sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

CENÁRIO


MUNDO MULTIPOLAR 

por Cascarpi,
21 de fevereiro de 2020


Acompanhar a evolução política mundial não está fácil. Categorias e centros de poder vêm mudando muito rapidamente, e essas mudanças aceleradas devem continuar ocorrendo. 

Em determinado momento dos anos 1970 foram proclamados a formação de um “Consenso” mundial e o Fim da História, pelas autoridades de Washington e de Wall Street. Ficaram ocultos de uma divulgação real, os graves e crescentes problemas ambientais decorrentes da ação do homem. O maior deles, o aquecimento global, primeiro foi negado ou relativizado, e depois, quando finalmente foi admitido, teve negada a reponsabilidade da ação humana, justificando a falta de ação dos estados nacionais até hoje.

Enquanto o capitalismo dominante serve basicamente aos interesses imediatos das minorias financistas e do império, mostrando-se incompatível com a prevalência de socieda des minimamente equilibradas tanto nos países centrais como na periferia do sistema, duas tendências parecem se sobressair das mudanças nos últimos anos. 

A primeira é a crescente contestação, por outros países, do domínio estadunidense. O império dos EUA vem declinando tanto no seu peso econômico frente ao resto do mundo, o que é claramente mostrado nas estatísticas mundiais sobre crescimento econômico e produto interno bruto, e na efetividade do poder político exercido sobre países aliados, neutros e adversários. Por poder político, entendo aqui os vários recursos de que o governo e as corporações estadunidenses lançam mão para influenciar ou impor seus interesses sobre os outros: diplomacia, espionagem, recrutamento e operação de “ativos” locais, operações de guerra cibernética, guerras por procuração, guerras abertas.

Para citar alguns dos exemplos mais importantes do declínio político do império, Índia e Turquia vêm tentando, em patamar inferior ao de Rússia e China, expandir-se, a primeira para dentro – à custa de suas etnias minoritárias, assegurando o apoio da maioria hindu, a segunda, para além de suas fronteiras, numa forma de restauração de um antigo império. Esses dois países estão sob líderes qualificados de populistas e nacionalistas. Um terceiro, governado por um líder de ultradireita – Rodrigo Duterte, das Filipinas, vem tratando de se afastar do domínio estadunidense ao qual foram subordinadas desde sua  conquista como colônia no século 19.

A segunda tendência tem sido a desagregação do ambiente social na maioria das nações, no centro e na periferia do sistema mundial. Uma sequência de crises econômicas mundiais, desde os anos 70 do século passado, tem causado enormes deslocamentos de riqueza dentro de e entre nações, que continuam a ocorrer nos dias de hoje. A visão de um mundo em crescimento permanente, no qual os ricos continuariam a prosperar e os também pobres, prevalecente desde o fim da Segunda Guerra, se desfez. Com isto, desfizeram-se também pactos sociais, no mesmo momento em que se iniciavam movimentos para a construção de blocos regionais.

No lugar dos pactos sociais anteriores, com o estado, laico, presente em várias esferas de atividade, vemos a proliferação de novos centros de poder e de ideologias, antigas ou reformadas; a deterioração do tecido social com o surgimento de bandos fascistas, atualmente principalmente na internet, mas não só. E de pactos autoritários para a defesa de interesses dos muito ricos. 

Pactos entre donos do poder e organismos de violência e repressão (estatais e privados), proliferação de centros de destruição do conhecimento (com exumação e reciclagem de ideologias de controle, com destaque para os fundamentalismos religiosos, principalmente evangélicos e islâmicos). Há um reforço mútuo entre judiciário e polícias, que justificam sua existência ao reprimir os pobres, e os ricos, que precisam manter e ampliar seus parasitismos sobre a produção de bens e de serviços.

São pactos locais, não totais – podem abrigar contradições. Nas polícias e no judiciário, por exemplo: existem e podem estar crescendo, dissidências ao bolsonarismo reinante no Brasil entre forças armadas, policiais e judiciário, assim como houve militares que se opuseram ao golpe de 1964. O cerco da mídia corporativa a favor da agenda neoliberal é rompido por sites e Youtubers de esquerda. E o cenário econômico em médio prazo não é o mesmo do início da ditadura de 1964, quando depois de alguns anos teve início um ciclo de grande crescimento econômico, que não está à vista nos dias atuais.

Tudo permanece podendo  ser diferente, como mostra esta reportagem sobre a Finlândia, no El Pais

No geral, a economia no Brasil e na maior parte do mundo, incluindo EUA, China, Rússia, trabalha para a aceleração do desastre social e ambiental no planeta. A guerra contra a Terra está sendo travada em favor dos muito ricos, que tratam de se isolar dos efeitos da crise do clima, os diretos e os indiretos.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

DESIGUALDADE: REDISTRIBUIÇÃO OU REVOLUÇÃO

Artigo publicado no Outras Palavras

As democracias engolidas e o erro de Piketty

Distribuir riquezas por meio de tributos, como propõe economista francês, é importante. Mas para frear a produção de desigualdades e a devastação do mundo, é preciso novas relações de produção — como percebeu o próprio papa Francisco (ver Poderá Francisco salvar a Economia e o planeta? )




O economista Thomas Piketty ganhou o status de rockstar após a publicação do livro O Capital no Século XXI, em 2013. Por meio de um referencial histórico, Piketty demonstra como desigualdades sociais insustentáveis fazem parte do roteiro do capitalismo, pondo em xeque os valores meritocráticos que sustentam ilusoriamente as democracias liberais. A obra faz com que o credo de que o livre-mercado gera riqueza para todos tenha um ar ainda mais anedótico, reforçado pelo fato dessa ideia ter surgido dos esforços de ampliar o soluço que compreende o período de 1945 a 1970. Os anos da chamada “era de ouro” do capitalismo, contudo, não passam de um ponto fora da curva, como o livro mostra com precisão quase que matemática.

“Politicamente, Piketty é bem-comportado, especialmente para o público americano, e talvez isso explique parte do seu sucesso. A proposta que faz para o problema da desigualdade está centrada na esfera da distribuição – tributos –, e não na esfera da produção – regulação direta”, critica Marcelo Medeiros, sociólogo, pesquisador do IPEA e professor da UNB no artigo Piketty e nós, publicado em maio de 2014 na revista Piauí. “Ele é bom para identificar o problema, mas não para encaminhar soluções”, conclui.

Piketty acredita que a natureza predatória do capitalismo pode ser domada por mediações políticas e institucionais. Para ele, a economia se submete à política, e não o contrário. Expoentes do socialismo utópico como Charles Fourier e Robert Owen também acreditavam que o problema da desigualdade social e suas mazelas se concentravam não na produção, mas na distribuição da riqueza. Foi com base em premissas como esta que pautaram suas intervenções políticas, na perspectiva de que bastava distribuir melhor para resolver o problema da desigualdade.

Esse diagnóstico estava evidentemente equivocado, apesar de ter, já no século XX, servido de inspiração a teóricos da socialdemocracia como Kautsky e Bernstein. Rosa Luxemburgo, contumaz adversária dos socialdemocratas, qualificou os socialistas utópicos como essenciais ao processo de amadurecimento político da agenda socialista. À sua época e ao seu tempo, tiveram sua importância para a organização da classe trabalhadora. Hoje, no entanto, “a volta às teorias socialistas pré-marxistas nem mesmo significa mais a volta aos gigantescos sapatos de bebê do proletariado, mas a volta aos chinelos minúsculos e gastos da burguesia”1.

Responsável por expor os limites do socialismo utópico, o socialismo científico de Marx e Engels dissecou o modo de produção capitalista e explicou como funciona seu metabolismo, mostrando que o verdadeiro problema está não na distribuição da riqueza, e sim na sua produção. Esse novo ponto de partida chamou a atenção para a necessidade de demolição dos alicerces do capitalismo, fundado na propriedade privada dos meios de produção e na apropriação privada da riqueza coletivamente produzida, para que se torne possível um horizonte no qual os avanços da tecnologia sirvam a toda humanidade e não apenas ao 1% da população mais rica do planeta.

Isso significa que não importa o quanto a riqueza seja redistribuída – caridade, filantropia, taxação de grandes fortunas, etc -, pois o buraco é mais embaixo. Assim, querer diminuir a desigualdade sem lidar com o modo com que bens e serviços são produzidos é como tratar uma pneumonia com um antialérgico. É aí que se encontra parte da conclusão de que Piketty é radical ao apontar os problemas, mas moderado ao sugerir soluções.

Sob Francisco, a Igreja Católica parece ir além do economista francês. O documento Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema-econômico financeiro, de autoria da Congregação para a Doutrina da Fé, traz a conclusão de que a economia de mercado cria o potencial de uma vida boa à humanidade, mas não o entrega, pois se volta a automatismos e movimentos autorreferenciais que passam por cima das necessidades concretas das pessoas. A discussão, mais uma vez, se volta aos efeitos da produção capitalista na classe trabalhadora, que, despojada dos meios de produção, tem que vender sua força de trabalho para sobreviver. A mesma classe que permanece não tendo nada a perder, a não ser os seus grilhões.

Se os efeitos dessa economia são sentidos pela grande maioria das pessoas, é preciso levar essa problemática para a vida concreta delas, como aconselhou Marx em sua crítica ao Programa de Gotha. E isso passa tanto pelo rompimento com arroubos idealistas e distributivos como pela adoção de uma estratégia de ação política que se baseie não em idealismos, mas nas condições socioeconômicas concretas sob as quais se fundamenta nossa sociedade.

Vejamos a mundialização do capital, traduzida na globalização: na medida em que é um fato inegável, o mesmo não ocorre no mundo do trabalho, que se mantém predominantemente nacional. E com o agravante de que a concentração de poder econômico tem reflexo direto nas esferas de decisões políticas (ver nesse sentido o estudo Economic Inequality and Legislative Agendas in Europe, dos professores Derek Epp, da Universidade do Texas em Austin, e Enrico Borghetto, da Universidade Nova de Lisboa2) o que nos leva a conclusões semelhantes às de ninguém menos que Adam Smith em suas Leituras da Justiça, segundo o qual a escravidão de sua época não teria fim enquanto os detentores do poder econômico, proprietários de escravos, permanecessem dominando o poder político, pois “toda lei é feita pelos seus donos, os quais nunca vão deixar passar uma medida desfavorável a eles”.

Marx e Engels mostraram que não há democracia política sem democracia econômica. Tamanha concentração de renda é possível ao mesmo tempo em que o poder político não é democratizado. E vice-versa, uma vez que, como visto mais acima, é a economia que em regra condiciona a política. Há uma relação direta da crescente desigualdade social, evidenciada em obscenidades como o aumento do número de bilionários em tempos de crise – só no Brasil, foram de 42 para 58 entre 2017 e 2018 –, com o fato da classe trabalhadora, sub-representada em espaços como o parlamento, ver seus rendimentos caindo cada vez mais.

O filósofo francês Alain Badiou costuma afirmar que nosso maior inimigo hoje é a democracia. Isso por que, enquanto o capital age em suas margens, patrocinando golpes e implodindo soberanias nacionais para garantir os níveis de acumulação que julga adequados, a esquerda, na expectativa de enfrentá-lo, costuma se limitar às estreitas formas institucionais da democracia liberal (poder legislativo, ações judiciais, petições on-line). Se comporta, assim, como um boxeador que enfrenta seu adversário com uma mão amarrada às costas e depois não entende por que perdeu a luta. 

Piketty cai nessa armadilha, não percebendo que, mais do que dourar as grades da gaiola, aumentar a quantidade de alpiste e colocar flores no poleiro, a quebra de suas grades é que deve ser o nosso fim se de fato queremos que não haja diques contendo todo o potencial criativo, emancipatório e libertário da humanidade. Caso contrário, resta a nós continuar na fantasia de tentar humanizar o desumanizável. 



1 Reforma ou Revolução?, editora Expressão Popular, página 121.
2 https://enricoborghetto.netlify.com/working_paper/EuroInequality.pdf
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A INDIA DE MODI

Do Counterpuch de 19 de fevereiro

India de Modi


de Kenneth Surin


Fonte da fotografia: Subhankar “Kenny” Sahu - CC BY 2.0

Eu estou em Nova Delhi, participando de uma conferência.

A conferência estava prevista para ocorrer na Universidade Jamia Millia Islamia, de maioria muçulmana. A universidade tem sido um centro de protestos contra a Lei de Emenda à Cidadania (CAA), que entrou em vigor em dezembro do ano passado.

O CAA concede um caminho de cidadania aos refugiados do Afeganistão, Paquistão e Bangladesh, que buscaram refúgio na Índia antes de 2015. No entanto, o CAA não inclui muçulmanos, enquanto inclui refugiados hindus, sikh, jainistas, budistas, cristãos e parsi. É obviamente discriminatório - por exemplo, houve uma presença muçulmana na Índia no mínimo um século antes da chegada dos primeiros parsis da Pérsia.

Os distúrbios em Jamia levaram os organizadores da conferência a mudar o local da conferência para outro local no meio de Delhi, mas logo depois os participantes foram informados de que a conferência seria realizada agora em um local próximo ao aeroporto, a alguma distância do centro de Delhi.

O partido no poder da Índia, o partido Bharatiya Janata (BJP) do primeiro-ministro Narendra Modi (o "bom amigo" de Trump), tem uma agenda nacionalista abertamente hindu.

Pouco antes de eu chegar, foram realizadas eleições para a Assembléia Legislativa do Território da Capital Nacional de Délhi.

O BJP realizou uma campanha anti-muçulmana estridente e que causou medo, e foi derrotado, ganhando apenas 8 assentos na assembléia de 70 assentos. O Partido Aam Aadmi (AAP, Partido do Homem Comum em inglês) conquistou os 62 assentos restantes. O Congresso Nacional da Índia, o partido mais antigo da Índia, que governou Délhi por 15 anos até 2013, mais uma vez não conseguiu ganhar um único lugar.

Uma amostra da campanha anti-muçulmana do BJP é fornecida por dois episódios.

Durante a campanha eleitoral, o ministro do BJP, Giriraj Singh, disse que o subúrbio de maioria muçulmana de Délhi, Shaheen Bagh, era um "terreno fértil para homens-bomba".

Em campanha pelo BJP em Délhi, Yogi Adityanath, o ministro-chefe de Uttar Pradesh, conhecido por alimentar o ódio e a violência contra os muçulmanos da Índia, foi direto ao ponto factionalista ao dizer que “terroristas” (muçulmanos) deveriam ser alimentados com “balas, não com biryani".

A tentativa do BJP de polarizar o eleitorado obviamente saiu pela culatra e a AAP voltou ao poder em Delhi.

A AAP, liderada por Arvind Kejriwal, é provavelmente o partido político mais à esquerda na Índia, além do Partido Comunista da Índia. Apoia a legalização da homossexualidade e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, possui uma agenda anticorrupção significativa e reduziu o preço da eletricidade quando chegou ao poder (por meio de subsídios).

Kejriwal tem travado batalhas legais recentemente por causa de seu pedido de que os membros do partido AAP ofereçam subornos aos políticos do BJP e gravem os encontros quando isso acontecesse. Seus oponentes processaram, afirmando que um incitamento flagrante à violação da lei é ilegal. O caso continua.

Enquanto Modi, que é primeiro-ministro desde 2014, foi reeleito com uma grande maioria nas eleições nacionais de maio de 2019, no nível estadual o BJP não se saiu bem nas eleições. Desde dezembro de 2018, perdeu força em 5 estados - Madhya Pradesh, Rajastão, Chhattisgarh, Maharashtra e Jharkhand.

Modi é de origem humilde e trabalhou em uma banca de chá no início de sua vida, em vez de adquirir uma educação formal. Se eles pareciam propensos a discutir política, abordei alguns locais que participaram da conferência que normalmente pertenciam à base eleitoral de Modi.

Um estudante de graduação disse com uma pitada de exasperação: "seus apoiadores vêm da classe chaiwallah (vendedor de chá de rua)".

Ah, de certa forma análoga, dê ou aceite algumas diferenças óbvias, à demografia que apóia Trump e Boris Johnson - ou seja, aqueles que se acreditavam pertencer, provavelmente corretamente, aos "deixados para trás" criados pelo neoliberalismo e pela globalização.

Infelizmente para esses deixados para trás, Modi, Trump e BoJo Johnson são todos membros do comitê executivo do neoliberalismo, e esses LBs são o equivalente proverbial de raposas que se opõem à proibição da caça às raposas.

(OK, muitos britânicos como eu são obcecados, a favor ou contra, sobre a caça a raposas. Os conservadores tendem a considerá-lo um emblema por excelência de "britanismo", enquanto o resto de nós o vê como uma busca extraterritorial à humanidade da pessoa).

Trump deve chegar a Delhi em 24 de fevereiro para uma visita de estado. Embora se diga que o sujeito de cor laranja zomba de Modi imitando seu sotaque, a visita deve correr bem, apesar do fato de que as negociações entre a Índia e os EUA sobre um acordo comercial tenham chegado a águas agitadas.

Modi e Trump formam uma sociedade de admiração mútua - se Trump respeita um líder estrangeiro, então Modi provavelmente fica atrás de Putin, Netanyahu e Mohammad bin Salman, provavelmente empatado em quarto lugar com Kim Jong-un.

A barra não é alta em assuntos relacionados Trump - na verdade, ele provavelmente mostraria a porta, qualquer porta, para um Nelson Mandela, Jawaharlal Nehru, Julius Nyerere, Bruno Kreisky ou Willy Brandt. E não vamos começar com Fidel ou Ho Chi-minh!

A reportagem aqui na Índia, na primeira página do Hindustan Times (junto com um item sobre dois indianos no navio de cruzeiro em quarentena no porto de Yokohama que haviam contraído o vírus COVID-19), é que assinando o comércio EUA-Índia acima mencionado o acordo seria a peça central da visita de Trump. Pelo menos essa parecia ser a esperança do governo indiano.

No último momento, o representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, disse que estava "impossibilitado de viajar indefinidamente" para finalizar os termos do acordo antes da visita de Trump.

A Índia, com sua economia crescente, quer extrair gás de xisto ou "fracked" dos EUA, enquanto os EUA querem que a Mastercard e a Visa entrem no mercado indiano de cartões de crédito nos mesmos termos que o cartão de crédito RuPay, apoiado pelo governo indiano. Se isso acontecer, o RuPay será eliminado pela Mastercard e Visa, que possuem recursos globais suficientes para minar seu concorrente confinado na Índia.

Devemos procurar ver quanto Visa e Mastercard doam para a campanha de reeleição de Trump?

Ao mesmo tempo, há cínicos aqui que dizem que a "falha" do acordo comercial entre os EUA e a Índia é apenas uma cortina de fumaça para Trump e Modi, braços erguidos em triunfo, para anunciar a uma multidão de adoradores na visita de Trump que eles conseguiram de alguma forma, resolver os impasses do negócio, graças ao seu "relacionamento especial".

Trump pode se vangloriar mais uma vez de que ele é o mestre da “arte do acordo” (“renegociei o NAFTA, blá blá – uh hu!”), E Modi pode dizer aos eleitores indianos que ele joga na mesma liga dos grandes rebatedores entre os políticos do mundo.

Observe este espaço para ver se os cínicos indianos estão certos.

Enquanto isso, Delhi continua a ser, nas palavras de um de meus amigos de Delhi, a maior área metropolitana do mundo (agora que Pequim conseguiu limpar seu ato graças a medidas firmes e francas adotadas pelo governo autoritário chinês) .

 
Mais artigos por: Kenneth Surin

Kenneth Surin ensina na Universidade de Duke, Carolina do Norte. Ele mora em Blacksburg, Virgínia.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Os Estados Unidos inquietos enquanto o Iraque tem um novo primeiro-ministro

Do Counterpunch. Bhadrakumar, diplomata indiano de carreira, mostra aqui algo sobre a ligação dos movimentos de protesto no Oriente Médio com o governo dos EUA. Ele evoca a semelhança com os protestos de Hong Kong. É apenas lógico puxar para a ação recente em vários países da América Latina, e entre eles, obviamente, o Brasil



por M. K. Bhadrakumar

Dentro do Centro de Convenções de Bagdá, onde o Conselho de Representantes do Iraque se reúne. Fonte da fotografia: James (Jim) Gordon - CC BY 2.0

Em tempos mais felizes, Washington e Teerã poderiam muito bem ter se concentrado em Mohammed Tawfiq Allawi como candidato a consenso para o cargo de primeiro-ministro do Iraque.

Por que não? Ele se opôs à ditadura de Saddam Hussein - embora, ao contrário da maioria dos políticos xiitas que fugiram da tirania de Saddam, ele nunca tenha morado no Irã, mas sim no Reino Unido.

No entanto, ao contrário de seu famoso (notório) primo Iyad Allawi, que também viveu no exílio no Reino Unido e a quem os EUA escolheram a dedo para chefiar o primeiro governo durante sua ocupação (2004-2005), Mohammed Allawi não trabalhou para a inteligência ocidental.

Até os detratores não ousam dizer que ele já esteve na folha de pagamento de Teerã. Na verdade, ele não esteve - ao contrário de outro parente famoso dele, Ahmed Chalabi, que é um político iraquiano.

Embora faça parte da aristocracia xiita iraquiana, ele foi sensato o suficiente como um político iraquiano aspirante para ter um bom relacionamento com o Irã.

Diz-se que Mohammed Allawi é profundamente religioso e, no entanto, é secular. Ele renunciou duas vezes ao gabinete do ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki, protestando contra a "agenda sectária e interferência política" deste último.

Não há razão concebível para que os EUA não estejam felizes com o fato de o Irã ter fracassado, neste momento crucial da política regional, em inserir um 'sim senhor' seu como chefe do novo governo em Bagdá.

Mas ao priorizar a estabilidade do Iraque mais do que qualquer outra coisa, Teerã deu boas vindas à nomeação de Mohammed Allawi. Pelo contrário, mesmo depois que o presidente Barham Salih deu a ele a carta de nomeação em 1º de fevereiro, Washington ainda está se segurando.

Os membros de think tanks americanos ligados ao establishment dos EUA têm acusado Mohammed Allawi como mero líder da aliança Sairoon do clérigo xiita Moqtada al-Sadr e seu rival, a Aliança Fatah, liderada por Hadi al-Amiri. Eles antecipam que ele está fadado ao fracasso.

O cerne da questão está em que há muita angústia na mente americana de que Mohammed Allawi, uma vez confirmado como primeiro-ministro pelo parlamento iraquiano, possa não apenas reestruturar as relações EUA-Iraque, mas eventualmente fazer enfraquecerem os assim chamados protestos que Washington e seus aliados regionais vêm inserindo desde outubro de 2019 no organismo político do Iraque, como um centro extraconstitucional.

Hoje, a capacidade dos Estados Unidos de influenciar a elite política iraquiana - uma vasta rede de políticos, partidos xiitas, forças de segurança, milícias e figuras religiosas que compõem o sistema político de muhasasa (compartilhamento de poder sectário) do Iraque – vem diminuindo bastante.  Agarrar o caminho de volta pelo poste ensebado é difícil.

Assim, o movimento de protestos no Iraque, que agora está entrando em seu quarto mês, passou a ser o principal instrumento para Washington (e seus aliados da Arábia Saudita e dos Emirados) fazerem avançar clandestinamente o confronto geopolítico mais amplo com o Irã que está sendo realizado dentro do país.

O movimento de protestos iraquiano tem uma semelhança impressionante com o de Hong Kong, que também submeteu o governo local. No Iraque também é um movimento notavelmente jovem composto quase inteiramente por adolescentes ou jovens com menos de 25 anos de idade e que também teve participação significativa das mulheres.

O movimento em Hong Kong tem um programa incipiente que continua em mutação - variando de reformas eleitorais à erradicação da corrupção - em meio a pichações artísticas, vídeos de rap e jornalismo cidadão como módulos de ativismo político e engajamento cívico.

O movimento de protesto iraquiano também não tem liderança unificada e, ainda assim, através de seus apelos abstratos à remoção da atual elite política, ele trabalhou para se inserir como um fator na tomada de decisões sobre a nomeação do primeiro-ministro. Algumas forças ocultas estão evidentemente puxando as cordas por trás, como visto em Hong Kong.

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul-Mahdi, queixou-se amargamente no parlamento iraquiano em 5 de janeiro de que, em duas conversas telefônicas, o presidente dos EUA, Donald Trump, o ameaçou precisamente com protestos para derrubá-lo se ele não cumprisse as exigências dos EUA.

O POTUS supostamente ameaçou posicionar franco-atiradores da Marinha dos EUA "no topo dos edifícios mais altos" para atingir e matar manifestantes e forças de segurança na tentativa de pressionar o primeiro-ministro.

Portanto, é extremamente significativo que os manifestantes iraquianos tenham rejeitado a nomeação de Mohammed Allawi. O Iraque vive agora um impasse político. Em essência, Washington fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir que o novo governo se estabeleça.

Em Hong Kong, a turbulência começou a diminuir quando o acordo comercial EUA-China foi assinado. No Iraque, tudo depende da renegociação dos termos do compromisso com os EUA. A natureza amorfa do movimento de protesto significa que ele também pode se deparar com uma morte súbita.

O governo Trump espera salvar as relações com Baghdad e sufocar a demanda iraquiana pela retirada das tropas americanas. O principal comandante dos EUA no general do Oriente Médio Frank McKenzie visitou Bagdá na terça-feira para fazer a bola rolar.

Em uma perspectiva mais longa, os EUA esperam que os sadristas (um movimento liderado por Moqtada al-Sadr) possam ser explorados como um poderoso motor de colocar a estrutura da Força de Mobilização Popular (PMF) apoiada pelo Irã sob efetivos controles do governo.

Mas há uma ressalva. Como diz o colega sênior do Instituto Washington Michael Knights, “Moqtada também acredita que ele tem um papel a desempenhar como um 'guia' focado em 'justiça social' ... Embora seja improvável que seja um governante no molde do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamene, também é improvável que Moqtada seja um clérigo 'quietista' no estilo de Sistani. Algo intermediário é mais provável, elevando paralelos a Hassan Nasrallah do Hezbollah. Esta não é uma comparação que deve tranquilizar [Washington]. ”

De fato, em 4 de fevereiro, os apoiadores de al-Sadr assumiram o controle do icônico edifício da Praça Tahir, em Bagdá, e despejaram os manifestantes ali instalados.

O ponto principal é que, embora o nível de emoção no discurso sadrista sobre as forças americanas no Iraque não seja mais agudo do que costumava ser uma década atrás, permanece uma convicção profundamente enraizada do movimento, do próprio Moqtada aos quadros militantes , que a presença de forças militares estrangeiras não deve se tornar uma realidade proforma da vida iraquiana.

Este artigo foi produzido em parceria com Indian Punchline e Globetrotter, um projeto do Independent Media Institute.
 
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