segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A FALTA D'ÁGUA E O RECURSO AO DEDODURISMO

Por parte da imprensa  e mídia corporativas. O post é meio comprido, mas vale a pena ler. De Wilson Ferreira em seu blog cinegnose, indicado no jornal GGN.

O gênio do Chefe Shang inspira dedo-durismo da grande mídia

Há quase 3 mil anos na China, Chefe Shang, dirigente na totalitária Disnastia Ch’in, criou a ardilosa tática de estímulo ao dedo-durismo generalizado entre agricultores: preocupados em vigiar seus vizinhos, esqueciam-se que estavam sob um regime de terror e autoritarismo. Desde então, o dedo-durismo passou a ser a prática recorrente nos regimes totalitários. Pois o gênio do Chefe Shang continua vivo – sob o pretexto de “exercício da cidadania” durante a chamada “crise hídrica” em São Paulo, a grande mídia vem estimulando pessoas a enviar vídeos e fotos de vizinhos que supostamente desperdiçam água. Mais uma vez a grande mídia pisa no pântano do proto-fascismo: uma suposta cruzada cívica que pode se transformar em vingança e violência por motivos oportunistas como racistas, sexistas ou político-ideológicos. Com isso, São Paulo dá mais um passo para o seu futuro distópico – uma cidade transformada em um deserto igual ao filme "Mad Max" com milícias de “fiscais da Sabesp” executando aqueles que escondem não mais gasolina, mas agora água.

Desde a explosão do nazi-fascismo no período entre guerras no século XX, a sociologia tenta entender como é possível a ascensão de regimes ou atmosferas totalitárias em países formalmente democráticos. Mais do que um sistema totalitário centralizado nos moldes de 1984 de George Orwell, o que chama a atenção é o fenômeno do totalitarismo descentralizado e difuso, com o apoio de quase toda a população.

Sociólogos como o norte-americano Barrington Moore Jr. (1903-2005) apontam para similaridades entre o totalitarismo moderno e das sociedades pré-industriais. Práticas totalitárias modernas que se repetem ao longo da História, desde a antiguidade – veja “Totalitarian Elements in Pre-industrial Societies”, In: Political Power and Social Theory, Havard University Press, 1958.


Uma semente desse totalitarismo popular tentou germinar na democracia ateniense sob a forma de anti-intelectualismo -  sentimentos religiosos enraizados eram uma fonte de ressentimento e ódio contra os intelectuais. Mas felizmente para os gregos esse sentimento careceu de tradução política, tornando-se totalmente ineficaz.

Bem diferente disso, há quase 3 mil anos a dinastia Ch’in (221-209 A.C.), de onde vem o nome China, construiu não só um estado poderoso baseado no terror e tirania mas também uma forma de totalitarismo popular baseado nas suspeitas e antagonismo individuais. E criou uma tradução política e um modo de produção baseado no medo e desconfiança.

Dinastia Ch'in: modo de produção baseado no
medo e antagonismos
           Por exemplo, diz-se que um tal de Chefe Shang organizou famílias de agricultores em lotes vizinhos laterais para permitir controle e vigilância mútuos. O Estado centralizado estimulava que cada um aplicasse castigos uns aos outros, além de denunciar os supostos crimes dos vizinhos. Com isso, os dirigentes responsáveis pelo recolhimento de produtos e tributos tiravam proveito dos antagonismos e desconfianças entre os vizinhos.

A estratégia diversionista do dedo-durismo


Perfeita tática diversionista: o Estado totalitário e os pesados tributos eram esquecidos pelas intrigas, ressentimentos e vinganças estimuladas por uma espécie de dedo-durismo oficial generalizado.

Séculos depois, Maquiavel descreveria essa estratégia do Chefe Shang como “dividir para reinar”- provocar a divisão entre seus potenciais opositores para estabelecer um poder baseado no diversionismo.

Pois em plena chamada “crise hídrica” (expressão marota que dá uma conotação natural a um efeito da incompetência gerencial da Sabesp), eis que a grande mídia, a pretexto de estimular “o exercício da cidadania”, coloca em ação a milenar estratégia do Chefe Shang: incentivar a delação entre vizinhos para que qualquer um tenha orgulho de cumprir o dever em denunciar os “gastões” de água. 
Maquiavel: "dividir para reinar"

Telejornais apresentam vídeos feitos com telefones celulares dos telespectadores mostrando vizinhos lavando calçadas, carros ou simplesmente regando o jardim.

Com o requinte retórico típico das matérias explosivas sobre denúncias da Operação Lava Jato, delatores são colocados em contra-luz com a voz alterada para nãos serem identificados enquanto relatam em detalhes os delitos dos vizinhos gastões.

Enquanto isso, o Portal Terra incentiva internautas a enviarem fotos com casos de desperdício de água por meio da página chamada “VC Repórter”.

O gênio do Chefe Shang


Eufórica com esse auxílio luxuoso de última hora da grande mídia, dentro da sua costumeira tática de fugir dos temas desconfortáveis desviando a atenção para questões periféricas, a Sabesp acabou criando no ano passado um registro específico de denúncias desse tipo. A companhia declarou que o número de denúncias tende a aumentar, podendo ultrapassar a marca de 3 mil por mês.

Para o sociólogo Barrington Moore Jr em seu clássico estudo, esse estímulo ao dedo-durismo é um elemento recorrente nos regimes totalitários. Se lá na época da dinastia Ch’in aproveitava-se da dissolução das formas comunitárias primitivas agrícolas pela introdução de formas de propriedade individual da terra (beneficiando-se dos frutos dos antagonismos entre vizinhos), aqui no Estado de São Paulo do século XXI a grande mídia tem uma atmosfera fértil para estimular a tática do Chefe Shang – individualismo, competitividade, medo e desconfiança nas grandes metrópoles.

Também, da mesma forma que lá há quase 3 mil anos a tática do Chefe Shang desviava a atenção das pessoas da realidade de que viviam sob um regime que era sinônimo de terror e tirania, da mesma forma na atualidade a mesma tática desvia a raiva e frustração pelas torneiras vazias para os vizinhos, deixando de fora a incômoda verdade para a grande mídia: a “crise hídrica” é o resultado menos das mazelas climáticas e muito mais na obsessão pelos dividendos dos acionistas de uma companhia que esqueceu da sua função elementar – captar e distribuir água.

Regimes totalitários e demagogos tem no imaginário do dedo-durismo um campo fértil, pois está muito próximo do “fazer-justiça-com-as-próprias-mãos”.

Os “fiscais do Sarney”


Os leitores mais velhos certamente se lembrarão da curta onda dos “fiscais do Sarney”. Era 1986 e o então presidente José Sarney lançou o Plano Cruzado para combater a inflação com congelamento de preços, salários e reforma monetária (o cruzeiro fora substituído pelo cruzado). Com a dificuldade em fiscalizar a obediência ao congelamento, Sarney convocou a população para denunciar comerciantes e empresários que remarcassem preços.

Exibindo botons e vestindo camisetas “eu sou fiscal do Sarney”, formaram-se verdadeiras milícias que agrediam e amarravam gerentes de supermercados acusados de remarcação de preços. Exercício de cidadania se confundiu com dedo-durismo, a tática mais óbvia e milenar quando um governo ou autoridade quer se eximir de qualquer responsabilidade pública.

Tudo está mal? Então dê ao populacho a liberdade de escolher a sua própria válvula de escape!

A distopia proto-fascista


A tática do Chefe Shang é mais uma ferramenta da estratégia geral do Diversionismo. Desviar a atenção da opinião pública requer explorar o lado mais escuro do nosso psiquismo: medos, ressentimentos, sadismo etc.

Crise de segurança pública? Estimule linchamentos e a sensação de “justiça-com-as-próprias-mãos”.

Debate político? Estimule o discurso moralista da corrupção para que o ressentimento coletivo seja descarregado em bodes expiatórios.

 Crise de algum serviço de utilidade pública? Estimule o dedo-durismo para que o mal estar coletivo escolha uma vítima, deixando de fora a responsabilidade de governos e autoridades.

O problema é que essa válvula de escape tem tudo para ajudar a criar uma atmosfera social e política anômica e distópica, ao melhor estilo de filmes pós-apocalipse como Mad Max.




Observando as expressões que internautas usam em fóruns para nomear os vizinhos supostamente gastões (“vaca filha da puta”, “denunciar essa vagabunda” etc. – veja foto acima), dá para perceber que ao estimular o dedo-durismo generalizado a grande mídia pisa no perigoso pântano do proto-fascismo – a suposta cruzada cívica pode se transformar em vingança e violência por outros motivos oportunistas como racistas, sexistas, político-ideológicos etc.

Já dá até para imaginar um cenário cinematograficamente distópico com uma cidade como São Paulo transformada em deserto inóspito com as ruas dominadas por milícias de justiceiros (fiscais da Sabesp?) que executam aqueles que escondem o precioso líquido. No filme Mad Max era gasolina. Agora, será a água.

               Para a grande mídia isso tudo pouco importa. Quanto pior, melhor. Ela sempre explorou o medo, a desconfiança, antagonismos e ressentimentos. Por que? Porque pessoas dominadas por esses sentimentos regressivos são amedrontadas. Pessoas amedrontadas não saem de casa, principalmente no Estado de São Paulo transformado num deserto igual do filme Mad Max. E ficarão isoladas no interior de suas casas. Assistindo televisão. 

Observação do Cascarpi: enquanto isso, os tucanos que privatizaram a gestão da água no estado, vão conseguindo esconder a sua responsabilidade total no desastre que se anuncia.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A FALTA D'ÁGUA EM SÃO PAULO

Viva o PSDB! De Saul Leblon, do Carta Maior

O PSDB e sua obra-prima de gestão, por Saul Leblon

 
 
Da Carta Maior
 
'Estamos fechando a torneira porque em março, no mais tardar em junho, SP fica sem água', admitiu presidente da Sabesp. Esse é o legado do choque de gestão?
 
Por Saul Leblon 
Após um ano de dissimulações, o PSDB oficializou o racionamento de água em SP nesta 4ª feira.
O novo presidente da Sabesp , Jerson Kelman, em entrevista ao SPTV, da Globo, anunciou um corte  drástico no fornecimento, que caiu de 16 mil litros/s na 3ª feira, para 13 mil l/s a partir de agora.
O racionamento anunciado  oficializa uma realidade que já atinge mais de seis milhões de habitantes, cujo abastecimento declina há um ano acumulando um corte de 60% no fornecimento padrão da Sabesp às suas torneiras (de 33 mil l/s para 13 mil l/s).
E isso é só o começo.
'Estamos fechando a torneira porque em março, no mais tardar em junho, SP fica sem água', admitiu presidente da Sabesp na entrevista.
Nada como um copo após o outro.
Na reta final da campanha presidencial de 2014, quando o então diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, advertiu na Assembleia Legislativa de São Paulo, que o abastecimento da cidade estava, literalmente, por um fio de água, foi chamado de ‘bandido’ pelo grão tucano, vereador Andrea Matarazzo.
Ele disse aquilo que o PSDB se recusava a admitir: restavam apenas 200 bilhões de litros do volume morto do sistema Cantareira, que provê boa parte da água consumida na cidade.
O pior de tudo: a derradeira reserva de água da cidade encontra-se disponível na forma de lodo.
E será com isso que a sede paulistana terá que ser mitigada caso não chova o suficiente até o final de março.
Como de fato não tem chovido nos mananciais, nem há expectativa séria de que isso ocorra suficientemente até o final da estação das águas, avizinha-se  o que o novo presidente da Sabesp finalmente admitiu: ‘em março, no mais tardar em junho, SP fica sem água'.
Corta e volta para a campanha eleitoral de Aécio Neves em 2014.
O estandarte da eficiência tucana era martelado diuturnamente como um tridente contra aquilo que se acusa de obras e planos nunca realizados por culpa da (Aécio enchia a boca para escandir as sílabas) ‘má go-ver-nan-ça’.
Corta de novo e volta para o presente com o foco na contagem regressiva anunciada por Jerson Kelman, o novo titular do espólio da Cantareira e da Sabesp.
Vamos falar um pouco de governança?
Atribuir tudo à  ingratidão a São Pedro é um pedaço da verdade.
Num sugestivo contorcionismo eleitoral, Aécio negou a esse pedaço da verdade a explicação para a alta nos preços dos alimentos afetados pela seca.
Ou isso ou aquilo.
Estocar comida, que não grãos, caso do vilão tomate, por exemplo, que pressionou os índices de alimentos no período eleitoral,  está longe de ser uma opção exequível em larga escala no enfrentamento de uma seca.
Mas estocar água e planejar dutos interligados a mananciais alternativos, calculados para enfrentar situações limite, mesmo que de ocorrência secular, é uma obrigação primária de quem tem a responsabilidade pelo suprimento de grandes concentrações urbanas.
A Sabesp sob o comando do PSDB detém essa responsabilidade há 20 anos em São Paulo.
Omitiu-se, com as consequências previsíveis que agora assombram o horizonte de milhões de moradores da Grande São Paulo.
Carta Maior lembrou no período eleitoral --enquanto Geraldo Alckmin fazia expressão corporal de seriedade, que Nova Iorque e o seu entorno, com uma população bem inferior a de São Paulo (nove milhões de habitantes), nunca parou de redimensionar a rede de abastecimento da metrópole  movida por uma regra básica de gestão na área: expansão acima e à frente do crescimento populacional.
Tubulações estendidas desde as montanhas de Catskill, mencionou-se então, situadas a cerca de 200 kms e 1200 m de altitude oferecem ao novaiorquino água pura, dispensada de tratamento e potável direto da torneira.
Terras e mananciais distantes são periodicamente adquiridos pelos poderes públicos de NY  para garantir a qualidade e novas fontes de reforço da oferta.
O sistema de abastecimento da cidade reúne três grandes reservatórios que captam bacias hidrográficas preservadas em uma área de quase 2.000 km2.
A adutora original foi inaugurada em 1890; em 1916 começou a funcionar outro ramal a leste da cidade; em 1945 foi concluída a obra de captação a oeste, que garante 50% do consumo atual.
Mesmo com folga na oferta e a excelente qualidade oferecida, um novo braço de 97 kms de extensão está sendo construído há 20 anos.
Para reforçar o abastecimento e prevenir colapsos em áreas de expansão prevista da metrópole.
Em 1993 foi concluída a primeira fase desse novo plano.
Em 1998 mais um trecho ficou pronto.
Em 2020, entra em operação um terceiro ramal em obras desde o final dos anos 90. Seu objetivo é dar maior pressão ao conjunto do sistema e servir como opção aos ramais de Delaware e Catskill, que estão longe de secar.
Uma quarta galeria percorrerá mais 14 kms para se superpor ao abastecimento atual do Bronx e Queens.
Tudo isso destoa de forma superlativa da esférica omissão registrada em duas décadas ininterruptas de gestão do PSDB no Estado de São Paulo, objeto de crítica até de um relatório da ONU, contestado exclamativamente pelo governador reeleito, Geraldo Alckmin.
Se em vez do mantra do choque de gestão, os sucessivos governos de Covas, Ackmin, Serra e Alckmin tivessem reconhecido o papel do planejamento público, São Paulo hoje não estaria na iminência de beber lodo.
Ou nem isso ter  para matar a sede.
Pergunta aos sábios tucanos: caiu a ficha?
É verdade que o Brasil todo desidrata sob o maçarico de um evento climático extremo.
Sinal robusto dos tempos.
Mas desde os alertas ambientais dos anos 90 (a Rio 92, como indica o nome, aconteceu no Brasil há 22 anos) essa é uma probabilidade que deveria estar no monitor estratégico de governantes esclarecidos.
Definitivamente não se inclui nessa categoria o tucanato brasileiro: em 2001 ele já havia propiciado ao país um apagão de energia elétrica pela falta de obras e a renúncia deliberada ao planejamento público.
Os mercados cuidariam disso com mais eficiência e menor preço –ou não era isso que se falava e se volta a ouvir agora sobre todos os impasses do desenvolvimento brasileiro?
Ademais de imprevidente, o PSDB desta vez mostrou-se mefistofelicamente oportunista na mitigação dos seus próprios erros.
Ou seja, preferiu comprometer o abastecimento futuro de milhões de pessoas, a adotar um racionamento preventivo que alongaria a vida útil das torneiras, mas poria em risco o seu quinto mandato em São Paulo.
É importante lembrar em nome da tão evocada liberdade de imprensa: a dissimulação tucana não conseguiria concluir a travessia eleitoral sem a cumplicidade da mídia conservadora que, mais uma vez, dispensou a um descalabro do PSDB uma cobertura sóbria o suficiente para fingir isenção, sem colocar em risco o continuísmo no estado.
É o roteiro pronto de um filme de Costa Gavras: as interações entre o poder, a mídia, o alarme ambiental e o colapso de um serviço essencial, que deixa  uma das maiores metrópoles do mundo no rumo de uma seca épica.
O PSDB que hoje simula chiliques com o que acusa de ‘uso político da água’, preferiu ao longo das últimas duas décadas privatizar a Sabesp, vender suas ações nas bolsas dos EUA e priorizar o pagamento de dividendos a investir em novos mananciais.
Há nesse episódio referencial um outro subtexto para o filme de Costa Gavras: a captura dos serviços essenciais pela lógica do capital financeiro.
Enquanto coloca em risco o abastecimento de 20 milhões de pessoas, revelando-se uma ameaça à população, a Sabesp foi eleita uma das empresas de maior prestígio entre os acionistas estrangeiros.
Mérito justo.
Como em um sistema hidráulico, o dinheiro que deveria financiar a expansão do abastecimento, vazou no ralo da captura financeira. Encheu bolsos endinheirados às custas de esvaziar as caixas d’água dos consumidores.
Não é uma metáfora destes tempos. É a síntese brutal da sua dominância.
Mesmo que a pluviometria do verão fique em 70% da média para a estação, o sistema Cantareira - segundo os cálculos da ANA - ingressará agora no segundo trimestre de 2015 com praticamente 5% de estoque (hoje está com algo em torno de 6%).
Ou seja, São Paulo chegará no início da estação seca de 2015 com a metade da reserva que dispunha em período equivalente de 2014 e muito perto da marca desesperadora do início deste  verão,quando ainda apostava no alívio da estação das chuvas --inexistente no inverno.
A seca que espreita as goelas paulistanas não pode ser vista como uma fatalidade.
Dois anos é o tempo médio calculado pelos especialistas para a realização de obras que poderiam tirar São Paulo da lógica do lodo.
Portanto, se ao longo dos 20 anos de reinado tucano em São Paulo, o PSDB de FH e Aécio Neves, tivesse dedicado 10% do tempo a planejar a provisão de água, nada disso estaria acontecendo.
Deu-se o oposto.
De 1980 para cá, a população de São Paulo mais que dobrou. A oferta se manteve a mesma com avanços pontuais.

O choque de gestão tucano preferiu se concentrar em mananciais de maior liquidez, digamos assim.
Entre eles, compartilhar os frutos das licitações do metrô de SP com fornecedores de trens e equipamentos. A lambança comprovada e documentada sugestivamente pela polícia suíça, até agora não gerou nenhum abate de monta no poleiro dos bicos longos.
‘Todos soltos’, como diz a presidenta Dilma.
A rede metroviária de São Paulo, embora imune a desequilíbrios climáticos, de certa forma padece da mesma incúria que hoje ameaça as caixas d’agua dos paulistanos.
Avulta daí um método – o jeito tucano de governar não pode ser debitado na conta de São Pedro.
O salvacionismo tucano em São Paulo não conseguiu fazer mais que 1,9 km de metrô em média por ano, reunindo assim uma rede inferior a 80 kms, a menor entre as grandes capitais do mundo.
A da cidade do México, por exemplo, que começou a ser construída junto com a de São Paulo, tem 210 kms.
Não deixa de ser potencialmente devastador para quem acusa agora o PT de jogar o país num abismo de má gestão só ter a oferecer à população de SP a seguinte progressão: racionamento drástico imediato, seguido de seca de consequências imponderáveis navida de uma das maiores manchas urbanas do mundo.
É essa a perspectiva para um serviço essencial na capital do estado onde o festejado choque de gestão está no poder há 20 anos.
Ininterruptos.
Uma questão para refletir:
O legado recomenda uma recidiva da receita para todo o Brasil, como exigem os centuriões do mercado e alguns cristãos novos petistas?
A ver.


DISTRIBUIÇÃO DE RENDA É QUESTÃO POLÍTICA

Por isso é tão grande a desigualdade em países como o Brasil. Veja a matéria que saiu no Viomundo

Quem ganha até dois salários deixa 53,9% da renda com o Tesouro

publicado em 14 de janeiro de 2015 às 14:52
Lena Lavinas - Economista - Professora da UFRJ
Lena Lavinas, autora do estudo
Feliz ajuste fiscal
A identidade fugidia do patrimonialismo no Brasil hoje pode ser desvendada na fiscalidade
por Luiz Gonzaga Belluzzo — publicado 11/01/2015 08:20, na CartaCapital

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, manifestou sua rejeição ao patrimonialismo. O ministro utilizou o conceito para designar a concessão de incentivos, subsídios e favorecimentos a determinados setores da economia.

Na raiz da rejeição, está a concepção da economia competitiva: povoado por indivíduos racionais e otimizadores, o mercado, sem favores ou barreiras, tem a virtude de gerar os incentivos adequados ao crescimento econômico e para a elevação do bem-estar da comunidade. Nessa visão, mesmo com a economia resvalando para a recessão, o equilíbrio intertemporal das contas públicas é condição para o crescimento econômico saudável. É o que tenta há cinco anos a Europa da senhora Merkel.

Vamos ao patrimonialismo. O leitor certamente conhece o livro de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, uma aventura intelectual na busca do desvendamento das raízes patrimonialistas da sociedade e do Estado no Brasil. O livro de Faoro não é de fácil leitura. A obra não investiga apenas os caminhos e descaminhos do patrimonialismo brasileiro. Avança, sim, na perquirição a respeito das origens luso-colonial-mercantilistas do patrimonialismo nativo. No fim do percurso encontra a encruzilhada weberiana: o patrimonialismo tupiniquim junta-se ao fenômeno universal do “patrimonialismo capitalista”.

O capitalismo realmente existente na Inglaterra liberal do século XIX surgiu das entranhas dos privilégios mercantis. No século XVIII, às vésperas da Revolução Industrial, diz Eric Hobsbawm, a Inglaterra era comandada pela aristocracia enriquecida na esfera financeira e mercantil. Prevaleciam os grandes comerciantes, banqueiros e negociantes de dinheiro, concentrados em Londres. Os industriais manchesterianos auferiam rendimentos muito inferiores àqueles obtidos pelos mercadores e financistas. Ainda mais ricos e influentes do que os empresários da indústria eram os que se valiam de privilégios e sinecuras: soldados, magistrados, todos incluídos na rubrica de “offices in profit of the crown”.

Os privilégios sobreviveram à Revolução Industrial. Metamorfoseados no poder da finança internacionalizada da City londrina, decretaram o destino econômico da Inglaterra, logo suplantada pela escalada das industrializações retardatárias. Os retardatários usaram e abusaram de subsídios e privilégios: protecionismo nos Estados Unidos, dirigisme na França e íntimas ligações entre o chanceler Bismarck, a burocracia Junker e o banqueiro-lobista Bleichröder, na Alemanha.

No Brasil, o patrimonialismo capitalista vestiu muitas máscaras ao longo da história, mas hoje sua identidade fugidia pode ser desvendada na fiscalidade. Vamos enveredar pela estrutura tributária e de gasto para entender o caráter regressivo e concentrador dos juros de agiota sobre dívida pública.

Entre 1995 e 2011, o Estado brasileiro transferiu para os detentores da dívida pública, sob a forma de pagamento de juros reais, um total acumulado de 109,8% do PIB. Se avançarmos até 2014, essa transferência de renda e riqueza chega a 125% do PIB. Isso significa atirar ao colo dos detentores de riqueza financeira, ao longo de 19 anos, um PIB anual, mais um quarto. É pelo menos curioso que os idealizadores do “impostômetro” não tenham pensado na criação do “jurômetro”.

É possível alinhavar algumas cifras para apontar os perdedores e ganhadores do jogo. Para tanto, vou recorrer ao excelente estudo da professora Lena Lavinas, A Long Way from Tax Justice: The brazilian case.

Nesse caso, como em outros, há brasileiros e brasileiros. Em 2011, a carga tributária bruta chegou a 35,31% do PIB. No Brasil os impostos indiretos, como o IPI e o ICMS, representam 49,22% do total da carga tributária. Como se sabe, esses impostos incidem sobre os gastos da população na aquisição de bens e serviços, independentemente do nível de renda. Pobres e ricos pagam a mesma alíquota para comprar o fogão e a geladeira, mas o Leão “democraticamente” devora uma fração maior das rendas menores. Os chamados encargos sociais representavam 25,76% da carga total e o ônus estava, então, distribuído entre empregados e empregadores.

Já o Imposto de Renda contribui com parcos 19,02% para a formação da carga total, enquanto os impostos sobre o patrimônio são desprezíveis, sempre empenhados a beneficiar a riqueza imobiliária e financeira dos mais ricos. As estimativas sobre a distribuição da carga tributária bruta por nível de renda mostram que, enquanto os que ganham até dois salários mínimos recolhem ao Tesouro 53,9% da renda, os que ganham acima de 30 mínimos contribuem com 29,0%.

“A quem tem, mais se lhe dará, e terá em abundância; mas, ao que quase não tem, até o que tem lhe será tirado.” Feliz ajuste fiscal.

PS do Viomundo: Cadê o imposto sobre fortunas previsto na Constituição de 1988? Ou o Levy foi colocado lá para taxar só os pequenos?

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ENTENDER PARA ONDE VAI A CHINA

O Império do Caos não é novidade. É a força dominante do mundo, e parece disposto a qualquer coisa para que seu poder não seja relativizado. Faltou combinar, por exemplo, com os russos e com os chineses, que querem seguir suas trajetórias de crescimento relativamente maior do que o Império. Há dois artigos que ajudam a ver o que vai acontecendo neste jogo dos peixes grandes (no caso da Rússia, grande do ponto de vista militar). O primeiro, de Francesco Sisci, no Asia Times, o segundo, de Pepe Escobar, cuja tradução para o português recolhi no Escrevinhador.

Ao que parece, a China também sabe jogar xadrez. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

domingo, 4 de janeiro de 2015

SÃO OS TUCANOS TÃO INCOMPETENTES?

Não, creio que, fora a natural inapetência de políticos com questões de gestão em favor de discursos generalistas, há uma razão importante para a cegueira desastrosa dos governos tucanos (vinte anos no poder em São Paulo) em relação à gestão da água. A ideologia.

Nos anos 1990, eles adotaram as ideias chaves do neoliberalismo, entre elas a de que o mercado dá conta da distribuição de renda, e de que tudo o que está organizado em empresas deve ser privatizado. Assim, além de privatizar as comunicações e a energia elétrica - inclusive entregando hidrelétricas já amortizadas para exploração financeira, no estado de São Paulo privatizaram a captação e gestão das águas. Na realidade, os beneficiários de tudo isso são os mais ricos, os que detêm o poder financeiro em todo o mundo.

Nominalmente, o estado ainda tem maioria das ações, mas a SABESP tem ações vendidas em Nova Iorque, uma desculpa para ela dar prioridade à distribuição de lucros para os acionistas. E a agência de águas do estado se omitiu todo o tempo, deixando que a situação chegasse à situação que o novo presidente da SABESP, Jerson Kelman, qualificou finalmente como gravíssima.

O mais grave na postura tucana é que eles abrem mão de todo pragmatismo quando se trata de entregar questões públicas a mão privadas. Para mais das prováveis negociatas, eles acreditam que o mercado vai tomar conta, com a tal mão invisível, conceito que Adam Smith usou com muito mais prudência na época. E ainda alegam que as propostas dos adversários são ideológicas.

Eu não votei em Alckmin!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE

As tais virtudes teologais são interessantes. A ver:

Fé como a capacidade em acreditar no que os outros, com autoridade (padres, bispos, pastores, escritores de escrituras sagradas, imperadores, políticos, ditadores) afirmam.

Esperança. poder de se apaziguar quando parece difícil agir efetivamente para melhorar as coisas consigo mesmo, esperando.

Caridade, como aptidão para se colocar do outro lado em relação aos que precisam de ajuda para melhorar de vida, e dar alguma coisa do que é da gente, e se sentir melhor, embora por alguns instantes, por isso. 

São interessantes para manter a minha, as mentes em harmonia com o que existe, do jeito que é, assim como ensinam as escrituras sagradas e os tratados de economia.