terça-feira, 22 de setembro de 2020

PEPE ESCOBAR E O GREAT RESET: O ARTIGO E UMA CRÍTICA

 Abaixo, o artigo mais recente do jornalista publicado no Asia Times, e republicado no Duplo Expresso, de Romulus Maya. Em seguida, algumas críticas e alertas, tanto sobre Pepe como sobre Romulus.

Do 11/9 ao Grande Reset

Por Pepe Escobar*

“Com certeza há revelação à mão.”
“A Segunda Vinda”, W. B. Yeats[1]

O 11/9 foi a pedra inaugural do novo milênio – tão completamente indecifrável quanto os Mistérios Eleusinos. Há um ano, em Asia Times, outra vez levantei várias perguntas que ainda não encontraram respostas.

Entre as flechas dos arcos e pedras das fundas que voaram como raios de ultrajante desgraça e rasgaram essas duas décadas, com certeza incluem-se as seguintes: O fim da história. O breve momento unipolar. A Longa Guerra do Pentágono. A Segurança Nacional. A Lei Patriótica. Choque e Pavor. A tragédia/debacle no Iraque. A crise financeira de 2008. A Primavera Árabe. Revoluções coloridas. “Liderar pela retaguarda”. Imperialismo humanitário. Síria, a como guerra por procuração absoluta. A farsa ISIS/Daech. O Plano Abrangente de Ação Conjunta (Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA, conhecido como “Acordo do Irã” e “Acordo Nuclear”). Maidan. A Era das Operações ‘Psicológicas’ (Psyops). A Era do Algoritmo. A Era do 0,0001%.

Outra vez entramos fundo em território de Yeats: “Os melhores vacilam, e os piores andam cheios de irada intensidade.”[2]

Ao mesmo tempo, a “Guerra ao Terror” – decantação da Longa Guerra – avançou sem trégua, matou multidões de muçulmanos e arrancou das próprias terras pelo menos 37 milhões de pessoas.

Chegou ao fim a geopolítica derivada da 2ª Guerra Mundial. Está em andamento a Guerra Fria 2.0. Começou como EUA contra Rússia, virou EUA contra China; e agora, completamente desmascarada como Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, e com apoio dos dois principais partidos, é EUA contra ambas. O pesadelo absoluto de Mackinder-Brzezinski está à vista: o muito temido “concorrente” na Eurásia rasteja rumo à [avenida] Beltway para nascer[3] sob a forma da parceria estratégica Rússia-China.

Algo tem de ceder.[4] E então, sem mais nem menos, do nada, aconteceu.

Um impulso planejado na direção de concentração de poder com garras de aço e diktats econômicos foi conceptualizado antes – sob uma fachada de “desenvolvimento sustentável” – já em 2015, na ONU (aqui, em detalhes).

Agora, esse novo sistema operacional – ou distopia digital tecnocrática – está sendo finalmente codificada, embalada e “vendida”, desde meados do verão, mediante campanha abundante, ostensiva, consertada, de propaganda.

Zele pelo seu espaço mental

Toda a histeria no Planeta Confinamento que elevou a Covid-19 a dimensões de moderna Peste Negra já foi consistentemente desmascarada, por exemplo, aqui e aqui, a partir de conhecimento original que vem de fonte da altamente respeitada, de Cambridge.

A demolição de fato controlada de vastas porções da economia global garantiu ao capitalismo das corporações e abutres, em todo o mundo, lucros indescritíveis, arrancados do colapso e da destruição de empresas e negócios.

E tudo feito com a mais ampla cumplicidade das massas – processo espantoso de servidão voluntária.

Nada disso é acidental. Por exemplo, há mais de dez anos, desde antes de criar uma Equipe de Insights Comportamentais [ing. Behavioral Insights Team], o governo britânico já estava muito interessado em “influenciar” comportamentos, em colaboração com a London School of Economics e o Imperial College.

O resultado foi o relatório MINDSPACE. É a ciência do comportamento usada para influenciar os políticos e a política e, sobretudo, para impor controle neo-Orwelliano sobre a população.

Crucialmente importante, MINDSPACE manifestou colaboração estreita entre o Imperial College e a empresa RAND, de Santa Monica. Tradução: os autores dos modelos computacionais absurdamente falhados que alimentaram a paranoia do Planeta Confinamento, operaram em conjunção com o principal think-tank ligado ao Pentágono.

Em MINDSPACE, lê-se que “abordagens comportamentais encorporam uma linha de pensamento que se desloca, da ideia de um indivíduo autônomo que toma decisões racionais, para um tomador ‘situado’ de decisões [ing. ‘situated’ decision-maker], cujo comportamento, em grande parte, é automático e influenciado pelo respectivo ‘ambiente de escolha’ [ing. ‘choice environment’]”.

Assim, a pergunta chave é quem decide qual é o ‘ambiente de escolha’. Hoje, todo nosso ambiente é condicionado pela [pandemia e vírus] Covid-19. Chamemos de “a doença”. E dá e sobra para estabelecer muito belamente “a cura”: The Great Reset.

O coração pulsante

O Grande Reset foi oficialmente lançado no início de junho pelo Fórum Econômico Mundial, FEM – habitat natural do Homem de Davos. A base conceitual é algo que o FEM descreve como Plataforma de Inteligência Estratégica [ing. Strategic Intelligence Platform: “sistema dinâmico de inteligência contextual que capacita os usuários para que tracem relacionamentos e interdependências entre as questões, como suporte para tomar decisões mais bem informadas”.

Essa plataforma promove complexo cruzamento e mútua penetração entre a doença Covid-19 e a Quarta Revolução Industrial – conceptualizada já em dezembro de 2015 e cenário futurista escolhido pelo Fórum Econômico Mundial. Um não pode existir sem o outro. Visa a imprimir no inconsciente coletivo – pelo menos no ocidente – a noção de que só a abordagem “de acionista” autorizada pelo FEM é capaz de superar o desafio da doença Covid-19.

O Grande Reset é imensamente ambicioso, cobrindo mais de 50 campos de conhecimento e prática. Interconecta tudo, de recomendações para recuperação da economia, até “modelos de negócios sustentáveis”, de restauração ambiental até redesenho de contratos sociais. 

O coração pulsante dessa matrix é – e que mais seria? – a Plataforma de Inteligência Estratégica, que reúne literalmente tudo: “desenvolvimento sustentável”, “governança global”, mercados de capital, mudança climática, biodiversidade, direitos humanos, paridade de gênero LGBTI, racismo sistêmico, comércio e investimento internacional, o – duvidoso – futuro das indústrias e viagens e turismo, alimento, poluição do ar, identidade digital, blockchain, 5G, robótica, inteligência artificial (IA).

No final, só um plano geral A faz interagirem todos esses sistemas, sem saltos ou emendas: o Grande Reset – abreviatura de uma Nova Ordem Mundial sempre evocada com deslumbramento, mas jamais implementada. E não há Plano B.

O “legado” da [doença] Covid-19

Os dois principais atores por trás do Grande Reset são Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial; e a diretora-gerente do FMI Kristalina Georgieva. Georgieva não tem qualquer dúvida de que “a economia digital é a grande vitoriosa dessa crise”. Crê firmemente que o Grande Reset deva começar, necessariamente, em 2021. 

A Casa de Windsor e a ONU são os principais coprodutores executivos. Principais patrocinadores incluem BP, Mastercard e Microsoft. Desnecessário dizer que todos quantos sabem como são tomadas as mais complexas decisões geopolíticas e geoeconômicas sabem que esses dois principais atores só fazem cumprir roteiro decorado. Os autores são, digamos assim, “a elite globalista”. Ou, em homenagem a Tom Wolfe, “os Senhores do Universo”.

Schwab, como se poderia prever, escreveu o minimanifesto do Grande Reset. Um mês depois, expandiu muitíssimo a conexão-chave: o “legado” da [doença] Covid-19.

Tudo isso foi devidamente engordado num livro, escrito em coautoria com Thierry Malleret, diretor da Rede de Risco Global do Fórum Econômico Mundial [ing. WEF’s Global Risk Network]. A Covid-19 é descrita como fator que “criou grande reset disruptivo dos nossos sistemas global, social, econômico e político”. Schwab pinta a [doença] Covid-19 não só como “oportunidade” fabulosa, mas, realmente, como fator criador (itálicos meus) do – agora inevitável – Reset.

Tudo isso se encaixa lindamente com a ideia filhote do próprio Schwab: a [doença] Covid-19 “acelerou nossa transição para a era da Quarta Revolução Industrial”. A revolução vem sendo exaustivamente discutida em Davos desde 2016.

A tese central do livro é que nossos mais prementes desafios têm a ver com o meio ambiente – considerado só em termos de mudança climática – e com desenvolvimentos tecnológicos, que permitirão a expansão da Quarta Revolução Industrial.  

Em resumo: o Fórum Econômico Mundial está declarando oficialmente morta a globalização empresarial, modus operandi hegemônico desde os anos 1990s. Agora é tempo de “desenvolvimento sustentável”. – E é “sustentável” o que for declarado “sustentável” por um seleto grupo de “acionistas”, idealmente integrados numa “comunidade de interesses, objetivos e ação comuns (sic).”

Atilados observadores do Sul Global não deixarão de comparar a retórica do FEM de “comunidade de interesses comuns” à “comunidade de interesses partilhados” chinesa, que se aplioca à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), que, sim, é projeto continental de comércio/desenvolvimento.

O Grande Reset pressupõe que todos os acionistas – em todo o planeta – alinhem-se perfeitamente. Se não, como Schwab destaca, teremos “mais polarização, mais nacionalismo, mais racismo, agitação social crescente e mais conflitos”.

Assim sendo – mais uma vez – é ultimato tipo “você está conosco ou contra nós” – reminiscência espectral do nosso velho mundo do 11/9. Ou o Grande Reset estabelecido pacificamente, com todas as nações devidamente subservientes, obedecendo as novas orientações definidas por um punhado de autonomeados sábios de República neoplatônica, ou o caos.

Se a Covid-19 e respectiva “janela de oportunidade” apareceram por aí por acaso, ou se apareceu por projeto, permanece sempre como questão das mais sumarentas.

Neofeudalismo digital

A reunião ‘real’, cara a cara, em Davos, ano que vem, foi adiada para o verão de 2021. Mas Davos virtual acontecerá em janeiro, focada no Grande Reset

Já há três meses, o livro de Schwab sugeria que quanto mais todos se deixem prender na paralisia global, mais claramente se verá que não se permitirá (itálicos meus) que as coisas voltem ao que, antes, se considerava normal.   

Há cinco ano, a Agenda 2030 da ONU – madrinha do Grande Reset – já insistia em vacinas para todos, sob patrocínio da Organização Mundial de Saúde e da CEPI – iniciativa fundada em 2016 por Índia, Noruega e a fundação de Bill e Belinda Gates. 

O timing não poderia ser mais conveniente para o notório Event 201.

“Exercício para pandemia” em outubro do ano passado em New York, com o Johns Hopkins Center para Segurança da Saúde, em parceria com – adivinhem! – o Fórum Econômico Mundial e a Fundação Bill e Melinda Gates. Os leões-de-chácara da mídia não admitem crítica que não seja superficial, dos motivos dos Gates, porque, afinal de contas, os Gates financiam aqueles leões de chácara daquela mídia.

Mas já está imposto como consenso mantido com mão de ferro que sem uma vacina que neutralize a Covid-19 não há qualquer possibilidade de coisa alguma que sequer se pareça com normalidade.

E artigo espantoso publicado no Virology Journal – que também publica o que diz o Dr. Fauci – demonstra muito claramente que “cloroquina é potente inibidor da infecção e disseminação de infecção por coronavírus na SARS”. Trata-se de droga “relativamente segura, efetiva e barata” cujo significativo efeito inibitório antiviral quando as células um possível uso profilático e terapêutico.”

Até o livro de Schwab admite que Covid-19 é “uma das pandemias menos mortais nos últimos 2.000 anos” e que suas consequências “serão pouco graves, comparadas às de pandemias anteriores”.

Não importa. O que importa sobretudo é a “janela de oportunidade” que [a doença] Covid-19 oferece, promovendo, dentre outras questões, a expansão do que já descrevi como Neofeudalismo Digital – ou o Algoritmo devora a Política. Não surpreende que instituições político-econômicas, da Organização Mundial do Comércio à União Europeia e à Comissão Trilateral já estejam investindo em processos de “rejuvenescimento”, expressão codificada para “mais concentração de poder”.

Vigie os imponderáveis

O filósofo alemão Hartmut Rosa é um dos raros pensadores que veem o suplício pelo qual estamos passando, como rara oportunidade para “desacelerar” a vida em tempos de turbocapitalismo.

Hoje, não se trata de “ataque contra o estado-civilização”. Trata-se de estados-civilizações – como China, Rússia, Irã – não submetidos ao Hegemon, que tendem a mapear curso bem diferente.

O Grande Reset, apesar de tantas ambições universalistas, permanece como modelo insular, ocidente-cêntrico, que só beneficia o proverbial 1%. A Grécia Antiga não se via como “Ocidental”. O Grande Reset é, essencialmente, projeto derivado do Iluminismo.

Se se examina a trilha adiante, com certeza a vemos cheia de imponderáveis. Desde o Fed a disparar dinheiro digital diretamente para aplicativos financeiros de smartphones nos EUA, até a China a promover um sistema de comercial/econômico para toda a Eurásia, ao mesmo tempo em que implementa o yuan digital.

O Sul Global dedicará muita atenção ao agudo contraste entre, de um lado, a proposta desconstrução-liquidação da ordem econômica industrial; e, de outro lado, o projeto Iniciativa Cinturão e Estrada – focado num novo sistema de financiamento fora do monopólio ocidental, e que enfatiza o crescimento agroindustrial e o desenvolvimento sustentável de longo prazo.

O Grande Reset apontará contra nações perdedoras, agregando todas as que se beneficiam da produção e do processamento de energia e agricultura de Rússia, China e Canadá, até Brasil, Indonésia e grandes áreas da África.

Hoje, só uma coisa se sabe com razoável certeza: o establishment no coração do Hegemon e os orcos babões do Império só acionarão o Grande Reset se entenderem que assim ajudam a reduzir a velocidade do declínio, acelerado numa manhã fatídica, há 19 anos.

Pepe Escobar é analista de Geopolítica e colunista do Asia Times.

*Com permissão do autor. Artigo originalmente publicado no Asia Times, em 10 de setembro de 2020. Tradução de Vila Mandinga.

_____

[1] Orig. Surely some revelation is at hand (Yeats, The Second Coming, A Segunda Vinda W. B. Yeats, “A Segunda Vinda”, in W. B. Yeats – poemas [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.). Epígrafe acrescentadas pelos tradutores.

[2] Yeats, The Second Coming, A Segunda Vinda. Loc. Cit.

[3] Muita coisa sempre se perde na tradução. Aí, Pepe está praticamente ‘citando’ Yeats, no poema já referido: “And what rough beast, its hour come round at last, Slouches towards Bethlehem to be born?” / Na coluna acima, orig.: [the “peer competitor”] in Eurasia slouched towards the Beltway to be born (…)” [NTs].

[4] Bing Crosby, 1954-1956 (ouve-se aqui) [NTs].

AGORA. Este artigo, que mostra realidades importantes, é semeado com teorias conspiratórias. Cita um artigo antigo sobre cloroquina para a SARS 1, a pandemia não é tão grave assim (um tal de Kendrick, citado nos links aqui e aqui) porque os senhores do poder (que existem, são os que derrubam governos e rapinam as nações e a Terra) estão articulados em algum conluio geral secreto de onde vêm essas coisas que nos surpreendem a toda hora.

 Eu vejo mais como convergências entre os donos das terras e das corporações, eventuais conspirações localizadas. É perigoso para quem resiste e pretende de algum modo se opor a esse poder destruidor de pessoas e lugares, cair na busca de um centro único de poder, e deixar de ver as circunstâncias que o favorecem. Não existe um grande demônio, ou uma única  fonte do mal. Esse tipo de visão de procurar causas simples dos problemas e das desgraças é muito usada pela extrema direita, mas nós da esquerda, como a resistência de um país ocupado por tropas estrangeiras, temos que lidar com a verdade, complicada e adversa como ela se nos aparece de fato.

Aqui dá pra ver uma convergência do Pepe Escobar com o Romulus Maya. Uma sede por um "fato" que condiciona todo resto, um "sensacionalismo", nas palavras do Leonardo Attuch quando ele se refere a este último. O Rômulo ataca vários dos políticos e sites mais importantes de esquerda, pretendendo ser o único que busca o que é importante - seria ele um stalinista suíço?      

Vamos ver todos os Pundits que parecem trazer algo útil, sempre com uma pitada de sal, ou seja, confiando e desconfiando e priorizando o que nos traz mais perto da meta da esquerda, que é no fim a emancipação de todos. Evitando atacar quem não merece ser atacado.

 

 

NOAM CHOMSKY, SINTETIZANDO A SITUAÇÃO DE DESASTRE IMINENTE

 

“O mundo está no momento mais perigoso da história humana”, diz Noam Chomsky

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Noam Chomsky. Créditos da foto: (Reprodução)

Originalmente publicado por ZAP AEIOU

Numa entrevista ao editor George Eaton, do New Statesman, o ativista, agora com 91 anos, indicou que os perigos atuais superam os da década de 1930. “Não houve nada parecido na história da humanidade”.

Chomsky foi entrevistado antes da primeira reunião do Progressive International, uma nova organização fundada por Bernie Sanders, ex-candidato à presidência dos Estados Unidos (EUA), e Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças grego, para combater o autoritarismo de direita.

“Tenho idade suficiente para lembrar, muito vivamente, a ameaça de que o nazismo podia dominar grande parte da Eurásia. Os estrategas militares dos EUA previram que a guerra terminaria com uma região dominada pelos EUA e uma região dominada pela Alemanha. Mas mesmo isso, horrível o suficiente, não foi como o fim da vida humana organizada na Terra, que é o que somos a enfrentar agora”, afirmou.

“Estamos numa confluência surpreendente de crises muito graves. A extensão dessas foi ilustrada pela última configuração do famoso Relógio do Juízo Final. Foi definido todos os anos desde o bombardeio atómico, o ponteiro dos minutos moveu-se para frente e para trás. Mas, em janeiro passado, abandonaram os minutos e passaram para segundos até a meia-noite, o que significa rescisão. E isso foi antes da pandemia”, apontou.

Essa mudança refletiu numa “crescente ameaça de guerra nuclear, provavelmente mais severa do que durante a Guerra Fria, “numa crescente ameaça de catástrofes ambientais” e “numa forte deterioração da democracia”. “A única esperança lidar com as duas [primeiras] crises, que ameaçam a extinção, é por meio de uma democracia vibrante, com cidadãos informados, que participam do desenvolvimento de programas”, referiu.

Segundo o professor, Donald Trump “conseguiu algo bastante impressionante: conseguiu aumentar a ameaça de cada um dos três perigos. Em relação às armas nucleares”, colocou “fim ao desmantelamento do regime de controle de armas, que oferecia alguma proteção. Aumentou muito o desenvolvimento de armas novas, perigosas e mais ameaçadoras, o que significa que outros também o fazem, o que está aumenta a ameaça para todos nós”.

“Na catástrofe ambiental, ele [Trump] escalou os esforços para maximizar o uso de combustíveis fósseis e encerrar as regulamentações que, de alguma forma, mitigavam o efeito do desastre que se aproxima se continuarmos o curso atual”, acrescentou.

E continuou: “Sobre a deterioração da democracia, virou uma anedota. O ramo executivo do governo dos EUA foi completamente expurgado de qualquer voz dissidente. Agora é deixado com um grupo de bajuladores”.

Chomsky descreveu Trump como a figura de proa de um novo “internacional reacionário” formado pelo Brasil, Índia, Reino Unido, Egito, Israel e Hungria. “No hemisfério ocidental, o principal candidato é o Brasil de [Jair] Bolsonaro, uma espécie de clone pequeno do Presidente Trump. No Médio Oriente, com base nas ditaduras familiares, estão os estados mais reacionários do mundo. O Egito de [Abdul Fatah Khalil Al] Sisi é a pior ditadura” que o país “já teve. Israel moveu-se tanto para a direita é preciso um telescópio para vê-lo, é o único país do mundo onde os jovens são ainda mais reacionários do que os adultos”.

“[Narendra] Modi está a destruir a democracia secular indiana, reprimindo severamente a população muçulmana”, disse, acrescentando: “Na Europa, o principal candidato é [Viktor] Orbán, na Hungria, que está a criar um estado proto-fascista. Existem outras figuras, como [Matteo] Salvini na Itália, que se diverte a ver refugiados a afogarem-se no Mediterrâneo”.

Sobre o Reino Unido, considerou: “[Nigel] Farage virá e será um candidato adequado se Boris Johnson não servir o propósito”. A ameaça do Governo do Reino Unido de “violar o direito internacional e romper totalmente com a União Europeia tornaria a decadente Grã-Bretanha ainda mais vassala dos EUA do que já se tornou”, sublinhou.

Chomsky alertou ainda que a ameaça de Trump sobre recusar deixar o cargo caso seja derrotado pelo candidato democrata Joe Biden não tem precedentes. “Ele [Trump] já anunciou repetidamente que, se não gostar do resultado da eleição, não sairá”, notou, frisando que “os militares têm o dever de removê-lo à força”.

 

sábado, 12 de setembro de 2020

ONZE DE SETEMBRO DE 1973

 Por Breno Altman, no Brasil 247


Chile: ascensão e derrota de uma revolução desarmada

"A coalizão golpista foi se dando conta que o allendismo somente conseguia se mover no terreno da legalidade e precipitou sua derrubada", diz o jornalista Breno Altman sobre o regime de Salvador Allende, no Chile. "A revolução se auto-impusera limites, mas não a contrarrevolução: era visível o despreparo dos partidos de esquerda para o enfrentamento aberto", alerta

Salvador Allende
Salvador Allende (Foto: Reuters)
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Certa vez, perguntado sobre as similaridades entre os processos revolucionários da Venezuela e do Chile, Hugo Chávez não hesitou em sintetizar: “ambos são institucionais e pacíficos, mas a revolução bolivariana é armada.” O líder venezuelano não se referia à via de acesso ao poder, nos dois casos por meios eleitorais, mas à existência de uma estratégia de defesa, aplicada em seu país, que pressupunha a hegemonia sobre o conjunto das instituições do Estado, incluindo as forças militares, além do armamento organizado e generalizado da militância popular.

Essa reflexão encontra bom motivo de atualização no cinquentenário do triunfo de Salvador Allende, sufragado presidente chileno em 4 de setembro de 1970, encabeçando a Unidade Popular, uma frente de partidos progressistas, cujo programa apontava para a transição do capitalismo ao socialismo sem ruptura da ordem constitucional democrático-burguesa.

As agremiações de esquerda, lideradas por socialistas e comunistas, imaginavam ser possível o trânsito revolucionário por dentro das instituições, ampliando paulatinamente as fronteiras democráticas e isolando a burguesia dentro de seu próprio Estado, paralisando aventuras golpistas e dividindo suas bases, até que perdesse a condição de classe hegemônica.

Inspiravam-se, em certa medida, no conceito de “democracia progressiva”, cunhado por Palmiro Togliatti, líder comunista italiano, ao debater o caminho para o socialismo em seu país após a segunda guerra mundial. Essa ideia-força embutia a apreciação de que a derrota do fascismo teria neutralizado a função classista das forças armadas e policiais, vedando ou dificultando o recurso à violência estatal pelo bloco contrarrevolucionário. Allende e seus principais companheiros, em diapasão semelhante, depositavam enorme confiança na profissionalização e no legalismo dos oficiais chilenos.

Tanto as correntes ligadas ao movimento operário quanto os agrupamentos burgueses estariam, portanto, condenados a um pacto ao redor das normas constitucionais e eleitorais. Da mesma maneira que a revolução se comprometia a avançar por dentro da ordem, a burguesia limitaria sua resistência aos paradigmas dessa mesma institucionalidade. Tensões e embates seriam inevitáveis, mas sempre acabariam resolvidos por acordos que preservassem, de lado a lado, o arcabouço democrático.

Um primeiro grande teste, logo após as eleições diretas, parecia validar este pacto. Vitorioso com 36,6% dos votos, contra 34, 9% de Jorge Alessandri (Partido Nacional, de direita) e 27,8% de Radomiro Tomic (Partido Democrata Cristão, de centro), Allende precisava de aval parlamentar para ser empossado, conforme regra constitucional diante da inexistência de maioria absoluta.

O segundo turno, por votação no Congresso, teria de ser decidido entre os dois primeiros colocados. O candidato socialista logrou obter 80% dos sufrágios indiretos, no dia 24 de outubro, apesar do clima de extraordinária pressão, na véspera alimentado pelo assassinato, por um comando de ultradireita, do comandante do Exército, general René Schneider, de sólidos compromissos legalistas.

Esse episódio, ao invés de alertar para as conspirações em curso, que envolviam a CIA e grupos locais desde o processo eleitoral, fez reforçar expectativas sobre a vitalidade democrática chilena, impulsionando ainda com mais vigor a estratégia allendista. A questão sempre seria, antes e doravante, impedir que houvesse qualquer transborde das instituições, e não se preparar para o momento em que a contrarrevolução se transformasse em golpe militar ou guerra civil, como ocorrera com a Espanha republicana entre 1936 e 1939.

Allende tomaria posse no dia 3 de novembro. Os primeiros meses de governo pareceram igualmente comprovar o potencial da orientação traçada pelos chefes da Unidade Popular. O presidente estatizou bancos e grandes empresas, incluindo as minas de cobre, além de aumentar salários, adotar programas sociais e acelerar a reforma agrária. A forte expansão do mercado interno levou o Chile a crescer 8,5% em 1971, o segundo melhor resultado em toda a América Latina.

A propulsão provida por bons resultados econômicos repercutiria na performance em pesquisas de opinião pública, nas quais o líder socialista chegou a ter 64% de aprovação, em maio de 1972. Em meados desse mesmo ano, contudo, a situação começou a se inverter. Os partidos de direita e centro-direita, apoiados pelo governo dos Estados Unidos, almejavam conquistar dois terços do Congresso nas eleições previstas para março de 1973, com a clara intenção de afastar Allende através de um julgamento parlamentar. Teve início um pesado jogo político, midiático, judicial e econômico, dentro e fora do Chile, para sabotar a administração progressista.

Os tribunais passaram a reverter decisões de governo, particularmente aquelas referentes às nacionalizações de empresas e desapropriação de terras. A fuga de capitais, internos e internacionais, adquiriu ritmo assombroso. Os créditos nas instituições e bancos mundiais foram cortados. Grupos empresariais, para fugir do controle de preços, passaram a sabotar oferta de produtos, principalmente alimentos, desviando-os para o mercado paralelo.

O país rapidamente perdeu dinamismo econômico e assistiu a emergência de sérios problemas sociais, como a inflação e a escassez de bens fundamentais. A economia iria sofrer uma contração de 1,21% em 1972, piorando para 5,57% em 1973, com o custo de vida disparando para 225% e 606%, respectivamente.

Sem maioria parlamentar e com pouca influência no sistema de justiça, o governo Allende tinha suas margens de manobra estreitadas: o caminho institucional, fonte anterior de legitimidade e consenso, tornara-se fator limitador contra o movimento das classes e forças contrarrevolucionarias que operavam para sabotar a Unidade Popular.

Essas dificuldades provocavam divisões na esquerda chilena e na própria UP. O Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol), que não pertencia à coalizão governista, e o grupo dirigente do Partido Socialista propunham abertamente que se passasse à via revolucionária, expropriando a grande burguesia mesmo sem amparo institucional e preparando o povo para o embate armado contra um golpe que julgavam inevitável. Allende e o Partido Comunista, entre outros setores oficialistas, consideravam o respeito à institucionalidade uma regra de ouro e analisavam recuos programáticos que permitissem algum acordo para cessar a escalada conservadora.

Mesmo em um cenário adverso, o principal objetivo da direita, maioria qualificada, é frustrado nas eleições parlamentares. Enquanto a UP obteve 43,5% dos votos, a Confederação pela Democracia (CODE), coligação das legendas de direita e centro-direita, chegava a 54,6%. O impasse era tremendo. Ainda que crescendo, a esquerda não conquistara o controle do parlamento. E a direita, mesmo com o deslocamento da DC para o campo golpista, falhara em ter votos suficientes para o impeachment.

O equilíbrio de forças, ironicamente, bloqueava qualquer saída institucional. A partir daquele ponto, findado o primeiro trimestre de 1973, o golpe militar passa a ser construído pela confluência entre a burguesia chilena, os partidos de direita, os setores mais reacionários do oficialato e o governo dos Estados Unidos.

Estas frações não queriam correr o risco da UP continuar avançando eleitoralmente e eventualmente vencer a disputa presidencial de 1976. Nos cálculos geopolíticos, o Chile deveria servir de exemplo contra qualquer alternativa anticapitalista, ainda que circunscrita ao sistema institucional fundado pela própria democracia burguesa.

O deslizamento do bloco conservador para o golpismo escancarado, no entanto, criava uma assimetria estratégica de grande perigo: despreparado para enfrentar essa situação de ruptura, o governo Allende acenava com concessões que detivessem a insurgência reacionária, incluindo um plebiscito revogatório de seu próprio mandato, proposta lançada a poucas semanas do trágico final que se anunciava.

Os partidários da UP e o MIR, apesar das divisões, apelavam à mobilização popular, mas não havia acordo para transformar aquela base social numerosa e aguerrida em um contingente organizado para o combate político-militar, dividindo as próprias forças armadas e criando um bloco capaz de deter a contrarrevolução em todos os terrenos, estabelecendo uma institucionalidade extraordinária que quebrasse a coluna vertebral das classes dominantes chilenas.

Nem mesmo a frustrada intentona do dia 27 junho, conduzida pelo coronel Roberto Souper, com apoio de Pátria e Liberdade, principal organização de extrema-direita, fez o núcleo dirigente da administração nacional mudar de estratégia. O esmagamento desse levante, ao contrário, colocou novo tempero nas ilusões sobre o profissionalismo dos fardados.

A coalizão golpista, aos poucos, foi se dando conta que o allendismo somente conseguia se mover no terreno da legalidade e precipitou sua derrubada, recusando qualquer pacto que a postergasse ou a neutralizasse. A revolução se auto-impusera limites, mas não a contrarrevolução: era visível o despreparo dos partidos de esquerda para o enfrentamento aberto, que somente poderia ter sido evitado se o campo popular tivesse predominância nesse mesmo território, o da luta frontal pelo poder político, ao qual se proibiram desde os primórdios do governo.

No dia 11 de setembro, as ilusões com o paradigma de Togliatti caíam por terra. A via chilena ao socialismo, democrática e institucional, era soterrada por tanques, aviões e fuzis. Coerente até o último minuto, Allende sucumbiu no interior do Palácio de La Moneda, entregando a vida para que o povo carregasse sua morte como símbolo de resistência à ditadura militar-fascista que se instalava.

A tragédia allendista serviria de inspiração e aprendizado para outras lideranças, entre essas Hugo Chávez, com sua revolução pacífica e institucional, porém armada. A lenda da “democracia progressiva” esbarra historicamente na contrarrevolução burguesa, perante a qual se deve estar preparado ao enfrentamento até as últimas consequências, sob o risco de uma inevitável bifurcação entre derrota e capitulação.


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Íbis, o coronel comunista da PM

 Do Brasil 247

Jornalista Cynara Menezes, do Socialista Morena, traça o perfil do coronel que passou à reserva ano passado e diz que ele traz esperança à área de segurança pública. "De esquerda, se define como 'comunista herético', também é a favor da descriminalização das drogas", afirma

(Foto: Reprodução/Socialista Morena)
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Por Cynara Menezes, no Socialista Morena 

O coronel Ibis Pereira, da PM do Rio de Janeiro, combina de encontrar comigo, numa manhã ensolarada de inverno, em uma charmosa livraria-café do centro da cidade, ao lado da Assembleia Legislativa. Chego na hora e dou de cara com ele lá dentro, folheando livros. Me cumprimenta com dois beijos na face e comenta, alisando a capa de um dos volumes expostos à sua frente:

– Adoro Eça de Queiroz.

O perfil do coronel de 54 anos, que passou à reserva no ano passado, tinha capturado minha atenção durante a campanha à prefeitura do Rio, em 2016, quando atuou como consultor de Marcelo Freixo, candidato do PSOL. Formado em Direito e Filosofia, com mestrado em História, Íbis acaba de se filiar ao partido. Mas sua ligação com o pensamento progressista é anterior ao PSOL, a Freixo e à própria polícia.

Como você se aproximou do progressismo? Porque a imagem que as pessoas têm da polícia é que todo mundo ali é conservador.

O que não é verdade, tem uma massa considerável na polícia que é progressista. Eu venho de uma militância católica, de juventude operária católica. Apesar de morar no Rio de Janeiro e a nossa igreja sempre ter sido muito conservadora, eu vivia num bairro muito próximo da Baixada Fluminense e a gente tinha a influência das igrejas da Baixada, de Nova Iguaçu, Caxias, que eram mais progressistas. Então a Teologia da Libertação sempre foi uma marca muito forte na minha trajetória, na compreensão da minha própria fé, que é algo que me acompanha até hoje. Se não fosse por este movimento, acho que eu não estaria mais no cristianismo. Católico, pelo menos, não. Quando entrei na polícia, já vinha desse movimento. E entrei em 1983, num momento de renovação, junto com os primeiros governadores eleitos depois da ditadura. O governador eleito aqui foi Leonel Brizola, que escolhe como comandante-geral da Polícia e como secretário de Estado da Polícia um homem que para mim foi decisivo: o coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, um progressista.

Ideologicamente, como você se define?

Sou um comunista místico, um marxista herético (risos). Porque sou basicamente um marxista, mas não totalmente porque não sou materialista. Creio em Deus, sou uma mistura de Cristo com Karl Marx. Penso que se Deus existe e nós todos somos irmãos, essa sociedade não comporta senhores e escravos, dominantes e dominados. E ninguém pensa uma política de segurança pública sem uma concepção de como a sociedade deve se organizar. Estamos falando do coração do Estado, não é possível uma visão técnica apenas. A primeira violência é a miséria, a exclusão, e elas só se resolvem rumando para uma sociedade mais igualitária, mais justa.

***

O coronel Cerqueira, um policial visionário, à frente do seu tempo, que foi secretário de Brizola nas duas vezes em que governou o Rio, seria assassinado em 1999 com um tiro no olho direito no saguão do prédio onde trabalhava o advogado Nilo Batista, ex-governador do Estado. O crime foi atribuído a um sargento, executado em seguida com um tiro na nuca supostamente pelos seguranças do prédio. Mas o assassinato nunca foi completamente elucidado.

Primeiro comandante negro da Polícia Militar do Rio, Cerqueira foi pioneiro em falar de direitos humanos na área de segurança pública. Numa reunião do governo, Brizola colocou as diretrizes pelas quais seria massacrado na mídia: proibiu a polícia de entrar nos barracos das favelas sem ordem judicial. No dia seguinte, os jornais cariocas o atacavam dizendo: “Brizola proíbe a polícia de subir o morro”.

Brizola acertou em sua política de segurança?

Acertou. Para você ter uma ideia, a aula inaugural do meu curso de formação foi exatamente sobre a relação entre polícia e direitos humanos, que era uma marca que Brizola trouxe. Isso já está lá na Carta de Lisboa, em 1979. Cerqueira era uma pessoa fantástica, que tinha a visão de uma polícia imbricada com a civilização, com a democracia. A polícia é filha do Estado Democrático de Direito. Das instituições do Estado Democrático de Direito, talvez seja a mais nova. Antes disso não tem polícia, tem bando. E é isso que muita gente, muitos policiais ainda não compreendem: quanto mais um Estado promove a lei, mais a polícia é forte. Muitos policiais ainda entendem que estados fortes, duros, estados policiais, favorecem a polícia. É exatamente o contrário. E essa foi uma questão que Brizola e Cerqueira procuravam vincar bastante, esse respeito que o policial deve ter pela legislação, pela casa como asilo inviolável, pelo barraco como residência. Isso em 1983 era uma coisa que soava como conivência com o crime. Até hoje tem policial no Rio de Janeiro dizendo que Brizola proibiu a polícia de subir o morro, de enfrentar o crime. Uma mentira. O que ele proibia é que você fizesse operação em favela sem planejar e entrar na casa dos outros sem determinação. Quando entrei na polícia, você podia entrar num domicílio pela determinação de um delegado. A Constituição de 1988 é que tornou exclusivo do mandado judicial. Quando se começou a discutir se poderia entrar em uma casa sem determinação judicial, o que Brizola já falava em 1983, foi um horror. As pessoas diziam que a polícia não podia mais trabalhar, que agora o serviço policial estaria inviabilizado e até hoje se tem dificuldade de compreender isso. Tem juiz que emite mandado de busca para todas as residências de uma favela. Em 2017, no Rio de Janeiro, ainda tem isso. Brizola tentou coibir naquela época e pagou um preço muito grande.

Mas então o que faltou? Continuidade? Porque Brizola sai e em vez de elegerem Darcy Ribeiro, os cariocas se deixam influenciar pela Globo e elegem Moreira Franco…

Para a gente entender por que não vingou, a gente tem que entender que Brizola não era apenas alguém que vinha do exílio, não era apenas um inimigo da ditadura, era o grande inimigo da ditadura. Mais que o próprio Goulart, mais que Arraes, que qualquer outra figura. E sempre ficou muito claro, pelo menos pra gente, que o objetivo do Brizola era o governo brasileiro. Com seis meses de governo, há uma reportagem da revista Veja associando o governo Brizola ao caos, ao horror, às invasões, uma capa assustadora. O governo dele foi boicotado desde o início. Nós tivemos grandes ideias de transformação das forças policiais, mas essas grandes ideias não foram acompanhadas da alocação dos recursos que seriam necessários para essas transformações. Em função de uma decisão política, que era apostar na educação (e ele estava certíssimo neste ponto), e também em função da crise econômica, faltou dinheiro.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O FASCISMO ALEMÃO ATUAL - NEONAZISMO - E COMPARAÇÃO COM O BRASIL DE HOJE

É importante notar o que explica um pouco a atitude de subserviência do bozo e seus militares aos EUA: Parece mesmo que o neonazismo alemão, como o fascismo brasileiro, parece totalmente isento de nacionalismo.  Do Brasil 247

Sobre a manifestação neonazista-trumpista em Berlim e o que ela nos ensina

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No último domingo (30/08) tivemos aqui na Alemanha uma nova manifestação em protesto às medidas de prevenção ao Covid-19. Esta foi a segunda e ocorreu também em Berlim. A primeira aconteceu a cerca de um mês, e também sobre ela escrevi um artigo, publicado aqui em 2 de agosto. Bem, e por que vale a pena escrever sobre esta também? Pois ocorreram alguns elementos novos que não podem ser ignorados. As explicações genéricas (sobre as condições específicas da demografia berlinense, por exemplo) que tracei no texto anterior não repetirei aqui, então peço que o leitor, caso tenha interesse, o leia.

Vamos lá. Primeiramente, vamos deixar claro o mais importante: os principais organizadores desta atividade foram novamente os ultra-direitistas alemães, os neonazistas em suas diversas subdivisões. Havia desde os nazistas “descarados”, que carregam bandeiras com as cores do Terceiro Reich (vermelho, branco e preto) – lembrando ao leitor que expor a suástica em si é proibido –, aos nazistas “disfarçados”, eleitores do AfD.

O AfD (“Alternativa para a Alemanha”) é – como já expliquei diversas vezes, mas sempre cabe mais uma – nada mais é do que o partido neonazista com uma roupagem contemporânea. Tendo como sua pauta fundamentalmente o racismo (mais especificamente a islamofobia), eles tiveram grande ascensão em 2015 na época das grandes ondas imigratórias de refugiados (que apoiei veementemente e continuo apoiando), mas tiveram seu crescimento estagnado, graças a eficientes campanhas de combate por parte dos outros partidos e também de grande parcela da mídia alemã. Hoje ele é o quarto partido mais votado no país, conquistando entre dez e 15 pontos percentuais, ou seja, se faz muito presente, mas não ameaça uma tomada de poder.

Pois bem, vamos às novidades nesta manifestação. Primeiramente, o número de participantes cresceu assustadoramente. Falava-se em 15 mil na primeira e nesta fala-se em 35 mil. É difícil precisar um número, mas é inegável que a quantidade de pessoas, no mínimo, dobrou. Como se explica isso? Simples: infelizmente os extrema-direitistas melhoraram muito sua organização. Caravanas nazistas vieram de trem e ônibus de diversas cidades do país.

Assim, misturando-se a desinformados, turistas, e pessoas de outro ou sem nenhum posicionamento político, eles marcharam no centro da capital alemã em direção ao Reichstag, a sede do parlamento alemão. É importante esclarecer que as manifestações na Alemanha não podem ser espontâneas, tendo de ser obrigatoriamente pré-registradas, para que o policiamento seja preparado e todas as medidas de segurança tomadas. Em tempos de pandemia, vale também para tais eventos as regras de conduta sanitária: uso compulsivo de máscaras e distanciamento social.

Ao averiguar que tais medidas não estavam sendo executadas e nem meramente levadas a sério – o que é óbvio, uma vez que a manifestação era justamente contra elas – a polícia decidiu por bem encerrar o evento. Logicamente os mais exaltados não acataram a decisão com passividade e assim um ligeiro confronto físico se deu. Algumas pessoas foram detidas e depois liberadas. Foram registrados ferimentos leves em policiais e manifestantes.

Mas o mais importante ocorreu após isto. Já encerrada a manifestação, um grupo de nazistas se dirigiu ao Reichstag e ameaçou invadi-lo, “a la” Sarah Winter em Brasília. É, os nazistas do mundo possuem um “código de conduta” e existe hoje claramente uma união internacional de suas forças. A polícia evitou qualquer progresso na tentativa de invasão, mas a lição que nos fica é a seguinte: os nazistas estão mais confiantes e ousados. E eles não pararão por aí. Por isso é necessário mais atenção e combate do que nunca.

Um outro fenômeno inédito que ocorreu também corrobora com a teoria da união da ultra-direita mundial: pela primeira vez viu-se nazistas carregando em seus protestos a bandeira dos EUA. O que isso representa? Vejam, isto escancara aquilo que desde 2016 se constrói: Donald Trump é visto e tido como o líder mundial da extrema-direita. Chegamos a um ponto em que os próprios nazistas alemães (ou ao menos parte deles) o reconhecem e o aceitam. Por isso friso mais uma vez: em novembro próximo Trump precisa cair. Se ele se mantiver no poder, será uma vitória imensurável para o Neonazifascismo no mundo.

Outro detalhe a ser comentado – este mais ridículo do que relevante, mas que mostra também como o discurso esdrúxulo da extrema-direita é unificado – foi a presença de um enorme cartaz que mostrava Angela Merkel com um paletó estampado com a bandeira da extinta União Soviética. O cartaz pedia a prisão da chanceler e de outros políticos alemães. Pois é, para essas pessoas, Merkel é comunista.

Além disso, é claro, as mensagens e “argumentos” nazistas de sempre se faziam presentes: cartazes que falavam que Deus está com eles, exigindo liberdade para o povo alemão, acusando as mentiras do governo vigente, e por aí adiante. A face negacionista e anti-científica obviamente também se evidenciava, através de afirmações contrárias não somente à realidade do Covid-19, mas também contrárias à obrigatoriedade de vacinação, que felizmente existe no país para algumas doenças.

Enfim, chegamos a meados de 2020 com a absoluta certeza de que o Neonazifascismo é uma realidade no planeta e que ele está em todos os lugares. A boa notícia aqui na Alemanha é que – ao menos hoje – há um trabalho inteligente e sério de combate a este câncer que assombra as sociedades. As mais recentes pesquisas continuam a mostrar que somente cerca de 10% da população desaprova as medidas relativas à pandemia tomadas por Merkel. Inclusive, sua postura consciente, segura e eficiente lhe garantiu considerável ascensão em termos de aprovação por parte da população, o que deve inclusive refletir nas eleições nacionais do ano que vem.

Se o Brasil tivessem freado a ascensão do Neonazifascismo enquanto ainda era tempo, como vem tentando fazer a Alemanha, o país não estaria na situação catastrófica que está. Talvez não sabíamos que a sociedade brasileira era tão doente como qualquer outra, e por isso fomos pegos, de certa forma, de surpresa. Havia aquela ilusão do “povo bom”, que mostrou-se completamente falsa e ingênua. Já a Alemanha foi o berço do Nazismo e onde ocorreram algumas das maiores transgressões humanas da história. Por isso, nós (ou ao menos os minimamente conscientes) sabemos muito bem que os monstros ainda vivem “muito bem vivos” e estão sempre à espreita aguardando o momento adequado para tomar o poder e aterrorizar a humanidade novamente. Guarda alta sempre, ou eles vencerão, como venceram no Brasil.

 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

UNIVERSIDADES PRIVADAS DOS EUA E SUA DECADÊNCIA

Saiu no Counterpunch. É mais ou menos no que a elite neoliberal que está mandando no país quer transformar nossas Universidades Públicas.

25 de agosto de 2020

COVID-19 e a nudez da Universidade Corporativa

por David Schultz

Fotografia de Nathaniel St. Clair

A pandemia de coronavírus mudou tudo e acelerou tendências que já estavam ocorrendo em todo o mundo nos negócios, na política e na forma como as pessoas vão às compras e interagem. O mesmo acontece com o ensino superior americano. Enquanto as faculdades e universidades em toda a América estão recomeçando, a Covid-19 revelou a nudez da universidade privada, revelando como a educação e o aprendizado há muito foram substituídos como o objetivo principal das faculdades e universidades.

A universidade corporativa é um produto das décadas de 1970 e 1980. Depois da Segunda Guerra Mundial, o financiamento do governo para o ensino superior, especialmente as universidades dos Estados, foi visto como uma ferramenta de desenvolvimento econômico, uma linha de batalha na Guerra Fria e um instrumento de democracia. A ciência e a tecnologia eram importantes, mas as artes, as humanidades, as línguas estrangeiras e as ciências sociais faziam parte de uma educação tradicional em artes liberais que beneficiava a sociedade e produzia, como disse uma vez o filósofo John Dewey, a próxima geração de líderes democráticos. Os benefícios da educação universitária eram um bem público, digno de investimento público. Mas, começando com a retração econômica da década de 1970 e o início do neoliberalismo, o ensino superior mudou. Os estados cortaram os investimentos em suas universidades, as bolsas para estudantes diminuíram e a educação universitária passou a ser cada vez mais vista como um bem ou investimento privado.

O ensino superior respondeu tornando-se corporativo. Faculdades e universidades buscaram patrocínios e parcerias comerciais. Eles reestruturaram e assumiram estilos de gestão de cima para baixo que cada vez mais viam os professores como trabalhadores e menos como co-participantes na educação. Os conselhos de curadores se tornam mais compostos por líderes empresariais que, por sua vez, contratam presidentes de escolas com tendências ou experiências corporativas e formações ou currículos menos tradicionais. O ensino superior, assim como a América corporativa, reestruturou e substituiu os trabalhadores (professores efetivos em tempo integral) por funcionários em regime de meio período e contingentes, e colocou em níveis ainda altos de gerência média e sênior pessoal com pouco conhecimento ou afeição pela educação tradicional em artes liberais.

Mas as faculdades e universidades também se tornaram corporativas ao transformar a educação em uma mercadoria e os alunos em clientes. Primeiro, os alunos foram informados que a faculdade era um investimento em seu futuro e, portanto, tomar empréstimos para financiá-la tornou-se uma decisão de custo-benefício em suas opções de carreira. Segundo, os departamentos de admissão cada vez mais vendem escolas não com base na qualidade da educação que recebem, mas na futura colocação profissional. Em seguida, as escolas enfatizaram estágios, a vida em dormitórios, atividades no campus, esportes, tecnologia e conectividade com a Internet para conveniência. Três, no nível de pós-graduação, a expansão de programas profissionais presenciais, mas caros (muitas vezes oferecidos sem o rigor tradicional de uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado) em negócios e outros campos foram vendidos como investimentos de carreira para os Baby Boomers ansiosos por credenciais, com a mensalidade arrecadada pelas escolas ajudando a financiar os programas de graduação. Quarto, ir para a faculdade envolveu as amenidades do aprendizado e não o aprendizado em si. O ensino superior transformou a experiência da faculdade em um nexo monetário - pague-nos muito dinheiro e iremos fornecer-lhe uma série de atividades e conexões no campus que serão um retorno valioso sobre o seu investimento.

A recessão global de 2008 destruiu o plano de negócios para o ensino superior americano. Os orçamentos da educação pública foram reduzidos e a dívida dos alunos superou a dos cartões de crédito pessoais. Os alunos foram sendo eliminados e o número de jovens de 18 anos elegíveis e prontos para a faculdade foram diminuindo. O ensino superior deveria ter entrado em colapso, mas conseguiu sobreviver com a intensificação de cortes de custos e os aumentos das mensalidades.

Então veio a Covid-19. Quando as escolas passaram para online na primavera passada, os alunos se revoltaram com e razão. Eles exigiam reembolso não apenas dos dormitórios, mas também das mensalidades. Eles argumentaram que as experiências da faculdade que foram vendidas incluíam todas as experiências baseadas no campus, estágios e conexões que eles não estavam mais recebendo. Os administradores da faculdade ficaram em uma situação difícil. Eles tentaram dizer que a mensalidade era justificada porque eles ainda estavam estudando, mas tal afirmação era descabida na melhor das hipóteses, já que esse aspecto da experiência universitária há muito havia desaparecido ou se tornado apenas um pedaço de pau em um pacote de produtos vendidos como experiência universitária.

Os alunos e seus pais não estão aceitando esse argumento. Tire todas essas outras amenidades e o que você realmente tem? A nudez das faculdades e universidades que tratam de tudo menos educação. A faculdade tornou-se uma coleção de externalidades mercantilizadas cercada por um núcleo central de um nada educacional. Para este outono, a realidade é que, como as decisões recentes de Notre Dame e da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill já mostraram, o aprendizado no campus é um
enorme risco para a saúde pública. No entanto, nenhuma faculdade quer dizer que vai permanecer totalmente online por temer que os alunos não frequentem ou queiram reduções de preços. No entanto, o que vai acontecer é que grande parte do ensino superior vai fazer uma isca e mudar - começar a escola pessoalmente e assim que o dinheiro da mensalidade voltar a ficar online. Este será um ajuste de curto prazo para a crise das universidades corporativas, que faz pouco para lidar com décadas de danos ao desaparecimento da missão educacional do ensino superior.


 
David Schultz é professor de ciência política na Hamline University. Ele é o autor de Presidential Swing States: Why Only Ten Matter.