Governos
e empresas que trabalham com combustíveis fósseis têm insistido na
ideia de que o gás natural é a ponte para um futuro calcado na energia
limpa. Mas será que ele pode ser realmente "verde”?
Há
muito tempo o gás natural não serve apenas para cozinhar, mas também
para aquecer casas e empresas durante o inverno, além de ser cada vez
mais utilizado para produzir eletricidade. Somente nos Estados Unidos,
em 2020 esse combustível fóssil respondeu por 34% do consumo de energia e
foi a principal fonte de geração de eletricidade.
Agora, à medida que o mundo caminha para a eliminação gradual da
energia provinda do carvão, essas três letras são saudadas como um herói
climático em plena expansão. Mas a afirmativa procede?
A lenda do gás limpo
Na verdade, não. Ele não é uma energia limpa, como a Comissão
Europeia deu a entender no início de janeiro, ao propor classificar o
gás e a energia nuclear como bons para o meio ambiente.
É verdade que o gás gera cerca de 50% menos emissões de CO2 do que o
carvão mineral quando produz eletricidade, mas ele também provou ser a
fonte de gases do efeito estufa que mais cresceu no planeta na última
década – uma trajetória que deve continuar.
Na União Europeia, o gás é a segunda maior fonte de emissões
carbônicas depois do carvão, e representa cerca de 22% da produção
global de CO2.
E isso não é tudo: o público ouve com insistência cada vez maior que o
gás é necessário à transição para um futuro de energia limpa. A teoria é
que, sendo mais limpo do que outros combustíveis fósseis, ele ajudaria a
suprir o déficit de energia causado pela iminente e eliminação
progressiva do carvão.
A realidade, contudo, é que, enquanto combustível fóssil, o gás
natural também causa mudanças climáticas. Por isso, o Partido Verde
Europeu ameaça processar a Comissão Europeia por sua pressão para
classificar como sustentáveis alguns investimentos em gás. Enfim: o gás
natural já está sendo descrito como o "novo carvão”.
Depois do carvão, gás é segundo maior responsável por emissões globais de CO2Foto: Patrick Pleul/dpa-Zentralbild/picture alliance
Metano e insegurança energética
O gás natural é um hidrocarboneto combustível composto principalmente
de metano, que é cerca de 28 vezes mais poluente do que o dióxido de
carbono e propenso a vazar de gasodutos e tubulações.
É um combustível fóssil não renovável encontrado nas profundezas do
solo, em meio ao xisto e outras rochas, e muitas vezes na proximidade do
petróleo. É usado para gerar energia, mas também como matéria-prima
química para plásticos e fertilizantes, e a atual corrida ilimitada por
esse material pode resultar no esgotamento das reservas de gás natural
dentro de cerca de 50 anos.
Portanto o conceito de usar o gás como "combustível-ponte" para um
futuro de energia limpa não é um raciocínio de longo prazo: um dia, não
muito longínquo, ele se esgotará. Nesse meio tempo, alega-se, ele
traria segurança energética à humanidade.
Obra do gasoduto Nord Stream 2 foi concluída em setembro de 2021, mas embargos impedem transporte do gás Foto: Axel Schmidt/Nord Stream 2
A dificuldade de obter gás explica a forte dependência da Europa em
relação à Rússia por esse combustível fóssil. Como ele é bombeado e
enviado para longas distâncias, a imensa infraestrutura exigida aumenta
seu custo, e também a quantidade de CO2 emitido.
A própria Alemanha é tão dependente do gás para combustível e
aquecimento que está aberta a fornecimentos dos Estados Unidos, e tem
planejado construir novos terminais, extensos e custosos, para receber
remessas de gás natural liquefeito (GNL).
O problema é que as importações incluiriam gás obtido por fraturamento, ou fracking. Consistindo na
extração de gás ou petróleo de de rochas e xistos em reservas
subterrâneas, esse processo é nocivo ao meio ambiente, por envolver
produtos químicos tóxico.Além disso, libera grande quantidade de metano e
é potencialmente um inimigo do clima ainda maior do que o carvão.
Muitos países europeus, como a Alemanha, proibiram a prática, mas um dia o GNL americano extraído por fracking pode vir a substituir o gás russo.
Por que não abandonar simplesmente o gás?
A União Européia acredita que, com o tempo, seja possível remanejar a
infraestrutura do gás natural, nova e já existente, para combustíveis
"de baixo carbono", como hidrogênio e biogás. Pelo menos esse era o tom
de uma recente proposta da Comissão Europeia para descarbonizar os
mercados de gás.
Em teoria, tudo parece em ordem. No entanto: a) isso significaria
queimar muito hidrocarboneto no curto prazo; e b) gases limpos como o
hidrogênio "verde" continuam sendo um sonho, em parte porque só podem
ser produzidos com as fontes renováveis necessárias para alimentar o
processo de transição energética.
Assim, críticos apontam que os debates sobre a "transição verde do
gás" têm sido um passe para empresas de combustíveis fósseis fazerem
uma "lavagem verde" (greenwash) de seus negócios danosos ao clima.
"O gás natural não é um combustível de transição. É um combustível
fóssil", pontificou Bill Hare, diretor executivo da ONG Climate
Analytics, durante a COP26, em novembro, na Escócia. Para ele, o gás
deve ser tratado como carvão e abandonado gradativamente, o mais rápido
possível.
Qual é a alternativa à "ponte de gás"?
Em 2021, especialistas afirmaram que a energia solar era atualmente a
"eletricidade mais barata da história", e que até 2050 ela e a eólica
seriam capazes de cobrir 100 vezes a demanda mundial de energia.
Portanto há alternativas. Ainda assim, a Austrália está
anunciando uma "recuperação da pandemia movida a gás", e a Europa faz
campanha veemente por sua "ponte de gás" para um futuro energético limpo
e radiante.
Há quem diga que essa promoção exagerada do gás natural é uma receita
para um "impasse do carbono", que apenas atrasará a transição
energética. Pois todo o capital e a infraestrutura investidos nessa
transição à base de gás implicam o combustível fóssil continuar
sendo extraído, a fim de compensar o investimento.
Por outro lado, esse mesmo dinheiro poderia ter sido alocado
em energias renováveis que descarbonizariam diretamente o fornecimento
de energia. E seria energia com que, ainda por cima, se pode cozinhar.
O líder da Rússia disse em um
discurso na televisão estatal que questões centrais da defesa nacional da
Rússia estavam em jogo
por MK Bhadrakumar
28 de dezembro de 2021
A televisão estatal Rossiya 1 em Moscou transmitiu no domingo a entrevista
coletiva anual do presidente Vladimir Putin, que ele deu na sexta-feira. Ele
transmite um quadro muito mais completo da grave crise que está se formando nas
relações russo-americanas do que os trechos da mídia russa procuraram
transmitir no fim de semana.
Putin, pela primeira vez, advertiu explicitamente que, se os Estados Unidos
e a Organização do Tratado do Atlântico Norte se recusarem a fornecer as
garantias de segurança que Moscou buscou, seu curso de ação futuro será
exclusivamente guiado pelas “propostas que nossos especialistas militares me
farão . ” Claramente, não há mais espaço de manobra sobrando.
Isso é tudo menos o clichê da Casa Branca de que “todas as opções estão
sobre a mesa”, como quando Washington interveio na Venezuela ou na Síria. Putin
deu a entender que, uma vez que as questões centrais da defesa nacional da
Rússia estão envolvidas aqui, as considerações militares reinarão supremas.
Ou seja, a Rússia não pode aceitar a expansão da OTAN para o leste e os
destacamentos dos EUA na Ucrânia e em outros lugares da Europa Oriental ou a
criação de estados anti-russos ao longo de suas fronteiras. E a Rússia espera
"chegar a um resultado juridicamente vinculativo das negociações diplomáticas
sobre os documentos".
Sem surpresa, Putin também disse que a Rússia buscará obter um resultado
positivo nas negociações sobre garantias de segurança. Moscou exige uma reunião
antecipada. Curiosamente, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, sublinhou que
Moscou não busca uma reunião presidencial entre Vladimir Putin e Joe Biden.
É baixa a probabilidade de que os EUA concordem em dar uma garantia de
segurança à Rússia em termos juridicamente vinculativos. Existem obstáculos no
caminho. Para começar, Biden simplesmente não tem capital político para
conduzir o Congresso em um caminho conciliatório em direção à normalização com
a Rússia.
É difícil chegar a um consenso entre os aliados europeus dos Estados Unidos
também sobre a complicada questão da expansão da OTAN - isto é, presumindo que
Washington seja receptivo às demandas da Rússia - o que não é.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia alertou no fim de semana que
não apenas a Ucrânia e a Geórgia, mas uma possível inclusão da Suécia e da Finlândia
na OTAN também terá consequências militares e políticas "sérias" que
não ficarão sem resposta por Moscou.
OTAN e Rússia
Simplificando, a Rússia espera que os Estados Unidos e seus aliados cumpram
a garantia dada a Mikhail Gorbachev em 1990 de que a OTAN não se expandiria
“uma polegada” mais. (A agência de notícias RT financiada pelo Kremlin publicou
no sábado os documentos relevantes desclassificados.)
No entanto, o cerne da questão é que logo após a derrocada no Afeganistão,
a retirada da OTAN da Ucrânia iria prejudicar irreparavelmente a sua
credibilidade. Na verdade, a OTAN pode definhar se parar de se expandir. A
menos que a OTAN possa se concentrar em um "inimigo", ela perde sua
amarração e carece de uma razão de ser para sua própria existência.
O sistema transatlântico ficará em desordem se a OTAN começar a derivar. E
a OTAN passa a ser a âncora das estratégias globais dos Estados Unidos. É tão
simples quanto isso.
No que diz respeito à Ucrânia, o Ocidente mordeu mais do que poderia mastigar
quando a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos deu um golpe em
2014 em Kiev para derrubar o governo eleito do presidente Viktor Yanukovich e
substituí-lo por uma organização pró-EUA. A agenda de mudança de regime foi
promovida sem nenhum entendimento real de que a atual Ucrânia é um país, mas
não uma nação.
A Ucrânia foi a criação de Josef Stalin. Em um ensaio brilhante este mês
intitulado Ucrânia: Tragédia de uma Nação Dividida, o ex-embaixador Jack
Matlock, o enviado americano a Moscou que desempenhou um papel seminal como
confidente de Ronald Reagan e Gorbachev nas negociações para o fim da Guerra
Fria, advertiu que a Ucrânia não tem futuro sem a ajuda da Rússia.
Por outro lado, o Deep State nos EUA e grandes setores do estabelecimento
de política externa e de segurança no Washington Beltway têm alimentado
fantasias de que a CIA pode prender a Rússia em um atoleiro na Ucrânia.
Na semana passada, David Ignatius, do The Washington Post, escreveu uma
coluna ameaçando Moscou de que enfrentaria uma guerra de guerrilha completa
apoiada pelos EUA se ousasse intervir militarmente na Ucrânia. A redação de
Matlock virá como uma ducha fria para esses sonhadores.
O principal problema aqui é que Biden pessoalmente se encontra em apuros.
Ele teve um papel prático no projeto de mudança de regime na Ucrânia. Se o
então presidente Barack Obama delegou o trabalho sujo a Biden ou este o pediu,
nunca saberemos. Basta dizer que Biden deve assumir a responsabilidade agora pela
bagunça na Ucrânia que se tornou uma cleptocracia, um bastião de neonazistas,
um caso de caridade e uma fossa de venalidade e depravação.
Da mesma forma, dado seu histórico de ser um devoto fervoroso da estratégia
de contenção de Obama contra a Rússia, será uma pílula amarga de engolir para
Biden se ele fosse o líder ocidental escolhido pelo destino para subscrever a
segurança nacional da Rússia. E isso também, com Vladimir Putin no comando dos
negócios no Kremlin, um líder contra quem Obama e Hillary Clinton nutriam ódio
visceral.
Crise de refugiados vai crescer
Um passo em falso e a Europa terá um fluxo de refugiados daquele país
(população: 45 milhões) de proporções tão maciças bem à sua porta que fará a
Síria parecer um piquenique - e isso em um momento em que o fantasma da
Iugoslávia está perseguindo oBalcãs.
Da mesma forma, dado seu histórico de ser um devoto fervoroso da estratégia
de contenção de Obama contra a Rússia, será uma pílula amarga de engolir para
Biden se ele for o líder ocidental escolhido pelo destino para subscrever a
segurança nacional da Rússia.E isso também, com Vladimir Putin no comando dos
negócios no Kremlin, um líder contra quem Obama e Hillary Clinton nutriam ódio
visceral.
Biden mal escondeu sua antipatia pelo líder russo. Biden trouxe para sua
presidência como sua equipe de política externa pessoas conhecidas como
russófobas. A atual subsecretária de Estado para Assuntos Políticos, Victoria
Nuland, esteve pessoalmente envolvida na mudança de regime em Kiev em 2014 e
agora é responsável pelas políticas dos EUA para a Ucrânia.
Os protagonistas em Washington estão delirando. Fundamentalmente, eles
imaginavam que a Rússia é uma potência em declínio - um país quebrado,
mal-humorado e petulante, nostálgico por seu pedestal de superpotência.
As terríveis profecias de um colapso da Rússia tardiamente deram lugar a
uma aceitação relutante de que a Rússia é uma potência persistente. O
ressurgimento da Rússia - seu poder suave e inteligente - pegou o Ocidente de
surpresa.
A atualização das forças nucleares e convencionais da Rússia sob Putin
produziu resultados surpreendentemente impressionantes. Putin restaurou o
orgulho da nação de ser "o herdeiro de uma identidade antiga e duradoura -
forjada na época de Pedro, o Grande e que persistiu durante a era soviética -
como um ator importante no cenário internacional", para citar um
comentário de André Latham, um professor americano de relações internacionais,
intitulado Relatórios do declínio da Rússia são muito exagerados.
Por que essa crise neste momento? O cerne da questão é que os EUA decidiram
que devem primeiro cortar as asas da Rússia antes de enfrentar a China.
Rússia e China
Embora não haja uma aliança militar formal entre Moscou e Pequim, a Rússia
fornece "profundidade estratégica" à China simplesmente por ser uma
grande potência que busca políticas externas independentes e compartilha uma
visão alternativa à chamada ordem internacional liberal em termos de uma ordem
mundial democratizada com base na Carta das Nações Unidas e na multipolaridade.
As relações Rússia-China estão no mais alto nível da história.
O pragmatismo da elite russa é legião. Os americanos aparentemente pensaram
que o Kremlin poderia ser aplacado de alguma forma. As declarações de Putin
devem ter sido um choque grosseiro. A questão é que as demandas maximalistas e
a postura minimalista da Rússia são uma e a mesma.
Isso não deixa margem para manobras e negociações, mesmo para um político
consumado como Joe Biden.
“Não temos para onde recuar”, disse Putin, acrescentando que a Otan poderia
instalar mísseis na Ucrânia que levariam apenas quatro ou cinco minutos para
chegar a Moscou. “Eles nos empurraram para uma linha que não podemos cruzar.
Eles chegaram ao ponto em que simplesmente devemos dizer-lhes: ‘Pare!’ ”
Este artigo foi produzido em parceria pela Indian Punchline e Globetrotter,
que o forneceu ao Asia Times.
Quando às 21h30, as estridentes e mal posicionadas caixas de som do
restaurante Figueira Rubayat, quase na esquina das ruas Haddock Lobo com
Estados Unidos, nos Jardins, em São Paulo, começaram a tocar a
melancólica “Grândola, vila morena” na noite do último domingo, o evento
do Grupo Prerrogativas que homenagearia o ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva contabilizava uma hora e meia de atraso. Havia quase três
horas, contudo, que Lula estava numa ampla sala reservada costurando com
a maestria dos grandes estilistas a colcha de retalhos destinada a
cobrir o Brasil numa Frente Ampla.
À mesa, com o ex-presidente convocado a celebrar a própria
resiliência na luta por resgatar os direitos políticos e a honra
pessoal, estavam ou tinham estado lideranças de movimentos sociais e de
partidos políticos diversos como um dos coordenadores do Movimento dos
Sem Terra João Paulo Rodrigues, Vilma Reis e Douglas Belchior da
Coalizão Negra por Direitos; juristas ou grandes advogados como Celso
Antônio Bandeira de Mello, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, Alberto
Zacharias Toron, e um dos anfitriões da noite, Marco Aurélio de
Carvalho; o jovem ciminalista Pierpaolo Bottini, um dos mais
bem-sucedidos defensores de alvos da Lava Jato, estava lá junto com o
nem tão jovem assim Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, também
criminalista que virou uma espécie de porta-voz das prerrogativas
defendidas pelo Prerrô; o economista e ex-ministro Bresser Pereira; o
ex-deputado e ex-vice-governador paulista Almino Affonso; além de um rol
de nomes da política contemporânea de amplo diapasão ideológico e
partidário: Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da
Educação que lidera os cenários mais realistas da disputa pelo governo
paulista; Márcio França, que tece um entendimento com Haddad para evitar
divergências estéreis na corrida pelo mesmo cargo; o governador de
Pernambuco, Paulo Câmara, e o prefeito do Recife, João Campos, ambos do
PSB, escoltados pelo presidente dos socialistas, Carlos Siqueira. Deles
depende a condução do entendimento entre França e Haddad.
Marília Arraes, deputada pelo PT de Pernambuco, prima e desafeta do
jovem prefeito Campos, também sentou à mesa. Martha Suplicy, que ensaia
um regresso aos palanques com apoio de petistas, idem. Gilberto Kassab,
presidente do PSD, não só foi como levou consigo o senador Omar Aziz,
que disputará pelo PSD o governo do Amazonas e presidiu a CPI da Covid
no Senado. Gleisi Hoffmann, presidente do PT, o senador Jaques Wagner,
os governadores Rui Costa, da Bahia, e Welington Dias, do Piauí, e o
ex-senador e o ex-ministro Aloizio Mercadante garantiam o quórum petista
em todas as conversas. Ex-prefeito de Manaus, ex-senador pelo Amazonas,
derrotado nas prévias presidenciais do PSDB, Arthur Virgílio fez
questão de ir ao evento.
Os deputados fluminenses Marcelo Freixo e Alessandro Molon,
construtores de pontes que conduzam a esquerda ao governo do Rio, idem:
estavam lá, aparando arestas e se posicionando para receber pontos e nós
das tais costuras. Por fim, sempre ao lado de Lula enquanto o evento se
dividia entre o que se especulava ocorrer na sala reservada do Figueira
e a evidente tietagem ansiosa do salão do restaurante, o fio dourado da
estrela que está a ser bordada: Geraldo Alckmin, o centrado e centrista
ex-governador de São Paulo que abandonou o PSDB e só arremata ajustes
finais para ser convertido em companheiro de chapa presidencial do
petista – ou pelo PSB, o que é mais provável, ou pelo PSD.
Tocada nas rádios portuguesas ao mesmo tempo no 25 de abril de 1974,
“Grândola, vila morena” foi a senha para o início do movimento que pôs
fim à ditadura iniciada por Antônio Salazar e depôs Marcelo Caetano, o
títere do sistema salazarista em Portugal. Encarcerado em Curitiba em
razão dos abusos da Lava Jato, no 25 de abril de 2019, quando se estava
completando 45 anos da Revolução dos Cravos, Lula recebeu uma gravação
de “Grândola, vila morena” na prisão e dançou na companhia de advogados e
carcereiros, batendo os pés como faziam os tenentes, cabos e soldados
portugueses, no cubículo em que estava confinado na capital paranaense. A
passagem é narrada na ótima biografia “Lula, vol. 1” escrita por
Fernando Morais. A escolha da canção para marcar o fim das articulações
reservadas e o início da parte pública da cerimônia do último domingo
não foi ironia nem coincidência. Foi homenagem àquela passagem
melancólica que marcou Lula nos seus 580 dias na sede da Polícia Federal
em Curitiba.
Rapidamente, o quase fado português deu lugar à vibrante “Anunciação”
do pernambucano Alceu Valença. Ao som “das brumas leves que vêm de
dentro” Luiz Inácio Lula da Silva atravessou todo o salão do Figueira
Rubayat, lotado por 500 pessoas vacinadas e testadas negativamente para
Covid-19 (passaporte de vacina e teste de antígeno eram exigidos na
entrada do evento), e se instalou diante do pequeno palco improvisado no
restaurante. “Tu vens, tu vens...”, cantava Alceu.
No pequeno palco, projetada ao fundo num telão, a imagem do advogado
Sigmaringa Seixas pontificava e parecia explicar tudo. Morto no Natal de
2018, vítima de mielodisplasia (doença que provoca disfunções na medula
óssea), Sigmaringa foi advogado de presos políticos na ditadura e
exerceu mandatos de deputado federal pelo PMDB, PSDB e PT. Era um dos
grandes articuladores do mundo jurídico. Amigo pessoal de Lula, recusou
mais de um convite para ser nomeado ministro do Supremo Tribunal
Federal, mas participou da definição de nomes diversos para vagas nos
tribunais superiores. Quando o ex-presidente foi preso, Sig, como era
chamado, acompanhou-o até a carceragem em Curitiba e visitava-o
frequentemente até ser impossibilitado de fazê-lo em razão do mal que o
vencia. Tendo o anúncio de seu nome aplaudido em respeitosa homenagem
dos presentes ao jantar, o semblante sereno e sorridente de Sigmaringa
parecia chancelar o que se passava por lá. Podia-se imaginar ouvir até
gritos de “Sigmaringa, presente!”, tal era a pertinácia do semblante de
Sig naquele palco.
“Estamos aqui para dizer que é necessário recolocar a fome na
centralidade da política”, lembrou Vilma Reis, da Coalizão Negra. “A
fome no Brasil é um projeto. Quem passa fome, pensa mais nos outros”,
completou Douglas Belchior ao lado dela e olhando firme para o
ex-presidente. Em seguida, juntos, punhos cerrados emulando gestos de
resistência, os dois lideraram os gritos “se Palmares não existe mais,
faremos Palmares de novo!”. Foi forte.
Vencida aquela página, o jurista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira.
Ex-secretário de Justiça e de Segurança Pública de São Paulo, ministro
da Justiça por um brevíssimo período sob o período de Michel Temer na
presidência, advogado do próprio Temer (prócer do golpe
jurídico/parlamentar/classista de 2016 que depôs Dilma Rousseff), Mariz
foi contundente. “Presidente Lula”, iniciou, sem se furtar jamais a
sublinhar que “foi e será presidente de novo”. E Mariz seguiu de forma
ainda mais surpreendente para quem o imaginava com ressalvas políticas
dado sua trajetória pessoal: “estou aqui para hipotecar solidariedade à
sua candidatura. Receba desse velho advogado, da advocacia brasileira,
esta promessa: estaremos ao seu lado! Viva o Brasil, viva Lula!”.
Em seguida, Almino Affonso, 92 anos, decano dos velhos e bons hábitos
da Política, assumiu o microfone e narrou em público a história de como
sugeriu ao ex-presidente que fugisse da ordem de prisão buscando asilo
numa embaixada e como a ideia foi rechaçada e comunicada a ele pelo
escritor Fernando Morais. “Você dizia, Lula, que ia buscar provar sua
inocência e restaurar seus direitos. Poucos confiavam nisso, poucos
tinham a confiança na Justiça que você teve. Abraço-o em homenagem à
Justiça”, disse Affonso. O petista já estava no palco e os dois trocaram
um longo e simbólico abraço. Era a hora de Lula assumir o microfone e
dar os recados diretos de tudo o que já não cabia em tantos símbolos.
“Eu acredito que a verdade venceu. A verdade vence. A verdade vai
continuar vencendo”, estabeleceu ele logo no início de sua fala ao
agradecer e homenagear todos os advogados que estavam ali e que haviam
lutado diretamente pelo restabelecimento de sua inocência e pela
devolução dos direitos políticos que permitirão a candidatura
presidencial em 2022 sem quaisquer ameaças jurídicas no horizonte.
“Perseverar, insistir, é um ato político”, disse Lula. “E eu aprendi
isso, a perseverar, a insistir, com Dona Lindu, minha mãe, que criou
oito filhos sem ter de onde tirar dinheiro, sem emprego, mas, com muita
decência”. Dirigindo-se aos advogados Valeska Teixeira, Rodrigo Zanin e
Luiz Eduardo Greenhalgh, lembrou a todos: “eu sempre disse que não
trocaria a minha dignidade pela minha liberdade”. Assim, explicava o
porquê de não ter pedido asilo em embaixadas, como sugerira Almino
Affonso. E prosseguiu: “é hora de perseverarmos juntos para restaurarmos
a democracia no País”. Olhando o pelotão de jornalistas que estavam ali
para cobrir o evento, para ouvi-lo, para testemunhar o monumental
soerguimento da própria biografia política (que é, já monumental);
falando diretamente para repórteres da mídia tradicional, que por muito
tempo recusava-se a ouvi-lo como se estivesse cumprindo ordens das
cúpulas das redações para eliminar personagem púbçica de tamanha
dimensão do dia a dia da História do País; Lula deu o recado sem ódios,
sem mágoas, sem recalques. Porém, convocando a que se fale verdades:
“espero que algum dia a grande imprensa faça a própria autocrítica de
tudo o que fizeram contra mim”.
Era hora, portanto, de procurar o ex-governador Geraldo Alckmin em
meio ao público, encontra-lo com o olhar e mandar um papo reto. “Não
importa se no passado fomos adversários, se trocamos algumas botinadas,
se no calor da hora dissemos o que não deveríamos ter dito. O tamanho do
desafio que temos pela frente faz de cada um de nós um aliado de
primeira hora. É este o verdadeiro motivo pelo qual estamos reunidos
aqui esta noite”. Os aplausos quase não deixaram parte do público ouvir a
sequência relevante daquela parte do discurso: “eu não decidi a minha
candidatura, porque estou com muito juízo, porque sei da
responsabilidade que tenho quando disser que sou candidato a Presidente
da República. Eu sei que o Brasil que vou pegar em 2023 é muito pior do
que o Brasil que eu vou pegar em 2003. Não quero brincar com o povo
brasileiro. Quem vai decidir essas coisas é o meu partido. E o meu
partido tem História”. Daí, olhando para trás e dando uma piscadela para
a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, completou sorrindo: “e tem uma
presidente que dá bronca que só ela!”. Novamente mirando Alckmin ao
longe, referindo-se diretamente à costura da chapa com o ex-governador
paulista como vice, sem querer nem poder ferir as susceptibilidades dos
presidentes do PSB e do PSD que estavam ali à sua frente, mostrou que é
um craque da alfaiataria de Alta Costura. “Quem vai decidir se a gente
pode se juntar ou não é o meu partido e o partido dele, Alckmin. Então,
nós temos de ter paciência. Nada acontece para o vice antes de acontecer
para o presidente”. Quem entende os meandros da política, entendeu. E
eram muitos os versados nos meandros, ali.
Dados todos os recados, o ex-presidente Lula pôde então ficar à
vontade sobre o palco e dar-se ao luxo de fazer algo meramente formal, o
que é incomum em sua trajetória... ler um discurso escrito. Focado e
obediente, leu cerca de trinta páginas – contudo, o que tinha de ser
dito já havia sido dito com palavras, com gestos, com músicas, com a
presença marcante de semblantes inesquecíveis como o olhar sorridente de
Sigmaringa Seixas no fundo do palco. Passava um pouco das onze da noite
quando começaram a ser entoados os acordes de “Sem Medo de Ser Feliz”, o
jingle histórico de 1989. Lula estava lá, descendo do palco para pôr o
pé na estrada depois de mostrar que é capaz de unir e forjar alianças
inimagináveis. O ato do Grupo Prerrogativas estava então convertido em
revelação de como será possível reconciliar o Brasil.
Jornalista vencedor do Pulitzer Prize (maior prêmio do jornalismo nos
EUA), foi correspondente estrangeiro do New York Times, trabalhou para o
The Dallas Morning News, The
Christian Science Monitor e NPR.
Julian Assange: a batalha mais importante pela liberdade de imprensa nos nossos tempos
Caso ele seja extraditado e considerado culpado, o novo precedente
legal acabará com a reportagem sobre a segurança nacional, escreve o
jornalista Chris Hedges
Atualizado em 10 de dezembro de 2021, 15:02
Julian Assange (Foto: REUTERS / Simon Dawson)
Publicado originalmente no ScheerPost.com. Escrito e traduzido por Chris Hedges
WASHINGTON, D.C. – Durante os últimos dois dias, estive assistindo
via uma conexão de vídeo de Londres as oitivas para a extradição de
Julian Assange. Os Estados Unidos estão apelando a decisão de um
tribunal de primeira instância que indeferiu o pedido dos EUA para
extraditar Assange – infelizmente, não porque na visão do tribunal ele
seja inocente de um crime, porém – como a juíza Vanessa Baraitser
concluiu em janeiro – porque o estado psicológico precário do Assange se
deterioraria, dadas as “duras condições” do sistema inumano do sistema
prisional dos EUA, “induzindo-o a cometer suicídio”. Os Estados Unidos
indiciaram Assange em 17 acusações sob o Ato de Espionagem (Espionage
Act), acusações que poderiam aprisioná-lo por 175 anos.
Assange, com o seu longo cabelo branco, apareceu na tela no primeiro
dia da sala de videoconferência na Prisão de Belmarsh. Ele vestia uma
camisa branca, com uma gravata sem nó, solta ao redor do seu pescoço.
Ele aparentava estar esquelético e cansado. Os juízes explicaram que ele
não estava na sala do tribunal porque estava recebendo a “uma alta dose
de medicações”. No segundo dia, aparentemente ele não estava presente
na sala de videoconferência da prisão.
Assange está sendo extraditado porque a sua organização – Wikilieaks –
publicou em outubro de 2010 os registros da Guerra do Iraque, os quais
documentam numerosos crimes de guerra dos EUA – incluindo imagens de
vídeo do fuzilamento de dois jornalistas da agência Reuters e de 10
outros civis desarmados, registrado no vídeo de assassinatos
‘Collateral’, sobre a tortura rotineira de prisioneiros iraquianos, o
encobrimento de milhares de mortes de civis e o assassinato de cerca de
700 civis que chegaram perto demais de postos de controle dos EUA. Ele
também está sendo visado pelas autoridades dos EUA por outros vazamentos
– especialmente aqueles que expuseram as ferramentas de hacking usadas
pela CIA, conhecidas como Vault 7 (Cofre 7), que permitem à agência de
espionagem vigiar carros, TVs inteligentes, motores de busca na internet
e os sistemas operacionais da maior parte dos telefones celulares, bem
como de sistemas operacionais como Microsoft Windows, macOS e Linux.
Caso Assange seja extraditado e for considerado culpado de publicar
material classificado, isso estabelecerá um precedente legal que porá
efetivamente um fim às reportagens sobre segurança nacional, permitindo
que o governo use o Ato de Espionagem (Espionage Act) para indiciar
qualquer repórter que possua documentos classificados e qualquer
denunciante (whistleblower) que vaze informações classificadas.
Se a apelação (recurso judicial) dos Estados Unidos for aceita,
Assange será julgado novamente em Londres. Não se espera que a sentença
sobre a apelação ocorra antes de janeiro de 2022.
O julgamento de Assange em setembro de 2020 expôs dolorosamente quão
vulnerável ele tornou-se após 12 anos de detenção, incluindo os sete
anos passados na embaixada equatoriana em Londres. No passado, ele
tentou o suicídio cortando os seus pulsos. Ele sofre de alucinações e de
depressão, toma medicação antidepressiva e o remédio antipsicótico
Quetiapine. Depois que se observou que ele caminhava de um lado para o
outro na sua cela até colapsar no chão, que ele batia na sua própria
face e batia a sua cabeça contra a parede, ele foi transferido por
alguns meses para a ala médica da prisão de Belmarsch. As autoridades da
prisão descobriram “metade de uma lâmina de barbear” escondida sob as
suas meias. Ele chamou repetidamente a linha de ajuda contra suicídio
operada pelos Samaritanos, porque pensava em matar-se “centenas de vezes
por dia”.
James Lewis, o advogado que representa o governo dos Estados Unidos,
tentou desacreditar os relatórios médicos e psicológicos detalhados e
perturbadores sobre Assange que foram apresentados ao tribunal em
setembro de 2020, tentando caracterizá-lo como um mentiroso e um
fingidor. O mesmo advogado desqualificou a decisão da Juiza Baraitser de
impedir a extradição, questionou a competência dela e, de forma
leviana, ignorou as montanhas de evidências de que os prisioneiros de
alta segurança nos EUA - como Assange - são sujeitados à Medidas
Administrativas Especiais (Special Administrative Measures – SAMs) e
ficam detidos praticamente em isolamento virtual nas prisões supermax
(prisões de segurança máxima), sofrem de aflição psicológica. O advogado
de acusação atacou o Dr. Michael Kopelman - professor emérito do
Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College de
Londres, quem examinou Assange e testemunhou pela defesa – acusando-o
de enganar o ao “ocultar” o fato de que Assange gerou duas crianças com a
sua noiva Stella Morris enquanto estava refugiado na embaixada
equatoriana em Londres. Ele disse que, caso o governo australiano
pedisse, Assange poderia cumprir o seu tempo de prisão na Austrália, sua
terra natal, depois que as apelações tivessem sido exauridas, porém
evitou prometer que Assange não seria detido em isolamento, ou que
ficasse sujeito às SAMs.
A autoridade repetidamente citada por Lewis para descrever as
condições sob as quais Assange seria detido e julgado nos Estados Unidos
foi Gordon Kromberg – o promotor público assistente do Distrito Leste
da Virginia. Kromberg, é o grande inquisidor do governo em casos de
terrorismo e segurança nacional. Ele expressou abertamente o seu desdém
por muçulmanos e pelo Islamismo e condenou aquilo que ele chama de
“islamização do sistema de justiça estadunidense”. Ele supervisionou os 9
anos de perseguição contra o ativista e acadêmico Dr. Sami Al-Arian e,
num certo momento, recusou o pedido deste último para postergar a data
da sua apresentação ao tribunal para após o feriado religioso de
Ramadan. “Eles podem matar-se entre sí durante o Ramadan, portanto podem
apresentar-se ao tribunal do júri. Eles só não podem comer antes do pôr
do sol”, disse Kromberg numa conversa em 2007 - segundo uma declaração
juramentada submetida por um dos advogados de Arian, Jack Fernandez.
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Kromberg criticou a Daniel Hale - o ex-analista da Força Aérea dos
EUA que foi recentemente condenado a 45 meses numa prisão supermax (de
segurança máxima) por haver vazado informações sobre as matanças
indiscriminadas de civis feitas com drones - dizendo que Hale não
contribuiu para o debate público, mas “colocou em perigo as vidas das
pessoas que fazem a luta”. Ele ordenou que Chelsea Manning fosse
aprisionada depois que ela se negou a testemunhar frente a um grande
júri que investigava o WikiLeaks. Manning tentou cometer suicídio em
março de 2020, enquanto estava detida na prisão da Virginia.
Tendo feito a cobertura do caso de Syed Fahad Hashmi, que foi preso
em Londres em 2006, eu tenho uma boa ideia do que aguarda Assange se ele
for extraditado. Hashmi também foi detido em Belmarsch e foi
extraditado aos Estados Unidos em 2007, onde passou três anos em
confinamento solitário sob os SAMs. O seu “crime” foi que um conhecido
que ficou no seu apartamento quando ele era estudante de mestrado em
Londres tinha capas de chuva, ponchos e meias impermeáveis em depósito
guardadas no apartamento dele. Este conhecido planejava entregar estes
itens ao al-Qaida. Mas eu duvido que o governo estivesse preocupado com
as meias impermeáveis que seriam enviadas ao Paquistão. Suspeito que a
razão pela qual Hashmi foi visado – assim como no caso do ativista
palestino Dr. Sami Al-Arian e como no de Assange – era que ele não tinha
medo e dedicava-se zelosamente à defesa daqueles que estavam sendo
bombardeados, alvejados por tiros, aterrorizados e mortos em todo o
mundo muçulmano enquanto ele estudava no Brooklyn College.
Hashmi era profundamente religioso e alguns dos seus pontos de vista –
incluindo o seu louvor à resistência afegã – eram controversos, porém
ele tinha o direito de expressar estes sentimentos. Ainda mais
importante, ele tinha o direito de esperar ter a liberdade de não ser
perseguido nem aprisionado por causa das suas opiniões – assim como
Assange deveria ter a liberdade, como qualquer jornalista, de informar o
público sobre o funcionamento interno do poder. Ao enfrentar a
possibilidade de ser sentenciado a 70 anos de prisão e tendo já passado
quatro anos na cadeia – a maior parte daquele tempo em confinamento
solitário – Hashmi aceitou fazer uma delação premiada sobre uma acusação
de conspiração para fornecer material de apoio ao terrorismo. A juíza
Loretta Preska – que sentenciou o hacker Jeremy Hammond e o advogado de
direitos humanos Steven Donziger – o condenou à sentença máxima de 15
anos. Hashmi ficou detido durante nove anos em condições similares às de
Guantánamo nas instalações de supermax ADS (Administrative Maximum
System) em Florence, Colorado – onde, se considerado culpado em um
tribunal estadunidense, é quase certo que Assange seria aprisionado.
Hashmi foi liberto em 2019.
As condições de detenção pré-julgamento que Hashmi sofreu foram
planejadas para quebrá-lo psicologicamente. Ele foi monitorado
eletronicamente 24 horas por dia. Ele só podia receber ou enviar correio
à sua família imediata. Ele foi proibido de falar com outros
prisioneiros através das paredes. Lhe proibiram de participar de rezas
em grupo. Lhe permitiam uma hora de exercícios por dia, numa jaula
solitária sem ar fresco. Ele não pôde ver a maior parte das evidências
usadas para indiciá-lo – as quais foram classificadas segundo o Ato de
Procedimento de Informações Classificadas (Classified Information
Procedures Act), promulgado para evitar que agentes de inteligência dos
EUA processados judicialmente revelem segredos de estado, para manipular
os procedimentos legais. As duras condições debilitaram a sua saúde
física e psicológica. Quando ele apareceu em público no tribunal no
procedimento final para aceitar a delação premiada, ele estava em um
estado quase-catatônico, claramente incapaz de acompanhar os
procedimentos ao seu redor.
Se o governo dos EUA chegar ao ponto de perseguir alguém que alegava
estar envolvido em mandar meias impermeáveis para o al-Qaida, o que se
pode esperar que o governo faça a Assange?
Uma sociedade que proíbe a capacidade de falar, na verdade extingue a
capacidade de viver com justiça. A batalha pela liberdade de Assange
sempre foi muito mais do que sobre a perseguição a um jornalista. Esta é
a batalha mais importante pela liberdade de imprensa da nossa era. Caso
percamos esta batalha, isto será devastador não só para Assange e a sua
família, porém para nós mesmos.
As tiranias invertem o estado de direito. Estas transformam a lei num
instrumento de injustiça. Elas encobrem os seus crimes numa falsa
legalidade. Elas usam o decoro dos tribunais e dos julgamentos para
mascarar a sua criminalidade. Aqueles que, como Assange, expõem esta
criminalidade para o público são perigosos – eis que, sem o pretexto da
legitimidade, a tirania perde a sua credibilidade e nada sobra no seu
arsenal senão o medo, a coerção e a violência. A longa campanha contra
Assange e o Wikileaks é uma janela para o colapso do estado de direito,
para o surgimento daquilo que o filósofo Sheldon Wollin chama de o nosso
sistema de totalitarismo inverso, uma forma de totalitarismo que mantém
a ficção da velha democracia capitalista – incluindo as suas
instituições, iconografia, símbolos patrióticos e retórica – porém,
internamente, rendeu-se ao controle total dos ditames das corporações
globais e a segurança e vigilância do estado.
Não existe base legal para manter Assange na prisão. Não há base
legal para julgá-lo, um cidadão australiano, sob o Ato de Espionagem dos
EUA. A CIA espionou Assange na embaixada equatoriana em Londres através
de uma empresa espanhola – a UC Global – contratada para prover a
segurança da embaixada. Esta espionagem incluía a gravação das conversas
privilegiadas entre Assange e os seus advogados, enquanto estes
discutiam a sua defesa. Este fato bastaria para invalidar o julgamento.
Assange está sendo mantido numa prisão de alta segurança de modo que o
estado – como testemunhou Nils Melzer, o Relator Especial sobre Tortura
da ONU – possa continuar o degradante abuso e tortura que espera que
leve à sua desintegração psicológica, senão física. Os arquitetos do
imperialismo, os senhores da guerra, os braços legislativos, judiciais e
executivos dos governos controlados pelas corporações e os seus
obsequiosos cortesãos do setor de mídia. Prove esta verdade – como
Assange, Chelsea Manning, Jeremy Hammond e Edward Snowden o fizeram –
permitindo que possamos analisar os mecanismos internos do poder, e você
será caçado e perseguido.
O “crime” de Assange é que ele expôs as mais de 15 mil mortes
não-relatadas de civis iraquianos. Ele expôs a tortura e o abuso em
Guantánamo de uns 800 homens e meninos, com idades de 14 a 89 anos. Ele
expôs que, em 2009, Hillary Clinton ordenou que diplomatas dos EUA
espionassem o Secretário-Geral da ONU Ban Ki Moon e outros
representantes na ONU da China, França, Rússia e o Reino Unido –
espionagem que incluía a obtenção do DNA, varredura de írises,
impressões digitais e senhas pessoais – como parte de um extenso padrão
de vigilância ilegal que incluía a espionagem sobre o Secretário Geral
da ONU Kofi Annan durante as semanas que antecederam a invasão do Iraque
pelas tropas lideradas pelos EUA em 2003. Ele expôs que Barak Obama,
Hillary Clinton e a CIA orquestraram o golpe militar em Honduras em
junho de 2009, o qual destituiu o presidente democraticamente eleito
Manuel Zelaya, substituindo-o por um regime militar assassino e
corrupto. Ele expôs que George W. Bush, Barak Obama e o General David
Patraeus executaram no Iraque uma guerra que, segundo as leis
pós-Nuremberg, é definida como uma guerra criminosa de agressão, um
crime de guerra, o qual autorizava centenas de assassinatos direcionados
no Yemen – incluindo os de cidadãos estadunidenses. Ele expôs que os
Estados Unidos lançaram secretamente mísseis, bombas e ataques de drones
no Yemen, matando dezenas de civis. Ele expôs que a Goldman Sachs pagou
657 mil USD à Hillary Clinton para dar palestras – uma soma tão grande
que só pode ser considerada como suborno, e que ela garantiu, em
privado, aos líderes corporativos, que ela defenderia os interesses
destes, enquanto prometia ao público a regulação e reforma financeira.
Ele expôs a campanha interna para desacreditar e destruir o líder do
Partido Trabalhista Britânico Jeremy Corbin, feita por membros do
próprio partido deste. Ele expôs como as ferramentas de hacking usadas
pela CIA e a NSA (National Security Agency – Agência Nacional de
Segurança dos EUA) permitem a vigilância em massa do governo sobre as
nossas televisões, computadores, telefones celulares e softwares
antivírus – permitindo que o governo grave e armazene as nossas
conversas, imagens e mensagens privadas de texto, até mesmo de
aplicações encriptadas.
Ele expôs a verdade. Ele a expôs uma vez após a outra,
reiteradamente, até que não houvesse mais dúvidas sobre a ilegalidade,
corrupção e falsidade endêmicas que definem a elite dominante global. E
ele é culpado apenas por estas verdades.