segunda-feira, 27 de maio de 2024

A general gringa mandou bala

 Durante exercícios militares conjuntos no Brasil, general Laura Richardson, do Comando Sul, mira relações Brasil-China

Recomendamos ler a “ordem do dia” da General Laura Richardson.

Está disponível aqui: “General americana mira China e diz que Brasil e EUA têm de se unir”

Primeiro, um comentário: americanos somos todos nós que vivemos no continente.

A general é estadounidense.


Chamar de “americana” é uma decorrência da Doutrina Monroe, que dizia “a América para os americanos”, mas queria dizer “a América para os estadounidenses”.

A general Laura Richardson, comandante do Comando Sul, com o major Troy E. Black na sede do Comando Sul. 22/04/24.
(Foto: U.S. Air Force / Brycen Guerrero)

A general está no Brasil, para “exercícios militares conjuntos”, denominados Southern Seas 2024.

Quem introduziu o tema China foi o próprio Valor Econômico, que perguntou “qual é a mensagem geopolítica que esse exercício envia, especialmente à China, cuja presença crescente na América Latina tem sido motivo de preocupação de integrantes do governo dos EUA, de parlamentares e também uma preocupação sua?”

A resposta de Laura Richardson é um primor: “Número um, são 200 anos [de relações entre EUA e Brasil]. E se você quiser comparar com a China, são 50 anos. O Brasil e os Estados Unidos compartilham 200 anos de relações bilaterais, isso é muito significativo”. 


Realmente, é muito significativo, especialmente se lembramos do papel que os Estados Unidos tiveram no golpe militar de 1964 e na sustentação da ditadura militar. Ou do apoio dado pelos EUA ao golpe de 2016, à Operação Lava Jato e à prisão de Lula.

Aliás, citar um porta-aviões neste contexto é um ato falho genial, que remete à Operação Brother Sam. Mais detalhes sobre isso, aqui: “1964: os Estados Unidos e o golpismo”.

O Valor pergunta se “esses exercícios militares na região colocam os EUA em uma situação distinta da situação da China na região, ainda que a China seja o primeiro parceiro comercial de muitos dos países?”

A pergunta contém uma condenação explícita: enquanto a China faz negócios, vocês promovem guerras. Mas a general não veste a carapuça e responde o seguinte: “Como democracias de mentalidade semelhante, procuramos buscar uma situação em que todos saiam ganhando, em que ambos os países, ambas as nações, se beneficiem. E não uma relação de ganha-perde, não é assim que operamos. Como democracias, respeitamos uns aos outros. Respeitamos a soberania uns dos outros. Respeitamos o povo um do outro, as democracias, o que não acontece com um país comunista, porque eles não respeitam os direitos de seu próprio povo”.


Sobre a parte do respeito à soberania, a general é negacionista. A história dos Estados Unidos é a história do desrespeito à soberania dos demais povos, a começar pelos povos da América Latina e Caribe.

Quanto ao respeito aos direitos de seu próprio povo, que tal começar por um direito fundamental? A vida. E tomar como parâmetro a pandemia de Covid-19. Pergunto: um trabalhador comum tinha mais chance de sobreviver onde? Nos EUA ou na China? Os números são acachapantes a este respeito.

Mas a principal mensagem política da general é o lugar do Brasil no mundo, que segundo ela é o de “alimentar e abastecer o mundo”, com “soja, o milho, o açúcar, o petróleo bruto pesado, o petróleo bruto leve, as terras raras, o lítio, a Amazônia”. Ou seja: nosso lugar no mundo é e deve continuar sendo primário-exportador.

Neste quesito, a Belt and Road Initiative (Iniciativa Cinturão e Rota) é uma possibilidade alternativa. Os EUA não querem que o Brasil adira. Mas o argumento da general é outro ato falho: ela fala das “letras miúdas” e de “como a soberania é retirada ao longo do tempo se os empréstimos não forem pagos”, ou seja, ela fala exatamente do que ocorreu na relação entre EUA e Brasil na crise da dívida externa. Situação que, gostemos ou não da China, não tem nada que ver com a Iniciativa Cinturão e Rota. Como também é hilária a tentativa de vincular a ampliação da presença da China com a ampliação da presença do crime organizado.

O mais divertido, entretanto, é ver como a general define soft power: “No meu cargo no Comando Sul dos EUA, procuro fazer parte do soft power que podemos exercer. Não se trata apenas de poder militar duro”. Pois é: não se trata “apenas” de poder militar duro, mas de “unir os instrumentos de poder nacional: diplomático, de informação, militar e econômico”. 

Seja como for, é ótimo que a general tenha se transformado em propagandista da “Parceria Americana para a Prosperidade Econômica”. Primeiro, porque nos ajuda a explicar qual é o lado B desta “parceria”. Segundo, porque a concorrência ajuda na negociação. 

Uma última nota: a general foi absurdamente injusta com o Irã. Não é verdade que “o Irã é o maior patrocinador estatal do terrorismo”. Os fatos demonstram que ninguém supera os Estados Unidos e Israel neste quesito.

E por falar em terrorismo, quando é que os EUA vão suspender o bloqueio e tirar Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo (pois, até agora, tiraram de outra lista, mas mantiveram Cuba na lista que maiores danos causa)?

 

sexta-feira, 24 de maio de 2024

CRISE DA FLORESTA AMAZÔNICA

 Do Counterpunch

Colapso da floresta amazônica?


Imagem de Lingchor.

“Uma questão importante é se um colapso em larga escala do sistema florestal amazônico poderia realmente acontecer no século XXI.” (Fonte: Bernardo M. Flores, et al, Transições Críticas no Sistema Florestal Amazônico, Natureza, fevereiro. 14 de abril de 2024).

Pode parecer absurdo considerar o colapso da floresta amazônica (65 milhões de anos) o que parece impossível, muito longe, não merecendo um artigo como este, mas, desculpe dizer. já está acontecendo nos estágios iniciais, como explicado aqui em algum detalhe, com fatos.

De fato, estudos revisados por pares, de ecossistemas como (1) Groenlândia (2) a Grande Barreira de Coral (3) vastas regiões de permafrost das latitudes superiores do Hemisfério Norte definem riscos combinados com (4) a floresta amazônica pode resultar em um colapso sincronizado 1,2,3,4 em algum momento no futuro, quem sabe, mas está indo nessa direção? Todos os quatro estão visivelmente desmoronando; sem dúvida, 100% factual. Provavelmente seria geologicamente catastroficamente rápido. Cada um desses ecossistemas cambiantes é impactado negativamente pelo aquecimento global gerado pelo homem através de emissões de combustíveis fósseis, CO2. E está acontecendo rápido.

O potencial colapso da icônica Amazônia, um dos maiores e mais conhecidos ecossistemas do planeta, surge após anos de fracasso dos líderes mundiais em ouvir os avisos dos cientistas para fazer algo sobre o CO2 de combustíveis fósseis. Como resultado, ao ignorar a ciência, a sociedade é seu pior inimigo, em negação, negação inacessível.

Uma manchete recente da Earth.org reflete os fatos preocupantes encontrados no estudo de Flores sobre a Amazônia e apoia a estranha proposição de um potencial colapso sincronizado dos ecossistemas: “Até 47% da Floresta Amazônica em Risco de Colapso em Meados do Século devido ao “Estresse sem Precedentes” do Aquecimento e Desmatamento Global”, Earth.org, 15 de fevereiro de 2024.

O estudo de Flores é o primeiro grande estudo a se concentrar em uma série de forçamentos que afetam a floresta tropical mais famosa do mundo. Pesquisas anteriores avaliaram apenas aspectos de forçantes individuais sem olhar para o quadro todo. “Este estudo acrescenta tudo para mostrar como esse ponto de inflexão é mais próximo do que outros estudos estimados”, disse Carlos Nobre, um dos autores do estudo. (Fonte: Manuela Andreoni, Um Colapso da Amazônia pode estar chegando “mais rápido do que pensávamos”, The New York Times, 14 de fevereiro de 2024).

O estudo de Flores combinado com a pesquisa da NASA de secas que ocorrem com tanta frequência que a Amazônia não tem mais tempo suficiente para se recuperear, retrata um ecossistema tênue que poderia virar o sistema climático global de cabeça para baixo, colocando a civilização em um estado de estresse e confusão. Porções do sudeste da Amazônia já experimentaram desmatamento em larga escala que passou do ponto de recuperação.

O colapso de parte ou de todas as florestas tropicais amazônicas liberaria o equivalente a vários anos de emissões globais, possivelmente até 20 anos de valor, na atmosfera, à atmosfera, que armazena grandes quantidades de carbono, são substituídas por ecossistemas degradados. E, como essas mesmas árvores bombeiam enormes quantidades de água para a atmosfera, sua perda também pode perturbar os padrões globais de chuvas e temperaturas de maneiras que não são bem compreendidas.

O estudo das Flores descreve parâmetros para que a floresta tropical sobreviva: (1) o aquecimento global não excede 1,5oC (2) desmatamento mantido abaixo de 10% da cobertura original das árvores (3) a estação seca anual não pode exceder cinco meses para que a floresta permaneça intacta. “Se você ultrapassar esses limiares, então a floresta pode, em princípio, entrar em colapso ou fazer a transição para diferentes ecossistemas”, disse.

Nota de rodapé ao parágrafo anterior: De acordo com a World Wildlife Foundation, 17% da floresta já está perdida com outros 17% degradados. O Conselho de Relações Exteriores afirma que 20% foram destruídos ao longo de 50 anos. De acordo com um estudo recente na Nature d / d. 1 de março de 2024: “Os efeitos combinados da mudança do uso da terra e do aquecimento global resultaram em uma redução anual média de chuvas de 44% e um aumento da duração da estação seca de 69%, quando a média na bacia amazônica ... Savanização e mudança climática, através do aumento do comprimento da estação seca e da frequência da seca, já teriam empurrado a Amazônia para perto de um limiar crítico de floresta tropical. Aumentos na duração da estação seca foram relatados em vários estudos recentes.

Os três parâmetros acima mencionados para a sobrevivência da floresta são alcançáveis?

O estudo de Flores diz que os governos devem deter as emissões de carbono e o desmatamento e, de alguma forma, restaurar 5% da floresta tropical degradada para manter o ecossistema vivo e funcionando como uma floresta tropical. No entanto, os parâmetros estão ameaçados: “A estação seca significa que a temperatura é agora mais de 2 C mais alta do que há 40 anos em grandes partes da Amazônia central e sudeste. Se as tendências continuarem, essas áreas podem potencialmente aquecer em mais de 4 C até 2050. (Flores)

“Manter a floresta amazônica resiliente depende, em primeiro lugar, da capacidade da humanidade de parar as emissões de gases de efeito estufa, mitigando os impactos do aquecimento global nas condições climáticas regionais”. (Flores) De fato, esse é o problema de todos os problemas, já que os produtores de combustíveis fósseis pretendem aumentar a produção em relação ao futuro previsível até 2050. A saúde da floresta amazônica não é uma consideração nos planos de negócios das empresas de petróleo e gás.

No entanto, “a porção noroeste do bioma (nos estados do Amazonas e Roraima) e no interior do estado do Pará, bem como outras partes do Brasil, como a região semiárida do estado da Bahia, no nordeste, e Mato Grosso do Sul, no bioma do cerrado, já viram aumentos extremos de temperatura de mais de 3 C (5,4 F) desde a década de 1960.” (Fonte: Detailed NASA Analysis Finds Earth and Amazon in Deep Climate Trouble, Mongabay, Dec. 21, 2023 anos).

Essa declaração de “distúrbio climático profundo” feita pela NASA reflete aumentos de temperatura insanamente rápidos, e leituras de águas subterrâneas por satélite GRACE em zonas vermelhas perigosas com crises vermelhas severas com crises secas tão frequentes que a floresta tropical não volta mais, nunca vista antes na base de dados da NASA. A floresta amazônica é realmente uma vítima do aquecimento global excessivo. Todas as setas apontam para baixo.

Além disso, além de muito CO2: “O monitoramento de satélite em tempo real mostra que, até agora, em 2024, mais de 10.000 incêndios florestais se espalharam por 11.000 quilômetros quadrados da Amazônia, em vários países, nunca fizeram com que tantos incêndios queimem tanto da floresta no início do ano. (Fonte: Fires Imperil the Future of the Amazon Rainforest, Mother Jones, 18 de março de 2024) Esta informação é baseada no próprio Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, à medida que os incêndios florestais excessivos enfraquecem as florestas e emitem CO2 em concorrência com as emíssões humanas de CO2.

Roraima, que é o estado mais setentrional do Brasil dentro da floresta tropical e conhecido por seu “clima úmido” posicionado acima do equador naturalmente suprime os incêndios florestais por causa de sua “umidade”. No entanto, no final de fevereiro, de acordo com satélites da NASA, intensa intensa atividade de fogo 5 vezes a média para fevereiro e 50% acima do número recorde anterior de incêndios. De acordo com o Copernicus Atmosphere Monitoring Service: “A intensidade e o tamanho de muitos dos incêndios também são incomuns”. É seco, queima.

Igualmente preocupante para Roraima, durante um ano normal os incêndios cobrem apenas alguns quilômetros quadrados, mas este ano os incêndios que começaram em regiões fragmentadas da floresta tropical de pastagens e floresta recentemente desmatada se espalham pelas áreas circundantes, queimando centenas de quilômetros quadrados, não apenas um “pouco”. (Fonte; Shane Coffield, pós-doutorado no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA)

Um novo estudo da NASA mostra que, nos últimos 20 anos, a atmosfera acima da floresta amazônica tem secado, aumentando a demanda por água e deixando os ecossistemas vulneráveis a incêndios e secas. Também mostra que o aumento da secura é principalmente o resultado de atividades humanas. (Hunan Activities Are Drying Out the Amazon: NASA Study, Vital Signs of the Planet, NASA.)

De fato, apesar dos esforços globais para proteger as terras florestais, o desmatamento ainda é desenfreado, com cerca de 15% da Amazônia já desmatado, 17% degradado por atividades humanas como extração de madeira, incêndios e extração sob a cobertura, e outros 38% em risco devido a secas prolongadas. Cerca de um terço do desmatamento tropical global ocorre na floresta amazônica do Brasil, totalizando 1,5 milhão de hectares por ano. (Earth.org) 

Com base na aritmética simples do parágrafo anterior, 70% da floresta tropical já é (a) desmatado (b) degradado por atividades humanas (c) com risco adicional devido a secas prolongadas. Não é um bom cartão de pontuação. Na verdade, horrível.

Existem soluções, que tem sido proclamadas pelos cientistas do clima por décadas, param as emissões de combustíveis fósseis, param o CO2, que é 76% dos gases de efeito estufa. Correndo o risco de serem excessivamente didáticos, os líderes mundiais precisam considerar ramificações ao contornar os preceitos originais do acordo climático de Paris 2015 para tomar medidas ousadas para começar a deter as emissões de CO2 mais a sério até 2030 para manter o aquecimento global sob controle a 1,5oC pré-industrial, especialmente porque os principais ecossistemas do mundo estão se aproximando rapidamente da borda do penhasco com as temperaturas globais batendo na porta de 1,5oC (assumindo os cálculos de década do IPCC por 1,5C).

Deveriam os líderes mundiais, mais de 100 normalmente participarem de conferências climáticas da ONU, “ir até os confins da terra” para exigir a aderindo aos acordos climáticos de Paris de 2015, em vez de participar da conferência apenas para fotos com Bono?

Resposta: Com certeza, sim!

Robert Hunziker vive em Los Angeles e pode ser contatado em rlhunziker.com.

 

quinta-feira, 23 de maio de 2024

EPA, OS PALESTINOS SÃO GENTE! COMO TODOS OS OUTRO POVOS COLONIZADOS!

É importante pegar os links, que ilustram bem a escrita da autora.

Queridos amigos brancos: Vocês conseguem sentir o odor das rosas amarelas de Dier al-Balah?

Priti Gulati Cox | Author | Common Dreams https://www.commondreams.org/media-library/eyJhbGciOiJIUzI1NiIsInR5cCI6IkpXVCJ9.eyJpbWFnZSI6Imh0dHBzOi8vYXNzZXRzLnJibC5tcy8zMTk4MjYyNy9vcmlnaW4uanBnIiwiZXhwaXJlc19hdCI6MTY5NTgzMTkxOX0.4XrsNNQ4fpgeCcml0H2vuIDhnPlq3pVICwH8LI5viD8/image.jpg?width=210


Imagem: Priti Gulati Cox.

Uma das primeiras coisas que ouvi das pessoas quando imigrei para os Estados Unidos do Sul Global no início de 2000 foi: “Oh, você fala nossa língua tão bem”. Ao que eu responderia educadamente que era uma das coisas que os britânicos deixaram para trás, mas pensaria comigo mesmo tão bem, na verdade, aprendi com os mesmos imperialistas com quem você o fez.

Então aconteceu o 11 de Setembro. Esse dia, para muitos neste país, foi o início da história, assim como o dia 7 de outubro é tratado hoje. É como se os dois eventos acontecessem em vácuos a-históricos.

Para uma nativa de uma India colonizada cuja história do país não pode ser separada das façanhas do império, pode parecer míopia luxuosa para as pessoas do Norte Global, especialmente aqui nos EUA, absorver 7 de outubro naquele vácuo, separado de seu contexto histórico.

Não houve nenhum evento na história da India que definiu a luta do país pela libertação. Foram os efeitos cumulativos do colonialismo, semelhantes ao que está acontecendo na Palestina histórica hoje. E talvez essa seja a diferença entre quantas mentes colonizadoras e países tendem a abordar os eventos globais atuais versus muitas mentes colonizadas dos países. Os primeiros evitavam se aproximar dos acontecimentos de hoje em seu contexto histórico, enquanto os segundos não podem deixar de fazer o oposto.

Em 1947

Eu diria que 1947 foi o ano que mudou o curso da história para a Palestina, para a India e os EUA.

Primeiro, entre 1947 e 1949, quando o Estado de Israel nasceu, as forças sionistas expulsaram cerca de 800 mil palestinos indígenas de suas casas e ocuparam suas terras e seus corpos. Então, pelos próximos 75 anos, o estado de apartheid de Israel usou táticas de punição coletiva nos territórios ocupados, o que incluiu bloquear a Faixa de Gaza por terra, ar e mar desde 2007, criando assim as condições que levaram a 7 de outubro.

Em 1947, a índia conquistou sua independência dos britânicos depois de suportar 267 anos de domínio colonial. Entre 1880 e 1920, durante o auge do Raj, as políticas coloniais britânicas mataram, no mínimo, 100 milhões de indianos. Esse foi o preço que a India teve que pagar para se libertar do colonialismo. Além disso, os efeitos das políticas de divisão e dominação do colonizador colocaram os hindus contra os muçulmanos e dividiram o país ao longo de linhas comunais. Hoje, essa divisão está sendo usada pela maioria hindu para transformar a índia, por design, em um Rashtra hindu (uma terra para hindus com muçulmanos e cristãos como cidadãos de segunda classe), assim como Israel está tentando fazer na Palestina por limpeza etnica os povos indígenas da Palestina histórica com o objetivo de criar o Grande Israel (uma terra apenas para sionistas). Enquanto isso, em sua própria colônia colonizadora da Caxemira, o estado indiano, por projeto, está “buscando reescrever a história Afirmam que uma nova era de paz começou na região, enquanto trabalham para apagar quaisquer vestígios ou memórias de resistência”, disse Middle East Eye.

Em terceiro lugar, e também em 1947, os EUA fizeram o movimento inicial que deu início à nossa Guerra Fria com a União Soviética, ao apoiar um regime monarquista-fascista que assumiu o controle do governo grego após a Segunda Guerra Mundial. Isso envolveu uma campanha de contra-insurgência selvagem destinada a destruir o movimento nacionalista de esquerda liderado por trabalhadores e camponeses que lideraram a luta da Grécia contra os nazistas. A guerra matou 160 mil gregos e fez 800 mil refugiados. Em Triângulo Fatal: Os Estados Unidos, Israel e os Palestinos, Noam Chomsky observou, com algum eufemismo, “uma grande motivação para esta campanha de contra-insurgência foi a preocupação com o petróleo do Oriente Médio”. O banho de sangue na Grécia deveria contrariar uma ameaça soviética imaginária para o Oriente Médio. Mas outra motivação dos EUA para apoiar a repressão no Oriente Médio – rotulada por Chomsky “a ameaça indígena” – era o nacionalismo árabe. E assim aconteceu que, na década de 1950, Washington passou a adotar a posição de que “um poderoso Israel é um ‘ativo estratégico’ para os Estados Unidos”. E o resto, infelizmente, é história.

2016

Eu também argumentaria que, para nossos amigos brancos aqui nesta Turtle Island colonizada, tudo começou em 8 de novembro de 2016, quando metade das pessoas do país choraram como nunca antes. Se todas essas lágrimas pudessem ter sido coletadas em uma nuvem – não, não esse tipo de nuvem, a coisa real – teria sido um momento antes de uma chuva pesada. Piadas (mas não metáforas sem sentido) à parte, quando Donald Trump foi eleito como o 45o presidente dos Estados Unidos, os americanos tiveram um bom gosto do remédio que nosso governo vem distribuindo em todo o mundo há mais de um século. Esse foi o dia em que as galinhas finalmente voltaram para casa depois de fazer do sul global seu campo de extermínio, campo de deslocamento e campo de mudança de regime. Seus alvos estavam agora mais perto de casa, e os povos indígenas, negros, imigrantes, muçulmanos, mulheres, crianças nas escolas, pessoas LGBTQ ... tudo se tornou alvo nos novos terrenos de poleiro.

E a liberdade para a America MAGA nunca pareceu mais doce. Armas, caminhonetes superdimensionadas “rolamento de carvão”, uma maioria da Suprema Corte que odeia mulheres, emendas anti-aborto, vigilantismo visando minorias, gerrymandering selvagem... yeeeeeeeeehaw! A vida foi boa novamente nos EEUU.

Então Biden se torna presidente e a metade da América que chorou em 2016 tem um suspiro de alívio. Até 7 de outubro, é isso.

Família e vizinhos e comunidade e país vêm em primeiro lugar, certo? - Está bem. Mas o que acontece quando esse país é o mais poderoso do mundo, passando todo o seu tempo desde 1947, mantendo a hegemonia mundial, com consequências catastróficas para o povo do Sul Global? Então nossas comunidades ocupam não apenas a terra dentro das fronteiras dos EUA; elas ocupam o Afeganistão, o Iraque, o Iêmen, a Síria e todos os outros países que sofreram sob o nosso imperialismo. Talvez acima de tudo, a Palestina.

Em especial a Palestina. Porque quando se trata do genocídio liderado por Biden, a tampa da placa de Petri da democracia ao estilo dos EUA e as prioridades de muitos americanos – incluindo agentes do Partido Democrata e outros apologistas liberais para o genocídio – foram revelados para todos verem. Ao mesmo tempo, todos podem ver o genocídio em Gaza documentado a cada segundo do dia por jornalistas e nas redes sociais.

O presente

Agora, cerca de seis meses antes do dia da eleição, o segmento anti-MAGA da sociedade americana se afasta ainda mais desse contexto histórico primordial quando eles vêm eventos de mudança de mundo como o 7 de outubro através de olhos partidários. Por favor, não me entenda errado. Eu sou tão anti-MAGA e assustada como qualquer outra pessoa com um cérebro pensante e um coração gentil. Mas estou mais assustada com o vácuo que sugou a imaginação liberal do Bidenistão de hoje do que sobre um futuro Trumpistão – simplesmente porque o cenário posterior não seria possível se não fosse pelas falhas do primeiro.

O que tememos que Trump possa fazer, Biden já está fazendo. É imperativo que que nós prestemos muita atenção não ao homem ou ao partido, mas às suas políticas e às suas palavras perenes.

São as políticas perenes do governo dos EUA como um todo que finalmente nos derrubarão, não este ou aquele presidente. Se insistirmos em ver o que está à nossa frente (este vídeo, música comemorativa e tudo, foi carregado por um soldado israelense) como uma paisagem de monocultura, ou seja, um temido Trumpistão, então temos muito o que se está fazendo. E estamos muito além do tempo para tais luxos políticos, assim como estamos muito além do tempo para os luxos climáticos. Nossos amigos liberais precisam aplicar a mesma medida de justiça e urgência às consequências das políticas imperiais dos EUA que eles fazem às políticas de justiça climática, por exemplo. Não é um ou outro. São os dois.

Claro, você tem medo de uma presidência de Trump. Eu também . Mas, pelo amor de Deus, vamos limitar as consequências dessa derrota para as fronteiras dos EUA. Se não tivermos imaginação para olhar para os países que o império americano afetou ao longo dos anos como parte de nossa própria comunidade, então não temos o direito de falar por eles e dizer que este ou aquele presidente vai piorar as coisas para eles. Eles sabem melhor, e nós também deveríamos.

Na verdade, se você olhar ao redor, algumas das mesmas pessoas que os liberais estão querendo poupar um segundo Trumpista são tão anti-Biden e anti-genocídio como poderiam ser mulheres muçulmanas que estão sendo assediadas nas ruas deste país, professores, estudantes, povos indígenas, ativistas da justiça climática, pessoas LGBTQ. Não só eles estão do lado certo da história, eles estão fazendo história. - Agora mesmo.

Imagem: Priti Gulati Cox.

Sonhos

É imperativo para nós não levarmos essa história e nossas obrigações de forma leve. Ouça a mensagem transmitida a nós na América pelo residente de Gaza Abubaker Abed em 27 de abril em uma entrevista com The Electronic Intifada: “Esta é a nossa rosa amarela. Na verdade, é a melhor coisa que temos no momento. Porque vemos a esperança através dela. Apesar da destruição, apesar da circunstância verdadeiramente insuportável que estamos vivendo no momento, ainda buscamos esperança [e] vemos esperança em você... Eu, Abubaker, estou enviando uma mensagem de amor, uma mensagem de esperança para todos de vocês da Central de Gaza, em Dier al-Balah. ”

Podemos começar usando nossa imaginação para cheirar as rosas amarelas de Abubaker Abed que ele cria tão amorosamente, a mais de 5500 milhas de distância de nós em Dier al-Balah, onde exatamente três meses antes da entrevista de Abubaker, em 27 de janeiro, Hoor Nusseir, de 18 meses, perdeu seus pais, seus irmãos e suas pequenas mãos em um bombardeio israelense. Se nossos dólares de impostos e apoio do governo continuarem sendo usados para mutilá-la e desumanizar e humilhar milhares de outras crianças, matar detidos libertados como Farouk Al Khatib, que morreu devido a negligência médica durante sua detenção, deliberadamente alvejam escolas e centros de saúde, prendem e torturam crianças, privar os palestinos, desumanizam e humilham e arrasam suas terras até que venha o reino, então somos responsáveis pelas ações de nossos governos passados, presentes e futuros. Nas palavras de Abubaker, “a principal diferença entre nós e o mundo é que os palestinos estão sonhando em viver, enquanto todo o mundo está vivendo para sonhar”.

Recebendo as palavras de Abubaker de coração, todos nós podemos sentir imediatamente suas rosas amarelas. Pelo menos essa é a minha esperança.

Priti Gulati Cox (PritiGCox) é uma artista e escritora. Seu trabalho apareceu em AlterNet, Common Dreams, Countercurrents, CounterPunch, Jacobin, Salon, Truthout, The Nation e muito mais. Para ver sua arte, visite o site ocupaplanet.com. Stan Cox (CoxStan) é o autor de The Green New Deal and Beyond: Ending the Climate Emergency While We Can (City Lights, maio, 2020).

 

terça-feira, 21 de maio de 2024

DOIS EXCELENTES ARTIGOS DE AUTORES BRASILEIROS

 Apenas clique abaixo:

https://www.forum21br.com.br/politica/camarada-do-politico-ao-social/ 

https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-crise-aguda-e-o-declinio-cronico-do-ocidente/

Fake News: ontem, hoje e amanhã

 Do Forum 21

Fake News: ontem, hoje e amanhã

Liszt Vieira

A enxurrada de fake news sobre a tragédia climática no RS é uma avant première do que virá na campanha eleitoral deste ano e na próxima campanha presidencial de 2026. A extrema direita predomina nas redes sociais espalhando fake news para pessoas que se informam apenas pelas notícias recebidas, sem ver ou ler a imprensa. A indústria de fake news progride a pleno vapor. Tem seus financiadores e segue um modo industrial de produção. Não se trata de indivíduos isolados, mas de robôs funcionando numa linha empresarial de produção. Contra isso, a esquerda parece que ainda está na era artesanal.

A esquerda é saudosa das manifestações de rua, mas a principal rua do século XXI é a internet. Estamos diante de um adversário que domina e usa as redes sociais de forma empresarial e sem escrúpulos de espalhar fake news. A grande questão é a regulamentação das big techs, com seus algoritmos a serviço da ganância do lucro sempre crescente. Em nome do lucro comercial, essas grandes organizações de informação, como Google e Meta, aceitam e retransmitem fake news impunemente. Grande número de pessoas, mal-informadas ou desinformadas, aceitam qualquer informação que confirme suas crenças e opiniões, em geral frutos de preconceito ou de uma falsa apreensão de um fato. Acreditam no que querem acreditar. E retransmitem, alimentando os algoritmos que irão engordar os lucros fabulosos das gigantes digitais. Trata-se de crime de mão dupla. Os que escrevem cometem crime alegando liberdade de expressão, e as empresas que retransmitem cometem crime em nome de seus lucros abusivos.

Para melhor entendimento, é interessante recorrer a um retrospecto histórico das fake news a fim de bem compreender seu uso e aceitação hoje, e também amanhã com o casamento anunciado da fake news com a Inteligência Artificial (IA).

A busca da verdade foi o fundamento do pensamento científico difundido no mundo principalmente a partir do Renascimento e do Iluminismo. Mas a História mostra antecedentes notáveis na Grécia Antiga e no Oriente. Até a Idade Média, quando a maioria da Europa estava mergulhada em preconceitos e dogmas religiosos, pensadores árabes deram notável contribuição à ciência, como a matemática. A China já havia inventado o papel e a pólvora. E, em Alexandria, Hipatia, filósofa neoplatônica no Egito romano, foi a primeira mulher matemática da História. Talvez por isso mesmo, foi sequestrada, torturada e assassinada por uma horda de cristãos enfurecidos a mando do bispo. Na Europa, o Renascimento nos séculos XV e XVI forneceu o caldo de cultura para a derrubada dos dogmas do passado, como o geocentrismo.

Na filosofia, Descartes, já no século XVII, parte do sujeito, de uma visão antropocêntrica e não mais teocêntrica para construir seu Cogito: Penso, Logo Existo. O Iluminismo no século XVIII e XIX derrubou o pensamento mágico e promoveu o que o sociólogo alemão Max Weber chamou de “desencantamento do mundo” que passaria a ser explicado pela ciência investigando os fatos da realidade, e não mais pela religião. O filósofo britânico Bertrand Russell, em sua “Mensagem Para o Futuro”, de 1959, nos aconselhou, no estudo de qualquer assunto, a “buscar os fatos e o que os fatos revelam”.

Nos últimos anos, porém, o questionamento da lógica científica começou a ser reforçado por superstições, dogmas e mentiras divulgadas em grande escala para o conjunto da sociedade, principalmente pelos meios de comunicação eletrônica. Mas notícia falsa não é uma invenção do nosso tempo. A novidade é que hoje todas as notícias se expandem e se tornam instantâneas, as verdadeiras e as falsas. O maior best seller do mundo, a Bíblia, está cheia de fake news. Desde as crenças judaicas no Livro Gênesis até os milagres cristãos do Novo Testamento, a Bíblia é um conjunto de lendas que, ao longo da História, tornaram-se dogmas religiosos, num processo que levou séculos.

Até a revolução científica nos séculos XVI e XVII, os fatos e as lendas, a verdade e a mentira, se misturavam. Ainda vemos hoje lendas transfiguradas em realidade. Um exemplo curioso é a devoção a São Jorge, santo imaginário que matou o dragão, um animal imaginário. No Brasil, foi associado a Ogum, santo guerreiro do candomblé, crença originária da etnia yorubá, no sudoeste da Nigéria e desconhecida no resto da África. Mas São Jorge é cultuado e padroeiro em outros países onde não existe sincretismo religioso com o candomblé. É a força da lenda: muita gente ora por um santo guerreiro que nunca existiu! Na guerra propriamente dita, a mentira se chama contrainformação. Desde a lenda do Cavalo de Tróia, os exemplos são inúmeros. Nas guerras “modernas”, informação e contrainformação são aspectos essenciais da vitória. Assim, o fenômeno das fake news não é novidade na história. O que é novidade é sua multiplicação instantânea na imprensa e na internet, principalmente para fins comerciais e políticos.

Ontem, a disseminação de fake news era principalmente através de panfletos, jornais e boatos. Hoje, as plataformas de mídia social (Facebook, Twitter, Telegram, WhatsApp) se tornaram os principais veículos para a propagação de informações falsas. O alcance instantâneo dessas plataformas proporciona um terreno fértil para a disseminação de desinformação. Mas o amanhã das fake news é ainda mais preocupante. Com o avanço da inteligência artificial e da tecnologia de manipulação de mídia, a capacidade de criar conteúdo falso convincente está se tornando cada vez mais acessível. Deepfakes, por exemplo, são vídeos manipulados que podem parecer extremamente realistas, mas mostram eventos que nunca ocorreram. Essa tecnologia tem o potencial de minar ainda mais a confiança na mídia e na veracidade das informações.

Hoje, uma informação pode ser divulgada instantaneamente para o mundo inteiro. Um exemplo esclarecedor em tempos de internet é o descrito no livro “Os Engenheiros do Caos”, de Giuliano Da Empoli. A partir de uma base de dados, uma Coordenação envia centenas de milhões de mensagens diferentes, dizendo coisas opostas, para públicos diferentes. Esse sistema, adotado pela empresa Cambridge Analytica, foi usado com sucesso na eleição do Brexit no Reino Unido em junho de 2016, na eleição de Trump em novembro de 2016 nos EUA e na de Bolsonaro em novembro de 2018 no Brasil.

A aceitação acrítica das fake news é um problema sério da contemporaneidade, já que muitas pessoas não estão interessadas em saber se a informação corresponde ou não à realidade. Elas se aferram a opiniões baseadas em suas crenças. A crença tem uma conotação religiosa, dogmática, ao contrário de conclusões ou previsões baseadas em fatos da realidade.

Toda sociedade tem seus mitos de fundação. Esses mitos têm grande importância simbólica e garantem a coesão social e a integração cultural de uma nação, cidade, aldeia, tribo ou bando. Mas podem também ser considerados fake news de natureza ideológica, religiosa e cultural. Foi principalmente com a revolução científica do século XVI em diante que as “verdades” passaram a ser construídas a partir de fatos.

Agora, porém, ocorre um retrocesso preocupante: muitos abandonam o fato e se refugiam na opinião. O que foi chamado de “pós-verdade” guarda semelhança com o longo período histórico da “pré-verdade” em que os fatos eram desprezados como fonte de conceitos ou opinião: prevaleciam as lendas, os mitos e os dogmas. Nossa civilização baseada no iluminismo, na razão, na argumentação, está sendo agredida e ameaçada pela aceitação crescente das fake news. A opinião e a crença são irracionais porque dispensam a verificação baseada em fatos da realidade.

A informação falsa é aceita porque corresponde a opiniões e sentimentos previamente existentes. Ela vem confirmar o que a pessoa acha, confirma uma opinião que não se preocupa em saber se está ou não ancorada na realidade. Em suma, o sucesso das fake news se deve ao fato de elas caírem em solo fértil, previamente fecundado para acreditar em qualquer informação que fortaleça uma opinião ou preconceito irracional anteriormente existente. Em contrapartida, os argumentos racionais nem sempre são eficazes. Os bolsominions em geral são tangidos por declarações autoritárias, misóginas, homofóbicas, racistas, de um líder ignorante, tosco, cafajeste, neofascista que, enquanto Presidente, tentou corroer as regras e instituições democráticas.

Para isso, conta com o aplauso de sua base de apoio que aceita a ditadura, rejeita a separação tripartite de poder, e deseja o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal. A democracia é complexa, envolve conflitos e contradições que obrigam o indivíduo a refletir. Reflexão e pensamento crítico são qualidades estranhas ao hipnotizado eleitor bolsonarista. O projeto antidemocrático neofascista almeja um regime ditatorial impregnado de uma moral cristã obscurantista, com apoio de parte do mercado e dos militares, bem como das milícias paramilitares e das PMs inimigas da defesa dos direitos humanos. As fake news disparadas em escala industrial pela extrema direita dirigem-se não à razão, mas à emoção e à crença dos destinatários.

A civilização construída a partir dos princípios iluministas da razão e da lógica vive um dilema e um impasse. Primeiro, porque não foi capaz de promover a emancipação dos povos, em sua maioria explorados e submetidos a regimes opressivos. E também porque enfrenta grande dificuldade em combater a mentira irracional que elege governantes. Entre as inúmeras batalhas que o campo democrático tem pela frente, uma das mais importantes é a tarefa permanente de denunciar as fake news, agora fortalecidas com a IA, bem como montar um sistema eficaz de comunicação eletrônica de massa. Infelizmente, a esquerda e todo o campo democrático estão atrasados em seu objetivo de enfraquecer e anular a base de apoio do fascismo no Brasil. E a Justiça, demasiado lenta, ainda não colocou fora da lei as tentativas da extrema direita de torpedear a democracia com vistas à instalação de uma ditadura neofascista no país.

Para a indústria de fake news, a tragédia ambiental no RS é um campo de experimentação, uma espécie de “preliminar” para o futuro cenário das eleições vindouras. Por enquanto, as iniciativas de regulamentação por parte do Governo estão engatinhando. O Presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, declarou “Infelizmente, o ódio, a mentira, a desinformação trazem mais engajamento, e algumas empresas estão articuladas com movimentos de extrema direita” E, mais adiante, afirmou: “Em algum momento, isso vai ter que ser regulado” (O Globo, 15/5/2024).

Enquanto esse “algum momento” não chega, a indústria de fake news faz a festa.

 

segunda-feira, 20 de maio de 2024

FAZENDO MÉDIA COM O SIONISMO

 Não li os livros do Harari quando eles fizeram sucesso editorial em todo o mundo e entre alguns conhecidos meus de boa fé. Santa preguiça a que tive! Do Counterpunch.

A Odisseia de Yuval Noah Harari em um universo sionista paralelo

Imagem via Wikipedia.

Na vasta extensão do cosmos intelectual, existe uma luminária cujo brilho ofusca até mesmo as estrelas mais brilhantes.

O professor Yuval Noah Harari, um nome sussurrado com reverência entre os habitantes eruditos da galáxia, é um farol de conhecimento, cujo canon atravessa os planos celestes da história, filosofia, psicologia humana e além.

Informado por anos de transcendência contemplativa e profigiosamente domínio da palavra escrita, seus conceitos, como anomalias cósmicas da matéria escura ondulando através do tecido da realidade, desafiam nossa compreensão da existência e nos impulsionam para a fronteira final da iluminação.

É dentro desses reinos ilimitados, com a ousadia do capitão da Enterprise e sabedoria sábia, que Harari recentemente viajou para sua versão imaginária de atoleiro matinizado do sionismo.

Em uma reviravolta tão surpreendente quanto seu reaproveitamento do “humanismo”, Harari embarcou em uma odisseia fantástica, olhando habilmente para aqueles que armam o “sionismo” como uma intromissão, comparo-o a uma forma sinistra de tribalismo ou mesmo racismo.

Pois no grande além da filosofia de Harari, nada sobre o sionismo sugere qualquer indício de superioridade para com os palestinos nativos. Certamente não leis discriminatórias israelenses e evidências inconvenientes incorporadas na Lei Básica de Israel: Knesset, Artigo 7(a), que erige o sionismo como um guardião da participação na fachada da “democracia” israelense.

O evangelho de acordo com Yuval Noah Harari

Quão mundano se preocupar com as reflexões de figuras como o obscuro ucraniano Vladimir Jabotinsky, um mero pontinho no radar sionista, embora seja o guru ideológico do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que disse:

Se é imoral colonizar um país contra a vontade de sua população nativa, a mesma moralidade deve aplicar-se igualmente ao homem negro como ao branco. Claro, o homem negro pode não estar suficientemente avançado para pensar em enviar delegações para Londres, mas logo encontrará alguns amigos brancos de bom coração, que o instruirão.

E:

“Sempre haverá duas nações na Palestina – o que é bom o suficiente para mim, desde que os judeus se tornem a maioria.”

E:

“Estamos buscando colonizar um país contra a vontade de sua população, em outras palavras, pela força.”

Talvez possamos perdoar Harari, como ele tem estado preocupado, em colóquios com os estimados chanceleres alemães e austríacos, participando do discurso com o luminoso presidente francês e trocando gentilezas algorítmicas com seu colega apóstolo, o grande da mídia social Meta Mark Zuckerberg, em vez de relembrar as observações de Theodor Herzl, que disse:

“Devemos expropriar gentilmente a propriedade privada nas propriedades que nos foram atribuídas. Tentaremos empurrar a população sem dinheiro do outro lado da fronteira, fazendo o emprego para ela nos países de trânsito, negando-a o emprego em nosso próprio país. Os proprietários virão para o nosso lado.”

Cogitando neste sagrado santuário, Harari presta homenagem ao antigo rito sionista do negacionismo, onde a verdade é suplantada por um quebra-cabeça labiríntico empunhado habilmente com o propósito de iluminar os palestinos e seus aliados. No entanto, em sua orquestração do iluminado, Harari também defende outro princípio sagrado do sionismo: a doutrina da supremacia branca.

Eis que, em sua palestra TED de 2018, apropriadamente intitulada “Por que o fascismo é tão tentador”, Harari, assumindo seu avatar digital, exalta as virtudes do nacionalismo, proclamando:

“Se você olhar hoje para os países mais prósperos e pacíficos do mundo, países como a Suécia, a Suíça e o Japão, você verá que eles têm um forte senso de nacionalismo. Em contraste, os países que carecem de um forte senso de nacionalismo como o Congo e a Somália e o Afeganistão tendem a ser violentos e pobres.

Em outra oração, Harari pinta um retrato da “guerra cultural” como uma força que se apega ao próprio tecido da civilização ocidental. Não temas, pois ele proclama que, se nós, estimados burgueses da Europa e dos Estados Unidos, ficarmos como um, todos estarão bem no nosso reino terreno. Que solução maravilhosamente conveniente para os nossos dilemas existenciais!

Feche os olhos e os ouvidos

Arrisco para os hinos melodiosos de Harari, bardo da saga sionista primordial!

Em cada verso, ele canta o manual sagrado de Hasbara como escritura divina concedida a ele nos portões sagrados do aeroporto de Ben Gurion, voado com o último carregamento de armamento dos EUA / Reino Unido.

Do Plano de Partição aos Acordos de Oslo, à fusão do sionismo e do judaísmo, seus tons dulcet dançam com o ritmo do anticomunismo macartista e da islamofobia, uma sinfonia fascista de propaganda orquestrada para atrair as massas para uma aquiescência hipnótica ao genocídio.

Ele exerce o mito da “democracia” israelense como um escudo cintilante contra flechas da verdade, culpando Netanyahu, o bode expiatório de todos os problemas de Sião.

Não há um sussurro de Harari no relatório da ESCWA de março de 2017, expondo as práticas de apartheid de Israel em relação aos palestinos, abrangendo cada centímetro de terra sob seu domínio, e a situação dos palestinos dispersos no Shatat (diaspora), deixados a sofrer à sombra da exclusão.

Sua negligência se estende ao genocídio contínuo e crescente de Israel em Gaza, ao lado de campanhas implacáveis de terror de colonos na Cisjordânia, abafando os gritos dos oprimidos.

Colonialismo mais colono, escravidão, a pilhagem do sul global, a aniquilação dos povos indígenas – estes são tópicos muito gauches para as discussões celestiais de Harari, enquanto ele contorna os pecados sórdidos do capitalismo.

Uma lista de reprodução de apologia sionista, a retórica de Harari perpetua as espátulos rasas do sionismo “liberal”, abrigadas em falsas noções de direitos humanos, em uma tentativa fácil de salvar uma narrativa ocidental em ruínas. Ao culpar convenientemente Netanyahu enquanto promove uma alternativa a-histórica, ele constrói um buraco de minhoca dúbio, levando a um exame mais profundo das origens do sionismo como uma ideologia fascista e supremacista branca. Assim, ficamos com a fachada de Harari mascarando o verdadeiro rosto da opressão.

Esta peça apareceu pela primeira vez em O Novo Árabe.

Yoav Litvin é Doutor em Psicologia e Neurociência Comportamental. Para mais informações, visite yoavlitvin.com/about/