quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

JOAQUIM BARBOSA, O HERÓI DOS COXINHAS

Do Cafezinho


As arbitrariedades de Barbosa parecem não ter fim

Enviado por  on 06/01/2014 – 4:57 pm37 comentários
Não sei o que levou nosso Judiciário a abrigar tantos monstros. Na Papuda, ficamos sabendo de um tetraplégico preso em regime fechado porque acharam um baseado de maconha em seu quarto. O sujeito tem de comer e fazer necessidades com ajuda de outros presos. A juíza indeferiu pedido de seu advogado, de cumprir prisão domiciliar, alegando que o presídio tem condições de cuidar dele. É uma monstra. E a mídia noticiou o caso sem fazer um comentário crítico.
No Brasil, há milhares de presos encarcerados injustamente porque nosso Judiciário não gosta de trabalhar. E descobriu-se que, com Joaquim Barbosa à frente do Conselho Nacional de Justiça, a situação piorou gravemente, porque ele reduziu os “mutirões”.
Essa história do mutirão já é ridícula. A Justiça tinha que trabalhar e ter planejamento, e não fazer mutirão. Mas diante da gravidade do quadro, os mutirões ajudam a desafogar o sistema prisional.
E agora assistimos a outro caso de monstruosidade, aplicada a um representante do povo, a um herói da luta contra a ditura, a um homem a quem o Estado tem uma dívida moral impagável: torturou-o por mais de quatro anos, na flor de sua juventude, e agora volta a torturá-lo, quando está velho e doente.
Confiram a decisão de Joaquim Barbosa de negar o pedido de Genoíno de cumprir prisão domiciliar em sua residência, conforme manda a Constituição.
Barbosa espera Genoíno melhorar para mantê-lo encarcerado. É um homem mau. E adorado pelas pessoas más, que entendem a política como um jogo de vinganças e não uma disputa de visões de mundo. Pessoas que, por isso mesmo, não se compadecem dos mais fracos, dos pobres e dos doentes.
Genoíno mereceria prisão domiciliar mesmo que não fosse um heroi da luta contra a ditadura, mesmo que não fosse um parlamentar que sempre foi querido pelo povo e por seus colegas.
O advogado de Genoíno tentou explicar a Barbosa que seu cliente tinha consultas marcadas em seu hospital em São Paulo, em janeiro, por isso era importante que viesse a cumprir pena em sua residência. Explicou também que sua família, esposa, filhos e netos moram em São Paulo, e a vida de todos está transtornada pelo fato de seu querido pai estar em Brasília, em casa de contraparentes. É humilhante ficar em casa dos outros. Genoíno não tem casa em Brasília, por isso não tem sentido Barbosa não lhe permitir que fosse para sua própria casa, onde poderia, perto de seus familiares e com apoio dos médicos que acompanham seu caso desde o ínico, tratar melhor de sua saúde.
Mas Barbosa não tem um pingo de humanidade em seu coração frio e mau. Indeferiu e ainda aterrorizou a família dizendo que Genoíno deve retornar ao presídio pois está melhorando. Ou seja, ele transforma a melhora de saúde de Genoíno numa coisa negativa. É um monstro.
Genoíno está melhorando porque está próximo de seus familiares, recebendo alimentação adequada, acalmando-se e sendo medicado. Voltando ao presídio, fatalmente adoecerá novamente.
Abaixo a íntegra da decisão de Barbosa. Volto em seguida.
*
Decisão de Barbosa, conforme publicado no site do STF:
Sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Negado pedido de transferência de José Genoino para São Paulo
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, negou pedido de transferência de prisão domiciliar de Brasília para São Paulo, apresentado pela defesa do ex-deputado federal José Genoino, condenado pelo STF na Ação Penal 470.
Leia a íntegra da decisão:
Transferência na Execução Penal 1 Distrito Federal
Relator: Min. Joaquim Barbosa
Polo Pas: José Genoíno Neto
Adv.(a/s): Sandra Maria Gonçalves Pires e Outro(a/s)
Decisão:
Em 21 de novembro de 2013, deferi, parcialmente, pedido da defesa do apenado JOSÉ GENOÍNO NETO, para o fim de permitir-lhe o tratamento médico domiciliar, até o pronunciamento conclusivo da Junta Médica.
O resultado da perícia, e todos os demais laudos médicos juntados aos autos, indicaram a ausência de doença grave que constituísse impedimento para o cumprimento da pena no regime semi-aberto.
Ademais, informações recebidas do Juízo das Execuções Penais de Brasília/DF dão conta de que a assistência médica é garantida aos internos do complexo prisional.
De toda sorte, com base em análise realizada por médicos da Câmara dos Deputados, o Ministério Público Federal opinou pela necessidade de aguardar noventa dias antes de transferir o condenado para o sistema prisional, por cautela. Agora, por meio da Petição 65.656, de 26 de dezembro de 2013, a defesa do apenado JOSÉ GENOÍNO NETO pleiteia o seguinte:
“Este ínclito Juízo concedeu ao sentenciado, por ora em caráter precário – objetivando resguardar e, dentro dos limites do clinicamente possível, restabelecer seu grave estado de saúde – prisão albergue hospitalar ou domiciliar.
Assim é que, desde sua alta hospitalar, vem convalescendo, por enorme favor, alojado em casa de eupático e generoso parente, situada em endereço neste Distrito Federal, conforme declarado nos autos.
Passados já muitos dias da concessão da medida humanitária, sente-se o peticionário – não obstante a vigência de seu delicado quadro clínico – apartamento a realizar, por meios próprios, deslocamento para a cidade de São Paulo (SP). Com efeito, é naquela cidade, na Rua Maestro Carlos Cruz, n. 154, que mantém sua única moradia, residência própria adquirida pelo antigo sistema do B.N.H., há mais de trinta anos.
Ali também é que vivem sua companheira, seus dois outros filhos, seu genro e seus dois pequenos netos.
Foi em São Paulo (SP) outrossim que submeteu-se ao sério procedimento cardio-cirúrgico noticiado nos autos, sendo de rigor informar que, devido à necessidade de controle periódico de seu quadro clínico – tudo conforme já esplandado [sic] nestes autos – tem consulta e exames pré-agendados no Hospital Sírio-Libanês para o próximo dia 07 de janeiro, sob a responsabilidade do Professor Kalil Filho, médico que desde a intervenção vem acompanhando e orientando sua convalescença.
É São Paulo (SP), pois, o local correto e mais adequado à continuidade do cumprimento da pena que lhe foi imposta. Pelo exposto, requer seja autorizado o cumprimento em São Paulo (SP), da prisão albergue domiciliar concedida”. É o relatório.
Decido.
O pleito não pode ser deferido.
A prisão domiciliar do apenado é meramente provisória. Como indica a própria defesa, seu estado de saúde está evoluindo e, mais do que isso, todas as informações existentes nos autos indicam que sua condição atual é compatível com o cumprimento da pena no regime semi-aberto, dentro do sistema carcerário, nos termos da condenação definitiva que lhe foi imposta nos autos da AP 470.
Acrescente-se, ainda, que o próprio condenado requereu, em 26 de novembro de 2013, “desde já, a desistência dos pedidos formulados para que fosse transferido a instituição penitenciária adequada no Estado de São Paulo, tendo em vista que aceita cumprir a pena privativa de liberdade no Distrito Federal”.
Ademais, é firme a jurisprudência no sentido da “inexistência de direito subjetivo do sentenciado à transferência para estabelecimento penal de sua preferência, ainda que com fundamento em alegada proximidade de seus familiares” (HC 88.508-MC-AgRg, Rel. Min. Celso de Mello).
Noutras palavras: o preso não pode escolher, ao seu livre alvedrio e conveniência, onde vai cumprir a pena que lhe foi definitivamente imposta.
Por fim, considerada a provisoriedade da prisão domiciliar na qual o condenado vem atualmente cumprindo sua pena, e a forte probabilidade do seu retorno ao regime semi-aberto ao fim do prazo solicitado pela Procuradoria-Geral da República, considero que a transferência ora requerida fere o interesse público.
Por todo o exposto, indefiro o pedido de cumprimento da pena em regime domiciliar em São Paulo.
Relativamente à reavaliação da saúde do condenado, ela deverá ser feita no lugar do cumprimento atual da pena, ou seja, em Brasília. Caso o apenado pretenda trazer o médico de sua preferência para realizar os exames necessários no Distrito Federal, deverá fazê-lo às suas próprias expensas.
Em conclusão, provisoriamente, e pelo período de 90 dias, contados do dia 21 de novembro de 2013, o réu JOSÉ GENOÍNO NETO permanecerá em prisão domiciliar em Brasília/DF.
Brasília, 27 de dezembro de 2013.
Ministro Joaquim Barbosa - Relator
Documento assinado digitalmente
*
A jurisprudência alegada por Barbosa é o caso de  Fernandinho Beira Mar, em decisão de Celso de Mello.
Acontece que a decisão de Mello, de negar pedido de Beira Mar de cumprir pena no estado onde o próprio tem residência e onde residem seus familiares, tem como pano de fundo o fato do condenado ser um elemento de alta periculosidade, havendo risco de fugas, além da facilidade do mesmo para continuar controlando, de dentro do presídio, o crime organizado.
A decisão de Mello explicita os antecedentes que motivam a transferência de Beira Mar para unidades prisionais situadas fora de seu estado de residência:
Conforme informações prestadas ao Juízo da Vara de Execuções Penais – VEP – do Rio de Janeiro, pelo Secretário de Administração Penitenciária do mesmo Estado, através do ofício nº 53/GAB/SEAP/03, a transferência de Luiz Fernando da Costa para São Paulo resultou de ato administrativo em decorrência de ‘acontecimentos violentos imputados ao presidiário’, mais precisamente, na ‘seqüência de rebeliões, motins, tentativas de fuga e incidentes com reféns’, conforme exposto no ofício da lavra da autoridade administrativa, ‘ipsis literis’ (fls. 028/STJ).
Comparar Genoíno à Beira Mar é um acinte. Mais um erro, mais uma arbitrariedade judicial, entre tantas que caracterizam a Ação Penal 470. Genoíno entregou-se pacificamente à polícia e está condenado a regime semi-aberto. Merece a prisão domiciliar, até para poupar custo ao sistema prisional de lhe oferecer os caros e delicados tratamentos médicos de que precisa para continuar vivo, além do ambiente sem stress fundamental para se recuperar.
E ainda temos que ler, diariamente, colunas e análise da imprensa sobre qual cargo político Joaquim Barbosa poderá concorrer no ano que vem, sempre ao lado da oposição, numa desavergonhada e pública confissão de que tudo que ele faz tem como objetivo os holofotes da mídia e o poder.
E a mídia, em especial O Globo, continua lhe oferecendo blindagem total. Hoje Ancelmo Gois, o mais barbosiano dos colunistas, publica notinha para atacar Edson Santos, deputado federal pelo PT do Rio, que vem travando um bom e justo combate contra os desmandos de Joaquim Barbosa.
“Antecedentes - Joaquim Barbosa disse a amigos que Edson Santos passou a atacá-lo depois da ida a seu gabinete, no STF, de um grupo, ligado ao deputado petista, em busca de apoio aos chamados invasores do Jardim Botânico, no Rio. O ministro não apoiou.”
Onde vamos parar?
*
Outro trecho da decisão de Mello sobre Fernando Beira Mar:
Assim, embora sem praticar ato próprio ou típico de Execução, decidiu por remeter a solução do problema ao Poder Executivo Federal, invocando ‘interesse nacional’ na custódia do apenado. Esse interesse maior de ordem pública estaria a justificar a execução da pena em unidade federativa diferente daquela em que se deu a condenação.
Não há dúvida de que a manifestação da autoridade suscitante funciona como obstáculo ao cumprimento da decisão proferida pela autoridade suscitada, além de com ela guardar manifesta relação de contrariedade. Essa característica é 
materialmente suficiente para a caracterização do conflito.
Em suma, a autoridade judiciária de São Paulo entende que o Juízo competente para a execução da pena é o do local da condenação – que é também o meio familiar e social do preso.
Ao contrário, o Juízo da VEP do Rio de Janeiro está convencido de que a hipótese demanda a aplicação do artigo 86 da Lei de Execução Penal, sendo o Rio de Janeiro o local menos indicado para o cumprimento da pena, devendo-se evitar a presença do condenado exatamente no meio em que exerce liderança sobre facção criminosa ligada ao narcotráfico.
Repare que a Justiça de São Paulo, pese as argumentações dos juízes fluminenses, lembram que a lei manda o preso cumprir pena em seu estado. A Justiça do Rio de Janeiro, por sua vez, não queria receber Fernandinho Beira Mar no sistema prisional fluminense em função de ser um caso excepcional, de um preso de altíssima periculosidade, chefe de uma das organizações criminais mais poderosas do país. Fernando Beira Mar é acusado de inúmeros homicídios, sequestros, tortura. Por isso o Judiciário abriu uma exceção para mantê-lo fora do Rio.
Comparar esse caso a Genoíno é mais uma prova do julgamento de exceção que foi a Ação Penal 470. Por isso, ela deveria ser anulada.
Mas antes disso, já seria um avanço Barbosa deixar a sua monstruosidade moral de lado e fazer como manda a Constituição e o bom senso. Permitir a prisão domiciliar a Genoíno e deixar que ele cumpra a pena em sua residência, próximo de seus familiares, e sendo tratado por seus médicos e fazendo exames no hospital onde já vinha se tratando.
joaquim-barbosa-mensalão
Barbosa finge ler a Constituição. Mas só finge, porque não a respeita.
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LOBISTA ESTADUNIDENSE MORREU

Do Viomundo:


Heloisa Villela: “Lobista americano morreu”

publicado em 7 de janeiro de 2014 às 12:40

Eufemismo até no lobby
por Heloísa Villela, no Brasil Econômico, no Informe New York, sugerido por Franco Atirador
O título do e-mail me deixou os olhos arregalados.
O remetente era uma organização respeitada, que produz informações confiáveis.
Mas as palavras estavam lá, taxativas: “o lobista morreu”.
Não um lobista em particular. Mas a “profissão” em si.
Portanto, TODOS os lobistas.
Era uma notícia bombástica demais para ser verdadeira.
Afinal, são eles, os lobistas e o dinheiro que investem, em nome de seus clientes, nas campanhas eleitorais americanas que dominam a política do país. Abri o e-mail imediatamente.
Um texto inteligente e bem-humorado recordou um pouco da longa vida do “lobista” morto. Ele tinha já seus 150 anos e, coitado, sempre foi vítima de piadinhas, acusações e abusos verbais.
Mas entrou no século XXI com tudo! O governo passou por uma bela expansão e, com o país metido em duas guerras, não faltava trabalho. Em 2010, os lobistas faturaram, apenas em Washington, US$ 3,55 bilhões. Porém, essa fama de distorcer o sistema político, influenciar as decisões em Washington, trabalhar com dinheiro, por dinheiro e somente pelo dinheiro estava pesando. Foi então que surgiu a solução. Neste ano, os profissionais do ramo não se reuniram, como costumam fazer em todo fim de ano, em uma convenção nacional de lobistas. Eles participaram do encontro anual da “Associação de Profissionais de Relações com Governos”.
Piadinha boa do e-mail.
Me fez pensar nos eufemismos que deslizam do discurso do governo com a intenção de deitar raízes no vocabulário popular e assim produzir aceitação de práticas deploráveis, despertar simpatia por causas injustas e outras gracinhas.
As palavras têm o poder de atiçar imagens na mente de quem as ouve ou as pronuncia.
Cuidar minuciosamente do discurso, como faz a Casa Branca, tem justamente esta intenção: produzir a imagem desejada na mente da população.
Daí o “dano colateral” (collateral damage) no lugar de “civis mortos” ou “morte de inocentes”, que remete imediatamente a crianças dilaceradas, baleadas ou atingidas por bombas e mísseis.
Em uma prova de desfaçatez incalculável, o governo americano também adotou a expressão “técnica de interrogatório acentuada” ao se referir de forma genérica à tortura.
A “Guerra contra o Terror” de George W. Bush deu lugar às “Operações de Contingência no Exterior” de Barack Obama.
Não existe guerra. Ao menos para os americanos já que mais e mais são aviões controlados por controle remoto, do conforto das instalações americanas na Virgínia ou em outros estados, que lançam mísseis e eliminam terroristas, com ou sem a produção de “danos colaterais”.
Obama, ao contrário de Bush, preferiu matar os suspeitos do que prendê-los.
Guantânamo se tornou uma vergonha e um abacaxi.
Os presos que mofam lá há mais de uma década, para Obama, estão em uma situação de “detenção prolongada”, não mais presos por tempo indeterminado, sem direito a julgamento.
Em um ensaio publicado em 1946, o escritor e jornalista britânico George Orwell explicou com clareza do que se trata toda essa neblina verbal.
Ele disse que o objetivo dessa linguagem política obscura é “fazer com que mentiras soem verdadeiras e o assassinato respeitável”.
Ou, como disse o também britânico Quentim Crip, todo eufemismo “é uma verdade desagradável com perfume diplomático”.
Os Estados Unidos não inventaram essa brincadeira.
A Alemanha nazista foi mestra no uso dos eufemismos.
Basta lembrar do primeiro grande ataque aos judeus na Áustria e na Alemanha, em novembro de 1938, que resultou na morte de 96 judeus e no envio de outros 30 mil para os campos de concentração.
Ainda hoje, a data, considerada o início do Holocausto, mantém o nome que ganhou na época:
“A Noite de Cristal”, como se apenas alguns vidros tivessem sido quebrados.
Reinhard Neydrich, cabeça do escritório de segurança do Reich, se preocupou especificamente com o problema da disseminação de informações durante o nazismo.
Não queria que soldados e oficiais que voltavam do Leste falassem das atrocidades testemunhadas por lá.
Vários eufemismos foram adotados para substituir a realidade nua e crua dos campos de concentração.
As câmaras de gás se chamavam “casas de banho”.
“Reassentamento” nada mais era do que o assassinato de judeus.
“Liberar uma área”, torná-la livre de judeus, significava matar todos os judeus daquela região.
A lista é longa…
Mas os Estados Unidos entenderam rapidamente a importância de tomar as rédeas do vocabulário como forma de mobilizar a população ou tornar a realidade mais palatável.
Já no fim da Segunda Guerra Mundial, Tio Sam fez um ajuste importante. Transformou o Departamento da Guerra em Departamento de Defesa.
A nascente superpotência não agride.
Somente se defende e abraça a causa dos direitos humanos pelo mundo afora.
Daí, no afã de proteger mais alguns milhares, os Estados Unidos, com o apoio da ONU, bombardeou a Iugoslávia em 1999.
Como disse o professor de história da Universidade da Califórnia Perry Anderson, em “American Foreign Policy and Its Thinkers” (Política Externa Americana e seus Pensadores), “foi a primeira vez que um bombardeio aéreo foi declarado uma intervenção humanitária”.
Belgrado ainda tem prédios destruídos pela agressão.
Eles foram intencionalmente preservados, aos pedaços, como lembrança.
Mais recentemente, foi a vez da Líbia de Muammar Kadaffi.
Em 2011, o “esforço humanitário” americano veio dos céus novamente.
Mas nunca foi tratado, pela Casa Branca, como um bombardeio.
Não houve “hostilidade”, explicou o governo, porque os soldados americanos nem pisaram em solo estrangeiro.
Houve apenas uma “ação militar cinética”.
Como é que é?
Segundo o Dicionário Aurélio, cinético é o que produz movimento. Então está explicado.
Foi bastante “cinética” a participação dos Estados Unidos em toda a América Central e na nossa América do Sul.
Provocou mesmo um bocado de movimento.
E levou tempo… Em alguns casos, mais de 20 anos para reencontrar o rumo que a movimentação toda provocada pelo grande vizinho do Norte provocou nas nossas bandas derrubando governos democráticos e garantindo a permanência de ditaduras ao longo de quase toda a região ao Sul da Flórida.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

EDUARDO CAMPOS DETONA DILMA EM VÍDEO!

Cá está a denúncia que muitos esperavam! Clique aqui.

LEMBRANDO JOÃO GOULART

Do Fernando Brito, no Tijolaço

Justiça a Jango: não deixou o Brasil virar um Vietnam

6 de janeiro de 2014 | 14:15 Autor: Fernando Brito
napalm
A gravação do diálogo de John Kennedy em que ele cogita de uma intervenção militar americana no Brasil e no Vietnã faz justiça ao ex-presidente João Goulart.
Jango não foi um covarde que deixou de reagir, quando podia, aos golpistas daqui.
Em agosto de 64, quatro meses depois do golpe no Brasil, o governo americano forjou um ataque da marinha norte-vietnamita a seus navios, para justificar a intervenção direta dos EUA naquele país.
Ali ficariam 10 anos, até  serem escorraçados, mas deixando um rastro de morte, destruição e sofrimento que aterrorizou o mundo inteiro.
Faria o mesmo aqui, naqueles dias, se houvesse resistência?
A gravação mostra que isso não é um delírio ou propaganda antiamericana.
A Quarta Frota já vinha para cá, em princípio para fornecer combustível e armas para os militares subversivos do golpe.
Jamais se saberá se Jango tinha ideia das intenções americanas em toda a sua extensão e até onde estavam dispostos a ir.
Mas, sabendo até que ponto foram em um país muito mais distante deles e muito menos estratégicos, como o Vietnam, é possível imaginar.
Muitas vezes a estatura de um governante deve ser medida não pelo o que ele fez.
Mas pelo que ele impediu que se fizesse.
As mortes, as torturas, os exílios, banimentos e cassações foram imensos, cruéis, graves e imperdoáveis.
Mas, com certeza, nada perto do que fizeram ao povo vietnamita.
Jango teve uma grandeza tão extrema quanto o foi a pequenez daqueles que estavam a pedir a invasão estrangeira em seu próprio país.
E que, se não os entregaram pelas armas, fizeram isso com nossa soberania.
Lentamente, a história, apesar de nossos Ministros do STF, vai apontando a gravidade de seus crimes.
Não foram apenas destruidores de vidas. Foram, alguns deles, traidores de sua pátria.
E há suas novas versões, que seguem desejando entregar este país, seu povo e nossas imensas riquezas.
Tomara que as novas gerações de militares consigam ver que o que  eles fizeram e representaram, sob palavras hipócritas, são aquilo que mais ofende a nossa consciência de brasileiros, pedir e oferecer-se a uma invasão militar  estrangeira em nosso país.

SAUL LEBLON, SOBRE A DIREITA E O ANO NOVO

Uma batalha importante da direita vai ser a iniciativa para transformar a Copa do Mundo em um desastre. Veja este artigo:

Quem vai fazer o serviço?

A sedimentação da agenda conservadora para 2014 envolve a adesão de um pedaço da esquerda e o silencio desfrutável de outro. O padrão é o cerco ao IPTU em SP.

por: Saul Leblon 

Arquivo

Quem vai fazer o serviço?

A sedimentação da agenda conservadora para 2014 envolve a adesão de um pedaço da esquerda e o silencio desfrutável de outro.

O padrão foi testado e bem sucedido no cerco ao reajuste do IPTU em São Paulo.

Os interesses atingidos só tiveram sucesso em sabotar  a medida graças à omissão dos que sabiam o que estava em jogo, mas preferiram silenciar.

É essa capacitação ao exercício da cumplicidade que a emissão conservadora  opera de forma explícita nos dias que correm.

Colunistas e editores espetam sinais  para ordenar o fluxo na direção almejada: a seringa do piquete onde se conta o rebanho.

Quantas cabeças  teremos para oferecer aos mercados?

Nas manchetes e fotos, mais que nos textos, espetam-se os ferros com as iniciais do dono.

O ponto de encontro tem data e local  definidos: 12 de junho de 2014, 17 hs, estádio do Itaquerão, onde o Brasil abre a Copa do Mundo diante da Croácia.

Durante um mês, até 13 de julho, novas oportunidades  se abrem: há jogos distribuídos nas principais  capitais do país.

Alguém duvida que a tabela será explorada na emissão conservadora como ponto de encontro de gente ansiosa para mostrar o seu valor a fotógrafos e cinegrafistas generosos?

Textos gordurosos como os autores, tortuosos como seus valores,  arregimentam as adversativas do léxico para  assegurar  o verniz ‘jornalístico’ à panfletagem.

Não importa o  tema da coluna.

O objetivo predefinido é dar suporte a logos,  títulos e manchetes que disseminem  ordem unida.

‘Em 2014, vem prá rua você também’, convocava-se na Folha no dia de Natal;  ou o soberbo, ‘Não vai ter Copa’, abraçado neste domingo por um vulgarizador do mercadismo  no mesmo  veículo.

À falta de projeto defensável à luz do dia – arrochar 70% do país para lubrificar  30% só rende votos em saraus elegantes--  escava-se o vazio em busca de chão firme.

De joelhos e com as unhas, se preciso for para satisfazer os sinais vindos das  direções de redação.

O tesouro cobiçado  é tanger multidões  à frente única em curso para enfrentar Dilma em outubro próximo.

Procura-se, em suma, alguém que  faça o serviço que os cabedais do conservadorismo, sozinhos, são incapazes de entregar.

É esse vazio adicionado de urgência que reduz  colunistas à função rastaquera de insuflar a indignação sem explicar a fórmula do elixir  que vai contemplá-la.

Se quiser,  o público alvo –as organizações com capacidade de mobilização - tem elementos para confrontar  o aceno dos charlatães com os ingredientes da gororoba historicamente  despejada por eles na goela do país – não raro com funil e camisa e força.

A sedimentação golpista de uma parte da opinião pública brasileira não ocorreu por acaso nos últimos anos.

Trata-se de obra deliberada de gente bem paga --e eficiente, diga-se, na arte de popularizar generais redentores, santificar consensos neoliberais, incensar  janios, collors, demóstenes , carlinhos cachoeira, joaquins, serras  e assemelhados.

O florescimento desse acervo não prosperaria sem o trabalho prestimoso dos que esculpem o seu busto em bronze de credibilidade e veneração.

É um equívoco  dissolver  essa assinatura numa edulcorada predisposição da sociedade ou de parte dela para ser canalha ou 'egoísta'.

Ainda que exista a receptividade estrutural em certas camadas, é  indispensável o fermento que transforme o instinto em história.

Incensar  os joaquins e  Demóstenes; satanizar os lulas e respectivas agendas é uma parte do bicarbonato  requerido  na receita.

Sem ele a  massa não cresce.

Antecedentes  referenciais  testemunham o notável  desempenho da emissão conservadora  na tarefa de sovar a massa.

Escondidas até agora nos arquivos da Unicamp, para onde foram exiladas pelo próprio Ibope,  pesquisas de opinião feitas às vésperas do golpe de 1964 mostram, todavia, que o labor midiático sozinho não leva a receita ao ponto.

Os dados dissecadas em entrevista recente do pesquisador Luiz Antônio Dias à revista Carta Capital, transcrita no blog de Luis Nassif ,  detalham o paradoxo:

- em junho de 1963, Jango tinha 66% de aprovação em SP;

- em março de 1964, caso fosse candidato no ano seguinte, ele teria mais da metade das intenções de voto na maioria das capitais;

- o apoio  à reforma agrária, então satanizada pelas elites, era superior a 70% em algumas capitais;

- na semana anterior ao golpe, as pesquisas mostravam que Jango tinha 72% de aprovação popular  –entre os mais pobres, o índice chegava a 86%.

O mesmo conservadorismo que  hoje torce por  protestos na Copa colocaria então milhares de pessoas  nas ruas de São Paulo, em 19 de março de 1964,  na Marcha da Família Com Deus pela Liberdade.

O movimento  ecoado na mídia como a evidência cabal do isolamento (inexistente) do governo  não saltou espontaneamente das páginas da imprensa para o asfalto.

Foi preciso organizá-lo meticulosamente.

A mídia cumpriu a sua parte, como o faz hoje, legitimando a ‘revolta da sociedade e da família contra o desgverno’.

Mas coube a Igreja e às ligas de senhoras católicas, com forte participação de esposas de empresários, botar a mão na massa.

Senhoras da elite  usaram sua ascendência para intimar  famílias operárias, sobretudo as mulheres, a integrarem  e divulgar o movimento.

Quase 50 anos depois, a regressão conservadora não dispõe mais da estrutura capilar de mobilização de que lançou mão às vésperas do golpe de Estado que prendeu, torturou, matou, decretou a censura à imprensa e às artes e colocou os partidos e sindicatos  na ilegalidade.

Escribas do jornalismo isento sugerem que podem superar as mais dilatadas expectativas no esforço para reeditar o mutirão cinquentenário na presente  intersecção entre a Copa do Mundo e as eleições presidenciais de outubro.

Para que ele signifique alguma coisa de equivalente ao papel legitimador desempenhado pela Marcha da Família, quando  Jango  tinha  mais da metade das intenções de votos –como Dilma as tem-- alguém terá que puxar o cordão.

A coalizão conservadora espera que cada um cumpra o seu dever.

Ou seja, que um pedaço dos setores progressistas  insatisfeitos com o governo  acenda o forno a 180º  e reforce a levedura na massa.

Uma vez pronto o bolo, vá para casa, e deixe a coisa com quem entende de comer o Brasil.

A ver.

UMA BOA FALA DE NAOMI KLEIN

E um bom sorriso. A fala é de outubro de 2011, não se tem falado muito dos movimentos Ocupar Wall Street (que foi violentamente reprimido pela polícia de Noca York) e outros, em 2013 houve no Brasil uma explosão de manifestações que por ora não tem sentido político comum, mas o que está na fala continua a ser muito importante. Dica do meu amigo Eder.
A coisa mais importante do mundo
por Naomi Klein*
A intelectual e ativista canadense fez um discurso histórico à Assembleia Geral do movimento Ocupar Wall Street.

190 A coisa mais importante do mundo
Naomi Klein. Foto: REUTERS/Gordon Terris


Naomi Klein é hoje uma das principais intelectuais e militantes anticapitalistas do planeta. Jovem (nasceu em 1970), apaixonada, corajosa, de brilhante trânsito por uma série de disciplinas e potente domínio da retórica, ela já se destacara como figura central nos protestos de 1999 contra a financeirização do mundo. Em 2000, lançouNo Logo, uma crítica das multinacionais e do seu uso do trabalho escravo. Mas foi seu terceiro livro, A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre, que a elevou à condição de uma das principais intelectuais de esquerda do mundo. Com capítulos sobre os Estados Unidos, a Inglaterra de Thatcher, o Chile de Pinochet, o Iraque pós-invasão, a África do Sul, a Polônia, a Rússia e os tigres asiáticos, Klein demonstra como o capitalismo contemporâneo funciona à base da produção de desgraças, apropriando-se delas para o contínuo saqueio e privatização da riqueza pública. De família judia, Klein participou, em 2009, durante o massacre israelense a Gaza, da campanha “Desinvestimento, Sanções e Boicote” (BDS) contra Israel. Num discurso em Ramalá, pediu perdão aos palestinos por não ter se juntado antes à campanha BDS.


Nesta quinta-feira, 6 de outubro, Naomi Klein compareceu, convidada, à Assembleia Geral de Nova York. A amplificação foi banida pela polícia. Não havia microfones. Num inesquecível gesto, a multidão mais próxima a Klein repetia suas frases, para que os mais distantes pudessem ouvir e, por sua vez, repeti-las também. Era o “microfone humano”. O memorável discurso de Klein foi assistido por dezenas de milhares de pessoas via internet. A Fórum publica o texto em português em primeira mão. É um comovente documento da luta de nosso tempo.


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Eu amo vocês.


E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.


Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.


Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isto está acontecendo no mundo todo.


Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “não, nós não vamos pagar pela sua crise”.


Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.


“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.


Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos antiglobalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.


Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiperpatriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro de 2001, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.


O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isto é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isto é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isto ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.


Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.


Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.


Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boomeconômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.


Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.


Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.


A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.


Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.


Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.


A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.


A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.


Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.


É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.


Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam.


Nossas roupas.


Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.


Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.


E eis aqui algumas coisas que, sim, importam.


Nossa coragem.


Nossa bússola moral.


Como tratamos uns aos outros.


Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isto é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.


Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.


Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ele é. De verdade, ele é. Mesmo.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

JOAQAUIM BARBOSA, O JUIZ SEM CARÁTER, SAMBA NO RIO

Por Miguel do Rosário, no site Cafezinho:


Num dos últimos dias úteis de dezembro, Joaquim Barbosa esteve num samba no Rio de Janeiro. Pela primeira vez foi também vaiado. O Globo noticiou que se ouviram “algumas vaias”, então por aí já se pode concluir que foram muitas vaias. É triste constatar que nossas elites e setores de classe média, supostamente esclarecidos, mais uma vez tentam recuperar poder político através de soluções não-democráticas. Antes, as fardas. Agora, as togas.
A imagem de Barbosa sambando, enquanto nega o direito dos réus da Ação Penal 470 de cumprir sua pena em regime semi-aberto, mantendo-os ilegalmente em regime fechado, a imagem de Barbosa sambando e rindo com atores da Rede Globo, enquanto continua aterrorizando a família de um homem doente como José Genoíno, a imagem de Barbosa me lembra um comentário de Cesare Beccaria, o pensador que revolucionou a teoria penal moderna, ao deixar para trás o espírito de vingança que caracterizava o castigo aos condenados na idade média.
Beccaria diz:
“Que contraste não é mais cruel do que a indolência de um juíz e as angústias de um réu; e das comodidades e prazeres de um magistrado, de um lado, e as lágrimas e desolação de um prisioneiro?”
No caso, a situação é ainda pior do que a imaginada por Beccaria, porque o prisioneiro José Dirceu foi condenado sem provas. Dirceu também foi encarcerado ilegalmente, visto que o certo seria esperar em liberdade o julgamento dos últimos recursos, em 2014; sempre foi assim, e assim esperavam os advogados dos réus.
E agora Dirceu está preso ilegalmente em regime fechado, quando sua setença determina o regime semi-aberto.
E passa por tudo isso sendo linchado pela mídia, que tem a incrível cara-de-pau de falar em “privilégios”.
Dirceu, o homem que elegeu Lula e ajudou a tirar dezenas de milhões de pessoas da miséria, que arriscou a sua vida pela democracia e pelos pobres, está numa pequena cela com cinco pessoas. Sem ter cometido nenhum crime. Condenado num processo surreal, onde a mídia exerceu a função protagonista de condenar os réus, patrocinando uma publicidade terrivelmente opressiva, na qual explorou todos os preconceitos e traumas populares em relação à classe política.
Enquanto isso, a família Marinho, proprietários das Organizações Globo, que ajudou a planejar o golpe de 64, que recebeu dinheiro sujo dos EUA para dar o golpe e sustentar o regime militar, que nunca fez nada pelos pobres (ao contrário, ainda hoje apoia sempre os candidatos dos ricos), continua no topo do mundo, patrocinando festas e comprando juízes.
Até quando, meu Deus?


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