sexta-feira, 10 de setembro de 2021

UMA HISTÓRIA POR TRÁS DO AUTOGOLPE FLOPADO

 

Obrigado, Edson! É realmente estranho que os PMs e os militares do Bozo não tenham agido, depois da primeira cedida no dia 6 pela PM de Brasília

Exército e PM's estavam prontos para apoiar o golpe. Vejam porque tiveram que voltar atrás.

 

     A análise de Fernando Horta

 

       Bolsonaro tentou o golpe, e ele não aconteceu. O que teria dado errado? O que efetivamente aconteceu para que os planos golpistas fossem frustrados? Seria apenas um erro de cálculo de Bolsonaro? Seria o fato de o Brasil ter "instituições fortes"?

        É completo consenso que o que ocorreu no dia 07 de setembro foi uma tentativa de golpe. Por isso, todos os jornais e todos os partidos falam que "Bolsonaro acabou". Sabem todos que a tentativa falha não faz com que Bolsonaro pare de tentar. E esse é todo o problema de Arthur Lyra.

        Para entender o que aconteceu precisamos olhar para o dia 06 de setembro e não para o dia 7. Em especial para o final do dia. O que sabemos até agora já nos permite algumas interessantes explicações.

       Desde o início da semana, os hotéis de Brasília foram sendo tomados. Especialmente os hotéis de menores preços. Isso indicava o deslocamento antecipado de um bom número de pessoas com alguma capacidade financeira ou que estavam sendo financiados.

       No dia 06, quase todos os hotéis mais baratos de Brasília estavam lotados. Esse movimento não passou despercebido pelo STF e todo o aparato de inteligência por ele montado (já que a PF e a ABIN são tributárias de Bolsonaro).

        A partir das 12 horas do dia 06 a PM do Distrito Federal iniciou os planos de isolamento da região central da cidade (a esplanada dos ministérios) como parte do plano de segurança que é SEMPRE imposto em caso de manifestações.

       Da forma como foi planejada, Brasília fecha a entrada do povo nos locais de poder de forma muito fácil e efetiva. Apesar de planejada por um comunista, essa é uma característica urbana de Brasília muito útil aos poderes constituídos. Basta que a PM coloque barreiras no lugar.

         Por volta das 18 horas, numa ação claramente planejada aos moldes militares, bolsonaristas resolveram "testar a água". Um grupo de cerca de 600 pessoas passou a retirar as barreiras e os isolamentos e abrir espaço para os grandes caminhões que já estavam na cidade.

          Esse "destacamento avançado" com missão de reconhecimento foi abrindo espaço SEM A OPOSIÇÃO DA PM DO DF. A PM do DF é talvez uma das mais bolsonaristas do país. Aqui, 7 em cada dez homens votaram em Bolsonaro. As PM aplaudiam literalmente os manifestantes contra Dilma.

        Ibaneis, o governador, além também de bolsonarista, está envolvido até o talo com as maracutaias da saúde juntamente com Precisa e Ricardo Barros. Para saber mais acompanha o Deputado @leandrograss. Ocorre que o governador convenientemente NÃO ESTAVA NO DF.

         Estava tudo arrumado para uma "pequena" indisciplina da PM de Brasília que seria o aviso para que o movimento incendiasse no país inteiro. Tudo passaria como uma azarada "falta de ordenamento" porque o governador não estava no seu lugar. Brasília, pela manhã, daria o tom do golpe.

           Caso as mobilizações prometidas em número chegassem a Brasília, Bolsonaro faria da Paulista apenas seu palco de completo sucesso. O presidente contava com pelo menos 1 milhão de pessoas em Brasília e, com isso, a pressão sobre as outras polícias dos Estados seria insustentável.

         Para entender o que deu errado precisamos voltar à noite e madrugada do dia 06. Percebendo a fúria com que os bolsonaristas progrediram destruindo as barreiras na esplanada e a complacência inicial da PM, vários atores políticos (como o @DeputadoFederal e o @BlogdoNoblat) passaram a ligar incessamente para o governador Ibaneis, e usar suas redes para denunciar o estopim do golpe. Essa "gritaria" inicial chegou ao presidente do Supremo que, com a corte em uníssono, entrou em contato direito com a PM do DF exigindo providências.

         A resposta da PM, pelo que apurei, foi puramente protocolar. O STF não é a autoridade imediata a que a PM precise dar satisfação. No fim, a constituição fala que as PM's estão subordinadas ao Exército e aí veio o segundo golpe de mestre do STF.

         Fux ligou direto para os comandantes militares, ainda durante a madrugada, avisando que caso as PM's seguissem o comportamento leniente ele (Fux) chamaria a GLO e convocaria as forças armadas para deter os manifestantes. É preciso compreender este ato para entender o dia 07.

      O que o STF fez foi adiantar uma tomada de decisão do Exército Brasileiro. As Forças Armadas esperavam PRIMEIRO a mobilização popular prometida, para ENTÃO apoiarem o levante. Estavam naquela madrugada, portanto, aguardando. O STF, contudo, exige uma posição imediata do exército.

        Do ponto de vista do STF a ação era simples. Negasse o exército a ordem de Fux e o golpe estava consumado. Não haveria necessidade da pantomina do 7 de setembro. Por outro lado, ao adiantar a tomada de decisão o STF elevava exponencialmente o custo desta ação para os militares.

          Na prática, tivessem os militares desobedecido Fux e no dia 7 as manifestações "flopassem" e os comandantes militares seriam processados por insubordinação e sairiam culpados de sedição. O preço era alto demais. A exigência da decisão ainda no dia 06 quebrava o plano bolsonarista.

            No meio deste imbroglio todo duas figuras trabalhavam. Por um lado Alexandre de Morais de posse das informações de inteligência mapeava o financiamento dos movimentos e bloqueando as contas certas e as chave-pix asfixiava os financiadores de bolsonaro.

           Muitas "caravanas" de locais perto de Brasília não puderam sair por conta do dinheiro. O resultado foi o pífio número de apoiadores para que Bolsonaro fizesse o que estava planejado. Como era possível ver em Brasília, tinha muito mais "carro do que gente" segundo o @RODRIGOPILHA.

           O outro ator que em silêncio que agia era o vice-governador do DF atuando diretamente com as PM's. Na falta de Ibaneis a desculpa das PM's para a inação não seria mais possível. O comportamento dual do governo (ora apoiando bolsonaro, ora obedecendo o STF) já é em si golpista . Mas o vice governador compreendeu que recairia sobre ele toda a culpa de uma malfadada sedição que ocorresse nas PM's de Brasília. Novamente, o STF aumentava o custo da tomada de decisão e o vice precisou garantir as PM's na linha.

       Com a recomposição das linhas hierárquicas do Exército - a partir da cobrança do STF na madrugada do dia 06 - e com a lealdade das PM's (ainda que a contragosto) garantidas, a margem de sucesso do golpe de Bolsonaro era pequena.

         No final do dia 06, percebendo seus planos diminuírem a possibilidade de se realizar, os filhos do presidente foram até os manifestantes que faziam a "frente" para o movimento na tentativa de insuflar o apoio necessário para a sedição no dia seguinte e também para impactar a PM

         Não funcionou. Tirando os apoiadores do fascismo de Bolsonaro, os outros agentes são o que chamamos de "atores racionais" e fazem um cálculo de custo e benefício das suas ações. Precisam, contudo, de informações completas e corretas para esse cálculo. E isso eles não tiveram.

        A tensa madrugada do dia 06 de setembro, que virou com fogos de artifício o tempo todo, determinou o fracasso do golpe do dia 07. O STF subiu o custo das ações políticas dos outros agentes e diminuiu o acesso destes agentes às informações que precisavam para a tomada de decisão.

      As ações não foram coordenadas entre os atores políticos que saíram denunciando a posição claudicante da PM no dia 06 e o STF que colocou "a faca nos peitos" dos comandantes militares, mas, de alguma forma, elas foram complementares. O golpe naufragou.

        Não podemos, contudo, achar que ele não foi dado. Que Bolsonaro não cometeu crime porque "o resultado não foi alcançado" como é o argumento dos defensores do governo na CPI. Se deixarem Bolsonaro solto, ele tem mais um 7 de setembro para tentar. E mais um ano para planejar.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

UMA OUTRA GUERRA, A TECNOLÓGICA: MELHOR QUE A "GUERRA CONTRA O TERROR" ?

 

Lembro-me que acompanhei com interesse quando setores da academia e dos institutos de pesquisas quiseram trazer a “informática” e a “cibernética” para o Brasil. Isto incluiu o laboratório de sistemas digitais (LSD!) da engenharia eletrônica da POLI-USP. No regime civil militar anterior, o de 1964-1985, e nos anos de governos ainda relativamente livres do controle mais estrito do império sobre a economia brasileira, essas coisas não tinham sido interditadas, pelo regime que começou a ser montado em 2013.

Mas não se constrói uma nação se o número de servidores exclusivos das corporações e do império ultrapassa um nível crítico, como acontece entre nós. Mesmo assim, é interessante ver o que acontece com as gentes grandes, incluídas aí a C e a I dos antigos BRICS.

A versão original do Counterpunch, aqui, traz um monte de links para aprofundar um pouco.

 

 

7 de setembro de 2021

Guerra dos Chips Os EUA podem realmente ganhar com a dor da China?

por Prabir Purkayastha

Fonte da Fotografia: Matti Blume - CC BY-SA 4.0

 

Com os EUA impondo sanções tecnológicas à China, a indústria eletrônica mundial está enfrentando tempos turbulentos. Após as sanções, a Huawei caiu de sua posição de número um como fornecedora de telefones móveis - que a empresa manteve durante o segundo trimestre de 2020 - para a posição sete atualmente. Comentando sobre este slide, o presidente rotativo da Huawei, Guo Ping, disse que agora a batalha da empresa é pela sobrevivência. De acordo com a Reuters, Guo, em uma nota que circulou internamente, afirmou que a Huawei "não vai desistir e planeja, eventualmente, retornar ao‘ trono ’da indústria." Nesse aspecto, a Huawei não apenas está sobrevivendo, mas indo muito bem. Ela ainda é a líder mundial no mercado de equipamentos de telecomunicações, com uma fatia de receita de 31%, o que é o dobro de seus concorrentes mais próximos, Nokia e Ericsson, e lucros de quase US $ 50 bilhões nos primeiros seis meses de 2021. Mas será que a Huawei conseguirá reter sua posição de mercado sem que a China acompanhe os mais recentes desenvolvimentos na fabricação de chips e tecnologias de design?

 

Não são apenas as empresas chinesas que enfrentam tempos difíceis. Com a crescente guerra de chips entre os EUA e a China, a cadeia de fornecimento global de chips eletrônicos foi afetada, levando à escassez de chips em vários setores. Os chips semicondutores são usados ​​em quase todos os produtos, desde equipamentos domésticos - fornos de microondas e torradeiras - até as indústrias automotiva e de defesa. O maior gargalo da indústria automobilística hoje é a escassez de chips, que afetou gravemente sua produção. Se a guerra dos chips continuar, a crise da escassez de chips também pode afetar outras indústrias.

 

Essa crise, entretanto, levantou várias questões: A crise da indústria de semicondutores é precursora da fragmentação das cadeias de abastecimento globais? Isso levará a blocos de guerra, com os EUA em um polo e a China no outro? Com essa fragilidade da cadeia de suprimentos, estamos vendo o fim da globalização como um paradigma?

 

A indústria de eletrônicos é uma das mais intensivas em capital e em pesquisa e desenvolvimento. Nenhum outro setor possui essa característica. As usinas de energia ou aço são intensivas em capital; os produtos farmacêuticos são intensivos em P&D. Mas nenhuma outra indústria é as duas coisas. ASML, uma empresa holandesa pouco conhecida que produz as máquinas litográficas para fabricação de chips, vale mais do que a Volkswagen, a maior fabricante de automóveis do mundo. Isso se deve aos altos custos de P&D das máquinas litográficas da ASML: é a única empresa que pode entregar as máquinas que os chips mais avançados exigem. Para que uma nova instalação de fabricação faça a nova geração de chips hoje, ela custará US $ 20 bilhões, que é mais do que o custo de um porta-aviões ou de uma usina nuclear. Apenas dois fabricantes, Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) e Samsung, têm a capacidade de produzir os chips mais avançados que a indústria usa.

 

Os EUA e a China competem em áreas como inteligência artificial, computadores, redes móveis e telefones. O bloco de construção básico para todas essas tecnologias são os chips semicondutores. Quanto mais circuitos podemos incluir em um chip, mais poder de computação ele tem. A maior parte do mercado consiste em fabricantes mais antigos que usam tecnologias de nível de 180 nm a 28 nm, com apenas 2 por cento dos chips abaixo do nível de 10 nm. Os únicos fabricantes que podem fazer esses chips são TSMC e Samsung, os maiores fabricantes de chips do mundo. A Semiconductor Manufacturing International Corporation (SMIC) da China, a terceira maior fabricante de chips do mundo, só recentemente passou do nível de 28 nm para o nível de 14 nm. Com o apoio do governo chinês, a SMIC está investindo em linhas de produção que podem ir abaixo de 14 nm. A Intel, que já foi líder mundial na fabricação de chips, ainda está presa no nível de 14 nm. No entanto, também tem planos para desenvolver a próxima geração de chips.

 

Os EUA escolheram a indústria de eletrônicos / semicondutores como campo de batalha para sua competição geoestratégica com a China. Ela acredita ter uma liderança significativa em tecnologia e comandar uma importante participação de mercado neste setor. A China entrou tarde aqui. Embora tenha uma participação de mercado comparável à dos EUA, ainda depende de certas tecnologias essenciais. Os EUA e seus aliados - União Europeia, Japão e Coréia do Sul - controlam essas tecnologias centrais. É por isso que os EUA escolheram a Huawei e a SMIC, dois grandes players chineses na tecnologia e na indústria de semicondutores, respectivamente, como alvo de sanções. Os EUA colocaram mais de 250 empresas chinesas na lista de entidades que exigem uma licença especial para importar equipamentos ou componentes. No entanto, não é uma proibição geral.

 

Os EUA estão acompanhando suas sanções contra a Huawei e a SMIC com um plano para barrar a China do que chama de "tecnologias fundamentais" de acordo com sua Lei de Reforma do Controle de Exportações de 2018. O argumento que os EEUU estão montando é simples: eles estão à frente da China em certas tecnologias críticas necessárias para a fabricação avançada de chips; tudo o que eles precisam fazer para manter essa liderança é negar à China o acesso a essas tecnologias; isso garantirá a liderança dos EUA para o futuro e seu domínio sobre a indústria de eletrônicos.

 

John Verwey, um analista de investimentos que escreve sobre tecnologia de semicondutores em seu site Semi-Literate, discute o que pode ser considerado uma tecnologia fundamental na indústria de eletrônicos. À primeira vista, a fabricação de chips pode parecer uma tecnologia fundamental e alvo de sanções dos EUA. Isso é o que os EUA fizeram quando impediram a Huawei de comprar os mais recentes chips de escala de 7 nm da TSMC.

 

A SMIC então tentou montar sua linha de fabricação para chips de 7 nm e precisou importar máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV) da ASML, cada uma custando cerca de US $ 120 milhões a US $ 150 milhões. Essas máquinas litográficas são a parte crítica das linhas de produção de fabricação de chips. Embora as máquinas EUV sejam da Holanda, elas usam software desenvolvido na subsidiária da ASML nos EUA e, portanto, estão sob o regime de sanções dos EUA.

 

As sanções dos EUA significam que a ASML não pode vender as máquinas de litografia EUV para a China, embora possa vender outras máquinas litográficas para produção de chips de baixo custo, mantendo a China fora da tecnologia de ponta inferior de 10 nm e, portanto, uma geração ou dois atrás dos líderes de mercado.

 

Isso nos leva à questão de como definir o que é tecnologia básica. Embora os chips sejam o principal motor da eletrônica, eles não são tão básicos quanto as máquinas que os produzem. Um país com tecnologia de ponta precisa dominar a tecnologia de produção de chips e as máquinas que operam essas linhas de produção. É por isso que as máquinas de litografia da ASML são o gargalo para a China.

 

O que então impulsiona os avanços nas tecnologias-chave das máquinas e produção de chips? Como os marxistas sabem, o conhecimento impulsiona as forças produtivas - neste caso, os avanços no design de chips. Esse conhecimento é capturado nas ferramentas de design de software e nas máquinas de litografia. Ambos são altamente intensivos em conhecimento e requerem pessoas com habilidades muito especializadas.

 

Os EUA e suas universidades ainda são a grande fonte de desenvolvimento do conhecimento, a chave para os avanços do setor. Mas aqui está o problema de longo prazo que a nação enfrenta: os programas de pesquisa das universidades dos EUA são compostos principalmente por estudantes internacionais, a maioria deles da China, Índia e outros países em desenvolvimento. Muitos deles permanecem nos EUA e fornecem a força humana necessária para os avanços no conhecimento que os EUA possuem hoje.

 

Se estudantes e pesquisadores chineses não forem bem-vindos nos EUA, essa fonte de desenvolvimento de conhecimento se enfraquecerá. Infelizmente, países como a Índia não têm instituições de ensino de alta qualidade e laboratórios de pesquisa para substituir o fluxo de estudantes chineses que ingressam nas universidades dos EUA. A China tem investido pesadamente em suas universidades e instituições de pesquisa e produz mais PhDs em ciência e tecnologia hoje do que os EUA. Também está construindo um canal de inovações das universidades / instituições de pesquisa para a indústria de tecnologia.

 

A China é o maior mercado para o design de chips e software de design da indústria de semicondutores dos EUA. As empresas norte-americanas também projetam chips de alta tecnologia, que são fabricados em Taiwan e na China. No curto prazo, as sanções dos EUA prejudicarão a produção avançada de chips da China e a produção de dispositivos eletrônicos baseados em tais chips. Mas também significará que as empresas norte-americanas perderão parte significativa das receitas que agora recebem do mercado chinês com a venda de suas ferramentas de design. Isso também levará a uma perda de receita para chips avançados que as empresas americanas, como a Qualcomm e a Nvidia, projetam e fabricam na TSMC de Taiwan.

 

Para as empresas americanas de alta tecnologia, a perda dessa receita significa menos dinheiro para sua P&D e a lenta erosão da posição do país como o centro de conhecimento global. Suponha que as empresas americanas percam o mercado chinês e, portanto, uma parte significativa de suas receitas. Nesse caso, isso afetará seriamente sua capacidade de competir no futuro. No curto prazo, eles podem ganhar, como estão fazendo com a Huawei perdendo sua posição de número um em smartphones. Mesmo assim, a perda de receita significará menos capacidade de produzir o conhecimento que dá aos EUA sua vantagem em tecnologia. Menos dinheiro em pesquisa significa uma eventual perda de liderança porque, ao contrário de outros países, cada vez mais os EUA não produzem os chips ou as máquinas, mas o conhecimento que vai para os dois.

 

Isso é o que a indústria de semicondutores dos EUA argumentou em sua apresentação ao Departamento de Comércio dos EUA. Se as empresas americanas se desvincularem do mercado chinês, isso significará uma perda significativa de receita para elas. No longo prazo, isso levará à perda da liderança dos EUA em eletrônicos. Já atualmente, as sanções dos EUA levaram as empresas chinesas a remover os componentes projetados nos EUA de suas linhas de produtos. As sanções têm dois gumes: atingem a Huawei e outras empresas chinesas e seus fornecedores norte-americanos.

 

Quanto tempo levará a China para apagar a liderança em tecnologias de semicondutores que os EUA e seus aliados têm? Analysys Mason, uma empresa de consultoria líder, afirma em seu relatório de maio de 2021 que a China será capaz de atingir a autossuficiência em semicondutores em três a quatro anos. O Boston Consulting Group e a Semiconductor Industry Association modelaram o impacto da fragmentação da cadeia de suprimentos global da China e dos EUA, desvinculando sua cadeia de suprimentos e mercados. O modelo prevê que, com tal política, os EUA ainda perderiam a liderança para a China. Segundo a Semiconductor Industry Association, a única maneira de os EUA preservar sua liderança é exportando para a China, exceto no estratégico setor militar. Os EUA podem então usar seus lucros dessas exportações para desenvolver uma nova geração de tecnologias. Claro, a perda por não exportar no setor estratégico deve ser compensada com pesados ​​subsídios do governo dos EUA.

 

Enquanto isso, a Índia perdeu o ônibus de fabricação de semicondutores quando decidiu não reconstruir a Semiconductor Complex Limited sua principal fábrica de chips na cidade de Mohali, depois que foi destruída em um misterioso incêndio em 1989. Seus legisladores decidiram que a Índia deveria alavancar sua força em software e sistemas e não se preocupar com a fabricação de chips. Vinnie Mehta, ex-diretor executivo da Associação de Fabricantes de Tecnologia da Informação (MAIT), disse à Mint: "Uma nação sem silício (tecnologia) é como uma pessoa sem [um] coração." Esse coração ainda está faltando no ecossistema de tecnologia da Índia.

 

Se os EUA desejam manter sua posição de líder mundial na indústria eletrônica, devem se equiparar à China, investindo na geração de conhecimento para tecnologias futuras. Por que, então, os EUA estão seguindo o caminho das sanções? As sanções são mais simples de implementar; construir uma sociedade que valorize o conhecimento é mais difícil. Essa é a patologia do capitalismo tardio.

 

Artigo produzido em parceria por Newsclick e Globetrotter.

 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

EXPLICANDO A ALTA DOS COMBUSTÍVEIS

É ele, sim, o neoliberalismo, ideologia dos donos do dinheiro e do poder. Do Diário do Centro do Mundo.

A realidade por trás da alta dos combustíveis e da inflação. Por José Carlos de Assis

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Junho não tinha uma inflação tão alta desde 1995

Por José Carlos de Assis*

Conheço e tenho conversado com líderes de caminhoneiros autônomos que estão abertamente contra a manifestação convocada por radicais bolsonaristas para 7 de setembro, mas não consigo entender porque ainda existem outros, dentre eles, que se colocam a favor deste governo corrupto e antinacional.

Os caminhoneiros, assim como donas de casa pobres e motoristas de táxi, estão entre os brasileiros mais sacrificados pela política de preços de combustíveis praticada pelo atual governo, e que foi adotada exclusivamente para viabilizar a privatização fatiada da Petrobrás.

Só existe uma explicação para isso: a incapacidade ou a deliberada má fé da mídia ao sonegar informações e esclarecimentos a respeito. E isso não é por acaso. A política adotada pela Petrobrás é ininteligível inclusive para muitas pessoas de nível universitário, que dirá para pessoas simples que sequer têm o secundário completo. Ela só existe porque muitos dos que a compreendem e estão contra ela não conseguem explicá-la numa linguagem do povo. A discussão fica, assim, no âmbito daqueles que estão empenhados em defendê-la invocando fetiches e escamoteações.

O argumento dos manipuladores é que os preços dos combustíveis estão aumentando exageradamente acima da inflação porque acompanham os preços internacionais. Não se explica, porém, por que razão esses preços devem acompanhar os preços internacionais. A Petrobrás produz combustíveis com petróleo brasileiro, mão de obra brasileira, tecnologia brasileira, refinarias brasileiras. É praticamente autossuficiente. E os transporta com caminhões de brasileiros. O quê os preços internacionais do diesel, da gasolina e do gás de cozinha têm a ver com isso?

Enquanto empresa monopolista, a Petrobrás sempre praticou uma política de preços segundo o custo de seus produtos, mais uma margem de lucro razoável, para financiar investimentos, comum a todas as empresas estatais monopolistas. Por quê não continuou com essa política adotada ao longo de toda a sua história, que lhe permitia, inclusive, dar grande contribuição ao país para limitar o aumento da inflação, e que, entretanto, jamais lhe tirou o caráter de empresa altamente lucrativa? Para justificar a mudança da política, impuseram ao país uma história inteiramente falsa.

A estratégia era provar que a Petrobrás, vítima de uma quadrilha de diretores corruptos na época da Lava Jato, fora afetada em sua lucratividade e, com isso, prejudicara seus acionistas internacionais. Inventaram, ao mesmo tempo, que ela se havia endividado demais, em prejuízo dos mesmos acionistas. Era preciso, portanto, submetê-la às leis do mercado livre, tal como o pregado pela radicalização neoliberal do governo Temer, no infame programa Ponte para o Futuro. Mas como submeter a Petrobrás ao mercado se ela era uma empresa monopolista, que tinha fácil acesso ao mercado financeiro de empréstimos a prazo certo, que financiou inclusive a descoberta do pré-sal,  em lugar se comprometer com dividendos de prazo infinito?

Privatizá-la por inteiro era imprudente. O povo não aceitaria. Então a solução era privatizá-la aos pedaços. Com quê justificativa? Alegando que se alguns pedaços dela, e não toda ela, fossem expostos ao mercado livre, seus produtos, sobretudo os combustíveis,  seriam submetidos à concorrência, e os preços cairiam. Então começou a operação desmonte da Petrobrás, com a justificativa de que os consumidores teriam preços mais baixos, por exemplo, da gasolina, do diesel e do gás de cozinha, devido à entrada no mercado de competidores estrangeiros da Petrobrás.

Acontece que só  grandes petrolíferas, pela dimensão do mercado, poderiam competir com a Petrobrás. E elas só entrariam aqui se tirassem do caminho a própria Petrobrás, cujos custos, no mercado interno, são muitíssimo mais baixos do que os delas. Aí então dois vendilhões da Pátria, Temer e Pedro Parente à frente,  inventaram a fórmula do alinhamento dos preços da Petrobrás ao mercado internacional. Um preço internacional que não é preço internacional coisa alguma, mas uma conta de chegar ajustada para forçar a Petrobrás a aumentar seus próprios preços.

Foi exatamente isso: para dar condições às petrolíferas estrangeiras de entrar no mercado brasileiro, o governo Temer, e depois Bolsonaro, obrigaram a Petrobrás a aumentar  os preços dos combustíveis, generalizando a inflação não só para os consumidores desses produtos, mas para toda a sociedade. E qual foi a mágica? Pegaram o preço do petróleo no Golfo do México, arbitraram os preços do transporte de lá para cá, mais seguros, impostos e outros serviços, e fizeram da evolução dos preços desse pacote a referência dos preços da Petrobrás, mais a variação do câmbio.

Saímos de uma situação em que a Petrobrás arbitrava os preços dos combustíveis segundo os seus custos, de baixo para cima,  para uma situação em que ela segue um conjunto de preços arbitrários, de cima para baixo. Entretanto, para aperfeiçoar essa política, foi preciso dar um passo adiante. É necessário entregar às petrolíferas estrangeiras pelo menos metade das refinarias da Petrobrás. Do contrário, um futuro governo popular pode ficar tentado a usar o poder de produção de derivados da Petrobrás a voltar à situação de preços pelos custos.

E como as petrolíferas estrangeiras vão comprar as refinarias? Usando nosso próprio dinheiro. Não precisarão de colocar um dólar aqui. Como a Petrobrás aumentou seus preços segundo o tal preço de referência internacional, elas concorrem com ela e já abocanharam mais de um terço do mercado com importações e venda de derivados aqui. Fazem caixa com o lucro e se preparam para comprar as refinarias com reais vampirizados do povo brasileiro. E, uma vez privatizadas as refinarias, entra logo dinheiro em caixa, sem a lentidão e os custos da mão de obra de construção.

Só isso? Ainda não. Com o alinhamento dos preços da Petrobrás ao tal preço internacional, seus lucros explodiram, à custa de caminhoneiros, motoristas de táxi, donas de casa que usam gás de cozinha e todo o povo que sofre os efeitos da inflação e da alta do câmbio. A propósito, a Petrobrás privatizou a distribuição de gás para a privada Ultra, assim como sua distribuidora de gasolina. O pressuposto é que os preços iriam baixar com a concorrência. Explodiram. Muitas donas de casa abandonaram o gás em favor da lenha e do carvão. A gasolina subiu mais de 50% até agosto, contra 8% da inflação.

O lucro da Petrobrás subiu espetacularmente. Alguém pode imaginar que o aumento dos lucros da Petrobrás, com sua política de preços, beneficia o Brasil. É um engano. Seu lucro é distribuído aos acionistas, e a maioria deles é estrangeira, pois seu capital foi aberto em Nova Iorque no governo FHC. Enfim, a privatização aos pedaços é um crime contra a Soberania Nacional. Até o agronegócio é prejudicado, por causa da alta dos transportes, ele que corre riscos adicionais também econômicos por causa das infâmias da família Bolsonaro contra a China, o principal comprador de seus produtos?

Para compensar, os custos dos combustíveis são repassados a caminhoneiros celetistas e autônomos. Os primeiros têm seus salários esmagados pela desproteção assegurada pelas reformas trabalhista e previdenciária; os segundos, pela ausência de um preço mínimo do frete, que o governo, atendendo aos donos do agronegócio, diz que não pode adotar por causa do livre mercado. A culpa da alta contínua dos preços dos combustíveis é então remetida ao ICMS, uma falsidade. Será que caminhoneiros e agroprodutres ainda iriam à manifestação do dia 7 se soubessem de tudo isso?

Por último, uma analogia. Imaginem que todo cafezinho no Brasil fosse produzido e vendido por uma única estatal monopolista. Ela calcularia seus custos, e poria uma margem de lucro para financiar sua expansão, de acordo com o crescimento da população. Foi assim que fez a Petrobrás, saindo de uma situação em que o Brasil não tinha petróleo para a condição de uma das maiores petrolíferas do mundo, abastecendo integralmente o mercado interno de combustíveis, a preços razoáveis, e eventualmente com subsídios cruzados – ricos pagam mais, pobres pagam menos.

Agora, imaginem que queiram fazer no Brasil o mercado livre do cafezinho. Cafezinho estrangeiro não consegue concorrer aqui por causa dos maiores custos. A solução encontrada seria, pois, aumentar arbitrariamente os preços do cafezinho brasileiro para facilitar a entrada no mercado interno do estrangeiro. E para ter certeza que isso iria durar para sempre, era preciso entregar quase de graça metade das cafeteterias brasileiras aos produtores estrangeiros, tornando-os sócios do oligopólio privado interno do café, mais livre para aumentar preços que um monopólio estatal.

Isso de fato está acontecendo com a Petrobrás. É um esbulho da riqueza e da renda produzidas exclusivamente por brasileiros, com capital próprio estatal e do povo, inicialmente, e só depois repartido com estrangeiros em Nova Iorque. Com as pressões dos acionistas, a empresa, que descobriu o pré-sal recorrendo a empréstimos, substitui estes últimos por mais capital privado estrangeiro. Trocou juros, uma obrigação por tempo definido, por dividendos, uma obrigação eterna. A Petrobrás vai sendo desnacionalizada à revelia de seus criadores, o povo brasileiro.

*José Carlos de Assis é economista, doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba e autor de mais de 20 livros sobre economia política



quarta-feira, 1 de setembro de 2021

UM POUCO DE PSICANÁLISE AJUDA A ENTENDER A CABEÇA DESSES CARAS

Mais uma crítica das linguagens e das ideologias do Bozo e de seu gado, pela ótima Maria Rita Kehl. Saiu no O Mundo é Redondo, e também no Brasil 247. 

O viagra do Bozo

Por MARIA RITA KEHL*

Depois do fracassado desfile de tanques de guerra, Bozo conclama “seu” exército, as polícias militares e a multidão de apoiadores de bota e berrante a manifestar, dia 7, seu apoio a outro projeto de golpe

Já repararam? Toda vez que a aprovação do presidente começa a, digamos, perder potência, ele convoca uma motociata. Tivemos uma quarta (ou quinta?), no ano que corre – o que indica que a força do homem que desgoverna o país anda bastante ameaçada. Nessas horas, nada como ter uma máquina possante entre as pernas.

Afinal, o que é uma motociata? Um monte de homens que, montados em objetos barulhentos, tentam intimidar seus opositores e ostentar a própria potência. Verdade que o sólido “corpo” da motocicleta tem que ficar firme entra as pernas de quem as pilota. Compreendo a ilusão de potência causada, mesmo entre mulheres, por essa inocente conjunção. Além disso, motos fazem barulho, a depender do uso do acelerador de quem pilota. Mas, ora essa: a potência das motocicletas não necessariamente se transfere a quem está em cima delas. As motociatas do presidente são um recurso que lembra a birra da criança contrariada: esperneia e berra o quanto pode, mas não consegue convencer o adulto a fazer o que ela quer.

No caso, os supostos “adultos” disponíveis não são lá muito confiáveis. A oposição, num congresso liderado por Lira e Pacheco, lembra a mãe que dá logo o doce à criança para não ter que enfrentar a tal birra. Cabe a nós, os 64% de brasileiros que desaprovam o presidente, o papel dos adultos na sala. Não sei se estamos preparados para tanto. Ainda nos vemos atônitos, tentando entender como isso foi acontecer e como devemos agir. Intimidar o birrento é inoperante. Não somos capazes de imaginar maldades e ameaças a altura das que ele e de seus seguidores já praticam há quase dois anos.

Como foi mesmo que ele foi parar no posto para o qual não estava preparado? Ah, claro: a corrupção. Quem leu Brasil, uma Biografia, de Heloisa Starling e Lilian Schwarz, sabe que a corrupção está incrustrada no Estado brasileiro desde a monarquia. Foi o pretexto (não a causa justa) para prender Luís Inácio e tentar desmoralizar o Partido dos Trabalhadores. Então me expliquem por que agora, com dezenas de indícios na família Bolsonaro, ninguém mais se importa com a corrupção? Gente hipócrita.

Moro era o herói do Brasil?[1] Por que então as condenações que passaram por sua pena, na Lava Jato – a começar pela de Luís Inácio Lula da Silva – estão hoje sob suspeição?

Agora inventaram um pretexto novo para desmoralizar nossa esquerda prá lá de light: o extremismo bolsonarista – cujos exemplos mais grotescos tentarei enumerar logo adiante – é o contraponto a seu antípoda à esquerda, o extremismo petista. Parte da população repete esse mantra bovinamente. A imprensa liberal faz tentativas patéticas de peneirar uma “terceira via” entre as opções candidatos que não chegam a dois dígitos nas intenções de voto. Uma parte mais esclarecida da burguesia resolveu declinar de sua preferência pelo presidente vexatório e violento, desde que surja a tal terceira via entre os dois extremos. Desde que única alternativa não seja, tipo assim… o extremista Lula. Seria cômico, se não fosse trágico.

Ora, senhores. Seria ofensivo chamá-los de desinformados ou pouco inteligentes. Talvez prefiram que eu os considere apenas de má fé. Por uma feliz coincidência, isso é exatamente o que me parece: má fé. Lula, extremista?

Talvez não estejam se lembrando da Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula, na campanha de 2002, garantiu que não mexeria no lucro dos bancos. Parte de seus apoiadores de esquerda quis pular do barco naquele momento. Nosso perigoso extremista reuniu-se com o grupo (ao qual fui agregada, embora não quisesse pular do barco) e nos deu uma aula de materialismo histórico. Conhecia o país que queria governar. Não sonhava com uma sociedade pronta para o socialismo – o qual, vale esclarecer, nunca esteve no seu horizonte – e sim com uma sociedade que, de conservadora e vergonhosamente desigual, pretendia em seu governo começar a transformar atacando (perdão: não consigo nenhum substituto a altura para o bom e confiável gerúndio) seu pilar mais podre: a tremenda desigualdade social. Resumiu seu projeto – lembram-se? – assim: em meu governo quero conseguir que cada brasileiro tome café da manhã, almoce e jante. Perigosíssimo, não?

Bem, talvez a modesta proposta do candidato do PT cause algum desconforto, alguma instabilidade emocional, digamos, para o 1% dos brasileiros que detém 50% da riqueza que o Brasil produz.[2]

Para um país que escravizou africanos durante três séculos, isso parece tão extremista quanto propor uma revolução. Para um país que aboliu a escravidão, sem conceder nenhuma reparação aos descendentes de africanos trazidos para cá a força, mantidos em cativeiro e punidos a chicotadas, pareceu ameaçador a uma parte da elite o fato de o governo Lula promover – através da lei das cotas – que parte dessa gente estudassem nas mesmas universidades que seus filhos. E o Bolsa Família, então, que elevou milhões de pobres às classes médias? Escutei mais de uma vez, em várias filas de embarque, pessoas reclamando das famílias de aparência modesta que faziam sua primeira viagem de avião. “Esse aeroporto está parecendo uma rodoviária”!

A sucessora de Lula, Dilma Roussef – ex-presa política e vítima de tortura – ainda teve o desplante de conseguir que o congresso votasse pela instauração de uma Comissão Nacional da Verdade. Sim, o Brasil foi o único país, dentre os que sofreram ditaduras militares na América Latina – a só aprovar a criação de uma CNV três décadas depois da redemocratização. Não conseguimos apurar quase nada, pois os militares que convocamos a depor tinham direito de não falar nada – e assim fizeram.

Mesmo assim, a CNV incomodou muita gente. Em uma das audiências da Comissão na Câmara dos Deputados o atual presidente fez uma performance macabra ao homenagear o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. O mesmo que torturou a presidente. Os colegas não acharam que o gesto tenha ferido o decoro parlamentar. Talvez tenham perdoado o que teria sido só uma reação emocional diante do extremismo da presidenta que criou uma Comissão para apurar, com três décadas de atraso, os crimes cometidos pelo Estado Brasileiro no período 1964-85. A homenagem de Bolsonaro ao Ustra ficou por isso mesmo. Tudo o que sofremos hoje terá começado ali?

Dilma não conseguiu aprovar que a Comissão da Verdade – como na Argentina, Uruguai e Chile – fosse também da Justiça. Teve que abrandar seu projeto. Mesmo assim, incomodou. Pessoas desinformadas perguntavam se não investigaríamos “o outro lado”. O lado dos “terroristas”. Não adiantava esclarecer que este “lado” não era simétrico ao outro, pois crimes comuns não devem ser equiparados a crimes de Estado. Nem adiantava argumentar que componentes do “outro lado” já tinham sido presos, torturados e, em muitos casos, assassinados na prisão. Corpos de 126 desses jovens nunca foram encontrados. São, até hoje, desaparecidos políticos.

Diante de tais “extremismos”, não é de se espantar que depois de 14 anos de governos petistas o Brasil fosse à forra elegendo um capitão reformado (por indisciplina) adepto da tortura. Isso não escandalizou a maioria dos seus eleitores. O problema é que, bem… ele não tem a menor ideia do que significa governar um país. O rictus cada vez mais tenso de sua expressão revela que está desnorteado e amedrontado.

Não, essa não uma notícia alvissareira.

Depois do fracassado desfile de tanques de guerra tentando intimidar os deputados que votariam contra a proposta do voto impresso, Bozo conclama “seu” exército, as polícias militares [3] e a multidão de apoiadores de bota e berrante a manifestar, dia 7, seu apoio a outro projeto de golpe. O congresso continua bovino. Talvez pensem que seja um tanto extremista a iniciativa de tentar barrar o homem que promete um banho de sangue no feriado da Independência, depois de ter sido responsável por quase 600 mil mortes por falta de providências sérias contra a Covid-19.

Sem saber o que fazer com o poder que lhe foi atribuído, o presidente tenta demonstrar força prometendo direito ao porte de fuzis para seus apoiadores. Nem por isso se considera extremista; mas alerta seus opositores de que “tudo tem limite”. Onde já se viu promover uma eleição com os mesmos métodos transparentes utilizados desde a redemocratização? Métodos que, aliás, o elegeram em 2018, com uma ajudazinha da disseminação de mentiras (chamadas, elegantemente, de fake News) contra Fernando Haddad, candidato do PT.

A investigação, antes tarde do que tarde demais, dessa fraude eleitoral, corre o risco de também ser considerada uma iniciativa extremista, a ser enfrentada com ameaças de golpe iminente. É o que trama o ex-capitão, que como mandatário da nação detém o comando do exército: o mesmo do qual quase foi expulso em 1986 por insubordinação. Salvou-se pelo temor, entre os de alta patente, de que sua punição provocasse uma insurreição entre militares de patentes mais baixas.

No outro “extremo” do cenário eleitoral encontra-se, com mais chances do que o ex-capitão, Luís Inácio Lula da Silva. A julgar pelas pesquisas de intenção de voto, no momento que escrevo, ele derrotaria Bolsonaro por larga vantagem no segundo turno. Que perigo, pessoal. A volta dos descendentes de escravos aos bancos das universidades. A volta dos pobres nos aviões. A volta de remuneração digna para os trabalhadores. A volta de alguma leveza, alguma alegria, alguma esperança de melhora nesse país hoje dominado pelo ódio de classe, o racismo, a miséria e o desencanto.

Posso apostar que muitos de vocês anseiam pela tal terceira via. Mesmo que não tenha projeto de via nenhuma. Antes que a motociata anunciada para o 7 de setembro faça outro “Búúú!” nas nossas caras assustadas.

*Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista e escritora. Autora, entre outros livros, de Ressentimento (Boitempo).

Notas


[1] Certa vez vi numa banca de jornal um livro com a cara quadrada do ex-juiz com esse título: Moro, o herói do Brasil.

[2] Relatório do banco Credit Suisse sobre a riqueza global: no Brasil, 1% dos ricos detém 44% da riqueza. Citado por Marilene Felinto em sua coluna na Folha de São Paulo de 29 de agosto. A grande ameaça de um novo governo Lula seria de que a vantagem desproporcional dos ricos voltasse a cair, como em 2010, para 40,5%.

[3] Uma das recomendações da Comissão da Verdade era pelo fim da militarização das polícias – essa excrescência da Ditadura de 1964-85.