sexta-feira, 7 de setembro de 2018

COMO NO BRASIL, NA ARGENTINA E NO RESTO DO MUNDO

Na Grécia, também os adultos é que passaram a ocupar a sala.

SEPTEMBER 5, 2018

Photo Source Agência Brasil Fotografias | CC BY 2.0
If you’ve followed Latin American politics at all in the mainstream press, I am sure you’ve heard and read about how the Kirchners (2003-2015) mismanaged the Argentine economy and how, with the election of Mauricio Macri,  the adults were back in the room and the economy was on its way to a more healthy and sustainable management.
There’s only one problem with the story: reality.
When Nestor Kirchner took over in 2003, things could not have been worse. The bank “corralito” had robbed millions of their life savings. The society lay prostrate before the world, a bargain basement for anyone with a few dollars in his or her pocket. I know, I visited the country in those dark days and saw the devastation all around me.
Over the next several years the economy was re-built and the middle and lower middle classes began to to re-acquire a sense of living in a functioning society. I was amazed at the transformation I witnessed over my visits in the ensuing decade.
Key to the Kirchners’ relative success was their repudiation of the IMF debts run up during the Menem years (1989-1999). With some help from Venezuela,  Nestor Kirchner faced down the financial vultures and basically  told them to go to hell. And it worked for the great majority of the country’s population.
This, of course gained him the  enmity of the country’s ever-rancid elites who put their “right” to do as they pleased with “their” dollars above any sense of the common good. Led by the powerful Clarín media group (in which, surprise, surprise, Goldman Sachs has a near 20% stake) they launched non-stop attacks on the still  very popular Cristina Kirchner (Nestor had died suddenly in 2010), tossing  any and every accusation they could at her non-stop for several years.
I have no doubt there was corruption in her government just as there is in every government in the world. I also have no doubt that its prevalence in relation to that which existed in previous governments was totally blown out of proportion.
After several years of informational bombardment the international elites and their internal fifth column  finally got what they wanted: a personal errand boy in the Casa  Rosada in the person of Mauricio Macri.
Macri quickly showed that here was no demand of international finance to which he would not bow. Hence, all the positive spin in the MSM about maturity and responsibility returning to Argentina.
Well, last week  right as  Macri  was finishing  his daily lip-lock on the behind of international capital a funny thing happened: the peso went into free fall, trading as high as 40 to the dollar.
What a surprise.
This is, of course, what the bankers wanted. Now, as the Argentine people suffer, they can rush in and buy up the countries productive industries for a song and saddle future generation with still more unplayable debt.
Victory achieved.
And what made this comeback victory possible? What makes all the victories of the thuggish elites possible in today’s world. Media control. If you can say black is white and white is black enough times on the TV, sadly,  most people will melt sooner or later.
The key to any chance of re-building democracy in our time  runs  directly through the reconstruction of critical reading capacities among those fortunate enough to study beyond the pursuit of mere literacy.
Until people take this challenge seriously, and do something about in day-to-day-terms, the oligarchs and their government errand boys will continue their scorched earth approach to the social and physical patrimony of our children and our grandchildren.
It really isn’t that hard to read each day with attention and discernment. Considering the consequences of not doing so, you’d think more people might give it a try.
But then again, cat videos are really cute and bring a lot of joy to those who watch them.
More articles by:THOMAS S. HARRINGTON
Thomas S. Harrington is a professor of Iberian Studies at Trinity College in Hartford, Connecticut and the author of the recently released  Livin’ la Vida Barroca: American Culture in a Time of Imperial Orthodoxies.
Parte superior do formulário
5 de setembro de 2018
Então, felizes, os adultos estão de volta à Argentina
por THOMAS S. HARRINGTON
FacebookTwitterGoogle + RedditEmail

Se você tem seguido a política latino-americana na grande imprensa, tenho certeza que você já ouviu e leu sobre como os Kirchners (2003-2015) administraram mal a economia argentina e como, com a eleição de Mauricio Macri, os adultos voltaram à sala e a economia estava a caminho de uma gestão mais saudável e sustentável.

Há apenas um problema com a história: a realidade.

Quando Nestor Kirchner assumiu em 2003, as coisas não poderiam ter sido piores. O banco “corralito” havia roubado milhões de suas economias. A sociedade estava prostrada diante do mundo, um porão de barganha para qualquer um com alguns dólares no bolso. Eu sei, visitei o país naqueles dias sombrios e vi a devastação ao meu redor.

Nos anos seguintes a economia foi reconstruída, e as classes média e média baixa começaram a readquirir uma sensação de vida em uma sociedade funcional. Fiquei espantado com a transformação que testemunhei durante minhas visitas na década seguinte.

A chave para o sucesso relativo dos Kirchner foi o seu repúdio às dívidas do FMI durante os anos Menem (1989-1999). Com alguma ajuda da Venezuela, Nestor Kirchner enfrentou os abutres financeiros e basicamente mandou-os para o inferno. E funcionou para a grande maioria da população do país.

Isso, é claro, rendeu-lhe a inimizade das elites cada vez mais rançosas do país, que colocaram seu "direito" de fazer o que quisessem com "seus" dólares acima de qualquer senso de bem comum. Liderados pelo poderoso grupo de mídia Clarín (no qual, surpresa, a Goldman Sachs tem uma participação de quase 20%) eles lançaram ataques ininterruptos contra a ainda muito popular Cristina Kirchner (Nestor morreu repentinamente em 2010), lançando todas as acusações possíveis, sem parar, por vários anos.

Não tenho dúvidas de que houve corrupção em seu governo, assim como existe em todos os governos do mundo. Também não tenho dúvidas de que sua prevalência em relação àquela que existia em governos anteriores foi proclamada de maneira totalmente desproporcional.

Depois de vários anos de bombardeio informativo, as elites internacionais e sua quinta coluna interna finalmente conseguiram o que queriam: um garoto de recados pessoais na Casa Rosada, na pessoa de Mauricio Macri.
Macri rapidamente mostrou que aqui não havia demanda de financiamento internacional para a qual ele não se curvaria. Assim, todo o giro positivo no MSM sobre maturidade e responsabilidade voltando para a Argentina.

Bem, na semana passada, enquanto Macri terminava seu ataque diário às escondidas do capital internacional, uma coisa engraçada aconteceu: o peso entrou em queda livre, negociando até 40 por dólar.

Que surpresa.

Isto é, claro, o que os banqueiros queriam. Agora, como o povo argentino sofre, eles podem se apressar e comprar as indústrias produtivas dos países para uma música e selar a futura geração com dívidas ainda mais injustificáveis.

Vitória obtida.

E o que tornou possível essa vitória de retorno? O que faz todas as vitórias das elites bandidas possíveis no mundo de hoje. Controle de mídia. Se você puder dizer que preto é branco e branco é preto o suficiente na TV, infelizmente, a maioria das pessoas vai derreter mais cedo ou mais tarde.

A chave para qualquer chance de reconstruir a democracia em nosso tempo passa diretamente pela reconstrução de capacidades de leitura crítica entre os afortunados o suficiente para estudar além da busca da mera alfabetização.

Até que as pessoas levem esse desafio a sério, e façam algo a respeito no dia-a-dia, os oligarcas e seus garotos do governo continuarão sua abordagem de terra arrasada ao patrimônio social e físico de nossos filhos e netos.

Realmente não é difícil ler cada dia com atenção e discernimento. Considerando as consequências de não fazer isso, você chega à conclusão que mais pessoas deveriam tentar. 
Claro, novamente, vídeos de gatos são realmente fofos e trazem muita alegria para aqueles que os assistem.

Junte-se ao debate no Facebook

Mais artigos por: THOMAS S. HARRINGTON
Thomas S. Harrington é professor de Estudos Ibéricos no Trinity College em Hartford, Connecticut e autor do recém-lançado Livin 'la Vida Barroca: cultura americana em tempos de ortodoxias imperiais.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

OLHANDO PARA FORA DO QUINTAL DOS ESTADOS UNIDOS

Olhaí o que vai acontecendo por iniciativa da China. Artigo publicado no Asia Times. Depois do texto original em inglês, uma tradução feita com base no tradutor do Office.


The New Silk Roads are just pieces in a giant puzzle
Vast Chinese infrastructure scheme is plagued by Sinophobia, damned as a 'debt trap' and tainted by corruption in Malaysia, Sri Lanka and Pakistan, yet these were faults inside these countries
By PEPE ESCOBAR AUGUST 29, 2018 6:40 PM (UTC+8)

The New Silk Roads, formerly One Belt One Road, then Belt and Road Initiative, were launched almost five years ago by President Xi Jinping, first in Astana (the Silk Road Economic Belt) and then in Jakarta (the Maritime Silk Road).
Way beyond the acronym purgatory – and the “lost in translation” factor that neither name sounds sexy in English – the fact is BRI will remain the organizing master concept of Chinese foreign policy for the foreseeable future, all the way to 2049 (the 100th anniversary of the People’s Republic of China).
It took Washington – under the Obama and Trump administrations – almost five years to come up with a response to BRI. And that is now essentially a trade war. 
The response increasingly surfs a tsunami of Sinophobia dragging a detritus of malaise: corruption, pollution, real estate bubbles, ghost cities, and last but not least, a “road to nowhere” scheme (just like the BRICS emerging economies and the Asian Infrastructure Investment Bank) relentlessly portrayed as an evil “scheme” destined to condemn unsuspecting poor countries to an endless debt trap and culminating in the takeover of their resources.
The Belt and Road is, additionally, dismissed as just a scheme to bypass the Strait of Malacca, through which transits 75% of Chinese exports and 80% of energy imports. In reality that happens to be only one among myriad vectors of the scheme.
The BRI hotel check-out policy
Let’s contrast BRI-bashing with three different dossiers: Malaysia, Sri Lanka and Pakistan.
The move by Malaysian Prime Minister Mahathir Mohammad to suspend BRI-related projects – the $20-billion East Coast Rail Link and two pipelines worth over $2 billion – does not mean they are canceled. This is an economic recalculation.
Malaysia may be virtually bankrupt because of the Najib kleptocracy, but that has nothing to do with BRI. Mahathir, in fact, made it clear he wants to strengthen the partnership with China, and he’s in favor of the initiative. But first, he needs to balance the national budget. Kuala Lumpur will eventually be back in BRI mode.
The same applies to one of BRI’s key connectivity projects, the China-Pakistan Economic Corridor (CPEC). New Prime Minister Imran Khan is bent on renegotiating some of its terms. Once again, that relates to bad management by the previous Sharif administration and the notorious corruption of the tax-evading Pakistani elite.
Then there’s the case of the Sri Lankan port of Hambantota. Last December, the port – financed by Chinese investment – was transferred to Middle Kingdom control on a 99-year lease. This has nothing to do with a Chinese takeover, or some mischievous variant of gunboat diplomacy. It is mostly about corruption and bad management inside Sri Lanka’s previous government.
Some of the 60-65 nations participating in the BRI scheme are in fact curtailing Chinese investment – short-term or mid-term – in some projects and industries that are considered sensitive, whatever the criteria employed. That does not prevent rolling Chinese investment in other less sensitive sectors. This has nothing to do with “debt-trap diplomacy”.
The beauty of the BRI concept is that it’s open and inclusive. Unlike Hotel California, you can check in or out anytime you like at the BRI Hotel. But, non-customers complain, how come it has “no clear goal, no detailed plan”? No wonder BRI is incomprehensible for Western myopia.
I have been following BRI in detail for five years now – even before it started. It’s never enough to stress the initial conceptualization, detailed in papers such as the 2014 Silk Road Economic Belt Construction, Vision and Path, by the Chongyang Institute for Financial Studies at Renmin University. For all the current BRI-bashing hysteria, we are still in the planning phase. Implementation actually starts only in 2021 and goes all the way to 2049.
BRI principles include the aforementioned openness (“not limited to the ancient Silk Road area but open to all countries”); inclusiveness (“respect for the paths and modes of development chosen by different countries”); and “market rules”.     
There’s no question BRI suffers from an acute PR problem; once again, the “lost in translation” element. Let’s assume the scheme had been packaged by a Washington PR firm. The key slogan would be something like “Asia Connectivity 2050”.
Because that’s exactly what it is, a very long-term project to create an ultra-complex web, hard and soft, of six main corridors linking China and Eurasia. It goes way beyond high-speed rail and pipelines. It encompasses financial integration and a new geopolitical paradigm.
It’s absolutely impossible to understand the complexity of BRI without understanding how the Chinese think. Peking University professor Zhai Kun qualified it years ago as President Xi’s “mega-strategy”. That means the finer points concerning details will be adjusted in real time along the way. There’s plenty of time – and it’s a long way.
Integrate or perish
One of those details is the port of al-Duqm, built in a deserted stretch of the coastline of Oman, just outside the Persian Gulf, thus strategically located close to massive Asia, Middle East and Africa trade across the Indian Ocean.
Duqm is a multibillion-dollar rail and shipping warehouse that attracted not only BRI-related Chinese investment (a new port plus industrial zones) but also Indian, South Korean and Saudi Arabian. Way beyond the Chinese scheme, this is all about Eurasia connectivity, and the Sultan of Oman gets it.
BRI does not exist in a vacuum. It’s part of the China-driven globalization 2.0. Belt and Road links up with the Asian Infrastructure Investment Bank, the BRICS’ New Development Bank, the International North-South Transportation Corridor, the Eurasia Economic Union (EAEU) and the Shanghai Cooperation Organization (SCO).
The integration of BRI and the Eurasia Economic Union soon will be more than visible as China and Russia move to connect both Koreas – territorially, politically and economically – to the Eurasia heartland. South Korea wants to be part of that vast nexus because Seoul has identified the immense potential of a Trans-Korean Railway.
Even Germany and France are starting to question at the highest levels whether they should link up with real Eurasian integration alongside Russia, China, Iran, Turkey, BRICS emerging economies, plus SCO, BRI and EAEU, or remain just a glorified hostage of the hyperpower’s whims.
By 2025, when we will be thick into BRI’s implementation phase, the New Great Game will be all about the integration of Eurasia-wide infrastructure spanning 67% of the world’s population. There will be only one way to stop it …

As Novas Estradas da Seda são apenas peças de um quebra-cabeça gigante
O vasto esquema de infra-estrutura chinesa é atormentado pela sinofobia, condenado como uma "armadilha da dívida" e manchada pela corrupção na Malásia, no Sri Lanka e no Paquistão, mas essas são falhas internas desses países.
Por PEPE ESCOBAR 29 DE AGOSTO DE 2018 18:40 (UTC + 8)

As Novas Estradas da Seda, antiga One Belt One Road, depois Belt and Road Initiative (BRI), foram lançadas há quase cinco anos pelo Presidente Xi Jinping, primeiro em Astana (no Cinturão Econômico da Rota da Seda) e depois em Jacarta (Rota Marítima da Seda).

Muito além do purgatório da sigla - e do fator “perda na tradução”, em que nenhum nome parece sexy quando traduzido do chinês - o fato é que a BRI continuará sendo o conceito mestre da política externa chinesa no futuro próximo, até 2049 (o 100º aniversário) da República Popular da China).
Washington levou - sob as administrações de Obama e Trump - quase cinco anos para chegar a uma resposta ao BRI. E essa tornou-se agora essencialmente uma guerra comercial.

A resposta cada vez mais surfa um tsunami da Sinofobia arrastando um detrito de mal-estar: corrupção, poluição, bolhas imobiliárias, cidades fantasmas e, por último mas não menos importante, um esquema de “caminho para lugar nenhum” (assim como as economias emergentes do BRICS e o Asian Infrastructure Investment Bank), implacavelmente retratado como um "esquema" do mal destinado a acorrentar os países pobres desavisados ​​a uma interminável armadilha da dívida e culminando na tomada de seus recursos.

O Belt and Road é, além disso, descartado como simplesmente um esquema para contornar o Estreito de Malaca, através do qual transitam 75% das exportações chinesas e 80% das importações de energia. Na realidade, este é apenas um entre os inúmeros vetores do esquema.


A política de check-out do hotel BRI

Vamos comparar o BRI com três dossiês diferentes: Malásia, Sri Lanka e Paquistão.

A decisão do primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohammad, de suspender projetos relacionados ao BRI - o East Coast Rail Link, de US $ 20 bilhões, e dois oleodutos de mais de US $ 2 bilhões - não significa que eles tenham sido cancelados. Este é um recálculo econômico.

A Malásia pode estar praticamente falida por causa da cleptocracia Najib, mas isso não tem nada a ver com a BRI. Mahathir, de fato, deixou claro que quer fortalecer a parceria com a China e é a favor da iniciativa. Mas primeiro, ele precisa equilibrar o orçamento nacional. Kuala Lumpur eventualmente acabará por voltar ao modo BRI.

O mesmo se aplica a um dos principais projetos de conectividade da BRI, o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC na sigla em inglês). O novo primeiro-ministro Imran Khan está empenhado em renegociar alguns dos seus termos. Mais uma vez, isso se relaciona com a má administração do governo anterior de Sharif e à notória corrupção da elite paquistanesa que evita os impostos.

Depois, há o caso do porto de Hambantota, no Sri Lanka. Em dezembro passado, o porto - financiado pelo investimento chinês - foi transferido para o controle do Reino do Meio em um contrato de arrendamento de 99 anos. Isso não tem nada a ver com uma aquisição chinesa, ou alguma variante travessa da diplomacia de canhoneira. É principalmente sobre corrupção e má gestão dentro do governo anterior do Sri Lanka.

Alguns dos 60-65 países que participam do esquema BRI estão, de fato, reduzindo o investimento chinês - a curto ou médio prazo - em alguns projetos e setores que são considerados sensíveis, quaisquer que sejam os critérios empregados. Isso não impede o investimento chinês em outros setores menos sensíveis. Isso não tem nada a ver com uma “diplomacia da armadilha da dívida”.

A beleza do conceito de BRI é que é aberto e inclusivo. Ao contrário do Hotel California, você pode fazer o check-in ou check-out quando quiser no BRI Hotel. Mas, os não-clientes reclamam, por que não tem “nenhum objetivo claro, nenhum plano detalhado”? Não admira que o BRI seja incompreensível para a miopia ocidental.

Eu tenho acompanhado a BRI em detalhes há cinco anos - mesmo antes de começar. Nunca é suficiente ressaltar a conceituação inicial, detalhada em artigos como a Construção do Cinturão Econômico de 2014 da Estrada da Seda, Visão e Caminho, pelo Instituto Chongyang de Estudos Financeiros da Universidade Renmin. Para toda a atual histeria de BRI, ainda estamos na fase de planejamento. A implementação realmente começa apenas em 2021 e vai até 2049.

Os princípios da BRI incluem a abertura acima mencionada (“não limitada à antiga área da Rota da Seda, mas aberta a todos os países”); inclusão (“respeito pelos caminhos e modos de desenvolvimento escolhidos pelos diferentes países”); e “regras de mercado”.

Não há dúvidas de que a BRI sofre de um problema agudo de relações públicas; mais uma vez, o elemento “perdido na tradução”. Vamos supor que o esquema tenha sido empacotado por uma empresa de relações públicas de Washington. O slogan chave seria algo como “Asia Connectivity 2050”.

Porque isso é exatamente o que é, um projeto de longo prazo para criar uma teia ultra complexa, dura e macia, de seis corredores principais ligando a China à Eurásia. Vai muito além de trilhos e oleodutos de alta velocidade. Abrange a integração financeira e um novo paradigma geopolítico.

É absolutamente impossível entender a complexidade do BRI sem entender como os chineses pensam. O professor da Universidade de Pequim, Zhai Kun, qualificou há anos a "megaestratégia" do presidente Xi. Isso significa que os pontos mais sutis referentes aos detalhes serão ajustados em tempo real ao longo do caminho. Há muito tempo - e é um longo caminho.

Integrar ou perecer

Um desses detalhes é o porto de al-Duqm, construído em um trecho desértico do litoral de Omã, próximo ao Golfo Pérsico, assim estrategicamente localizado perto do enorme comércio da Ásia, Oriente Médio e África através do Oceano Índico.

A Duqm é um entreposto ferroviário e marítimo multibilionário que atraiu não apenas o investimento chinês relacionado com a BRI (um novo porto mais as zonas industriais), mas também a Índia, a Coreia do Sul e a Arábia Saudita. Muito além do esquema chinês, isso é tudo sobre a conectividade da Eurásia, e o Sultão de Omã entende isso.

A BRI não existe no vácuo. Faz parte da globalização da China 2.0.  A Belt e Road tem ligação com o Asian Infrastructure Investment Bank, o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, a União Econômica da Eurásia (EAEU) e a Organização de Cooperação de Xangai (SCO).

A integração do BRI e da União Econômica da Eurásia em breve será mais que visível, à medida que a China e a Rússia passarem a conectar as duas Coréias - territorial, política e economicamente - ao coração da Eurásia. A Coreia do Sul quer fazer parte desse vasto nexo porque Seul identificou o imenso potencial de uma Ferrovia Trans-Coreana.

Até mesmo a Alemanha e a França estão começando a questionar, nos níveis mais altos, se deveriam se unir à integração real da Eurásia ao lado da Rússia, China, Irã, Turquia, economias emergentes do BRICS, além da SCO, BRI e EAEU, ou permanecer apenas uma refém dos caprichos do hiperpoder.

Até 2025, quando chegarmos à fase de implementação do BRI, o Novo Grande Jogo será sobre a integração de toda a infraestrutura da Eurásia, abrangendo 67% da população mundial. Só tem uma maneira de brecar isso...

INVENÇÃO DE VERDADES TAMBÉM NA GRÃ BRETANHA

Existe uma campanha na imprensa britânica para difamar Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista. Dessa campanha participam jornais aparentemente "liberais", no sentido que ingleses e estadunidenses dão ao termo. Veja esta matéria publicada no Russia Today (coloquei uma tradução simplesinha depois do texto original em inglês):

Bogus anti-Semitism smears unmask UK democracy as little more than a fraud - George Galloway

George Galloway
George Galloway was a member of the British Parliament for nearly 30 years. He presents TV and radio shows (including on RT). He is a film-maker, writer and a renowned orator.
Bogus anti-Semitism smears unmask UK democracy as little more than a fraud - George Galloway
"Anti-Semitism is the socialism of fools," said August Bebel. And fake anti-Semitism is as dangerous as the boy crying wolf argues George Galloway.

Anti-Semitism is real and present, in Britain and in the world, even where there are no Jews. I well remember during the revolutionary swirl in Bucharest in January 1990, which I witnessed, hearing men fulminating against the post-coup leadership of Ion Iliescu and Petre Roman as "Jews" and the whole "communist" leadership being a "nest of Jews." For them "Jews" and "communists" was a synonym and Jews were everywhere even though they were in fact almost nowhere to be found. Most Romanian Jews had been slaughtered in the Holocaust and the rest had long since gone to Israel.
In my book 'Downfall: the Ceausescus and the Romanian Revolution' there is a chapter entitled 'The Romanian Jews' in which I describe my long discussion with Romania's Chief Rabbi Dr Moses Rosen as the three stars twinkled in the sky over Poiana Brasov marking the end of the Sabbath. "Anti-Semitism without Jews," was how he described the situation in his country.
Mind you the Rabbi had long been a man of ring-craft, having to deal with the suddenly dead dictator Ceausescu and accusations that he had collaborated with him. He had, in fact, because the Romanian potentate had been an early example of an anti-Semite who loved Israel. Rabbi Rosen saw it as his prime responsibility to facilitate the exodus of the surviving Romanian Jews to Israel. Nowadays these are common around the world, all the way from Steve Bannon to the Hungarian Prime Minister Viktor Orban or the far-right in Britain which once made Jews their whipping boy and now cavort on all-expenses paid trips atop Israeli tanks.
From anti-Semitism without Jews to anti-Semitic Israelophilia is just one of the unexpected journeys of the last 30 years.
There is anti-Semitism in Britain and there always has been. But the kind of brutal pogroms of Jews which were a regular feature of European life and death have not happened in Britain since the York and London massacres almost a thousand years ago. Grim repression and vile prejudice carried on for centuries after that but in modern times there has been nothing like what happened in modern Europe. In European countries - West and East - sections of the population fell upon the their own Jewish countrymen even before the Nazis and their trains arrived to take them to the death camps.
From Ukraine to the Netherlands, Jew-hating locals committed murder against the Jews and many more collaborated with the Occupation forces to entrain their fellow citizens to the gas-chambers. But not in Britain.
For a time, Britain stood alone against the beast of fascism and it was our finest hour. Whilst Britain did not fight WWII to liberate Jews, liberate what was left of them, we did, along with the Red Army advancing from the east - an army of a state which bore the overwhelming brunt of fascist depredation.
Whilst groupuscules of the British far-right kept the flame of anti-Semitism alight - together with their "Empire-Loyalist" friends in the Conservatives - the vast majority of British people, and especially those on the left, saw clearly where racism can end up - in Auschwitz and Treblinka - determined to fight it as one of the first banners in their ranks.
The Labour leader Jeremy Corbyn, whom I have known for 40 years, remains an icon of that tradition as were his parents before him. His own mother fought at Cable St in London's East End against Britain's fascists in 1936 - defending the huge Jewish community then there under the slogan 'They Shall Not Pass'.
Yet, if you google the words "anti-Semitism" today the first name which will pop-up is not the name of the architects and mass-murderers of Hitler's "Final Solution" but the name of Jeremy Corbyn.
That is the stupendously stupid achievement of the leaders of the Israeli lobby in Britain - and Tel Aviv - today. Because Corbyn would not turn his face away from the suffering of the Palestinian people, would not eschew condemnation of the brutal Netanyahu regime, he is now - hourly - denounced as an anti-Semite, a Jew-hater, a Nazi.
Some say the Israeli lobby is the architect of this Salem-style witch-hunt but I disagree. It would be easier if it were true. In my view the true architects are Britain's - and the US - ruling elites. Having tried to smear Corbyn as a Russian agent, a KGB operative, a Czech spy, an IRA man they have fastened on the only smear which appeared to have traction - anti-Semitism. They have weaponized the suffering and the murders of millions of Jews in the Holocaust in their coup against Corbyn.
It's not a coup against Labour - the kind of Labour Party we had in the past was easily accommodated by the ruling class. It's not even a coup against Corbyn's frankly social-democratic economic program, less radical even than Harold Wilson's Program For Britain back in 1974.
This is a very British coup against Corbyn's imagined foreign policy. A British government which might put a spoke in NATO's wheel. A British government which could no longer be dragooned into the anti-Russia front. A British government which would end the grisly but profitable arms trade with the despots of Arabia. A British government fighting for justice for the Palestinians, standing with Mexico, Venezuela, South Africa…
This coup unmasks British democracy as little more than a fraud, lipstick upon a pig. The militarised mendacity of the entire mass media - led by the state broadcaster the BBC - the use of deep-state subversion methods against Corbyn has led many in Britain to fear even for the personal safety of the Labour leader. I used to read about things like this in my callow youth. I knew them to be true, in theory. But not in practice, not in Britain. It has taken this very British coup to change my mind.

O anti-semitismo fake desvela a democracia britânica como pouco mais do que uma fraude - George Galloway
George Galloway
George Galloway foi membro do Parlamento Britânico por quase 30 anos. Ele apresenta programas de TV e rádio (inclusive no RT). Ele é cineasta, escritor e renomado orador.
Londres, 4 de setembro de 2018 © Henry Nicholls / Reuters

"O anti-semitismo é o socialismo dos tolos", disse August Bebel. E o anti-semitismo falso é tão perigoso quanto o grito de alarme do lobo, argumenta George Galloway.

O anti-semitismo é real e presente, na Inglaterra e no mundo, mesmo onde não há judeus. Lembro-me bem durante o turbilhão revolucionário em Bucareste em janeiro de 1990, que testemunhei, ouvindo homens fulminarem contra a liderança pós-golpe de Ion Iliescu e Petre Roman como "judeus" e toda a liderança "comunista" sendo um "ninho de judeus". " Para eles, "judeus" e "comunistas" era sinônimo e os judeus estavam em toda parte, embora de fato não fossem encontrados em lugar nenhum. A maioria dos judeus romenos havia sido massacrada no Holocausto e o resto já havia ido para Israel.

Em meu livro 'Downfall: the Ceausescus and the Romanian Revolution', há um capítulo intitulado 'The Romanian Jews' no qual descrevo minha longa discussão com o rabino-chefe da Romênia, Dr. Moses Rosen, enquanto as três estrelas brilhavam no céu sobre Poiana Brasov marcando o fim do sábado. "Anti-semitismo sem judeus", foi como ele descreveu a situação em seu país.
Veja bem, o rabino há muito tempo era um homem do sistema, tendo que lidar com o ditador Ceausescu morto repentinamente e com as acusações de que ele havia colaborado com o mesmo. Ele tinha, de fato, porque o potentado romeno havia sido um dos primeiros exemplos de anti-semita que amava Israel. O rabino Rosen considerou ser sua principal responsabilidade facilitar o êxodo dos judeus romenos sobreviventes para Israel. Hoje em dia, são comuns em todo o mundo, desde Steve Bannon ao primeiro-ministro húngaro Viktor Orban ou à extrema-direita na Grã-Bretanha, que outrora transformou os judeus em sacos de pancadas e agora se aproveitam de viagens pagas sobre tanques israelenses.
Do anti-semitismo sem judeus à israelofilia anti-semita,  é apenas uma das viradas inesperadas dos últimos 30 anos.
Há anti-semitismo na Grã-Bretanha e sempre houve. Mas o tipo de pogroms brutais de judeus que eram uma característica regular da vida e da morte na Europa não aconteceu na Grã-Bretanha desde os massacres de York e Londres há quase mil anos. 
repressão  opressora e o preconceito vil continuaram durante séculos depois disso, mas nos tempos modernos não houve nada parecido com o que aconteceu na Europa moderna. Nos países europeus - ocidentais e orientais - setores da população atacaram os próprios compatriotas judeus antes mesmo de os nazistas e seus trens chegarem para levá-los aos campos da morte.
Da Ucrânia à Holanda, moradores locais que odiavam judeus cometeram assassinatos contra os judeus e muitos outros colaboraram com as forças de ocupação para arrastar seus concidadãos para as câmaras de gás. Mas não na Grã-Bretanha.
Por um tempo, a Grã-Bretanha ficou sozinha contra a besta do fascismo e esse foi o nosso melhor momento. Embora a luta da Grã-Bretanha na Segunda Guerra Mundial  não tenha sido primariamente para libertar os judeus, liberar o que restou deles nós fizemos, junto com o Exército Vermelho avançando do leste - o exército de um estado que suportava o peso esmagador da depredação fascista.
Enquanto os grupúsculos da extrema direita britânica incendiavam a chama do anti-semitismo - juntamente com os seus amigos "lealistas do Império" entre os conservadores - a vasta maioria do povo britânico, e especialmente os da esquerda, viram claramente onde o racismo pode acabar. em cima - em Auschwitz e Treblinka - determinado para lutar contra isto como um das primeiras bandeiras nas filas deles / delas.
O líder trabalhista Jeremy Corbyn, que conheço há 40 anos, continua sendo um ícone dessa tradição, assim como seus pais antes dele. Sua própria mãe lutou na Cable Street, no East End de Londres, contra os fascistas da Grã-Bretanha em 1936 - defendendo a imensa comunidade judaica então sob o slogan "Eles não Passarão".
No entanto, se você pesquisar no Google as palavras "anti-semitismo" hoje, o primeiro nome que surgirá não será o nome dos arquitetos e assassinos em massa da "Solução Final" de Hitler, mas o nome de Jeremy Corbyn.
Essa é a façanha estupendamente estúpida dos líderes do lobby israelense na Grã-Bretanha - e Tel Aviv - hoje. Porque Corbyn não iria desviar o rosto do sofrimento do povo palestino, não iria evitar a condenação do brutal regime de Netanyahu, ele vem sendo - a toda hora - denunciado como um anti-semita, um inimigo dos judeus, um nazista. 
Alguns dizem que o lobby israelense é o arquiteto desta caça às bruxas ao estilo de Salem, mas eu discordo. Seria mais fácil se fosse verdade. Na minha opinião, os verdadeiros arquitetos são as elites britânicas - e as americanas - dominantes. Tendo tentado difamar Corbyn como agente russo, um agente da KGB, um espião checo, um homem do IRA que eles fixaram-se na única acusação que parecia ganhar tração - anti-semitismo. Eles armaram o sofrimento e os assassinatos de milhões de judeus no Holocausto em seu golpe contra Corbyn. 
Não é um golpe contra o Trabalhismo - o tipo de Partido Trabalhista que tivemos no passado foi facilmente acomodado pela classe dominante. Não é nem mesmo um golpe contra o programa econômico francamente social-democrata de Corbyn, menos radical do que o Programa para a Grã-Bretanha de Harold Wilson em 1974.Jeremy Corbyn: Netanyahu e Corbyn se defrontam com o 'anti-semitismo' quando o Twitter entra em erupção. Este é um golpe muito britânico contra a política externa imaginada de Corbyn. 
Um governo britânico que poderia colocar um travo na roda da OTAN. Um governo britânico que  poderia não mais ser arrastado para a frente anti-russa. Um governo britânico que acabaria com o  horrível, porém lucrativo comércio de armas com os déspotas da Arábia. Um governo britânico lutando pela justiça para os palestinos, em pé com o México, Venezuela, África do Sul ... Este golpe desmascara a democracia britânica como pouco mais que uma fraude, batom em cima de um porco. A mendacidade militarizada de toda a mídia de massa - liderada pela emissora estatal BBC - pelo uso de métodos de subversão em estado profundo contra Corbyn levou muitos na Grã-Bretanha a temer até mesmo pela segurança pessoal do líder trabalhista. Eu costumava ler sobre coisas como essa em minha juventude inexperiente. Eu sabia que elas eram verdadeiras, em teoria. Mas não na prática, não na Grã-Bretanha. Foi preciso um golpe muito britânico para fazer-me mudar de ideia.
l

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O VÍDEO CENSURADO PELO MINISTRO

Leia abaixo a notícia como saiu na DW, e, no fim, o vídeo censurado.

Ministro do TSE proíbe propaganda de rádio com Lula como candidato

Após tribunal barrar candidatura, Luís Felipe Salomão veta transmissão em rádio de peças eleitorais do PT que apresentem o ex-presidente como concorrente ao Planalto. Multa para descumprimento é de 500 mil reais.
    
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Lula está preso na sede da Polícia Federal em Curitiba desde abril
O ministro Luís Felipe Salomão, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu o Partido dos Trabalhadores de veicular propaganda em horário eleitoral no rádio que apresente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato à Presidência da República.
Em caso de descumprimento, o magistrado determinou uma multa de 500 mil reais à coligação que inclui PT, PCdoB e Pros. A decisão, tomada na noite deste domingo (02/09), não abrange a propaganda eleitoral transmitida pela televisão.
Salomão respondia a uma ação apresentada pelo Partido Novo ao TSE no domingo, pedindo uma medida cautelar para suspender a veiculação da propaganda presidencial do petista.
O argumento era de que o PT descumpriu a decisão do plenário do TSE ao transmitir propaganda eleitoral com Lula como candidato, mesmo após a corte ter decidido horas antes barrar a candidatura do ex-presidente com base na Lei da Ficha Limpa.
O programa eleitoral petista veiculado no rádio no último sábado trazia o locutor dizendo: "Começa agora o programa Lula presidente, Haddad vice" e, ainda, "Lula é candidato a presidente, sim".
"As transcrições do programa de rádio veiculado não parecem deixar margem a dúvidas, no sentido de que estão sendo descumpridas as deliberações do colegiado", escreveu Salomão em sua decisão liminar (provisória).
Na madrugada de sábado, o plenário do TSE decidiu, por seis votos a um, barrar a candidatura de Lula à Presidência, em razão de sua condenação em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O petista cumpre pena em Curitiba desde 7 de abril.
No mesmo dia, a corte deliberou que o PT pode manter sua propaganda eleitoral no rádio e na televisão, desde que não apresente Lula como candidato à Presidência. Com a decisão, o partido tem dez dias para indicar um substituto.
Em manifestação enviada ao TSE, o PT argumentou que, como a decisão final do plenário só foi conhecida durante a madrugada, a "substituição imediata dos materiais de propaganda [...] foi tecnicamente inviável".
"Ainda assim, logo após a decisão, toda a equipe envolvida na propaganda da chapa presidencial reuniu esforços para regularizar as propagandas ainda durante a madrugada", acrescentaram os advogados do PT, segundo o jornal Folha de S. Paulo.
"Ocorre que diversas emissoras, por telefone, informaram que não possuem pessoal disponível para realizar os procedimentos necessários para as trocas [...] e, não havendo notificação judicial destinada à emissora, o pedido de substituição fora do prazo previsto para isso não seria aceito."
"Não havia, obviamente, nas menos de quatro horas da madrugada de sábado, disponibilidade técnica ou humana para que fossem feitas novas produções, partindo do zero", concluiu a defesa.
Além da ação do Partido Novo, há outras ações no Tribunal Superior Eleitoral questionando o programa eleitoral do PT no rádio e na TV. Entre os que acionaram a corte estão as coligações dos candidatos à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro (PSL).

Aqui, o linque. Peguei no Nocaute, do Fernando Moraes.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

PERES ESQUIVEL, SOBRE OS GOLPES DA AMÉRICA LATINA

Publicado originalmente no Pagina 12

Hipocrisia política e perseguição judicial

Adolfo Pérez Esquivel
Buenos Aires, Argentina
26 DE AGO DE 2018 — 
Publicado em Carta Maior
Desatou-se em todo o continente um processo de criminalização e perseguição dos governos e frentes políticas progressistas e populares. O nome técnico utilizado para essa estratégia é lawfare, o uso do sistema judicial contra o inimigo, numa espécie de guerra judicial. Não há casualidades, isso é parte da política de dominação para a América Latina impulsada pelos Estados Unidos e suas agências. Há alguns anos, as embaixadas norte-americanas da região vêm trabalhando muito próximas a setores dos nossos poderes judiciários, através de financiamentos, convites a eventos nos Estados Unidos e celebrações com embaixadores. Os resultados são claros: os que sempre viajam, recebem financiamentos e visitam embaixadores são os mesmos que, com simultaneidade inusitada, estão atacando os direitos básicos (e consequentemente os direitos políticos) de figuras como Lula da Silva, Cristina Kirchner e Rafael Correa.

Na maioria dos casos, esses mecanismos atentam contra o Estado de direito em nome do Estado de direito, um paradoxo semelhante ao de declarar guerra em nome da paz. Porque o objetivo principal não é o de fazer justiça, e sim o de gerar suspeitas, desacreditar e condenar antes do julgamento. Como em qualquer guerra, não se pode vencer sem a propaganda massiva dos grandes meios de comunicação, que executam as campanhas de desprestigio contra os ex-mandatários e a ex-mandatária que souberam desenvolver políticas de justiça social e soberania nacional, como há muito tempo não acontecia na Pátria Grande.

Estes empregados judiciais locais das embaixadas dos Estados Unidos são atores/ diretores midiáticos, que dirigem cenas de diligências policiais invasivas, que prepararam confissões de supostos arrependidos (que logo se dementem) ajustadas aos relatos que interessam e aos tempos políticos dos governos neoliberais. O show que dirigem se chama “bailando para prender a(o) presidenta(e)”. Mas os diretores passam, e os canais de televisão ficam. Por isso, ao dar nome à guerra judicial no Brasil é preciso dizer “Rede Globo”, no caso da Argentina se diz “Grupo Clarín”, e no Equador “diário El Universo”.

Este processo não começou com a guerra judicial, e sim com os “golpes brandos” parlamentares em Honduras (2009), no Paraguai (2012) e no Brasil (2016); com blocos legislativos que também atacaram o Estado de direito, cancelaram a presunção de inocência dos mandatários e os deslocaram, para impor uma agenda de governo radicalmente oposta ao que os eleitores haviam consagrado nas urnas.

Os objetivos finais desta guerra são a consolidação de democracias restritas, onde o povo só possa optar por alternativas neoliberais de ajuste, privatização, endividamento e submissão da sua política exterior à dos Estados Unidos, como fazem Michel Temer, Mauricio Macri e Lenín Moreno. Em síntese, é a transferência de recursos do povo aos ricos, e a perda de soberania nacional para a recolonização continental dos nossos recursos naturais.

Esta péssima película, carregada de hipocrisia e ódio, eu acabei de reviver quando viajei ao Brasil, para visitar Lula na prisão. Ele é acusado injustamente por um delito que não cometeu, e sua condenação é usada para impedir que seja candidato presidencial nas eleições deste ano, pelos que têm medo dele. Medo, porque sabem que Lula pode ganhar as eleições e voltar a lutar por maior justiça redistributiva e mais soberania nacional. Por isso, ele não tem direito sequer a ser entrevistado pelos meios de comunicação, enquanto muitos presos por motivos de sangue aparecem na televisão o tempo todo. Lula é um preso político, e até a Organização das Nações Unidas (ONU), através de sua Comissão de Direitos Humanos, teve que expressar, dias atrás, que o Estado brasileiro está atentando contra os seus direitos mais elementares, ao não aceitar sua candidatura.

A falta de responsabilidade ético-jurídica e social nos espanta e nos faz lembrar dos piores momentos vividos no país e na região. A degradação a que são submetidos o povo e as instituições do Estado viola os direitos humanos e coloca em risco as democracias que tanto nos custaram construir.

A corrupção deve ser combatida, mas dentro dos parâmetros do Estado de direito, com responsabilidade, sem atropelar os direitos das pessoas. Ninguém é culpado até que o acusador demonstre o contrário, toda pessoa tem o direito a um juízo justo e a não cair nas mãos de um juiz que demonstra falta de equidade e equilíbrio para fazer justiça. Aqueles que respeitam a democracia esperam que o Poder Judiciário argentino respeite esses princípios e investigue também as contas offshore do presidente Mauricio Macri e de vários dos seus ministros, a causa do Correio Argentino (em que o governo perdoou uma dívida bilionária da Família Macri com o Estado), a das verbas não declaradas e usadas no financiamento ilegal de campanhas governistas, entre tantas outras.

Como povo, nos dói profundamente ver tamanha degradação dos valores e da equidade. Necessitamos fortalecer os direitos de viver em democracia para todos e todas, e resistir na esperança de que outro país e outra Pátria Grande sejam possíveis.

Adolfo Pérez Esquivel é ativista social argentino, lutador pelos direitos humanos e vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1980