os esforços do império para promover a "mudança de regime" na Rússia confirmam esta hipótese. Pode ser útil examinar esse dilema quatro anos e meio depois. Pena que tenham conseguido, pelo menos por ora, tirar o B do BRICS...

 

11 de agosto de 2016

A Rússia rejeitará o neoliberalismo?

por Paul Craig Roberts - Michael Hudson

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Ververidis Vasilis | Shutterstock.com

 

 De acordo com vários relatórios, o governo russo está reconsiderando a política neoliberal que tem servido tão mal a Rússia desde o colapso da União Soviética. Se a Rússia tivesse adotado uma política econômica inteligente, sua economia estaria muito à frente de onde está hoje. Teria evitado a maior parte da fuga de capital para o Ocidente, se tivesse contado com o autofinanciamento.

 

Washington tirou proveito de um governo russo desmoralizado, que buscou orientação em Washington na era pós-soviética. Pensando que a rivalidade entre os dois países havia terminado com o colapso soviético, os russos confiaram nos conselhos americanos para modernizar sua economia com as melhores práticas ocidentais. Em vez disso, Washington abusou dessa confiança e sobrecarregou a Rússia com uma política econômica destinada a dividir os ativos econômicos da Rússia e transferir a propriedade para mãos estrangeiras. Ao enganar a Rússia para aceitar capital estrangeiro e expor o rublo à especulação monetária, Washington garantiu que os EUA pudessem desestabilizar a Rússia com saídas de capital e ataques ao valor de câmbio do rublo. Somente um governo não familiarizado com o objetivo neoconservador da hegemonia mundial dos EUA teria exposto seu sistema econômico a tal manipulação estrangeira.

 

As sanções que Washington impôs - e forçou a Europa a impor - à Rússia mostram como a economia neoliberal funciona contra a Rússia. Seu apelo por altas taxas de juros e austeridade afundou a economia russa - desnecessariamente. O rublo foi derrubado por saídas de capital, resultando no banco central neoliberal desperdiçando as reservas estrangeiras da Rússia em um esforço para apoiar o rublo, mas na verdade apoiou a fuga de capitais.

 

Até Vladimir Putin acha atraente a noção romântica de uma economia global à qual todos os países têm acesso igual. Mas os problemas decorrentes da política neoliberal obrigaram-no a recorrer à substituição de importações para tornar a economia russa menos dependente das importações. Também fez Putin perceber que, se a Rússia queria ter um pé na ordem econômica ocidental, precisava ter o outro pé na nova ordem econômica que está sendo construída com a China, a Índia e as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central.

 

A economia neoliberal prescreve uma política de dependência que depende de empréstimos e investimentos estrangeiros. Essa política cria dívida em moeda estrangeira e propriedade estrangeira dos lucros russos. Essas são vulnerabilidades perigosas para uma nação declarada por Washington como "uma ameaça existencial para os EUA".

 

O estabelecimento econômico que Washington criou para a Rússia é neoliberal. Mais notavelmente, a presidente do banco central Elvira Nabiullina, o ministro do desenvolvimento econômico Alexei Ulyukayev e os atuais e ex-ministros das finanças, Anton Siluanov e Alexei Kudrin, são neoliberais doutrinários. Essa turma queria lidar com o déficit orçamentário da Rússia vendendo ativos públicos para estrangeiros. Se realmente implementada, essa política daria a Washington mais controle sobre a economia da Rússia.

 

Oposto a essa coleção de “economistas lixo” está Sergey Glaziev. Boris Titov e Andrei Klepach são considerados seus aliados.

 

Este grupo entende que as políticas neoliberais tornam a economia da Rússia suscetível à desestabilização por Washington se os EUA quiserem punir o governo russo por não seguir a política externa de Washington. Seu objetivo é promover uma Rússia mais autossuficiente, a fim de proteger a soberania da nação e a capacidade do governo de agir em prol dos interesses nacionais da Rússia, em vez de subjugar esses interesses aos de Washington. O modelo neoliberal não é um modelo de desenvolvimento, mas puramente extrativista. Os americanos o montaram para tornar a Rússia ou outras dependências "cortadores de madeira e extratores de água" - ou, no caso da Rússia, petróleo, gás, platina e diamantes.

 

Autossuficiência significa não ser dependente de importação ou dependente de capital estrangeiro para investimentos que poderiam ser financiados pelo banco central da Rússia. Também significa manter partes estratégicas da economia em mãos públicas, não privadas. Os serviços básicos de infra-estrutura devem ser fornecidos à economia a preço de custo, subsidiados ou gratuitamente, não entregues a proprietários estrangeiros para extrair renda de monopólio. Glaziev também quer que o valor de troca do rublo seja definido pelo banco central, não por especuladores no mercado de câmbio.

 

Os economistas neoliberais não reconhecem que o desenvolvimento econômico de uma nação com dotações de recursos naturais como a da Rússia pode ser financiado pelo banco central, criando o dinheiro necessário para realizar os projetos. Eles fingem que isso seria inflacionário. Os neoliberais negam o fato há muito reconhecido de que, em termos de quantidade de dinheiro, não faz diferença se o dinheiro vem do banco central ou de bancos privados que criam dinheiro por meio de empréstimos ou do exterior. A diferença é que se o dinheiro vem de bancos privados ou do exterior, deverão ser pagos juros aos bancos, e os lucros devem ser divididos com investidores estrangeiros, que acabam ficando com algum controle sobre a economia.

 

Aparentemente, os neoliberais da Rússia são insensíveis à ameaça que Washington e seus vassalos europeus representam para o estado russo. Com base em mentiras, Washington impôs sanções econômicas à Rússia. Essa demonização política é tão fictícia quanto a propaganda econômica neoliberal. Com base nessas mentiras, Washington está construindo forças militares e bases de mísseis nas fronteiras da Rússia e em águas russas. Washington pretende derrubar as antigas províncias russas ou soviéticas e instalar regimes hostis à Rússia, como na Ucrânia e na Geórgia. A Rússia é continuamente demonizada por Washington e a OTAN. Washington até politizou os Jogos Olímpicos e impediu a participação de muitos atletas russos.

 

Apesar desses movimentos abertamente hostis contra a Rússia, os neoliberais russos ainda acreditam que as políticas econômicas que Washington insiste para Rússia são do interesse da Rússia, e não têm a intenção de obter o controle de sua economia. Vincular o destino da Rússia à hegemonia ocidental sob essas condições condenaria a soberania russa.

 

Paul Craig Roberts é ex-secretário assistente do Tesouro dos EUA e editor associado do Wall Street Journal. O livro de Roberts  How the Economy Was Lost está agora disponível na CounterPunch em formato eletrônico. Seu último livro é The Neoconservative Threat to World Order. O novo livro de Michael Hudson, Killing the Host, é publicado em formato eletrônico pela CounterPunch Books e impresso pela Islet. Ele pode ser contatado por meio de seu site, mh@michael-hudson.com

 

Badhrakumar: O excepcionalismo dos EUA surge novamente: Será que vai voar?

 Do Asia Times.

 

O retorno dos EUA ao UNHRC é parte integrante do plano do governo Biden de colocar democracia e direitos no centro de sua política externa

por MK Bhadrakumar 3 de março de 2021


O governo Biden está voltando ao superado excepcionalismo americano em sua política externa. Imagem: Flickr / Justinday

 

Em uma declaração na quarta-feira passada marcando o “retorno” dos Estados Unidos ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, o Secretário de Estado Antony Blinken revelou que o governo do presidente Joe Biden está colocando a democracia e os direitos humanos no centro da política externa americana.

 

Mas o gato está fora do saco. Os EUA estão em declínio relativo e há escassez de recursos. Falta uma visão positiva para a humanidade, pois o país luta com seus próprios demônios.

 

Os eventos dramáticos na sociedade e na política americana no passado recente expuseram o país como uma falsa democracia com um histórico abominável de racismo e desigualdade terrível, onde 0,1% da população no topo da população detém aproximadamente a mesma parcela da riqueza do país que os 90 inferiores.

 

Mas a ressurreição do excepcionalismo americano não terá quem adira, e os EUA, sem capacidade e autoridade moral para fazer avançar uma agenda unificadora na arena internacional, estão montando um kit de ferramentas para sua diplomacia, com objetivos geopolíticos.

 

O potencial do Conselho de Direitos Humanos da ONU deve ser direcionado à pandemia de Covid-19, que minou os fundamentos sociais e econômicos dos Estados. O direito humano mais fundamental - o direito à vida - foi ameaçado, com a crise econômica mundial causando um grande aumento no desemprego e agravando a insegurança social. As lacunas de desenvolvimento entre nações e regiões estão aumentando.

 

No entanto, os EUA estão em uma categoria à parte, mesmo entre os países ricos. As mortes de Covid-19 por milhão de habitantes dispararam nos EUA em comparação com seus próprios aliados. A terrível realidade é que nos Estados Unidos o número de mortos na epidemia ultrapassou 500.000.

 

Ironicamente, as mortes per capita de Covid-19 em alguns dos países que Blinken repreende pelo déficit na democracia e nos direitos humanos envergonham os EUA, incluindo Síria, Venezuela, Cuba e Sri Lanka. E, claro, a China.

 

O Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, em uma foto de arquivo. Foto: AFP

 

Mas para Blinken, um nível tão terrível de mortes entre seus compatriotas não é uma questão de direitos humanos. Nem um único funcionário estatal nos Estados Unidos foi considerado responsável por tamanha tragédia de proporções indescritíveis.

 

É suficiente dizer que os EUA estão trazendo descrédito e vergonha para todo o mundo ocidental ao conduzi-los a um jogo tão cínico, exibindo-se como campeões dos direitos humanos quando, de acordo com uma estimativa recente, mais da metade de todas as vacinas contra Covid-19 foram reservadas para um sétimo da população mundial. Não é uma questão de direitos humanos?

 

O Reino Unido sozinho garantiu vacinas suficientes para dar a cada um de seus cidadãos cinco doses. Se as ordens forem atendidas, a União Europeia e os Estados Unidos podem vacinar suas populações três vezes, enquanto o Canadá teria o suficiente para fazê-lo nove vezes. É obsceno, Sr. Blinken.

 

Ao mesmo tempo, a competição pela redução no fornecimento de vacinas pode levar a picos de preços e mais atritos. A acrimônia surgiu entre a UE, o Reino Unido e a AstraZeneca por causa de um déficit na produção de vacinas. Enquanto isso, em qualquer situação em que a oferta seja escassa e a demanda aumente, são os países mais pobres que sofrerão mais.

 

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, deu destaque quando disse na reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU  - UNHRC em 24 de fevereiro: “A pandemia exacerbou problemas antigos, como racismo e xenofobia, bem como discriminação contra minorias nacionais e religiosas. Os protestos em massa nos Estados Unidos e na Europa expuseram as contínuas desigualdades sistêmicas desses países, ao mesmo tempo em que destacaram os riscos de tolerar ideologias extremistas ”.

 

É uma falência moral absoluta que os EUA e seus ricos aliados no mundo ocidental - o chamado "bilhão de ouro" no planeta Terra - entrem no UNHRC e comecem a pontificar sobre direitos humanos e busquem abordagens coercitivas e métodos ilegais de intimidação e pressão com objetivos geopolíticos estreitos e egoístas.

 

Novamente, as políticas não transparentes das plataformas de redes sociais também não são uma questão de direitos humanos? Os EUA, em particular, assumiram compromissos para garantir a liberdade de acesso à informação para todos os cidadãos, mas agora estão se escondendo atrás de políticas corporativas para evitar cumprir esses compromissos.

 

Quanto às plataformas de redes sociais, elas começaram descaradamente a manipular a opinião pública nos países em desenvolvimento, proibindo ou censurando o conteúdo do usuário a seu próprio critério. Agora, eles estão, sob a proteção dos EUA, pisoteando os direitos humanos dos cidadãos do mundo, não estão?

 

O kit de ferramentas de direitos humanos é universalmente aplicável e não há um único país na Terra, incluindo os EUA, que não tenha um problema com democracia e direitos humanos.

 

Manifestantes marcham na Casa Branca, apoiando o protesto Black Lives Matter - mais tarde eles seriam atacados pela Guarda Nacional, para fornecer uma oportunidade de foto para o presidente Trump. Crédito: KUT

 

Não é uma vergonha aberrante que um americano negro médio viva seis anos menos do que seus compatriotas brancos? Os negros americanos não são trancados em prisões em número muito maior do que os brancos? Mas os padrões de direitos humanos dos Estados Unidos são altamente seletivos - é o "fardo do homem branco".

 

Evidentemente, o kit de ferramentas se torna uma arma potente para estigmatizar os adversários dos Estados Unidos, Rússia e China; pressionar países pequenos que não se conformam com as políticas regionais dos Estados Unidos (como Sri Lanka, Cuba ou Venezuela); ou para extrair concessões de países chantageando-os (como a Arábia Saudita).

 

O kit de ferramentas também foi usado para provocar mudanças de regime - ou seja, derrubar governos estabelecidos e substituí-los por regimes clientes. Os exemplos mais conhecidos são a Ucrânia e a Geórgia. Uma tentativa recente na Bielorrússia fracassou.

 

Um projeto experimental na Rússia nas últimas semanas foi simplesmente esmagado pelo Kremlin. Mas é uma história ainda em desenvolvimento. Os países da periferia da Rússia estão sendo sistematicamente desestabilizados e transformados em teatros de contestação geopolítica para que o grande adversário dos Estados Unidos fique preso em um atoleiro.

 

O governo Biden está usando este kit de ferramentas para tentar restabelecer a liderança transatlântica dos Estados Unidos, com a qual a Europa não está mais confortável. A Europa está experimentando os encantos ocultos da "autonomia estratégica".

 

Mas os EUA também não podem esperar exercer a hegemonia global sem o apoio do sistema de alianças ocidental. Neste jogo de sombras, Biden estima que a plataforma de direitos humanos tem a melhor chance de trazer os aliados ocidentais dos Estados Unidos a bordo sob sua liderança.

 

O retorno dos EUA ao UNHRC não decorre de nobres intenções. É devido principalmente à preocupação com a crescente influência da China no órgão da ONU durante a ausência dos EUA nos anos mais recentes. Especificamente, a China passou por cima dos Estados Unidos ao colocar a pandemia sob controle, e isso a tornou um problema.

 

Da mesma forma, a posição da China sobre os direitos humanos tem ressonância crescente entre os países em desenvolvimento - que os direitos humanos devem ser relativos à situação dos países em desenvolvimento; que o conceito de direitos humanos deve ser diversificado, visto que não existe uma abordagem única para o desenvolvimento dos direitos humanos; e que os países não devem exportar seu próprio modelo ou usar questões de direitos humanos para interferir nos assuntos internos de outros países.

 

Na verdade, o conceito ocidental de direitos humanos, estritamente focado na liberdade de expressão ou religião e eleições democráticas, tende a ignorar que o direito básico para a maior parte da humanidade diz respeito à vida e ao desenvolvimento. Os países ocidentais se recusam a aceitar o fato de que existem muitos caminhos para o desenvolvimento e a prosperidade para os países em desenvolvimento, e seu caminho é apenas um deles e, talvez, nem mesmo o melhor ou o mais adequado.

 

Em termos simples, os direitos humanos estão sendo usados  ​​como uma ferramenta para reforçar e perpetuar a atual ordem global de acordo com os interesses ocidentais. No entanto, é uma batalha perdida. Uma nova ordem mundial está tomando forma com uma agenda humanitária global muito diferente, que inevitavelmente se tornará a corrente principal da sociedade humana.


Joe Biden com Xi Jingping durante uma reunião de governadores em Los Angeles em 2012 na Califórnia. Foto: Frederic J Brown / AFP

 

De acordo com um plano divulgado em conjunto na semana passada pelo Comitê Central do Partido Comunista da China e o Conselho de Estado sobre o layout da rede de transporte abrangente da China, o país pretende construir em todo o mundo 200.000 quilômetros de ferrovias, 460.000 quilômetros de rodovias e 25.000 km de vias marítimas de alto nível com 27 grandes portos costeiros, 400 aeroportos de transporte civil e 80 centros expressos até 2035, o que tornará o país não apenas um centro de produção global, mas "um centro de logística, centro comercial, centro de compensação e centro financeiro, estabelecendo uma base sólida para um caminho para ser o centro econômico do mundo ”, disse um especialista.

 

Como o governo Biden poderia enfrentar esse último desafio chinês?

 

Não é novidade que os EUA não sabem o que fazer para lidar com o acelerado crescimento da China. Em 2020, o PIB da China foi mais de 70% do tamanho dos Estados Unidos. A previsão atual é que ultrapassará os EUA para ser a maior economia do mundo em 2028. Os EUA percebem que a corrida econômica já está praticamente perdida.

 

Este artigo foi produzido em parceria pela Indian Punchline e Globetrotter, que o forneceu ao Asia Times.

 

M K Bhadrakumar é um ex-diplomata indiano.