quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

GÁS DE XISTO, PARA QUEM?



Após leilão, cresce oposição à produção de gás de xisto no Brasil

Além da possibilidade de contaminação do Aqüífero Guarani, críticos do fracking afirmam que essa opção é um "tiro no pé" da economia brasileira.


Maurício Thuswohl, no Carta Maior
ruvr.ru


Rio de Janeiro - Das 72 áreas para exploração de gás natural arrematadas durante a 12ª Rodada de Licitações promovida pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) na semana passada, 54 apresentam alto potencial para a produção do chamado gás não convencional, também conhecido como gás de xisto ou, no termo em inglês, shale gas. Principal foco de interesse de um leilão que, no geral, ficou aquém das expectativas do governo brasileiro, a produção de gás de xisto, no entanto, ainda precisará vencer resistências na sociedade civil antes de se tornar uma opção energética viável no país. A produção, considerada altamente arriscada para o meio ambiente e com conseqüências sociais e econômicas nefastas que só agora começam a ser mensuradas em países como Estados Unidos, Argentina e França, sofre no Brasil a oposição de entidades representativas dos setores sindical, socioambiental e sanitário.

Logo após a 12ª Rodada de Licitações, o Ministério Público Federal entrou com uma ação civil pública com o objetivo de anular os efeitos do leilão. Paralelamente, organizações que já haviam tentado obter liminares na Justiça para cancelar o leilão antes que fosse realizado, como a Federação Nacional dos Petroleiros, prometem ingressar com novas ações, pedindo agora que a rodada seja anulada: “Exigimos uma moratória da exploração nestas áreas arrematadas no leilão para que possa haver uma ampla discussão com a sociedade, com os ambientalistas e com os próprios moradores das áreas de exploração, que serão afetados”, diz Emanuel Cancela, que é secretário-geral da FNP e também do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (Sindipetro).
 
Presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária (Abes), outra organização que pediu publicamente que o leilão para exploração de gás de xisto não se realizasse, Dante Ragazzi Pauli afirma que essa opção energética não é um fato consumado: “O leilão feito pelo governo federal é apenas uma etapa. Agora, os vencedores têm um prazo para realizar estudos mais detalhados acerca da viabilidade técnica, econômica e ambiental da exploração do gás de xisto. Nós entendemos que isso deveria ter sido feito antes do processo, para que a gente conhecesse melhor os estudos de impacto ambiental. O que temos de fazer agora, já que uma parte do processo foi vitoriosa, é ver de que forma poderemos acompanhar os estudos que devem ser feitos daqui pra frente. É importante que se dê à sociedade brasileira a chance de acompanhar”, diz.
 
A Abes questiona, sobretudo, o arriscado método de produção do gás de xisto, conhecido como fraturamento do solo ou, no termo em inglês, fracking: “O problema são as técnicas utilizadas para a extração do gás, é a metodologia que requer a fratura da rocha. Após explodir a rocha, é utilizada uma enorme quantidade de água com milhares de produtos químicos para liberar o gás. Não se conhece ainda ao certo o risco trazido pela injeção dessa água misturada no subsolo, o risco de se contaminar aqüíferos freáticos. É isso o que a gente quer discutir, e que entende que deveria ter sido discutido antes do processo do leilão. Senão, acontece como na França: você começa, depois vê que tem impacto e proíbe. Para que isso?”, questiona Pauli.
 
Os métodos de extração do gás de xisto também são condenados pelos petroleiros: “A produção do gás e do petróleo de xisto é bastante perigosa, e o processo de fraturamento das rochas não é seguro. Injeta-se produtos químicos que podem contaminar os nossos rios e lagos, ameaçar a fauna e a flora. Nós temos o exemplo, na Argentina e no Texas (EUA), de mortandade de animais, de água da torneira pegando fogo”, enumera Emanuel Cancela.
 
Aqüífero Guarani
O alerta contra o gás de xisto é dado também por ambientalistas. Ex-secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Liszt Vieira - que, como presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) durante dez anos, também foi um dos responsáveis pela execução dos compromissos ambientais assumidos internacionalmente pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff - alerta que a exploração do gás de xisto pode jogar por terra parte do prestígio acumulado pelo Brasil nos últimos anos na seara ambiental. Uma das ameaças que teria impacto internacional, ressalta Liszt, seria a contaminação do Aqüífero Guarani, já que 16 áreas arrematadas para exploração de gás de xisto estão situadas na Bacia do Paraná, exatamente em cima do aqüífero.
 
“A contaminação do Aqüífero Guarani, considerado o maior do mundo, é um risco concreto, e seria sem dúvida uma catástrofe ecológica de impacto internacional. A ANP autorizou o fraturamento do Folhelho Irati, no Paraná, mas essa rocha está situada a apenas centenas de metros abaixo do aqüífero. Nós sabemos que pelo menos metade da água injetada no subsolo à grande pressão acaba retornando à superfície, carregada de metais pesados e centenas de aditivos químicos. Trata-se de um desastre anunciado”, diz Liszt, lembrando ainda que “o Brasil é signatário de protocolos internacionais que exigem a adoção do princípio da precaução”.
 
Pré-sal
Os críticos ao início da produção de gás de xisto no Brasil afirmam ainda que essa opção é um “tiro no pé” da economia brasileira, já que, em médio prazo, tende a fazer baixar o preço do petróleo e, conseqüentemente, diminuir o valor econômico das reservas de óleo e gás brasileiras situadas no pré-sal: “A regra no mundo é que só utiliza essa produção quem não tem petróleo, o que não é o caso do Brasil. Nós temos imensas reservas de petróleo, inclusive do pré-sal. Então, achamos que será precipitado, além de não favorecer ao nosso povo, se começarmos a produzir petróleo e gás de xisto”, diz Cancela.
 
Para o secretário-geral da FNP, o governo brasileiro cede a pressões externas pelo aumento da produção de gás de xisto: “A presidente Dilma e a ANP estão na contramão da história da geopolítica de petróleo. Estão simplesmente cedendo à pressão, principalmente dos Estados Unidos e da China, que têm interesse em implementar a produção de gás de xisto para baratear o custo do petróleo. Se o preço cair, isso vai nos prejudicar”.
 
Apesar das preocupações com um eventual prejuízo econômico ao pré-sal, caberá à Petrobras o controle do processo nesse início de exploração de gás de xisto no Brasil. Do total de 72 blocos negociados, a estatal brasileira arrematou, sozinha ou em parceria, 49 blocos. O total de áreas de exploração arrematadas representa apenas 30% dos 240 blocos, espalhados por sete bacias, que foram a leilão durante a 12ª Rodada de Licitações promovida pela ANP. Surpreendentemente, não houve nenhuma oferta para os 32 blocos ofertados na Bacia do São Francisco (espalhados por Minas Gerais, Goiás, Bahia e Tocantins) ou para os 14 blocos da Bacia do Parecis (localizadas em Mato Grosso e Rondônia): “O resultado foi dentro do esperado. Estamos abrindo no Paraná uma nova fronteira para a exploração de gás no Brasil”, resuma a diretora-geral da ANP, Magda Chambriard.
 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

SLAVOJ ZIZEK COMENTANDO OS IMPASSES POLÍTICOS NOS EUA


Saiu (há um mês) na Carta Maior.

Zizek: "Quem são os responsáveis pela paralisia do governo nos EUA? Os mesmos idiotas responsáveis pela crise de 2008"

Ao fazer oposição ao Obamacare, a direita populista-radical expõe as distorções de sua própria ideologia. Texto de Slavoj Zizek


.Slavoj Zizek

Em abril de 2009 eu estava descansando num quarto de hotel em Syracuse, alternando entre dois canais: um documentário da PBS sobre Pete Seeger, o grande cantor americano de música country da esquerda; e uma reportagem da Fox News sobre o anti-tributário Tea Party, com um cantor de música country apresentando uma canção populista sobre como Washington está tributando os cidadãos comuns e trabalhadores para financiar os financistas de Wall Street. Havia uma estranha similaridade entre os dois cantores: ambos articulavam acusações anti-estabilishment e populistas contra os ricos exploradores e seu Estado; ambos clamavam por medidas radicais, incluindo a desobediência civil.

Era mais uma lembrança dolorosa de como os atuais populistas-radicais de direita nos fazem recordar dos antigos populistas-radicais de esquerda (os grupos cristãos sobrevivencialistas-fundamentalistas de hoje, com sua situação de semilegalidade, não são organizados como os Panteras Negras na década de 1960?). É uma manipulação ideológica magistral: a pauta do Tea Party é fundamentalmente irracional, já que ela pretende proteger os interesses dos trabalhadores comuns ao privilegiar os “exploradores ricos”, portanto contrariando os seus interesses.
A ideologia distorcida também está por trás da atual paralisia do governo federal nos EUA. Uma pesquisa de opinião no final de junho de 2012 demonstrou que a maioria dos americanos, embora se opusesse ao Obamacare, apoiava de maneira contundente a maior parte de suas provisões. Eis que encontramos a ideologia do Tea Party em sua forma mais pura: a maioria quer ter o seu bolo ideológico, mas quer comer o doce de verdade. Eles querem os benefícios concretos de uma reforma no sistema de saúde, ao passo que rejeitam seu formato ideológico, que é visto como uma ameaça à “liberdade de escolha”. Eles rejeitam o conceito de fruta, mas eles querem maças, ameixas e morangos.
 
Alguns devem se lembrar dos esforços comunistas contra a liberdade burguesa “formal”. Por mais ridícula que fosse essa argumentação, há um fundo de verdade nessa distinção entre a liberdade “formal” e a “real”. Um gerente numa empresa em crise tem a “liberdade” para demitir funcionários, mas não a liberdade para mudar a situação que impõe a ele suas escolhas. Nós acompanhamos isso, também, na discussão sobre o sistema de saúde americano: o Obamacare entregaria a várias pessoas a “liberdade” questionável de se preocuparem com quem cobriria suas enfermidades.
 
Liberdade de escolha é algo que só funciona com a existência de uma complexa rede de condições legais, educacionais, éticas e econômicas – limitações que formam o alicerce invisível para o exercícios da nossa liberdade. É por isso que, como antídoto à ideologia populista da direita pró-escolha, países como a Noruega deveriam ser ressaltados como um modelo: apesar de todos os principais agentes respeitarem um acordo acordo social básico, e de grandes projetos sociais serem promulgados em solidariedade, a economia está prosperando (e não apenas por causa das reservas de petróleo), contradizendo peremptoriamente o senso comum de que uma sociedade como esta estaria estagnada.
 
Não são muitos os que sabem – e poucos ainda apreciam a ironia do fato – de que a icônica música de Frank Sinatra, My Way (Minha maneira, em tradução livre) – que supostamente sintetiza a postura individualista americana – é na verdade uma versão da canção francesa Comme d'Habitude, que significa “como sempre, como de hábito”. É muito fácil enxergar isso como outro exemplo da oposição entre a esterilidade dos hábitos franceses e a inventividade americana. Mas e se essa for uma oposição falsa? E se, para que eu possa fazer as coisas do meu jeito, precisar contar que as coisas caminhem comme d'habitude? Muitas coisas precisam ser reguladas se nós quisermos desfrutar da nossa liberdade sem regulações.
 
Frequentemente ouvimos que a paralisia do governo dos EUA é resultado de brigas partidárias, que os políticos deveriam se colocar acima disso e encontrar solução bipartidárias para o bem da nação. Não apenas o Tea Party, mas Barack Obama também é acusado de dividir a população americana em vez de a unir. Mas se isso, precisamente, for uma qualidade positiva de Obama? Em situações de crise profunda, uma divisão autêntica é urgentemente necessária: uma divisão entre aqueles que querem se arrastar dentro dos antigos parâmetros e aqueles que estão atentos à necessidade de mudanças radicais. Este, e não o consenso oportunista, é o único caminho para a união verdadeira.

Uma das consequências bizarras da crise financeira de 2008 e das medidas tomadas para combatê-la (enormes somas de dinheiros para ajudar os bancos) foi a ressurgência da obra de Ayn Rand, o mais próximo que se pode chegar de uma ideóloga do capitalismo radical sustentado pela noção de que “a ganância é boa”. As vendas de sua maior obra, o livroQuem é John Galt? (Atlas Shrugged), dispararam. De acordo com alguns relatos, já há sinais de que o cenário descrito no livro – os próprios capitalistas criativos entrando em greve – pode se concretizar por via de uma direita populista.

Entretanto, essa é uma interpretação equivocada da situação: o que está de fato acontecendo atualmente é basicamente o oposto. A maior parte do dinheiro do resgate financeiro está indo precisamente para os heróis de Ayn Rand, os banqueiros que falharam em seus projetos “criativos” e nos conduziram à hecatombe financeira. Não são os “gênios criativos” que estão agora ajudando os cidadãos comum; são os cidadãos comuns que estão ajudando os “gênios criativos” fracassados.
 
John Galt, o personagem central do romance de Ayn Rand, não tem seu nome exposto até praticamente o fim da narrativa. Antes de sua identidade ser revelada, a pergunta é feita repetidamente: “Quem é John Galt?”. Agora nós sabemos exatamente quem ele é: John Galt é o idiota responsável pela crise financeira de 2008 e pela atual paralisia do governo americano.

O STF TAMBÉM APOIOU A ANISTIA DOS TORTURADORES E ASSASSINOS DA DITADURA

Saiu no Tijolaço.


ONU: posição do STF sobre Lei da Anistia é obstáculo à Justiça

2 de Dezembro de 2013 | 16:42 Autor: Fernando Brito
De hoje, no Estadãonavy:

ONU denuncia Lei de Anistia no Brasil como ‘obstáculo para Justiça’

Chefe da ONU para Direitos Humanos defende revisão do texto, visto como empecilho para julgar crimes como tortura
GENEBRA – A ONU denuncia a Lei de Anistia no Brasil como um “obstáculo” para a Justiça e alerta que o texto precisa ser revisto. O recado é da número 1 das Nações Unidas para Direitos Humanos, Navi Pillay(foto).  Em sua avaliação anual sobre direitos humanos e no momento que a ONU marca os 20 anos da Cúpula de Direitos Humanos, a sul-africana fez questão de apontar para o fato de que os trabalhos da Comissão da Verdade precisam ser fortalecidas no Brasil. Mas alerta que o trabalho do grupo não será suficiente.
“Casos precisam ser levados para a Justiça”, declarou a alta comissária, em uma coletiva de imprensa na manhã desta segunda-feira, 2, na sede da ONU em Genebra.
O impasse, como todos sabem, vem da decisão do Supremo Tribunal Federal de considerar que a anistia apagou também os crimes de Estado, as torturas e os assassinatos políticos.
Seguimos envergonhados perante o mundo como um país onde, mesmo tendo sido assinados tratados em que a tortura é definida crime imprescritível, o Poder Judiciário não teve coragem de abrir os armários da ditadura e responsabilizar, ainda que mesmo só moralmente, aqueles que praticaram a mais torpe covardia contra seres humanos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

VEJA MARCOS COIMBRA EM ARTIGO NA CARTA CAPITAL SOBRE O "MENSALÃO" E BARBOSA

Conversa Afiada reproduz da Carta Capital artigo irretocável – e implacável – de Marcos Coimbra:  

BARBOSA E O VIÉS AUTORITÁRIO


Quem lida com pesquisa de opinião vê o aumento do número de eleitores que dizem odiar algo ou tudo na política


A figura de Joaquim Barbosa faz mal à cultura política brasileira. Muito já se falou a respeito de como o atual presidente do Supremo conduziu o julgamento da Ação Penal 470, a que trata do “mensalão”. Salvo os antipetistas radicais, que ficaram encantados com seu comportamento e o endeusaram, a maioria dos comentaristas o criticou.

Ao longo do processo, Barbosa nunca foi julgador, mas acusador. Desde a fase inicial, parecia considerar-se imbuído da missão de condenar e castigar os envolvidos a penas “exemplares”, como se estivesse no cumprimento de um desígnio de Deus. Nunca mostrou ter a dúvida necessária à aplicação equilibrada da lei. Ao contrário, revelou-se um homem de certezas inabaláveis, o pior tipo de magistrado.     

Passou dos limites em seu desejo de vingança. Legitimou evidências tênues e admitiu provas amplamente questionáveis contra os acusados, inovou em matéria jurídica para prejudicá-los, foi criativo no estabelecimento de uma processualística que inibisse a defesa, usou as prerrogativas de relator do processo para constranger seus pares, aproveitou-se dos vínculos com grande parte da mídia para acuar quem o confrontasse.

Agora, depois da prisão dos condenados, foi ao extremo de destituir o juiz responsável pela execução das penas: parece achá-lo leniente. Queria dureza.

Barbosa é exemplo de algo inaceitável na democracia: o juiz que acha suficientes suas convicções. Que justifica sua ação por pretensa superioridade moral em relação aos outros. E que, ao se comportar dessa forma, autoriza qualquer um a pegar o porrete (desde que se acredite “certo”).

Sua figura é negativa, também por um segundo motivo.

Pense em ser candidato a presidente da República ou não, Barbosa é um autêntico expoente de algo que cresceu nos últimos anos que pode se tornar um grave problema em nossa sociedade, o sentimento de ódio na política.

Quem lida com pesquisas de opinião, particularmente as qualitativas, vê avolumar-se o contingente de eleitores que mostram odiar alguma coisa ou tudo na política. Não a simples desaprovação ou rejeição, o desgostar de alguém ou de um partido. Mas o ódio.

É fácil constatar a difusão do fenômeno na internet, particularmente nas redes sociais. Nas postagens a respeito do cotidiano da política, por exemplo sobre a prisão dos condenados no “mensalão”, a linguagem de muitos expressa intenso rancor: vontade de matar, destruir, exterminar. E o mais extraordinário é que esses indivíduos não estranham suas emoções, acham normal a violência.   
Não se espantam, pois veem sentimentos iguais na televisão, leem editorialistas e comentaristas que se orgulham da boçalidade. Os odientos na sociedade reproduzem o ódio que consomem.

Isso não fazia parte relevante de nossa cultura política até outro dia. Certamente houve, mas não foi típico o ódio contra os militares na ditadura. Havia rejeição a José Sarney, mas ninguém queria matá-lo. Fernando Collor subiu e caiu sem ser odiado (talvez, apenas no confisco da poupança). Fernando Henrique Cardoso terminou seu governo reprovado por nove entre dez brasileiros, enfrentou oposição, mas não a cólera de hoje.    

O ódio que um pedaço da oposição sente atualmente nasce de onde? Da aversão (irracional) às mudanças que nossa sociedade experimentou de Lula para cá? Do temor (racional) que Dilma Rousseff vença a eleição de 2014? Da estupidez de acreditar que nasceram agora problemas (como a corrupção) que inexistiam (ou eram “pequenos”)? Da necessidade de macaquear os porta-vozes do conservadorismo (como acontece com qualquer modismo)?

Barbosa é um dos principais responsáveis por essa onda que só faz crescer. Consolidou-se nesse posto nada honroso ao oferecer ao País o espetáculo do avião com os condenados do “mensalão” rumo a Brasília no dia 15 de novembro. Exibiu-o  apenas para alimentar o ódio de alguns.

A terceira razão é que inventou para si uma imagem nociva à democracia. O papel que encena, de justiceiro implacável e ferrabrás dos corruptos, é profundamente antipedagógico.

Em um país tão marcado pelo personalismo, Barbosa apresenta-se como “encarnação do bem”, mais um santarrão que vem de fora da política para limpá-la. Serve apenas para confirmar equívocos autoritários e deseducar a respeito da vida democrática.

UM POUCO DE DIVER-SUBVERSÃO

Vejam o que recebi:

Menino , razões para recusar o convite da patroa. Menina, não  insista em convidar, poderá acontecer o que abaixo está descrito .  Um abraço, Eder.




Aí...
Me identifiquei tanto com esse pobre marido...
.
Porque as mulheres não devem levar os maridos para as compras...

Depois que me aposentei, minha mulher insiste que eu a acompanhe às compras. Coisa que eu acho muito chato e fico inventando formas de passar o tempo. E a minha mulher fica horas fazendo compras. Resultado: ontem, minha querida esposa recebeu a seguinte carta do supermercado EXTRA:
.
"Cara Sra. Souza,
Durante os últimos seis meses, seu marido tem causado grandes transtornos em nossa loja. Não podemos mais tolerar seu comportamento e portanto somos obrigados a proibir sua entrada. Nossas queixas contra seu marido estão listadas abaixo e documentadas por meio de nossas câmeras do circuito interno de vigilância.
1. 15/Junho: Pegou 24 caixas de preservativos e colocou-as nos carrinhos de compra de outros consumidores enquanto não prestavam atenção.
2.. 02/Julho: Acertou TODOS os alarmes da seção de relógios para tocarem a intervalos de 5 minutos.
3. 07/Julho: Fez uma trilha de molho de tomate pelo chão da loja indo até o banheiro feminino.
4. 19/Julho: Dirigiu-se a uma funcionária e disse em tom oficial: “Código 3 na seção de Utilidades Domésticas. Dirija-se imediatamente para lá?” Isto fez com que a funcionaria abandonasse seu posto e fosse repreendida pelo gerente, o que resultou em um grave incidente com o sindicato dos empregados.
5. 14/Agosto: Moveu o aviso de: Cuidado! Piso Molhado! para a seção de carpetes.
6. 15/Agosto: Disse para as crianças que acompanhavam os clientes que elas poderiam brincar nas barracas da seção de camping se trouxessem travesseiros e cobertores da seção de cama, mesa e banho.
7. 23/Agosto: Quando um funcionário perguntou se ele precisava de alguma ajuda, ele começou a chorar e gritar: “Porque vocês não me deixam em paz??” O resgate foi chamado.
8. 04/Setembro: Usou uma de nossas câmeras de segurança como espelho para tirar tatu do nariz.
9. 10/Setembro: Enquanto examinava armas no departamento de caça, perguntava insistentemente à atendente onde ficavam os anti-depressivos.
10. 03/Outubro: Movia-se pela loja de forma suspeita, enquanto cantarolava alto o tema do filme “Missão Impossível”.
11. 06/Outubro: No departamento automotivo, ficou imitando o gestual da Madonna usando diferentes tamanhos de funis.
12. 18/Outubro: Escondeu-se atrás de um rack de roupas e quando as pessoas procuravam algum artigo, gritava: “Você me achou, você me achou!”
13. 21/Outubro: Cada vez que era dado algum aviso no sistema de som da loja, colocou-se em posição fetal e gritava: “Ah não, aquelas vozes de novo!”
E por fim:
14. 23/Outubro: Foi a um dos provadores, fechou a porta, esperou um momento e então gritou: “Ei, não tem papel higiênico aqui?” Uma de nossas atendentes desmaiou.”

BARBOSA E A OPOSIÇÃO DE DIREITA

Saiu no Escrevinhador:

Aécio despenca e Dilma volta a crescer; mas “Operação Barbosa” também avança

publicada domingo, 01/12/2013 às 23:30 e atualizada domingo, 01/12/2013 às 23:59
Qual a cara da oposição em 2014?
por Rodrigo Vianna

A semana que passou trouxe dois petardos contra a candidatura presidencial de Aécio Neves (PSDB). Um veio do céu: o helicóptero apreendido com 450 quilos de pasta de cocaína gerou muita tensão entre os tucanos de Minas. Emissários de Aécio procuraram gente de todas as legendas, inclusive de partidos aliados de Dilma, pedindo que o caso não fosse explorado na guerra política. O deputado estadual Perrelinha e o pai dele, senador Perrela, são muito próximos de Aécio. O mais novo (Perrelinha) integraria o círculo de jovens festeiros (mais festeiros do que jovens) que costumam se reunir em torno do presidenciável tucano. Não é à toa que a mídia velhaca tenha tratado o caso do “helipóptero” com extrema discrição: sabe-se do potencial destrutivo dessa história contra o homem que hoje é o líder (cada vez mais enfraquecido) da oposição.

A outra má notícia para Aécio veio das pesquisas eleitorais. O “DataFolha” mostrou uma candidatura frágil, a tal ponto que Joaquim Barbosa ficou à frente de Aécio numa das simulações feitas pelo instituto.

Curioso: o “DataFolha” testou o nome de Barbosa apenas no cenário com Aécio e Campos.Mas não testou Barbosa ao lado de Serra. Hum… O presidente do STF ultrapassaria também Serra? Não sabemos. A “Folha”, aparentemente, contentou-se em constranger Aécio; mas livrou a cara de Serra – velho amigo do jornal da Barão de Limeira.

Ligações e hábitos perigosos
A pesquisa cai como uma luva para as pretensões serristas. Gera mais desconfiança nas hostes tucanas com o nome de Aécio. Valeria a pena insistir com ele? Não seria melhor mandar Aécio cuidar do quintal político em Minas, deixando a candidatura presidencial tucana com Serra? E a apreensão do “helipóptero” aponta na mesma direção: não seria arriscado ter como candidato um homem com tanto telhado de vidro?

A pesquisa do “DataFolha” é, também, o segundo passo da Operação Barbosa, desencadeada em 15 de novembro (sobre isso, escrevemos aqui). Ah, mas Barbosa aparece com “apenas” 15% dos votos no levantamento – e isso depois de semanas de exposição favorável na mídia, assumindo o papel de “justiceiro” do Brasil. Não é pouco? Não. 15% não é pouco. Barbosa, a essa altura, está exatamente do tamanho que interessa à oposição. 15% são mais do que suficientes como isca para o egocentrismo de Barbosa…

Claro que, numa campanha, Barbosa seria submetido ao contraditório, teria expostos seus telhados de vidro – que não são poucos. Mas quem disse que isso é um problema? Para o complexo tucano-midiático, Barbosa não surge como solução para “ganhar”. Basta justamente que ele tenha 15% a 20% dos votos. O justiceiro do STF pode cumprir exatamente o papel que coube a Marina em 2010: diante da pancadaria que se avizinha entre tucanos e petistas, os votos que o PSDB (com a máquina de boatos que conhecemos em 2010) conseguir retirar de Dilma não precisam ir para Serra (ou, vá lá, Aécio) num primeiro turno. Barbosa pode ser a Marina de 2014, ajudando a empurrar a eleição para um segundo turno…

Por isso, se a semana foi péssima para Aécio, ela foi apenas aparentemente boa para Dilma. A candidata petista voltou a subir no “DataFolha”, estaria perto de vencer num primeiro turno. Números enganosos. 2014 nos guarda uma campanha suja e duríssima: quem monitora as redes sociais sabe que se planeja nova onda de manifestações para a época da Copa. O quadro está longe de ser estável para Dilma.

A oposição não tem programa? Ora, o programa é terror eleitoral, moralismo barato e uma pitada de desordem nas ruas. Barbosa serviria como válvula de escape, para colher parte dos votos dos “indignados” e “apolíticos”.

Marcos Coimbra, na “CartaCapital” esta semana, revela que as pesquisas qualitativas apontam crescimento assustador do contingente de eleitores que rejeitam “tudo que está aí”. Parte desses “indignados” pode se dirigir a uma candidatura “por fora” do meio político – bem trabalhada pela mídia.

A essa altura, Aécio naufraga e Dilma tem um leve favoritismo. Mas o quadro está longe de ser estável. E a eleição, muito longe de estar decidida em favor da petista.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Encontrei FHC uma vez, quando só havia ARENA e MDB, em torno de 1978, na chácara de Manoel Gomes, jornalista misto de líder empresarial e na época ativista pela redemocratização do Brasil. Conversamos ligeiramente. Minha impressão foi negativa: pareceu-me esnobe e arrogante. Creio que votei nele (para senador?), por falta de coisa melhor na época. 

Anos antes, em plena vigência das torturas e assassinatos da ditadura, eu havia lido um artigo de FHC publicado no Estadão, tão conciliador que me causou repulsa, ainda mais pelo contraste em relação à atitude de, por exemplo, Ulisses Guimarães. Quem aprecia esse senhor, que se regale.

O artigo abaixo vem do Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães:



Príncipe da privataria e imperador do cinismo


Rameira! Ponha-se daqui pra fora!

O escritor Palmério Dória não poderia ter sido mais feliz ao iniciar o best-seller “O Príncipe da Privataria” (Geração Editorial) com o relato da expulsão da jornalista da Globo Miriam Dutra do gabinete do então senador Fernando Henrique Cardoso, no início dos anos 1990, quando ele se preparava para disputar a Presidência da República pela primeira vez.
Dória sabia que sua obra deveria mostrar, para começo de conversa, o caráter de seu protagonista. E nada melhor para mostrar o caráter de um homem do que uma situação em que é colocado diante de sua responsabilidade na concepção de um filho.
FHC agiu da forma mais vil que um homem pode agir com uma mulher: além de fugir da própria responsabilidade pela concepção de uma nova vida, ainda humilhou aquela a quem, quando o desejo carnal falou mais alto, por certo não tratou de “rameira” nem expulsou da alcova em que foi inseminada.
A conduta reveladora de FHC, imortalizada por Dória, coaduna-se à perfeição com o seu último artigo nos jornais O Estado de São Paulo e O Globo, os quais lhe dão espaço todo início de mês. Seu texto revela, acima da falta de caráter, um cinismo quase sobrenatural.
Se existe um político que não poderia criticar uso de dinheiro público para comprar parlamentares, esse alguém é Fernando Henrique Cardoso. O livro “Príncipe da Privataria” mostra, sem deixar dúvida (a quem tiver uma réstia de honestidade intelectual), que, na pior das hipóteses, o ex-presidente teve o domínio do fato da compra de votos de parlamentares para que aprovassem a emenda constitucional que lhe permitiu disputar a própria sucessão.
FHC não nega que votos tenham sido comprados – quem não souber disso, que se informe. Já deu várias entrevistas em que reconhece que “alguém” comprou deputados para que votassem a favor de sua reeleição. Até a CNBB denunciou isso, à época – e antes da denúncia pela Folha de São Paulo. Mas ele diz que “não sabia” de nada.
Ganha um exemplar de “O Príncipe da Privataria” quem postar aqui o link de uma coluna, de um artigo ou de um editorial de algum grande meio de comunicação em que o “não sabia” de FHC tenha sido ironizado como foi, tantas vezes, o de Lula ao negar que soubesse do mensalão.
Nunca houve uma única prova material que tornasse inquestionável a acusação ao PT de que “comprou” deputados para aprovar matérias de interesse do governo Lula. Os membros do partido que hoje mofam em uma masmorra qualquer no Planalto Central foram condenados pela “verossimilhança” que ministros do STF viram na acusação.
Com a compra de votos para a reeleição de FHC, foi muito diferente. Havia abundância de provas de que os votos foram comprados, sendo a principal um conjunto de gravações de deputados governistas confessando que foram corrompidos por 200 mil reais cada um para votarem a favor da emenda da reeleição.
Era o tempo do engavetador-geral da República, o ex-procurador-geral da República Geraldo Brindeiro, nomeado por FHC e que, ao longo de oito anos, nunca incomodou o governo ao qual prestou serviços – infringindo a lei, diga-se.
Isso não impediu que FHC escrevesse, nesse último artigo, acusações aos adversários petistas de terem feito aquilo que ele diz que não fez, mas que a teoria do domínio do fato, tal como foi usada pelo Supremo, diria que só pode ter feito, pois não se imagina que alguém cometa um crime para favorecer a outrem desinteressadamente e sem que o favorecido saiba de nada.
E se algum defensor do tucano disser que, se é assim, Lula também teria que “saber”, engana-se:  o mensalão não beneficiaria o ex-presidente petista pessoalmente, mas a compra de votos de FHC foi um benefício pessoal para ele e só para ele, pois poderia ter feito como Lula e elegido algum “poste” para continuar sua “obra”, mas seu projeto de poder era pessoal.
Sobre o artigo de FHC em questão, no entanto, há pouco mais que dizer. Sob o ridículo título “Sinais alarmantes”, apenas escancara seu cinismo sobrenatural enquanto tenta construir um risco qualquer para a democracia que haveria em seus adversários simplesmente fazerem política.
O primeiro parágrafo dessa peça lamentável resume tudo:

“Finalmente fez-se justiça no caso do mensalão. Escrevo sem júbilo: é triste ver na cadeia gente que em outras épocas lutou com desprendimento. Estão presos ao lado de outros que se dedicaram a encher os bolsos ou a pagar suas campanhas à custa do dinheiro público”

Só esse parágrafo basta para ilustrar a falta de caráter de alguém que, se tivesse ao menos um pingo de decência, trataria de se fechar em copas, de não apontar o dedo para quem, no máximo – mesmo acedendo à tese farsesca de que o PT compraria os próprios deputados –, pode ter feito o que ele mesmo fez. Só que sem as provas que abundam contra si.
Mas o que esperar de um homem que, sob insultos pesados, expulsa a mulher que inseminou ao ser comunicado por ela de que o ato que praticaram gerou um fruto? A falta de caráter desse sujeito não precisava desse artigo deplorável em que, além de “príncipe” da roubalheira de patrimônio público, confirmou ser o imperador do cinismo.
Datafolha
Enquanto a mídia e o PSDB continuarem apostando no mensalão para convencer os brasileiros a votarem como querem, o PT pode ficar tranquilo. Só FHC e os barões da mídia seus amigos acreditam que alguém dará bola à tese maluca de que só petistas merecem estar na cadeia.
Como diz o novo marqueteiro do PSDB – ao qual o partido e seu aparato midiático teimam em não dar bola –, o mensalão não lhes dará um único voto.
Só existe um meio de o PSDB ou qualquer outro impedir a reeleição de Dilma Rousseff: há que convencer o eleitorado de que (1) sua vida vai mal e de que (2) pode-se fazer melhor do que está sendo feito. Do contrário, o conservadorismo brasileiro vai manter tudo como está.