Tratamos dos designados comentadores que invadiram os media,
impedindo que na opinião pública a realidade e o raciocínio claro se
estabeleçam. Há exceções, mas são raras e difíceis de encontrar, como
trevos de quatro folhas...
1 – Voltámos à escolástica
A escolástica caracteriza-se pelo estabelecimento de dogmas
“universais e perpétuos” (tal como a “ordem internacional baseada em
regras” e o “fim da história”) a partir dos quais a realidade tinha de
ser entendida e conformada. O saber último estava contido em Platão e
Aristóteles, adaptados ao cristianismo pelos “doutores da Igreja”. A
sapiência era avaliada pela qualidade dos comentários às citações dos
mestres, a problemas reais ou imaginários de acordo com os dogmas e
dentro das regras instituídas.
Era nesta ortodoxia que o poder da Igreja e da monarquia feudal
se baseavam. Tentar alterar esta “ordem”, assumida como de origem
divina, ficava-se sujeito à repressão pelas Inquisições, de que são
exemplo Giordano Bruno, levado à fogueira, Galileu, obrigado a
desdizer-se e remetido ao silêncio ou a cruzada contra os cátaros (sul de França) no século XII.
As semelhanças com o que se passa no ocidente são evidentes. Existe
um padrão imutável – as “regras” e o “Consenso de Washington” a partir
do qual se analisa a realidade. Os argumentos devem basear-se nos dogmas
e postulados emanados pelo poder hegemónico, todos os raciocínios
deverão ter como objetivo reforçar a sua autoridade e poder, cuja
fragilidade se torna evidente ao depender cada vez mais da propaganda.
Para isto contam com comentadores que se esforçam por parecer
superiormente sapientes, mas nunca tocando nos interesses da oligarquia.
O que sai fora dos dogmas neoliberais é dado como herético, blasfemo.
As causas que originam e agravam as crises não são averiguadas, apenas
se tergiversa sobre a conformidade às sacrossantas "regras".
O seu papel é semelhante ao dos cortesãos feudais, aconselhando
os senhores a mudarem alguma coisa, mas sempre no interesse destes. O
jornalismo independente foi varrido pela precariedade e pelo
mercenarismo de comentadores- propagandistas. O discurso não pode sair
dos temas promovidos pelas centrais de (des)informação a nível
internacional. Apenas três agências globais de notícias, em Nova York,
Londres e Paris, fornecem no essencial a cobertura dos acontecimentos
internacionais para os grandes media. Os mesmos temas são tratados da
mesma forma usando as mesmas palavras.
Um estudo da Swiss Propaganda Research
sobre a guerra na Síria em nove principais jornais europeus mostrou que
78% de todos os artigos foram baseados no todo ou em parte em
relatórios de agências, 0% em investigação; 82% de todas as opiniões e
entrevistas eram a favor de uma intervenção dos EUA e da NATO.
Referências ao lado oposto eram sempre mencionadas como propaganda.
Existe uma política repressiva sobre os que olham a realidade
sem dogmas. Uma “inquisição” omnipresente, oprimindo o jornalismo
independente. Os comentadores não precisam provar a consistência das
suas afirmações, sejam de âmbito militar, económico, geopolítico, apenas
têm de seguir a linha ditada pelo imperialismo. Aliás nunca serão
sujeitos a contraditório ou confrontados com o que disseram antes – nem
mesmo seriam contratados se dissessem outra coisa.
O que se lhes pede é que repitam as estratégias do hegemónico,
para que as pessoas não pensem de outro modo. Uma mistura de ilusões e
propaganda, organizada pelas agências de notícias e serviços secretos,
quase sempre à margem da simples lógica, destinadas a manter os povos
ocidentais sob controlo perante as dificuldades que enfrentam em
resultado das decisões suicidas dos EUA e UE/NATO.
2 – Linguagem
A linguagem é um fenómeno social,
a cada palavra, a cada expressão, corresponde uma ideia, assim, quem
controla a linguagem controla as ideias. Segundo o marxismo, os
interesses das diversas classes sociais não são indiferentes ou
independentes da linguagem procurando utiliza-la em proveito próprio,
expondo com um léxico próprio as suas prioridades, os seus interesses.
Controlar o sentido das palavras é portanto controlar o
pensamento, controlar a perceção das pessoas sobre a realidade, dar às
questões que se colocam na sociedade o sentido pretendido por quem a
domina e impedindo que se estabeleçam as que se lhe opõem. Nisto se
insere a propaganda, um dos aspetos da linguagem, vulgarizando ideias
que determinam comportamentos.
Expressões correntes, como as “reformas estruturais”,
intensamente repetidas, são eufemismos que mascaram a realidade,
funcionando como fórmulas de conteúdo mágico ou dogmas, para serem
aceites sem que se proceda ao seu exame.
Acusam-se os sindicatos de serem "um poder não escrutinado",
"não se sabe quem representam". Para a direita, a contratação coletiva, é
de facto uma "imperfeição" no "paraíso" neoliberal! Porém nada os
incomoda, muito pelo contrário, que os burocratas da UE e os lóbis,
sejam um poder não escrutinado e também não se queira saber quem
representam.
“É necessário desenvolver o princípio da confiança nos negócios
privados, arredando da gestão económica o Estado intrusivo e
dirigista”. “Combater o despesismo nos serviços de saúde, na educação,
na cultura, nos transportes públicos e permitir a liberdade de escolha”.
Significa, saúde, ensino, cultura, para quem puder pagar. Quanto à
cultura, que deveria servir para a difusão do humanismo, foi entregue à
disseminação de subprodutos importados das transnacionais do sector ou
seus sucedâneos.
A linguagem geopolítica segue padrões bem definidos pelos
EUA/NATO que as agências de notícias globais difundem: “o ditador XI”,
“as ameaças de Putin”, “as provocações do Irão”, “NATO preocupada”, etc.
O ocidente coletivo nunca comete crimes de guerra: mesmo que as suas
bombas caiam em escolas, hospitais, civis inocentes, são “danos
colaterais”. Os comentadores podem às vezes fazer um ar compungido –
quando não aplaudem com triunfalismo – mas a culpa é sempre das vítimas.
Foi o que ocorreu nos crimes cometidos pela NATO contra a Jugoslávia, o
Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria ou por Israel contra o Líbano e
a Palestina, mesmo antes de 7 de outubro.
“Levar a liberdade e a democracia” ao Médio Oriente ou a
qualquer outra parte do mundo, significa que um governo que prejudica os
interesses das transnacionais está sujeito a ingerência visando o seu
derrube, se necessário desencadeando ações de guerra, procurando tornar o
país disfuncional e caótico. “Mais Europa”, significa mais burocracia,
mais austeridade, mais desigualdades, menos soberania. “Liberalizar os
mercados de trabalho” significa medidas que provocarão mais desemprego,
pobreza, desigualdades. O comum das pessoas não pode saber que o
desemprego resulta de procura insuficiente e da falta de investimento,
consequência de sistemas financeiros dedicados à especulação,
beneficiando da livre circulação de capitais sem tributação para
paraísos fiscais.
Ferozes ditaduras sanguinárias dos Duvalier, Trujillo, Somoza,
Videla, Pinochet, aos Mobutu, Idi Amín, Suharto, nunca sofreram sanções,
raramente foram objeto de críticas nos media, pois na realidade não
punham em causa – pelo contrário – a economia de mercado e as “regras”
imperiais. Em contrapartida, sociedades livres e democráticas, que
defendem a sua soberania e praticam uma democracia não oligárquica, como
Cuba, foram e são sistematicamente atacadas nos media.
A propaganda é necessária a qualquer sistema de ideias
políticas, religiosas, mesmo científicas, e não vale a pena os puristas
escandalizarem-se. A questão, para além da forma da divulgação, é o seu
conteúdo e em que sentido se exerce: a sua verdade, a conformidade com a
realidade, os princípios humanistas, a legítima defesa da soberania e
dos interesses populares. Aquilo a que se assiste nas nossas sociedades é
o uso da informação como propaganda dos objetivos imperialistas e
oligárquicos.
Circunscritos ao mundo das “regras” e da “democracia liberal”, a
aparência de debate democrático é mantida com o desenvolvimento dos
chamados “casos”, que durante semanas os media alimentam com aura de
escândalo político. Nestes processos os media facilmente se assumem como
justiceiros, influindo em certa opinião pública despolitizada, de forma
que as decisões de tribunais e as garantias democráticas estão desde
logo ultrapassadas e são dispensáveis. A Constituição está a mais e a
extrema-direita tem aqui terreno fértil para a sua demagogia. A
diabolização do que seja mesmo levemente progressista também faz parte
da agenda.
Que isto seja claro para os mais esclarecidos, compreende-se,
porém foi criada uma maioria, formatada no que vê nas televisões, que
quanto mais ignora da complexidade do real, mais se recusa reconhecer a
realidade – pior ainda, assume como inimigos os que a querem mostrar.
3 – Mentiras e propaganda
A manipulação começa pelo postulado que para a liberdade de
informação estar garantida os media devem, pertencer às oligarquias.
Contudo, escrevia em 1928 (estava a ditadura a ser instalada no pais) o
fundador da Seara Nova, Raul Proença: "Chama-se liberdade de
imprensa, o direito exclusivo que têm certos potentados ou certos
malfeitores, graças à sua fortuna ou às suas chantagens, de influir na
opinião do país".
A manipulação tem uma avaliação maniqueísta do bem e do mal, em
que os bons “têm preocupações” os maus “ameaçam”, os bons têm
“governos” “liberais”, os maus têm "regimes totalitários". Para que isto
passe sem entraves na UE/NATO foi instituída a censura à informação
proveniente da Rússia. Quanto à da China,Cuba, etc, verdades parciais
são formas camufladas da mentira.
Claro que a propaganda não ganha guerras, a realidade impõe-se
duramente, apesar da repetição dos mitos de Hollywood sobre a
invencibilidade dos EUA e de como os “maus” são perniciosos. A
desinformação pode ver o mundo através destas fantasias, mas a
capacidade do ocidente impor os seus interesses globalmente está a ser
posta em causa com os BRICS, a OCX, e agora também no mundo muçulmano,
etc.
O poder das oligarquias financeiras e transnacionais é mantido
com recurso à desinformação e manipulação dos problemas. Aos
comentadores cabe o papel de exorcizarem tudo o que se desvie das
“regras” ditadas pela hegemonia. O objetivo é que as pessoas (no dizer
de Espinoza) “conheçam apenas parcialmente coisas que se compõem de
muitos elementos e se ignorem as suas essências”, que permitiriam
analisar o fundamento dos seus problemas e concretizar a sua resolução.
As “notícias falsas” funcionam como uma extensão estrutural do
imperialismo. Mas não é difícil distinguir entre a propaganda e a
realidade. Basta comparar o que foi sendo dito ao longo do tempo, as
contradições, as inconsistências. Claro que é necessário ter memória,
sem memória não há associação de ideias nem, portanto, raciocínio
consistente. Isto exige esforço, mas para os media, educar é distrair –
do essencial.
A mentira de forma compulsiva conduz ao caos: é o que a
realidade nos mostra. Quando se atinge esta situação, repor a verdade
torna-se um esforço muitas vezes penoso, embora não inútil, dado que a
maioria das pessoas perderam a capacidade de reconhecer a verdade.
E nisto se inclui o apagamento da condenação à morte lenta de
Julian Assange, da perseguição a Chelsea Manning, a Edward Snowden que
se refugiou na Rússia em 2013, entre muitos outros. Nem um dos
comentadores, ou mesmo sindicato de jornalistas teve palavras de
solidariedade para com eles.
A oligarquia e o império necessitam que as pessoas aceitem as
guerras e a dominação com a crença que são uma necessidade para seu
“bem” (por exemplo contra o terrorismo ou as ameaças de Rússia, China,
etc). A propaganda tem sido de tal forma eficaz que gente pacífica,
amiga dos animais – até temente a Deus – aceita ou mesmo apoia a morte
de inocentes, a violência, a destruição.
4 – O elogio da ignorância
… ou da estupidez, dado que manter as pessoas na ignorância é
torná-las funcionalmente estúpidas. E isto é feito através da intriga
política mesquinha, mascarada de puritanismo contra a corrupção à
maneira da extrema direita, já que “todos os políticos são corruptos” –
menos eles.
O tom de indignado escândalo é destinado à emoção, desenvolve a
irracionalidade, abate o espírito crítico. Os media fazem disto a sua
agenda, escamoteando as consequências para o país e para as pessoas, dos
lucros e benefícios fiscais concedidos aos grandes grupos económicos e
financeiros.
Neste contexto, dissociado da realidade é fácil resvalar para a
calúnia que emociona e cria falsos inimigos. Promove-se a passividade e
a alienação das camadas populares: a perda de controlo sobre a sua
existência, desapossada a favor do poder oligárquico, objetivo das
políticas de direita e que a extrema-direita tem como objetivo
exacerbar.
A extrema-direita procura impor a sua agenda fascizante entre a
pura aldrabice e a distorção de factos; procura que, perdida a
consciência crítica, a indignação se transforme numa emoção facciosa e
irracional. O parcial é generalizado, apresentando um geral caótico – do
qual se supõe serem eles os salvadores. É isto que a História nos tem
mostrado e os resultados também.
Para isto tem a colaboração dos media e certo jornalismo que se
pretende de investigação, mas que age como vigilantes de rua num mundo
sem lei. O jogo entre certos elementos ou sectores judiciários e estes
media tem alimentado a agenda da extrema-direita e seus excessos, no
descrédito do Estado democrático ou do que resta dele na Constituição.
Neste ambiente distorcido, voltemos à missão dos comentadores
de defenderem as “regras” do império. É importante repetir como verdade
absoluta o que dizem media de referência como o Financial Times.
Citar relatórios do FMI mostra que se trata de alguém intelectualmente
superior, mesmo que as suas previsões tenham estado frequentemente
erradas e as medidas impostas sejam contraproducentes.
É fundamental defender a "economia de mercado" como a única
viável, só o privado é eficiente e o Estado mau gestor – e ladrão,
“roubando os nossos impostos para dar aos políticos corruptos… e aos
funcionários públicos”. O mais espantoso é que os media fazem-se eco
destes dislates – ainda por cima em nome da democracia. Claro que o
Estado é mau gestor, ao colocar-se ao serviço dos interesses privados (a
"economia de mercado") e não dos interesses coletivos e sociais, mas
isto não é dito.
A linguagem da calúnia é de todas a mais perversa ao nível da
intoxicação mental, utilizada para diabolizar os que não se submetem
totalmente ao império. Boatos são promovidos à categoria de notícia,
notícias falsas passam a factos com base nos quais comentadores
desenvolvem as suas arengas sem contraditório.
É chocante a vacuidade dos comentários de gente escutada há
anos nos media como venerados oráculos, continuando a dar os sermões da
sua escolástica. Quanto à honestidade intelectual pode ser avaliada
comparando o que foram dizendo ao longo do tempo.
Perante estas situações, os sectores progressistas, para
realmente assim se afirmarem, terão que tomar como prioridade (acima de
divergências ideológicas) o esclarecimento e a elevação da consciência
social do povo trabalhador, que lhes permita superar os efeitos da
mentira e da ininterrupta propaganda caluniosa. Só assim se
desenvolverão as raízes da esperança num futuro diferente e melhor.