terça-feira, 4 de outubro de 2016

UM DIAGNÓSTICO POLÍTICO A PROÓSITO DAS ELEIÇÕES

De Cynara Menezes, em seu blog Socialista Morena

A periferia abandona o PT (e isso é razão de preocupação para toda a esquerda)



O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, perdeu em todos os distritos eleitorais da capital, inclusive nos redutos tradicionais do seu partido, o PT. Haddad perdeu em Parelheiros e Grajaú (zona Sul) para Marta, perdeu no Itaim Paulista (zona Leste) para Celso Russomanno e perdeu para o eleito João Doria Jr. em Guaianases, Cidade Tiradentes e Capão Redondo (zona Sul). O prefeito teve seu melhor desempenho em Pinheiros, bairro de classe média alta da zona Oeste.

É óbvio que o massacre midiático e a investida judicial contra o partido teriam seus efeitos nas urnas, mas tem um fator que precisa ser alvo de atenção especial por parte da esquerda. A eleição paulistana comprova o que venho falando há algum tempo: o PT se distanciou da classe trabalhadora. O partido criado pelo metalúrgico Lula nasceu em berço sindical, mas não soube cultivar o vínculo com os representantes dos trabalhadores a não ser pelo peleguismo é emblemático que este ano tenha sido derrotado nas cidades do ABC, à exceção de Santo André, onde Carlos Grana disputará o segundo turno.
Como se não bastasse o distanciamento de trabalhadores e sindicatos, o PT deixou de investir na formação de militantes durante os anos em que esteve no governo federal, optando por fortalecer a nomenklatura. O resultado desta abdicação à conscientização política das massas foi que a nova classe média ou “nova classe trabalhadora”, como diz Marilena Chaui, acabou cooptada pela direita, com a providencial ajuda da velha mídia que a representa.

O abandono do PT pela classe que lhe dá nome é a notícia mais preocupante desta derrota e afeta a esquerda como um todo. É também um fenômeno internacional. Ocorre nos Estados Unidos com Donald Trump, que conquistou a classe trabalhadora branca com seu populismo. E no Reino Unido, onde os pobres votaram em sua maioria pela saída do país da União Europeia, na ilusão de que isso trará seus empregos de volta. Por que as promessas de uma vida melhor sob uma ótica de esquerda deixaram de atrair os trabalhadores?

Eu acho que nos elitizamos. Viramos os representantes de gente consciente e estes não são, nem de longe, a maioria do eleitorado. Os pobres, que encontravam nas promessas da esquerda, sobretudo do PT, um alento para suas vidas sofridas, agora parecem seduzidos pela ilusão de ascensão social rápida e de consumismo vendida pela direita. A derrota dos petistas no Nordeste indica que políticas de redistribuição de renda como o Bolsa Família tampouco se convertem automaticamente em votos como antes. Das sete cidades onde Lula esteve na região fazendo campanha, só Crato e Iguatu, no Ceará, elegeram prefeitos do PT além de Recife, onde João Paulo foi ao segundo turno.

Como voltar a seduzir os trabalhadores para a ideia de um mundo com mais justiça social, principal razão de existir da esquerda? O que nos reaproximará das classes menos favorecidas? São as questões que temos de nos fazer daqui para a frente, toda a esquerda, não só o PT. O PSOL, por exemplo, está indo ao segundo turno no Rio e tem um desafio imediato: disputar com o bispo Marcelo Crivella a narrativa junto aos mais humildes, que todos estes anos o PT deixou à mercê das igrejas evangélicas. É imprescindível atingir estas pessoas sem menosprezar sua fé, mesmo que não seja a nossa. No longo prazo, o PSOL tem que ampliar sua base social para crescer.

Ao mesmo tempo que a política de alianças do PT se mostra ultrapassada, é fato que a esquerda como um todo deve se redesenhar olhando para a sociedade que temos, empunhar bandeiras mais próximas à realidade e não ao que sonhamos (e isso inclui o PSOL e outro partido que também cresceu, o PCdoB). Nada de abrir mão da defesa intransigente de reivindicações que nos colocam na modernidade, como a defesa dos direitos LGBTs, da descriminalização do aborto e da maconha. Mas precisamos ouvir os anseios dos menos favorecidos para que possamos lhes oferecer novas respostas de acordo com o que a esquerda acredita.

Também é preciso virar a página dos dogmas que ainda nos ligam a experiências fracassadas como a da União Soviética e que fazem alguns esquerdistas se sentirem donos do socialismo ao ponto do esnobismo. Sinto isso na pele: há algumas semanas, fui alvo do ataque de esquerdistas que defendem que não posso me denominar “socialista” simplesmente por rejeitar a luta armada. E os trabalhadores, como podem se sentir próximos de gente que acha que é preciso seguir certas regras, defender certas ideias e ler certas obras para ser de esquerda? Este elitismo causa repulsa, não atração.
Se não nos concentrarmos nas demandas da classe trabalhadora, corremos o risco de virar uma ideologia que se comunica apenas consigo mesma e com uma elite mais politizada. Uma ideologia nanica.


A GREVE DOS BANCÁRIOS

A retranca dos banqueiros tem tudo a ver com o golpe, na realidade, é parte do golpe. Do Viomundo

Juvandia Moreira, 29º dia de greve: Bancos querem impor reajuste abaixo da inflação para quebrar nossa espinha dorsal e servirmos de exemplo
04 de outubro de 2016 às 09h36
  

por Conceição Lemes
Nesta terça-feira (04/10), a greve dos bancários completa 29 dias.
É uma das mais longas da categoria, que tem 520 mil trabalhadores em todo o Brasil.
Eles reivindicam reajuste salarial de 14,78%: 9,31% referentes à inflação acumulada (de 1º de setembro de 2015 a 30 de agosto de 2016) mais 5% de aumento real.
Já aconteceram dez rodadas de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban).
A última foi na quarta-feira, 28 de setembro. A proposta é considerada muito insuficiente para a categoria.  Os 7% de reajuste oferecido representam perda de 2,39%.
O Comando dos Bancários está de plantão, em São Paulo, aguardando uma nova proposta da Fenaban.
“Apesar de ser o setor mais lucrativo, os bancos tentando estão tentando nos impor um reajuste abaixo da inflação.  Justamente na direção de redução do custo do trabalho, que é a proposta do governo Temer”, denuncia em entrevista ao Viomundo Juvandia Moreira,  presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e uma das coordenadoras do Comando.
“Os bancos participaram da articulação do impeachment, hoje integram o governo golpista. O Itaú [Ilan Goldfajn, economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco] está simplesmente na presidência do Banco Central”, acrescenta.
Somente no primeiro semestre de 2016, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú-Unibanco e Santander tiveram lucro líquido de R$ 29,7 bilhões.
Na sexta-feira (30/09), segundo a Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), 13.358 agências (57% do total) e 34 centros administrativos pararam no País.
Especificamente na base do Sindicato dos Bancários de São Paulo (é o maior, com 142 mil trabalhadores), 833 agências e 15 centros administrativos pararam. Estima-se que mais de 39 mil aderiram.
A adesão ao movimento cresceu, apesar do assédio moral, ameaças e repressão por parte dos bancos, adverte a Contraf.   Faixas, adesivos e cartazes avisando à população que o local aderiu à greve foram retirados na marra, com violência, em muitas agências.
Nós conversamos mais com Juvandia Moreira sobre o jogo duro do patronato.
De 2004 a 2015, os bancários conseguiram aumento real acumulado de 20,85%. Segue a íntegra da nossa entrevista
Viomundo – Eu não me lembro de uma greve tão prolongada de vocês. E os bancos seguem irredutíveis. O golpe está interferindo na campanha salarial de 2016?
Juvandia Moreira – Com certeza, esta já é uma das mais longas greves dos bancários. Com certeza, também, a conjuntura está interferindo negativamente em nossa campanha. A essa altura já era para termos fechado um acordo ou estarmos em outro patamar.
O golpe foi dado para implantar um programa de governo, um modelo de país, que visa à redução de direitos, à redução do custo do trabalho.
Os bancos participaram da articulação do impeachment, hoje integram o governo golpista. O Itaú [Ilan Goldfajn, economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco] está simplesmente na presidência do Banco Central.
Não é à toa que eles estão tentando nos impor um reajuste abaixo da inflação. Justamente na direção de redução do custo do trabalho, que é a proposta do governo Temer.
Viomundo – O que os bancários reivindicam?
Juvandia Moreira – Antes, uma observação que muitos desconhecem. Somos uma categoria forte – 520 mil trabalhadores em todo o Brasil –, organizada e uma das poucas que têm convenção coletiva de trabalho válida para o Brasil inteiro. Portanto, o que acontecer conosco provavelmente vai repercutir em outras.
Quanto às reivindicações, a nossa pauta tem dez pontos principais. Um deles é o reajuste salarial de 14,78%: 9,31%, de inflação acumulada (1º de setembro de 2015 a 30 de agosto de 2016) e 5% de aumento real.
Viomundo – O que os bancos propõem?
Juvandia Moreira – A nossa data-base é 1º de setembro. Assim, em 9 de agosto, entregamos à Fenaban a nossa pauta de reivindicações.
Pois bem, só na sexta rodada de negociação — em 30 de agosto, portanto há um dia da data-base, os bancos apresentaram a primeira proposta: 6,5% de reajuste e R$3 mil de abono.
Além de ser muito ruim, ela não avançou nos outros itens prioritários, como a garantia de emprego. Submetida a assembleias por todo o País, a categoria rejeitou.
De 30 de agosto para cá, fizeram mais três propostas. A última foi na quarta-feira passada (28/09). Eles propuseram reajuste 7% para uma inflação de 9,62% mais abono de R$ 3,5 mil, com aumento real de 0,5% para 2017. Nós rejeitamos. Ela é muito insuficiente, considerando que é o setor mais lucrativo no País.
Viomundo – Por que é muito insuficiente?
Juvandia Moreira – Por causa do índice de reajuste, que está muito baixo. Eles não querem pagar nem a inflação passada. Os 7% de reajuste proposto representam perda de 2,39%.
Viomundo – E o abono?
Juvandia Moreira – Aí, a esperteza. Eles querem substituir o reajuste menor pelo abono. Sei que muitos leitores vão retrucar: “é dinheiro no bolso!”
Obviamente que é. Inclusive num primeiro momento, se o bancário juntar o abono com o reajuste de 7%, ele pode até ganhar mais.  Mas a médio e longo prazo, vai ter prejuízos.
Na década de 90, no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), nós tivemos muitos reajustes abaixo da inflação com abono. E isso foi terrível, sobretudo para quem trabalhava em bancos públicos. Durante anos, tivemos reajuste zero, só abono. Provocou perdas salariais enormes.
Por isso, temos falado muito para os representantes da Fenaban na negociação: “não queremos inaugurar uma nova era de reajuste abaixo da inflação”.
Viomundo – A Fenaban retoma a política de reajuste rebaixado da era FHC?

Juvandia Moreira – Exatamente. Se fosse o reajuste de 9,62% mais o abono, tudo bem.  Agora, substituir o reajuste menor pelo abono, não dá. Ele joga o poder de compra dos bancários para baixo.

MENTE COLETIVA E NOÇÃO DE PROGRESSO

Vamos partir de um conceito virtual. O da mente humana existe, é de uso corrente. A partir daí, pode-se postular mentes coletivas, abarcando pensamentos e ações de um conjunto pequeno de indivíduos, tal como o formigueiro é um animal composto de formigas e a sua toca. Pode-se ver aí uma mente social, uma mente de classe social, uma mente regional, nacional, planetária.

Essa mente hoje está mais aberta? Mais fechada? As pessoas têm condições de captar a (uma) realidade objetiva?

A mente individual é sujeita a fechamento voluntário (FVM), por vários mecanismos, como as restrições sobre o que é moralmente aceitável, ou racismo, antipetismo, distanciamento dos pobres e de outros "deficientes".

Ainda estamos chocados com o andamento do golpe, primeiro na pregação da mídia e dos políticos, depois no caradurismo da polícia federal e do judiciário, refletidos ainda em grande parte do público, que apoia e aderiu ao golpe e ao mesmo tempo parece incapaz de perceber o nível de corrupção inédito a que chegou o parlamento brasileiro.  Não houve uma discussão sobre o golpe, não uma discussão verdadeira.

Não basta, aliás, nunca bastou, nas sociedades humanas ter razão e possivelmente nunca bastará. A mente humana lhe dá atenção bem pequena, comparada com seus preconceitos e medos originais ou adquiridos.

Existe a ciência. Acima das paixões, livre de controvérsias? Nunca foi e assim permanece! O fundamento da ciência, que é o empirismo, a verificação, permite o enunciado de “fatos” e de “leis” no mundo material e no mundo do pensamento. O iluminismo postulou a hegemonia da ciência e da razão. Mais de duzentos anos depois de sua aparição, verifica-se que não é assim que funciona.

Na “ciência” econômica, em que é difícil separar teoria de normas de conduta prescritas para seu bom funcionamento (para as classes dominantes) é praticamente impossível permitir que teorias que favorecem poderosos sejam desmentidas nas mentes individuais dos seres “pensantes”, por mais que os fatos as contradigam. É o caso da economia das migalhas que caem da mesa, (trickle down economics, no inglês original). Na realidade, isto é parte da ideologia através da qual os 1 por cento procuram justificar as políticas do estado neoliberal, vigentes no Brasil antes e durante o governo do golpe, que promovem a desigualdade e a concentração da riqueza.

Além de problemas como contradições entre visões diferentes, entre visões e fatos, o domínio da ciência é limitado pelos domínios dos afetos – sistemas de crenças como religião, valores e práticas familiares e de classe, inclusive preconceitos de toda natureza.  O que nos leva a questionar a noção de progresso, o mesmo que figura na bandeira brasileira, logo depois de ordem (ordem para quem mesmo?).

Somos alimentados desde crianças com a expectativa de que as coisas estão destinadas a melhorar ou crescer, ou aumentar. Mais. Afinal, ciência e tecnologia estão permanentemente mudando ou aperfeiçoando instrumentos e condições para consumirmos coisas “desejáveis” e “melhores”. Que até a política pode melhorar, desde que nos livremos dos políticos “corruptos”.

Vale a pena continuar com noções como esta de progresso? Mas será que temos a oportunidade de avaliar o que é progresso de verdade para nós e para nossas famílias e amigos e pessoas com quem gostamos de desfrutar o tempo e dividir o espaço que ocupamos?

Muitas oportunidades existem hoje. Apesar dos espasmos imperialistas, os índices de homicídios têm caído progressivamente na história da humanidade, desde as hordas primitivas, passando pelas tribos de coletores e caçadores, antiguidade, idade média, moderna, contemporânea. Apesar dos golpes políticos e retrocessos sociais, um grande número de pessoas continua a preferir a palavra ao homicídio para resolver conflitos.

Por outro lado, nunca como agora estivemos tão próximos de duas catástrofes terminais para a civilização humana: o aquecimento global e a guerra nuclear, ambos impulsionados pelas formas atuais de dominação econômica, o capitalismo desregulamentado e os complexos industriais militares. Há um império que não aceita o declínio que está sofrendo em sua dominância econômica do planeta, lembra os nazistas que queriam arrasar a Europa ocupada antes de serem derrotados.


Existe gente em atividade capaz de formular e propor caminhos melhores. E há máquinas ultrapoderosas de propaganda e de negação dos fatos que defendem o interesse do crescimento econômico indiscriminado, em favor da minoria dos donos do dinheiro. Será que a mente coletiva da humanidade vai ser capaz de escolher as rotas de emancipação para fora da lógica do poder dos de sempre e da destruição das condições de vida para os demais?

Quem tem consciência, tem que agir, do melhor modo possível. Começando por ajudar a abrir as mentes.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

SERÁ QUE AGORA RUI FALCÃO E CURRIOLA SAEM?

Artigo que saiu no jornal GGN

SEG, 03/10/2016 - 07:11

Os escombros do PT, por Aldo Fornazieri
As eleições municipais reduziram o PT a pouco mais que escombros. Não faltaram advertências, principalmente a partir de 2013, de que o partido se encaminhava para um desastre. As críticas foram colhidas pelos petistas de duas formas: o menosprezo arrogante por parte de quem detinha poder e direção e acusações por boa parte da militância que, também arrogante, classificava as críticas como PIG, moralistas, esquerdistas etc.
O poder fez muito mal ao PT: a estrutura partidária e dirigentes se corromperam, a militância se domesticou e os movimentos sociais que orbitavam em torno do PT começaram a orbitar em torno do Estado, sendo cooptados e perdendo a energia combativa na luta por direitos e justiça. O PT se transformou no partido dos palácios, dos gabinetes, do luxo e da arrogância. Ninguém promove tal movimento sem que desabe sobre ele, mais dia menos dia, o merecido castigo do povo.
O PT alimentou a mesma crença que as elites históricas conservadoras alimentaram desde os tempos coloniais no Brasil: a de que a sociedade pode ser moldada e transformada desde o alto, desde o Estado. Esta prática sempre engendrou dominação e não liberdade e cidadania. Enquanto esta crença permanecer vigente, o Brasil permanecerá eternamente deficiente em seu conteúdo nacional e popular e a sociedade carecerá de vínculos societários republicanos, orientados para o bem comum e para o interesse público. Aqueles que chegam ao poder sempre se tornarão representantes de grupos e interesses particularistas, a se apossar do erário público em detrimento dos interesses de caráter universalizante. Será sempre o velho patrimonialismo vestido com roupas novas.
O PT se deixou abater pelo erro mais comezinho que as esquerdas vêm cometendo desde o século XX: a corrupção. A corrupção vem sendo, ao longo das décadas, a espada nas mãos da direita e da mídia para fazer rolar as cabeças da esquerda. Os eleitores mostram-se intolerantes à corrupção das esquerdas, pois, querem ver nelas uma reserva moral da sociedade, um exemplo da administração correta da coisa pública, um cimento de ética na sociedade. Quando as esquerdas se corrompem, os eleitores se sentem traídos.
Pouco a pouco, o PT foi caminhando para aquela condição mais indesejável da política: ser odiado. Isto já era visível nas eleições de 2014. De lá para cá, a imagem do partido foi se deteriorando, seja porque as denúncias se revelaram medonhas, seja porque os ataques dos seus inimigos foram devastadores sem que houvesse uma linha de resistência e de contraofensiva. Ao mesmo tempo em que se destruía, o partido se deixava destruir. A cada ataque, a direção partidária reagia com notas burocráticas e protocolares, foi perdendo credibilidade e deixou de ostentar virtudes e força moral capazes de mobilizar a militância. Como já se disse, a direção do PT tornou-se um comitê de generais de gabinete sem exército e a militância se tornou um exército sem generais.
“Ser odiado” é a condição absoluta que precisa ser evitada em política, ensina Maquiavel. Como partido antimaquiaveliano que é, o PT, ao passar da praça para os palácios deixou de olhar a realidade com os olhos da praça, deixou de se situar na planície e passou a olhar o povo com o ângulo de mirada dos palácios. Mas não sabia jogar o jogo dos palácios e passou a acreditar em aliados que eram e são gananciosos, simuladores e ambiciosos. Emprestaram prestígio aos petistas enquanto estes lhes eram úteis e os traíram sem cerimônia na consumação do golpe. Golpe que o próprio PT ajudou a construir seja pela sucessão de erros políticos, de incompetências, e seja pela própria falta de apoio à presidente Dilma em momentos delicados em que o governo caminhava para a deriva.
Pela condução desastrosa que o PT vem tendo nos últimos anos, a direção partidária deveria renunciar nos primeiros dias desta semana. Uma comissão provisória deveria ser constituída com a tarefa de convocar e conduzir um Congresso partidário antes do final do ano. Se nenhum aceno for feito neste sentido, a tendência maior é a de que o PT caminhe para uma divisão irreversível. Não é admissível que os condutores do desastre continuem comandar um partido que foi esperança do povo brasileiro e se afogou nos seus próprios erros. Não há, em torno da atual direção, capacidades políticas, morais e intelectuais que sejam capazes de tirar o partido da crise.
Que fazer?
Esta velha pergunta, que precisa ser recolocada, suscita hoje muito mais dúvidas do que certezas às esquerdas. Antes de tudo, as esquerdas precisam se unir em torno do que sobrou dessa devastadora eleição: Freixo no Rio de Janeiro, João Paulo em Recife, Edmilson Rodrigues em Belém, Edvaldo Nogueira em Aracaju etc.
Com muitas divisões, com baixa propensão à unidade, com um ideário desconectado ao mundo contemporâneo, com organizações autoritárias e burocráticas, com uma retórica que não dialoga com a sociedade, com uma enorme crise em suas visões de mundo, as esquerdas vivem uma defensiva mundial, ao mesmo tempo em que cresce o rancor e o ódio neofascistas.
A crise das esquerdas se alinha com a própria crise civilizacional que tende a se agravar em várias dimensões: ambiental, social, econômica, humana. O mundo do futuro próximo, dizem os economistas e analistas mais atentos, será um mundo sem empregos, com populações que viverão cada vez mais. Em contrapartida, a concentração de renda e riqueza é crescente. As democracias são cada vez menos legítimas e cada vez mais incompetentes em fornecer respostas aos problemas das sociedades.
As esquerdas brasileiras pararam no tempo. Discutem os problemas com retóricas e paradigmas do século XX, quiçá, do século XIX. Nos últimos anos houve um abandono das incipientes experiências de governança democrática que vinham sendo desenvolvidas. Nos municípios, nos estados e no governo federal, os governantes, secretários e ministros ditaram as suas “verdades” às sociedades. Ao mesmo tempo em que direitos deixaram de ser garantidos, não se investiu na inovação e na qualidade dos serviços e direitos. Os governos continuaram analógicos em sociedades digitais. Reformas cruciais, seja no plano macro ou no plano micro, sequer foram cogitadas.
A ideia de aglutinar as esquerdas numa frente, que garanta a unidade na pluralidade, ganha força em face das fragilidades e derrotas recentes. A construção dessa frente, se vier a se concretizar, contudo, necessita de um processo amplo de definição de conteúdos programáticos e de métodos de condução dos processos internos. A perspectiva é a de que essa frente aglutine partidos, movimentos políticos e sociais, indivíduos e grupos cívicos, num novo tipo de organização e de relação política, sem as práticas hegemonistas e de controle burocrático, tão comuns às esquerdas.
A derrota eleitoral, somada ao golpe e às perspectivas de retrocessos em direitos, foi avassaladora. Subestimá-la, persistir nos erros e não fazer autocrítica significa contribuir para a consolidação de um projeto conservador que vem se delineando. Neste momento, o desafio das esquerdas é paradoxal: precisa construir sua unidade ao mesmo tempo em que promove um ajuste de contas.
Aldo Fornazieri – Professor de Filosofia Política.


sábado, 1 de outubro de 2016

AMANHÃ VOU DE HADDAD

Acho que ele tem sido um bom prefeito, corajoso em muitas iniciativas. Dê uma olhada no DCM sobre o mesmo.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O GOLPE: UMA AULA DO PROFESSOR EUGÊNIO ARAGÃO

Saiu no Conversa Afiada

Aragão passa a limpo Moro e o MP
Não é isso o que combate a corrupção


"MP e Judiciário terão que ser passados a limpo. Não podemos mais fazer o que a gente fez"

Membro do Ministério Público Federal desde 1987, subprocurador da República e ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff durante dois meses, Eugênio Aragão é hoje um dos mais duros críticos dos procedimentos adotados pela Operação Lava Jato que, em vários casos, ultrapassaram as fronteiras da legalidade, como foi o caso da escuta da presidenta da República autorizada e divulgada para a imprensa pelo juiz Sérgio Moro. Em entrevista ao Sul21, Eugênio Aragão define a Lava Jato como "uma das operações mais tortuosas da história do Ministério Público. "A gente sente claramente que os alvos são escolhidos. Há delações claras em relação a outros atores que não pertencem ao grupo do alvo escolhido e que simplesmente não são nem incomodados. Em relação aos alvos, a operação chega a ser perversa e contra a dignidade da pessoa humana", critica.

Para Eugênio Aragão, o Brasil vive uma onda de fascismo maior talvez que a vivida no período da ditadura militar e o Judiciário e o Ministério Público tem responsabilidade por isso: "O Judiciário tem um problema muito sério: é o poder mais opaco de todos, não tem transparência nenhuma e é muito alienado quanto ao déficit de acesso à Justiça que existe no Brasil. Parece que vive em outro mundo". O ex-ministro acredita que foram cometidos graves erros no recrutamento de atores importantes nas instituições do Judiciário. "A maioria dos ministros do STF têm uma dificuldade muito grande de enfrentar a opinião pública", exemplifica.

Aragão critica o discurso que afirma que tudo está podre, tudo está corrupto, assinalando que esse é, historicamente, o discurso de todo governo fascista. E reafirma suas críticas ao juiz Sérgio Moro, dizendo que ele está ultrapassando os limites do Direito Penal. "É uma volta às Ordenações Filipinas, na medida em que expõe as pessoas como troféus do Estado, fazendo-as circular pelas ruas com baraços e pregão para que todo mundo possa jogar tomates e ovos podres em cima delas. Isso é o que ocorria na Idade Média".

Sul21Como o senhor definiria o momento político e social que o Brasil está vivendo hoje?

Eugênio Aragão: Nós estamos sentados sobre os escombros daquilo que foi nosso sonho de construir um estado democrático de direito inclusivo, socialmente justo e solidário. Temos que pensar com toda a seriedade as causas disso que aconteceu e não nos perdermos apenas na denúncia do golpe, que de fato ocorreu. Na última semana, o presidente Temer confessou com todas as letras que o afastamento da presidenta Dilma não se deu por razões de crime de responsabilidade, mas sim para forçar uma mudança de programa de governo. Essa declaração é de um caradurismo enorme, pois a presidenta Dilma foi eleita em uma campanha da qual ele fez parte. Ele não pode querer derrubar a presidente para impor um novo programa que nem diz respeito aquilo que a maioria dos eleitores aprovou.

Não se trata de uma questão de ter simpatia ou não por Dilma, mas sim de ter consciência e entender a seriedade do que está por vir aí. Parece que a maioria da população brasileira está num estado de torpor e de estupefação em função da rapidez dos acontecimentos, e não está entendendo direito o que aconteceu e está acontecendo. Penso que é muito importante fazermos essa reflexão sobre onde erramos, para permitir que essas pessoas que hoje estão no poder assaltassem a democracia do jeito que assaltaram.

Sul21O senhor já tem algumas hipóteses acerca da natureza desses erros?

Eugênio Aragão: Acredito que há um leque de erros que até são normais. Quem está governando, principalmente quando governa sob forte pressão, está olhando para a sobrevivência diária e, muitas vezes, acaba perdendo a noção do conjunto de uma crise desse tamanho. Acho que, entre outras coisas, houve escolhas erradas de pessoal e uma articulação muito falha com o parlamento. Acredito também que poderíamos ter feito muito mais para atender os movimentos sociais. Houve muita decepção por parte de alguns desses movimentos, como o movimento dos sem teto. Eles assistiram durante as obras da Copa e das Olimpíadas uma verdadeira tragédia de retirada de bairros inteiros de população de baixa renda. Esse processo de gentrificação urbana atingiu a população mais pobre em praticamente todas as capitais. Aqueles que mais deveriam tirar vantagem desses eventos internacionais acabaram sendo os maiores prejudicados. Esses erros acabaram diluindo um pouco a nossa base de apoio.

Sul21Além desses erros nas esferas do Executivo e do Legislativo, não houve também uma mudança expressiva no comportamento do Judiciário que contribuiu para o agravamento do processo da crise?

Eugênio Aragão: O Judiciário tem um problema muito sério: é o poder mais opaco de todos, não tem transparência nenhuma por mais que se gabe de disponibilizar suas decisões na internet. O importante não é publicar a decisão, mas sim o processo pelo qual se chega a ela. E este processo não está disponível na internet. Não aparece o advogado prestigiado em Brasília que pode colocar a mão na maçaneta dos gabinetes dos ministros, entrar e falar com tapinhas nas costas, coisa que advogados, digamos, menos aquinhoados do Rio, São Paulo e outras cidades não podem fazer. O Judiciário é muito alienado quanto ao déficit de acesso à Justiça que existe no Brasil. Parece que vive em outro mundo.

Isso também tem muito a ver com as escolhas pessoais. Acho que foram cometidos graves erros no recrutamento de alguns atores. Nós deixamos que fossem para o Supremo e para o STJ as pessoas que melhor sabiam fazer campanha junto a políticos, aqueles que melhor sabiam chegar perto do círculo de poder central para vender o seu nome. Eu tenho uma ideia sobre isso que já externei para a presidenta Dilma. O candidato ideal a um cargo destes não é aquele que está numa verdadeira maratona para ser indicado. A pessoa que quer muito essa indicação quer muito também por uma questão de vaidade para o seu currículo pessoal. É como se o cargo acabasse sendo uma cerejinha glacê em cima do chantili do seu bolinho. A pessoa que tem esse perfil, quando é submetida a uma pressão muito grande da opinião pública, por ser alguém que naturalmente gosta de ser vista bonita, tem medo de queimar o filme dela. Em função disso, tem uma dificuldade enorme de ser contra-majoritário, de não ceder a esses apelos das ruas e apelos midiáticos.

É uma questão de escolha. O ministro ideal para ser escolhido é aquele que você liga para ele dizendo que pensou no nome dele para ser ministro do Supremo Tribunal Federal, perguntando se aceitaria e ele responde pedindo dois ou três dias para refletir e conversar com a família. Esse é o candidato ideal. Ele não estava batalhando para ser indicado, não queria achar uma cerejinha para o seu currículo, mas sim querendo ver o problema em toda a sua extensão. Ir para um lugar como aquele não é uma festa, não é um congraçamento ou um galardão, mas é ir para uma trincheira de uma batalha política. Uma batalha para manter íntegra essa República.

O meu nome foi cogitado, por duas vezes, para ir para o Supremo. Eu tinha um receio muito grande em aceitar, pois não estava vendendo uma ideia pessoal. Nestas duas ocasiões, eu não estava me vendendo como ministro, mas sim me colocando apenas como uma opção entre várias outras para tentar fazer algo de diferente. Mas eu nunca fiz campanha mesmo, não fui visitar deputados, senadores ou ministros. A única coisa que fiz foi uma conversa na Casa Civil com pessoas que eu conhecia. Coloquei meu nome à disposição, mas nunca considerei uma possível indicação como um destino da minha vida. Eu nunca tinha pensado nesta possibilidade até que o doutor Rodrigo Janot, quando de sua campanha para Procurador Geral da República, veio com essa história para mim. ‘Eugenio, por que é que você não tenta ir para o Supremo Tribunal Federal’, disse-me. Na ocasião, eu pensei em duas coisas. A primeira foi: será que esse cara está tentando se livrar de mim? Conversei com algumas pessoas que me disseram: ou você se coloca ou as pessoas que não têm as suas qualidades vão se colocar. E fui conversando com algumas pessoas que eu conhecia, mas sem fazer campanha.

Sul21Isso foi em que ano?

Eugênio Aragão: Foi quando a vaga foi ocupada pelo Luís Roberto Barroso e, depois, pelo Edson Fachin. Foram as duas vagas para as quais o meu nome foi cogitado pelo governo. Por razões distintas, acabei não indo, mas isso não vem ao caso. Nunca me senti depreciado por isso. Pelo contrário, continuei cooperando com esse projeto político porque acreditava nele. Para mim, não se tratava de uma questão de ir ou não ir para o Supremo ou de um projeto pessoal. Isso não mudou nada na minha relação com o governo. Na época, quando os dois nomes foram indicados eu falei para as pessoas que estavam me apoiando que eram excelentes nomes. Não fiquei com nenhum tipo de mágoa ou ressentimento por conta disso, o que acontece muito com pessoas que achavam natural que fossem escolhidas e isso acaba não acontecendo.

A verdade é que esse sistema cria naturalmente uma dinâmica de grupo no Supremo, com ministros que têm uma dificuldade muito grande de enfrentar a opinião pública. São pessoas que sempre gostaram disso e que construíram um currículo onde o Supremo Tribunal Federal é o ápice. Isso é muito comum. Muita gente vai fazer doutorado para coroar o seu currículo. Doutorado não é coroa de nada, mas sim é uma porta pela qual você entra no mundo da pesquisa acadêmica. O doutorado não tem nenhum significado para efeito de embelezamento do currículo. Até porque, em dois ou três anos, a linda tese que você escreveu provavelmente vai estar superada e ninguém mais vai querer ler. O que é importante é o que você vai fazer com o seu doutorado em termos de pesquisa e ensino. É para isso que ele serve e não para você sentar em cima de sua glória.

Para mim, o mesmo se aplica no caso do Supremo. O importante não é ir para o Supremo, mas sim o que você faz com isso. Você vai ser apenas mais um, acompanhando a manada do povo que está irado no estouro para fora do seu cercado, ou você vai querer realmente fazer diferença e assumir posições que, às vezes, podem até te deixar mal com a opinião pública, mas que você acredita serem profundamente justas dentro da sua consciência. O ministro Marco Aurélio, que nem foi escolhido pela presidenta Dilma, é hoje uma das pessoas mais autênticas dentro do Supremo. Tem o Teori também, que é uma pessoa de grande caráter e de um trabalho sólido em termos de magistratura. Mas o ministro Marco Aurélio realmente quer fazer diferença. Ele pouco se lixa em ser minoria, o que ele quer é fazer aquilo que a consciência dele manda. É um excelente magistrado. Ainda bem que o Supremo tem pessoas como ele.

Sul21O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, em um recente artigo, definiu o que se passou no Brasil, do ponto vista jurídico, como o triunfo de Carl Schmitt (da ideia da primazia do soberano) sobre Hans Kelsen (que defende o controle judicial da Constituição). O senhor concorda com essa leitura?Eugênio Aragão: Com certeza. Eu citei Carl Schmitt várias vezes nos últimos tempos para falar sobre o que está acontecendo no país. Para ele, a soberania de um Estado se consubstancia no poder que esse aparato tem de revogar as suas próprias leis e de criar o Estado de Exceção. É no Estado de Exceção que o poder nu e cru – aquele monopólio da violência pelo Estado – melhor se manifesta. A soberania schmittiana é uma soberania da violência. Já em Kelsen, a ideia de soberania repousa sobre a prevalência da lei. Para Schmitt, vale a revogação da lei enquanto que, para Kelsen, vale a prevalência da lei. Kelsen tem alguns problemas de excessivo formalismo, mas a lei é a representação da vontade popular, da vontade política da nação, construída através de um sistema democrático que escolhe aqueles que são os legisladores. A soberania é a nossa capacidade de escolher aqueles que darão curso à vontade da maioria política da nação, sem deixar de respeitar a posição das minorias. Isso no Brasil desapareceu. Hoje, há um total desrespeito em relação ao que foi acertado na eleição de 2014, vencida pela presidenta Dilma.

Por mais que a diferença tenha sido pouco, Dilma venceu o segundo turno e esse projeto era o da maioria da nação. A imprensa sempre representou a presidenta Dilma de uma forma caricata. Mas quem a conhece, quem trabalhou com ela, sabe que ela é uma pessoa preocupada, carinhosa e solidária. Ela tem uma série de virtudes que a mídia nunca apresentou. O que interessava era apresentar uma pessoa histriônica. A presidenta Dilma é uma pessoa muito determinada e firme. Por vezes, ela expressa a opinião dela com uma firmeza que pode chegar a ser entendida por alguns como uma rudeza. Mas isso é o modo dela. Todos nós temos os nossos modos. Se as manifestações do ministro Gilmar Mendes não forem rudes, o que é rude afinal? E alguém dessa grande imprensa já representou o ministro Gilmar como uma pessoa histriônica e rude?

Escolheram a mulher Dilma Rousseff para ser a histriônica. É uma imagem falsa que as pessoas fazem dela. Ela não é isso, não. É apenas uma pessoa muito firme. E ainda bem que é firme porque diante de tanta chantagem, da qual foi vítima, para fazer coisas erradas, ela nunca cedeu. Desde o início do governo dela em 2010, ela botou para correr todo mundo que ela viu que estava ali querendo se dar bem e não para atender o interesse público. Nós perdemos muito em qualidade de governança. Naquele triste dia de 11 de maio, quando ela saiu e entrou o novo governo, a diferença era gritante. De um lado, a saída da Dilma com as lágrimas de gente de todas as origens, de índios, sem terra, pessoas de classe média. Depois, entrou aquele grupo de urubus, homens brancos e velhos vestidos de preto, assumindo aquele palácio como se fossem donos dele, coisa que eles não eram, pois o afastamento da Dilma era provisório.

Eles não levaram um minuto para começar a destruir todo o legado que pudessem encontrar do PT. E o fizeram de forma perversa e grosseira. Forçaram a porta, entraram e, de dedo em riste, foram dando esporro na população inteira, dizendo que tudo estava errado e que iam mudar tudo para implantar um Estado mínimo. Um Estado mínimo só serve para quem tem dinheiro. Para quem tem plano de saúde particular e os filhos em escolas privadas o Estado mínimo não significa grandes mudanças no estilo de vida, Mas a grande maioria dos brasileiros e das brasileiras precisa do Estado para que os filhos vão à escola, para que possam ter um atendimento de saúde, para que possam minimamente ter um transporte decente, para que possam ter alguma esperança de, algum dia, ter um teto melhor sobre suas cabeças e talvez um emprego mais digno. Essas pessoas precisam de um Estado que faça políticas sociais, sim.

Para esses homens ricos de cabelo branco e ternos pretos que estão lá agora os programas sociais não valem nada, não lhes dizem respeito. Eles têm uma completa falta de sensibilidade em relação a isso. Talvez não avancem o quanto gostariam de avançar, porque sabem que são ilegítimos e tem medo da reação popular. Se dependesse deles revogariam até a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional. Mas eles vão tentar fazer isso progressivamente, como quem toma sopa quente pelas bordas. Não tenha dúvida disso.
Sul21Na sua opinião, o país está vivendo hoje um estado de exceção?

Eugênio Aragão: Não sei se é um estado de exceção. Acho que é muito mais um estado de engodo. Um estado de exceção significa que as leis, por conta de um risco iminente à segurança e ao bem estar de todos, podem ser suspensas temporariamente. Não é disso que se trata. Nós estamos vivendo um estado de engodo que quer se perpetuar. A palavra golpe tem diversas acepções. Ela pode significar a derrubada de um governo pela violência, através de uma ruptura constitucional. Mas a palavra golpe também se aplica aquela pessoa que perdeu dinheiro investindo num terreno que não existe. Esse é o golpe do 171. O que estamos vivendo hoje, antes de mais nada, é o golpe do 171. Houve a tentativa de se mimetizar um impeachment por crime de responsabilidade quando todo mundo sabia que não era essa a causa e se comportou de forma extremamente hipócrita.

Houve a tentativa de dizer que tudo está podre, tudo está corrupto, o que, diga-se de passagem, é o discurso de todo governo fascista. Hitler, quando assumiu o poder na Alemanha, também disse que a República de Weimar era corrupta, podre e acabava com a pureza dos alemães. Mussolini, quando assumiu, também chegou lá prometendo combater a corrupção da monarquia. Em 1964, aqui no Brasil, foi o mesmo discurso. Dizia-se que Juscelino e Jango tinham "assaltado o país". E agora eles vêm com esse discursinho de novo com a agravante de que ele é sustentado por uma casta burocrática altamente remunerada, oriunda dessa mesma classe média masculina que tomou conta do país, que elabora teorias de sua cabeça a respeito de organizações criminosas com núcleo disso e núcleo daquilo. Elaboram constructos mentais para divulgar a ideia de que está tudo dominado.

Esses sujeitos estão deixando se usar. Esse discurso do combate à corrupção serve muito bem para quem quer desconstruir a legitimidade de um governo, mas na hora em que essa legitimidade está desconstruída, tudo o que se quer é fazer sumir qualquer tipo de ação contra a corrupção. Por quê? Porque a corrupção é um crime de controle, ou seja, é um crime que só aparece quando você investiga. Agora, o novo governo vai fazer de tudo para cortar as asas das investigações. No fundo, o Ministério Público, ao aceitar ser instrumento dessa turma, deu um tiro no pé, pois está se enfraquecendo. Isso vai ser mais rápido do que eles pensam. Esse discurso do combate à corrupção é para convencer gente de dois neurônios.

A corrupção existe em todos os países, em alguns mais, em outros menos. O que cria a corrupção não é a ganância das pessoas, como afirma o discurso moralista, mas sim os gargalos disfuncionais dos processos administrativos. Quando é difícil você obter um resultado que você quer na sua relação como administrado com a administração, você tende a querer facilitar esse processo ou a criar algum tipo de atalho por meio da distribuição de benesses para os funcionários. Isso é uma forma de descarregar esse processo administrativo pesado. Há economistas que sustentam que, às vezes, para o desenvolvimento de um país, a corrupção pode ser até benéfica, caso o Estado em questão seja organizado de uma forma tão pesadamente burocrática que seus processos de fiscalização e controle emperram toda a economia.

Para você acabar com a corrupção, é preciso identificar onde estão esses gargalos e tratá-los com transparência, impondo uma política de compliance (agir em sintonia com as regras) clara para a administração. Além disso, é preciso acabar com as brigas corporativas que dificultam a vida do administrado. Essa briga, por exemplo, envolvendo Ministério Público, Polícia Federal, Receita, Defensoria Pública, Ibama e outros órgãos faz com que o Estado acabe dando ao administrado ordens controversas e contraditórias, deixando-o sem saber para onde andar. Esse problema deve ser enfrentado de forma racional, com a cabeça fria, e não fazendo da corrupção um crime hediondo, o pior de todos os crimes porque toma o que é nosso, etc., etc. Esse discurso só serve para você estigmatizar pessoas e arrumar um bode expiatório. Nenhuma sociedade fica bem dentro de um conflito desses em que você qualifica algumas pessoas como impuras e outras como puras.

O Ministério Público está se achando a pureza em pessoa, quando a gente sabe que aqui as coisas não são bem assim. A Corregedoria enfrenta enormes dificuldades. Na época em que fui corregedor só levava bola nas costas com os malfeitos de colegas. Aqui tem tudo, menos santo. Somos pessoas como quaisquer outras, com nossas virtudes e nossos vícios, mas aqui as pessoas se acham acima do bem e do mal, podendo colocar o seu dedo indicador acima das pessoas. Isso não resolve nada, apenas cria tensão social, mal estar, ira e até violência entre as pessoas, inclusive dentro das famílias. Infelizmente é isso que está acontecendo no Brasil. A culpa por isso é desse tipo de atitude.

O fascismo se caracteriza pelo uso de argumentos extremamente simplórios que parecem intuitivos, para pessoas de pouca inteligência. É desse tipo de argumento que o fascismo se utiliza: "todo o judeu é explorador", "todo índio é preguiçoso" e coisas do tipo que vêm acompanhadas por falácias enormes de modo a que pessoas desprovidas de inteligência possam cair nesta farsa. O fascismo mobiliza para a violência, ele mobiliza as pessoas para fora do seu normal. Ele é essencialmente mau e perverso. Nós estamos vivendo uma onda de fascismo que talvez não tenhamos visto nem na ditadura militar.
Sul21O senhor tem sido um crítico de vários procedimentos adotados pelo juiz Sérgio Moro e vários procuradores da Operação Lava Jato, como ocorreu recentemente com a denúncia apresentada pelo procurador Deltan Dallagnol contra o presidente Lula? Como o senhor definiria o atual estágio da Lava Jato?

Eugênio Aragão: A Lava Jato é uma das operações mais tortuosas da história do Ministério Público. A gente sente claramente que os alvos são escolhidos. Há delações claras em relação a outros atores que não pertencem ao grupo do alvo escolhido e que simplesmente não são nem incomodados. Em relação aos alvos, a operação chega a ser perversa e contra a dignidade da pessoa humana. Utilizar-se da condução coercitiva quando não há resistência é de uma violência inominável. Não adianta usar esse argumento cretino de que isso é feito para evitar prévia combinação de depoimentos entre os intimados. Se eu sou intimado na fase pré-processual, posso até calar a boca e voltar para casa. Se eu quiser, em casa, combino com o resto e volto para a polícia. A condução coercitiva não impede combinação de depoimento. Isso é uma lenda urbana que o juiz Sérgio Moro criou. Mas isso não consegue esconder que ele está ultrapassando os limites do Código do Processo Penal. Neste código, a condução coercitiva só é prevista para aquele que resiste em comparecer depois que foi intimado.

Pior ainda são as conduções coercitivas feitas com a presença da imprensa que é convocada para o ato, expondo as pessoas. É uma volta às Ordenações Filipinas, na medida em que expõe as pessoas como troféus do Estado, fazendo-as circular pelas ruas com baraços e pregão para que todo mundo possa jogar tomates e ovos podres em cima delas. Isso é o que ocorria na Idade Média. Não fazemos mais isso. O Estado tem que ser tímido e recolhido quando ele usa o Direito Penal porque ele não sabe se está realmente certo de que está fazendo Justiça ou não.

Sul21Dentro do Ministério Público, além da sua voz que tem sido bastante enfática nesta crítica, há uma resistência maior em relação a esses procedimentos?

Eugênio Aragão: Há outras pessoas que pensam como eu. Pelo fato de eu ter sido ministro da Justiça durante os dois últimos meses do governo Dilma e de antes de ter sido vice procurador geral eleitoral, minha voz acaba soando mais forte. Mas a grande maioria do Ministério Público hoje acha que a Lava Jato é a última Coca Cola do deserto. Na última semana, o Conselho Nacional do Ministério Público, que é o órgão de controle da nossa atividade, premiou a Lava Jato. E se eu me queixar da Lava Jato para um órgão que previamente premiou essa operação, como é que fica? Como é que um órgão de controle pode premiar uma operação que está sob severa crítica pública? Qual a isenção que esse órgão terá na hora que precisar avaliar representações contra a Lava Jato, se ela já foi premiada? As pessoas estão perdendo o senso de limite.

Sul21O senhor referiu em vários momentos o papel da mídia neste processo envolvendo a derrubada da presidenta Dilma e a Operação Lava Jato. Como definiria esse papel?

Eugênio Aragão: A grande mídia comercial brasileira depende muito das verbas publicitárias dos governos. Essa mídia comercial está cartelizada politicamente. Agora estão com o tom de levantar a bola para o governo Temer fazer o gol e de seguir satanizando o PT e o que significaram os governos Lula e a Dilma para o Brasil. A nossa sorte hoje é que muitas pessoas estão deixando de ler esses jornais. Na minha casa, não entra nem Folha de São Paulo, nem Estadão, Globo ou Correio Braziliense. Eu me informo através da internet que traz uma enorme variedade de acessos à informação. Além dos chamados "blogs sujos" eu posso ler a imprensa estrangeira. Tenho a opção de ler artigos sérios. Para quem tem algum tipo de discernimento, a opinião de jornais como Folha, Estadão e Globo não tem o peso que tinha antigamente. Tanto é assim que esses jornais estão todos atravessando uma crise financeira violenta. Eles não servem mais nem para se informar sobre coisas básicas. Se eu quero saber se uma determinada loja abre no fim de semana, eu busco essa informação pela internet.

Sul21Ainda sobre a Lava Jato, há quem relacione essa operação hoje a interesses de empresas e mesmo governos de outros países em riquezas como a do pré-sal. Na sua avaliação, há uma espécie de dimensão geopolítica nesta operação?

Eugênio Aragão: Não sei. Eu acredito que o Ministério Público pode estar sendo usado, mas o Ministério Público é tão endógeno na sua visão, tão perdido em cima do seu próprio umbigo que não sei nem se tem inteligência para isso. Eles podem estar sendo usados, sabendo ou não sabendo. Não existe gente preparada em Curitiba com essa estratégia toda para bolar uma coisa dessas.

Sul21E quanto ao juiz Sérgio Moro?

Eugênio Aragão: Também não acredito que ele tenha capacidade para isso. O juiz Sérgio Moro é uma pessoa extremamente vaidosa que encontrou um nicho para se exibir à sociedade brasileira. Isso faz parte de um projeto pessoal. Ele gosta de ter essa cara de mau, de um sujeito inabalável nas suas convicções, um verdadeiro inquisidor mor. Ele adora fazer esse papel. Mas esse é um problema que ele tem que resolver com o seu psicólogo.

Sul21Diante desta conjuntura, qual cenário de futuro é possível prever?

Eugênio Aragão: Eu acredito que, depois que essa crise amenizar, o Ministério Público e o Judiciário terão que ser passados a limpo. Não podemos mais fazer o que a gente fez. Isso colocou o país de cabeça para baixo. Quase um milhão de empregos já foram perdidos nesta crise. E os desempregados não são os procuradores da República nem os juízes federais. Você faz uma operação desse porte, destruindo a economia e está pouco se lixando com o que acontece porque o seu está garantido no final do mês. Só que se a economia quebra, o Estado também quebra e aí o Estado não vai mais pagar a eles o que eles acham que valem. Isso precisa ser repensado urgentemente. O corporativismo mata a governabilidade no Brasil.

Sul21: Mas será possível que o Ministério Público e o Judiciário se repensem a si mesmos?

Eugênio Aragão: Não sei, não sei, mas se tiver uma Constituinte, a gente repensa, não é?